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As ideias (quem diria?) também se contaminam

Faça uma experiência, extremamente simples, com dois grupos de alunos ou alunas com idade entre dez e quinze anos, que não se conheçam. O primeiro grupo, por exemplo, pode estudar no período matutino e o segundo, à tarde, ou ambos podem estudar em escolas diferentes.

Ao iniciar a aula, diga que passará algumas referências a respeito de uma personagem fictícia chamada Eduarda ou de outro nome qualquer que desejar. Os alunos devem ouvir suas observações sem anotá-las. Não informe que, dias depois, você as cobrará. Passe, então, a informação: ao primeiro grupo, diga que Eduarda é muito bonita, inteligente, caprichosa, ordeira, teimosa, invejosa, preguiçosa e impulsiva; ao segundo grupo, passe as mesmas informações, alternado a ordem dos adjetivos que caracterizam a personagem. Assim, Eduarda será impulsiva, preguiçosa, invejosa, teimosa, ordeira, caprichosa, inteligente e muito bonita.

Espere passar uma semana e indague um ou mais alunos de cada um dos grupos o que lembram de Eduarda. Poderão ocorrer tipos de resposta diferentes, mas é mais provável que o primeiro grupo lembre mais as qualidades positivas de Eduarda e o segundo, as negativas. Ainda que aspectos positivos e negativos tenham sido apresentados em igual quantidade e, literalmente, tenham sido os mesmos, a ordem em sua apresentação despertou o pensamento primário e, dessa forma, condicionou um preconceito que contaminará todo o resto da informação. Se esse fato não ocorrer, provavelmente o aluno associou Eduarda a um conhecido ou conhecida seu e guardou na memória os adjetivos com os quais associa esse amigo. Caso contrário, lembrará primeiro dos adjetivos, positivos ou negativos, que tenham sido priorizados na apresentação. Essa pequena experiência nada tem de original, em verdade reproduz uma mais ou menos similar desenvolvida por Salomon Asch (citada por Joan Ferrés em Televisão Subliminar. Porto Alegre: ArtMed., 1998. p. 50.) com estudantes universitários nova-iorquinos, justamente com a explícita finalidade de destacar o caráter contaminante das ideias, sobretudo do pensamento associativo, menos por seu conteúdo e bem mais pela forma como é apresentado.

Longe de ser apenas um prosaico experimento, os estudos que se seguiram àquele mostram a imensa importância da hierarquia de ideias que deve estar presente em todo tipo de aula expositiva que se ministra.

Na exposição de um tema, seja qual for a disciplina lecionada, embutem-se ideias centrais fortes, decisivas, conclusivas e essenciais e outras ideias periféricas, bem menos relevantes, meramente auxiliares. Se sua apresentação não enfatizar e ordenar as primeiras, se a lousa que refletir essa aula apresentar os dois tipos de ideias sem qualquer hierarquia, se o aluno for induzido a anotar tudo que o professor falou, provavelmente a hierarquia de pensamentos vai se mostrar caótica e a memória registrará mais a periferia que a essência. O aluno vai se lembrar, talvez, da aula, mas, certamente, confundirá fatos relevantes sobre o tema com outros de menor valor. Provavelmente, graças a esse poder contaminante do pensamento primário é que, muitas vezes, julgamos uma causa por sua aparência, brigamos com amigos por detalhes fúteis e esquecemos o imprescindível para guardar o periférico.

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Celso Antunes é professor e psicopedagogo
e escreve especialmente para esse portal.

 
 
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