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Girava o pião, gira a beyblade!

Simone Carlberg*

Tenho observado, na convivência diária com crianças, até mesmo em minha casa, o interesse e o entusiasmo que o brinquedo beyblade tem gerado. Ele tem promovido também muita discussão entre os adultos: como era no passado, como se dá a transformação dos brinquedos e brincadeiras através dos tempos.
O pião é um objeto antigo nas brincadeiras infantis. Segundo o livro Os Melhores Jogos do Mundo1, p. 190:

Cinco séculos antes de Cristo, o poeta grego Calímaco já fazia referência ao pião como um brinquedo infantil muito popular na época, cuja importância na Antigüidade é confirmada por famosos escritores latinos, como Virgílio, Tibulo e Plínio, o Velho. O grande político romano Catão chegou a recomendar o pião como um divertimento mais adequado para as crianças do que os dados. Durante a Idade Média, o pião continuou a ser muito popular na Europa, sobretudo porque estava ligado a cerimônias cristãs muito antigas.

Segundo relatam alguns “especialistas” no assunto nascidos na década de 1970, o jogo era composto por participantes que tinham cada um o seu pião e reuniam-se em pequenos grupos numa área externa, preferencialmente dura, onde enrolavam os cordões em seus piões muitas vezes e os atiravam em uma raia, ou arena, desenhada no próprio chão com cacos de telhas ou pedras, e lá ficavam, disputando para ver quem conseguia atingir o pião do outro. Algumas vezes, os mais habilidosos chegavam a quebrar o pião do adversário, tamanha era a força com que atiravam o seu. Eram piões de madeira de diferentes tamanhos. Havia muitas versões para o mesmo brinquedo/jogo, que foi, ao longo do tempo, recebendo as adequações tecnológicas conforme as gerações; porém, coexistem modelos antigos e mais modernos.

Atualmente, as crianças, compram suas beyblades em lojas e feiras, podendo escolher a cor do pião, o “poder” do pião, o fio do peão. Enfim, a indústria e o comércio criaram alternativas múltiplas para vender piões para uma fatia do mercado fácil de ser seduzida, ainda mais com pais que têm pouca facilidade de dizer “não”.

Nossas crianças colecionam piões, algumas compram um semanalmente, pelo simples prazer de comprar e colecionar. Trocam entre si, perdem os seus durante as competições. Pais, avós e tios, sem muita noção de limites, alimentam a voracidade delas de ter piões em detrimento de se divertir com elas.

Começamos, eu e minha família, a viver a fase da beyblade por causa do interesse de meu filho de cinco anos sobre o tema. Ele ganhou uma e, na escola, começou a falar sobre o assunto, descobriu que os colegas também têm. No dia do brinquedo, muitos alunos levam suas beyblades para brincar.

Vê-los sentados em círculo, brincando, é fascinante! Conversam e trocam idéias, formulam regras, jogam, discutem; às vezes, um ou outro chora, pede ajuda de um adulto. Crianças brincando e aprendendo a conviver por meio da brincadeira, pressuposto básico da construção do conhecimento, através do convívio social, cultural.

Pensei que poderíamos ampliar o repertório dele, e ele ganhou um pião de madeira. Bem, foi uma dificuldade lembrar como era mesmo que tínhamos de fazer com aquele cordão, como é que se enrolava, como atirá-lo para girar, como fazer para ensinar... Muitas tentativas, muitos adultos rindo, conversando e tentando lembrar. Ufa! Conseguimos, afinal, fazer o pião girar!

Campeonatos surgiram entre beyblades e piões antigos, e hipóteses e constatações foram levantadas: “Acho que a beyblade sempre ganha do ‘velho’ porque é mais leve!”; “Mãe, quando a beyblade bate num ferro, sai um foguinho; venha ver que legal!”.

Bem, sugeri, na escola, que o assunto fosse ampliado e que se organizasse um museu do pião. Então, os piões começaram a aparecer, e os pais a lembrar dos tempos de antigamente e a resgatar até mesmo outros objetos: “Lembra das bolas de gude?”; “E o jogo do bafo?”. Gira o pião, giram as lembranças, forma-se uma rede. Gira mundo, gira pião!

Descobrimos também que existe um desenho animado sobre jogadores de beyblade. Você sabia?

Além disso, chegou pela Internet um texto, publicado em um destes sites de conversa fiada. Li e me espantei.

No texto, um pai conta sua experiência com seu filho e as beyblades e o quanto isso o incomoda — ele usa uma linguagem apressada, talvez engraçada para aquele tipo de site, um desabafo. Fala de sua experiência numa praça de condomínio onde seu filho de cinco anos foi convidado “para um combate de beyblades”.

A seguir, autorizo-me a reproduzir parte do relato por se tratar de um conteúdo que podemos usar para uma profunda reflexão.

Diálogo entre o garoto e o grupo do condomínio:

— Minha beyblade é de ferro, com as pontas douradas, você não tem chance.
— Você é novo na quadra, precisa provar que sua beyblade presta.
— A minha beyblade é da China, e a sua, de onde é?
— A minha é da Feira do Guará!

“Putz.” Vi que o Davi foi inocente nessa, podia ter falado que sua beyblade era feita na Suíça ou até no Japão; Feira do Guará foi podre, mas tudo bem. Sentei no meu banco para terminar de ler meu livro e deixei-o entretido com esse combate inocente. Começou a aglomerar umas crianças em torno de um círculo no chão; juro que isso me lembrou o filme Clube da Luta. Fiquei preocupado porque nunca gostei de aglomerado de pessoas em círculo, isso só acontece quando alguém fica ferido ou morto no chão; então, levantei para ver o que aquelas crianças estavam olhando no chão e apressei o passo quando as vi gritando em coro:

— 3... 2... 1... Get away! (Acho que foi isso que ouvi.)

Presenciei, então, um duelo de beyblades.
— Veja, pai, ganhei duas beyblades.
— Como, assim, ganhou?
— Ganhei no combate, daqueles patos.

Vi que tinha um aglomerado de crianças olhando para o Davi com cara feia; eram olhares de ódio e ameaça. Crianças de 5 a 12 anos não deviam ter esse tipo de olhar vingativo. Senti que o ambiente no parquinho estava meio pesado e resolvi ir embora para casa.

— Vamos embora, Davi; o almoço deve estar pronto.
— Mas, pai, eu posso ganhar mais beyblades!
— Meu filho, presta atenção na cara do grupinho de crianças te olhando ali. Sorte que são crianças; se fossem adultos, estaríamos mortos.
— Vamos embora, então; tem um outro parquinho na quadra do lado. Vamos lá.

Isso me lembrou o filme A Cor do Dinheiro, com Paul Newman e Tom Cruise; é um filme sobre jogadores de sinuca que viajavam de cidade em cidade, ganhando rios de dinheiro em bares sujos e nublados de fumaça de cigarro. Jogar beyblade é a mesma coisa. O jogo é diferente, mas a sujeira é a mesma.

Estamos falando de crianças?

Será que elas vêem o mundo da mesma maneira que o pai de Davi, como nós, adultos?

O medo ao ataque está tão dentro de nós que, frente a crianças brincando e exercitando a convivência social, ficamos paralisados e incapazes de interagir, conversar, perguntar como se joga, quais são as regras...

É como se brincar fosse uma conduta inata, como se não fosse necessário existirem os outros para construirmos nossa indiferenciação. A criança só aprende a brincar brincando com outras pessoas; nessa interação, aprende a jogar, perder, ganhar, cooperar, xingar, imitar, diferenciar, articular...

Temos falado em agressividade como se ela fosse sempre uma coisa ruim. A pulsão de vida faz com que tenhamos necessidade de nos defendermos; por isso, é comum criança pequena morder, por exemplo. Como ainda não sabe dizer o que pensa, age.

E nós, adultos, o que estamos fazendo com a nossa agressividade?

Enxergamos agressividade somente no outro. O mundo está agressivo em demasia; portanto, nossas crianças também estão; e não vai ser projetando a culpa em jogos universais que vamos resolver isso.

Penso que temos de ampliar o universo de nossas crianças, oferecendo-lhes oportunidade de conhecer outras possibilidades de brincar e de se relacionar. Talvez possamos ouvir mais o que elas têm a dizer. Nem sempre a atitude agressiva de um grupo de crianças brincando é entendida por elas como “agressiva”. O jogo de futebol, atividade muito vivenciada pelo grupo masculino, mostra-nos isso: amigos jogando, empurrando e xingando uns aos outros, mas depois bebendo e jantando juntos como se nada tivesse acontecido.

Por que os adultos têm a tendência de achar que “na sua época” não era assim?

Era assim, sim! Jogávamos, brigávamos, burlávamos, brincávamos.

Era pião de madeira e não beyblade; porém, as regras eram as mesmas. Aliás, quem resolveu industrializar o pião dever ter feito uma grande pesquisa sobre o jogo ou era um “especialista” no assunto, pois as regras são as mesmas, mas com embalagem diferente! O que mudou, significativamente, foi o lugar das crianças entre os adultos, a agressividade dos adultos com as crianças, o relógio dos adultos, o tempo dos adultos e a pouca paciência (que vem diminuindo cada vez mais) para observar e ouvir o que as crianças têm a dizer. As hipóteses que elas levantam são maravilhosas e, quando as ouvimos, aprendemos também a ver o mundo de outra forma, ou ainda, elas servem de espelho para aquilo que ensinamos sem palavras.

Quando seu filho pedir a você um brinquedo “da moda”, brinque com ele, ensine-lhe como era “no seu tempo”, escute o que ele tem a dizer. Continue lendo no parque, mas feche o livro de vez em quando para ler o mundo infantil. Nossos filhos são e serão o que ensinamos a eles. A moralidade e os valores não são inatos; são construídos na relação com o outro, e o primeiro outro é a família.

Gira mundo, gira pião!

1 - Os melhores jogos do mundo. São Paulo: Abril, 1978.

*****

*Simone Carlberg,
Pedagoga, formada em Clínica Psicopedagógica,
Terapia em Psicomotricidade Ramain
e Teoria e Técnica de Grupos Operativos
e membro da Associação Brasileira de Psicopedagogia,
seção Paraná/Sul.

 

 
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