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Escrever para um leitor interessado

A concretização da vida do texto, a sua essência verdadeira, sempre se desenvolve no limite entre duas consciências, dois sujeitos.

Mikhail Bakhtin

Não é de hoje que os especialistas em produção de textos defendem a necessidade de criar situações de escrita mais autênticas na escola. Isto é, criar um contexto em que os alunos escrevem porque têm algo para dizer e não somente porque o professor pediu que realizassem determinada atividade. Já em 1995, o  professor e linguista João Wanderley Geraldi, no livro Portos de Passagem, afirma que o estudante que pretende agir por meio da linguagem assumindo a responsabilidade sobre o que diz deve ter o que dizer, deve ter uma razão para dizer o que tem a dizer e deve ter alguém para quem dizer o que tem a dizer. Em um contexto desses, o aluno acabará por escolher as melhores estratégias para dizer o que deseja a quem ele quer que o ouça (ou leia). 

Faz sentido afirmar que um aluno vai se expressar melhor se perceber que está interagindo em um ambiente mais amplo do que o da sala de aula e que os seus leitores estão interessados no que ele diz (ou escreve) e não só na sua adequação à norma gramatical e ao que foi pedido pelo professor. O mais difícil é criar essas situações no espaço da sala de aula.

Pensemos em alguns exemplos de produção escrita e vejamos como é possível torná-los mais autênticos com a Internet, uma tecnologia que aproxima as pessoas: pessoas que agem por meio da linguagem escrevem cartas, bilhetes, artigos, histórias, depoimentos, reportagens, panfletos, etc. Quem será o leitor de uma carta escrita em sala de aula? O colega, o professor, um leitor imaginário?  E será que o aluno tem algo a escrever para esse leitor? Provavelmente não, pois não há o que escrever para um leitor que não existe (leitor imaginário) ou para alguém que passa o dia ao seu lado e com quem podemos falar a qualquer momento (professor ou colega).

O que acontece, no entanto, se o professor incentiva a troca de e-mails entre estudantes de diferentes turmas ou até mesmo escolas? Muitos alunos passarão a escrever para um leitor real no momento em que têm algo a dizer. E vão receber respostas. Nesse caso, o professor terá o papel de mostrar aos alunos os componentes de uma carta ou de um e-mail (cumprimento, texto, assinatura etc.) e trabalhar diversas maneiras de fazer saudações e de relatar fatos, mas os estudantes vão praticar a escrita em um contexto real.

Pensemos, agora, nas histórias e poemas. Os alunos podem escrever histórias que vão para o mural da sala e que devem ser lidas e comentadas pelos colegas da classe. Mas se as histórias forem publicadas em algum espaço em que eles possam receber comentários e opiniões até de pessoas que não são da sua turma, é possível que desenvolvam mais a criatividade para atrair a atenção dos seus leitores. Que espaços são esses? Concursos nos quais os textos são submetidos a votação pública, sites com espaço para comentários em fórum ou por e-mail e histórias que são continuadas por outros autores. Quando as histórias são submetidas a um leitor desconhecido, ou mesmo aos colegas, em vez de somente ao professor, deixam de ser tarefa escolar para ser ação no mundo real.  É isso que autores de verdade fazem: escrevem para o público que conseguem conquistar com a palavra.

E as reportagens e panfletos? Que graça têm se não forem lidos por alguém interessado?  Mais uma vez, a tecnologia pode ajudar a conseguir leitores reais para os alunos fora da sala de aula se eles publicarem seus trabalhos em um site que pode ser acessado livremente. E se os estudantes ainda colocarem um e-mail de contato para quem acessar seu site realmente conhecerão o impacto de suas ideias no mundo além da sala de aula.

É claro que é possível fazer jornais, publicar histórias ou escrever cartas sem o uso da tecnologia, mas com ela é muito mais fácil para todos. Basta publicar a reportagem ou o texto literário em um site e já estamos falando com o mundo, sem que seja preciso imprimir e distribuir o material. E, ainda por cima, com possibilidade de resposta. Basta incentivar o uso do e-mail e os alunos escreverão mais para leitores reais sem terem de ir ao correio, comprar selo ou pedir ao professor que entregue sua carta.

Não é à toa que estudos sobre o impacto da tecnologia na educação tendem a mostrar que os estudantes que usam a Internet escrevem com mais independência, responsabilidade, maturidade e senso de público (Bracewell, R. et allii, 1998).

REFERÊNCIAS:

BRACEWELL, R. et alii. The emerging contribution of
online resources and tools to classroom learning and teaching
. TeleLearning Network Inc. Acesso em: 30 ago. 2004.

GERALDI, J. W. Portos de Passagem. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

 

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Betina von Staa é coordenadora de pesquisa em tecnologia educacional e articulista da divisão de portais da Positivo Informática. Autora e docente de cursos on-line para a COGEAE, a Fundação Vanzolini e o UnicenP, é doutora em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP.

 
 
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