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Psicologia preventiva na infância


Armando Correa de Siqueira Neto

Na época do nascimento do bebê, os pais encontram-se tensos e cheios de curiosidade e esperança, formulando idéias a respeito de sua geração vindoura. As perguntas mais freqüentes são sobre o estado de saúde e a estética do descendente que anuncia sua chegada por meio das contrações. Durante os meses que antecedem esse momento precioso que é a natividade, muitas idéias e conversas são lançadas sobre o convívio familiar do bebê, seu desenvolvimento, além dos prováveis comportamentos que ele terá conforme cada etapa de sua vida. Inclui-se, nesse pacote de expectativas, alguns desejos pessoais dos pais, como a educação que desejam dar a ele, a formação acadêmica, etc. Apesar de toda essa preocupação, costuma faltar aos pais uma série de informações importantes a respeito de como acontece a constituição psíquica do bebê, elemento que deve colaborar com eles na estruturação de seus filhos.

O primeiro contato com o bebê ocorre via intra-uterina, quando a mãe já mantém fortes e essenciais laços com seu filho. É importante saber que, nessa fase, o bebê sente muita coisa, e isso acontece por meio das variadas ingestões e percepções de sua mãe, que chegam a ele por intermédio da placenta, veículo que transporta muitas substâncias, inclusive hormônios estressantes, originados em situações a que ela se expôs. Cabe lembrar que sempre estamos sujeitos a esse tipo de situação, porém, o recomendável é que se tenha uma gestação equilibrada emocionalmente, procurando reduzir o contato da mãe com situações que favoreçam o surgimento do estresse, haja vista o considerável número de bebês prematuros advindos dessas condições.

Além disso, é possível “acessar” o bebê por meio de carinhos feitos na barriga e conversas dirigidas a ele, de forma serena e doce, ajudando-o e a si própria, criando uma atmosfera amorosa e saudável.

Do nascimento em diante, acontece uma nova etapa, em que as expectativas vão sendo confrontadas com a realidade. Muitas possibilidades podem acontecer a partir do momento que uma criança nasce, levando-se em conta o estado psicológico dos pais. Ambos podem estar felizes e se fortalecer familiarmente; um estar contente, e o outro, não; ou, ainda, nenhum dos dois se sentir bem. As decorrências pertinentes a cada caso podem ser a motivação a respeito do conjunto família ou a ocorrência de brigas conjugais que, com o tempo, suscitam possibilidades de separação. O nascimento de um bebê pode trazer consigo algumas dificuldades pessoais e de relacionamento quando os próprios pais apresentam problemas infantis mal resolvidos. Estes são despertados de seu estado dormente, gerando conflitos internos e, conseqüentemente, causando, conforme cada caso, determinado tipo de angústia. Isso ocorre de forma inconsciente, o que dificulta ainda mais o entendimento acerca de si mesmo e do outro, fomentando a estranheza e a dúvida. Quando essa situação acontece e não é possível manter um relacionamento saudável, é necessária a ajuda de um profissional em terapia psicológica.

Podemos encontrar casos de problemas na relação em virtude do bebê — esse terceiro que chega da noite para o dia (assim como o sair da barriga para o mundo externo) a uma vida que até então pertencia a dois. Alguns pais adaptam-se mais rapidamente a essa situação, mas outros demoram mais e não conseguem admitir o que é evidente: o ciúme. Se houvesse uma rápida percepção acerca desses fatos, seria possível uma adaptação em menor tempo, uma vez que se pode trabalhar os sentimentos e sensações do ciúme por meio da conversa com o outro. O diálogo é capaz de oferecer idéias e impressões que podem trocar uma condição por outra, desmistificando fantasias como o gostar menos, o fim do amor e tantas outras.

Nesse momento inicial, os pais têm papéis específicos e, ao mesmo tempo, conjunto, em prol de receber e manter bem o bebê que chegou. Para tanto, o marido tem de prover a esposa de todas as necessidades básicas, como alimentação, sono, descanso e amor, sem esquecer do entretenimento, para uma saúde mais global. A mãe, por sua vez, deve encontrar disponibilidade para satisfazer as necessidades elementares de seu bebê, alimentando-o, mantendo sua higiene e dando carinho a ele. Existem muitas formas de oferecer alimento, cuidados e amor ao bebê junto com o pai.

A formação psíquica do bebê

Das muitas formas de se oferecer alimento, higiene e carinho para o bebê, trataremos daquela que entendemos ser a mais adequada e humana possível.

Quando o bebê sente fome e lhe é oferecido o leite materno, ele vai encontrar nesse alimento propriedades nutricionais e de proteção orgânica, como água, vitaminas, sais minerais, calorias, carboidratos, proteínas e lipídios em quantidade e qualidade necessárias para seu bom desenvolvimento. Contudo, existem casos em que a mamadeira se torna o veículo da alimentação.

Muitas mães precisam retornar ao trabalho, interrompendo um importante período de cuidados com o bebê e, nesses casos, faz-se necessária uma correta continuidade de fornecimento de leite. Alguns procedimentos devem ser seguidos por orientação do posto de saúde ou hospital: a preparação e a higiene do seio e das mãos — pois existem muitos germes em nossa pele; a coleta do leite, que pode ser feita de forma manual ou por extração com bomba; o armazenamento do leite em congelador ou freezer; e seu aquecimento em banho-maria para consumo. Os profissionais em pediatria e nutrição dão muita a importância a esses passos, que colaboram e determinam formas ideais para o desenvolvimento da criança.

Chamamos atenção para uma circunstância que se agrega aos fatores já mencionados no momento em que o leite é dado para o bebê: a forma como esse alimento é oferecido. Para o bebê, que, em seu início de vida e durante alguns meses percebe o mundo por meio de experiências sensoriais — a forma como lhe seguram e acariciam, o tom de voz, a tensão ou o estado de quem o toca —, o leite assegura satisfação fisiológica, porém não pode, por si só, proporcionar o contato afetivo, que acontece por meio da atenção que dispensamos a ele, do toque seguro e ao mesmo tempo suave, dos carinhos que fazemos, da tranqüilidade e paciência com que permitimos que mame. Tudo isso gera ao bebê bem-estar interno, causando-lhe sensações agradáveis e, por conseguinte, o desenvolvimento ideal, constituindo grandes chances de formar um adulto saudável. O bebê vai percebendo, com o tempo e à sua maneira, o quanto é querido por meio dessas vivências em que o alimento está associado a algo prazeroso, orgânica e psiquicamente. Tendo em vista a segurança oferecida ao bebê, é possível compreender outro aspecto com relação a atenção de que ele necessita, que é a atitude de quem cuida dele. O equilíbrio sempre será a via condutora de nossas dúvidas, e é por meio dele que devemos nos orientar para estarmos presentes quando o bebê estiver incomodado com alguma coisa, seja fome, dor ou necessidade de higiene. Podemos nos colocar no tempo adequado, sem falta ou grande atraso que desesperem o bebê, ou nos fazendo presentes de maneira quase compulsiva, em que o bebê emite algum som e ficamos tensos, querendo oferecer a ele tudo e a qualquer preço. Temos de lembrar que iniciamos a educação de nossos filhos quando eles ainda são bastante pequenos e devemos introduzir, gradativamente, os hábitos que consideramos importantes. É preciso estar presente quando a necessidade do bebê se fizer evidente, do contrário, as sensações dele serão de desconforto e isso vai fazer parte de sua constituição psíquica. Mas vale a pena ressaltar a questão da constância do ato, que faz jus aos resultados, sem esquecer que cada pessoa varia de acordo com sua herança genética e o meio em que vive.

Nos primeiros meses de vida, o bebê vai configurando sua própria existência, e os pais e os cuidados dirigidos a ele são os conteúdos que se transformam em boas ou más experiências, levando a um desenvolvimento saudável ou patológico. O bebê recebe os cuidados de fora, sente sua qualidade e os incorpora, devolvendo para o exterior suas impressões, ou seja, a forma como ele está se sentindo. Esse processo é um constante entrar e sair de informações que constroem e nos fazem perceber o quanto é importante o que oferecemos ao bebê, deixando para trás a idéia de que os bebês não guardam suas experiências. Por serem isentos das artimanhas de convivência dos adultos, eles estão abertos e receptivos a tudo o que os rodeia, como verdadeiras “antenas” a captar detalhes que passam despercebido por nós, gente grande.

A socialização da criança

Desde a infância, quando o bebê quer satisfazer suas necessidades e desejos, deve ocorrer, a partir de sua compreensão, a passagem daquilo que é só prazer para o que é realidade, tendo em vista o convívio social e os limites dessa convivência. A criança que possui uma vida sem limites quanto a suas próprias satisfações passa a penetrar no universo social das relações tendo, para isso, que limitar sua prazerosa satisfação anteriormente vivida, e isso acarreta um conflito denominado neurose. Nesse período de transição, o ego da criança vai formando-se e, com isso, tomando consciência sobre a realidade vivida. O ego acaba exercendo função fundamental enquanto mediador do conflito, procurando oferecer acesso ao prazer, ao mesmo tempo em que precisa controlá-lo com base em seu aprendizado externo, ou seja, aquilo que aprendeu e internalizou sobre os controles de convivência, como a moral, o pecado, a educação familiar e as regras sociais. Caso não seja possível tal mediação, a mente acaba tomando diferentes direções na tentativa de se defender, procurando reduzir a ansiedade causada por esse descontrole. Contudo, nada passa despercebido ou é permanentemente (no sentido estático) “esquecido” ou “jogado fora”. Desses acontecimentos que aliviam a ansiedade temporariamente decorrem os conflitos, em uma força dinâmica que vai fazer ressurgir aquilo que foi banido, porém o retorno será sob algum disfarce — por meio das neuroses —, uma vez que não conseguiríamos lidar com sua forma original, motivo inicial do afastamento.

Percebemos, então, a grande tarefa que é educar, levando em conta esses aspectos sutis e quase imperceptíveis acerca do dinamismo que se processa na cabeça das crianças desde tenra idade.

A responsabilidade de quem educa uma criança vai além do oferecer alimento, higiene, segurança e escola, sinalizando, nessa convivência, o elemento emocional como fonte de boa construção mental ou não, e a convivência social que decorre desse conjunto de acontecimentos, que pode gerar edificação favorável nos casos em que se estabelece uma harmonia familiar, de interesses focados na qualidade de vida de seus membros.

As circunstâncias em que a criança sente-se amparada estimulam seu desenvolvimento global e propiciam maior abertura e adaptabilidade ao convívio com seu meio, criando uma atmosfera agradável nas convivências da comunidade, apesar dos problemas de relacionamento habituais que podem existir em vários momentos da vida. Quando a criança possui uma estrutura de personalidade satisfatória, acaba encontrando formas criativas para lidar com os contratempos sociais.

Outro fator de peso na construção socializadora da criança é a forma como as pessoas que cuidam dela agem, pois o comportamento dos adultos atua como referência. Em cada atitude e expressão diária do adulto, a criança encontra um modelo a ser experimentado em sua formação, por isso, os hábitos familiares têm um papel de destaque e devem ser observados constantemente, no intuito de que comportamentos inadequados que possam comprometer a socialização infantil sejam trocados por outros, mais favoráveis.

Quando ocorre boa socialização na infância, acontece um movimento de conquista por parte da criança, o que a leva a perceber e internalizar o mundo a sua volta de forma melhor e devolver tais impressões por meio das relações com as outras pessoas, ganhando espaço e “registrando” sua presença como ser humano. Conquistar espaço no mundo é muito bom, uma vez que dá a sensação de valorização pessoal mediante o exercício de aceitação de quem somos enquanto seres em constante construção por meio da interação com as pessoas com as quais convivemos, sejam parentes ou colegas.

 

Armando Correa de Siqueira Neto
é psicólogo e desenvolve trabalhos e palestras sobre
Psicologia Preventiva e eventos educacionais.
E-mail: selfpsicologia@mogi.com.br

 

 

 
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