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Ser humanista segundo Célestin Freinet

Andreza Alves da Silva Mattos

Ser um educador humanista, na visão de Célestin Freinet, é ter a capacidade de desenvolver plenamente todas as capacidades da criança. Freinet procurou aprimorar todas as atividades infantis, tendo como concepção o bem-estar e a dignidade da criança como ser humano. E ele foi muito além no que se refere a valores ideológicos e até mesmo religiosos, levando em conta a "ética humana". Muitas das palavras ditas por Freinet ao longo de sua vida vêm ao encontro da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, da ONU.

Quem estuda a Pedagogia de Freinet e trabalha com ela diariamente percebe que se trata muito mais do que de uma simples proposta pedagógica. Eu diria que é uma filosofia de vida. Nessa pedagogia, a criança é vista como um ser autônomo e que tem a capacidade de escolher, sob orientação e de acordo com seu próprio interesse, as atividades que vão ser desenvolvidas. Ela é vista também como um ser racional capaz de, desde muito cedo, opinar e fazer críticas sobre fatos ou assuntos que lhe são expostos. Dessa forma, são dados a ela o direito e a oportunidade de raciocinar sobre tudo aquilo que lhe é proposto, e tudo passa a ser mais significativo. O livre arbítrio também é respeitado entre as crianças, assim como suas escolhas e recusas, mas sempre analisando-se os motivos desta ou daquela decisão.

Assim como o adulto, toda criança já possui dentro de si uma consciência moral. Cabe ao educador ajudá-la a desenvolver e aprimorar essa moral primitiva. Quem conhece na prática o trabalho da pedagogia de Freinet pode presenciar um dos direitos do ser humano: o de ser respeitado e valorizado, ou seja, o direito de desenvolver a capacidade criativa e imaginativa que cada pessoa tem dentro de si. Geralmente, as crianças que crescem sob essa pedagogia são mais criativas e ousadas do que aquelas que são educadas sem que seus direitos humanos sejam respeitados.

Todo indivíduo é sociopolítico, ou seja, tem sua parcela de responsabilidade na sociedade na qual está inserido e, conseqüentemente, está envolvido politicamente, mesmo que não queira. Célestin Freinet tinha tanta consciência disso que se envolveu em vários movimentos políticos e foi perseguido por isso. Como todo humanista, ele lutava por uma igualdade universal, sempre voltada para a área da educação, que era o que realmente lhe interessava e preocupava mais. Em suas atividades, ele tentava ensinar seus alunos a serem mais solidários — por meio de cooperativas que criava dentro das escolas —, lutava por uma educação democrática — em que todos tivessem voz para opinar —, buscava transmitir o significado de justiça e, acima de tudo, procurava ensinar seus alunos a serem mais humanos.

Célestin Freinet tinha como compromisso ajudar todos os indivíduos que necessitassem de auxílio, quer estivessem envolvidos com a escola, quer não. Ele se preocupava em aperfeiçoar e desenvolver as potencialidades de cada um como ser humano. Sua proposta pedagógica é humanista e liberal e busca educar a criança para ser um homem livre e crítico, fazendo com que ela se aproprie da vida por completo e assimile a cultura que a cerca e a cidadania, o que é primordial para qualquer ser humano.

Um dos objetivos da educação, na visão de Freinet, é o alcance da vida humana de forma plena e digna, colaborando para que as pessoas apropriem-se da cultura e da cidadania. A educação humanista é democrática, pluralista, aberta, crítica e, acima de tudo, sensível e atenta às diferenças e necessidades culturais e individuais. É com base nessa visão que todas as crianças são educadas na pedagogia freinetiana. Freinet, um educador humanista contemporâneo, tinha como uma de suas metas humanizar seus alunos e seguidores. Ele tinha um espírito libertador intelectual, era moralmente autônomo e pluralista em seus pensamentos e tentou, com sua pedagogia, libertar seus alunos da ignorância, do preconceito, do capricho, da alienação e das falsas consciências, buscando assim desenvolver as potencialidades humanas de cada um.

De forma clássica e humanista, a perfeição humana deveria servir de modelo para regularizar a educação e servir de ideal para todos os seres humanos, em especial, os educadores. A educação humanista é formadora de pessoas livres e de construtores de um juízo sólido e de nobre caráter. Para Freinet, nenhum homem pode ser considerado educador se não for fiel a suas tradições, sendo crítico e liberal. Praticar as virtudes e enobrecer o homem, a sabedoria humana, o exercício das faculdades naturais, a espontaneidade e o interesse pelas coisas naturais faz parte da filosofia embutida na pedagogia de Célestin Freinet. Também fazem parte de sua filosofia a busca pela autenticidade pessoal e a auto-realização e a construção de um ambiente democrático.

Isso tudo faz parte do processo de crescimento do jovem humano como ser realizador e conquistador. É o lado romântico intrínseco à educação humanista. Freinet esteve atento, assim como todo humanista e educador, à natureza interior de cada aluno e criou meios para que tal natureza desabrochasse de forma saudável e plena. E é assim que seus seguidores pensam e tentam agir com seus educandos.

Célestin Freinet respeitava a essência do homem como ser livre e pensante. Cabe a seus seguidores, portanto, definir e criar situações para o desenvolvimento de cada ser humano de acordo com a pedagogia freinetiana, tentando formar verdadeiros autores e, desse modo, pessoas responsáveis. De acordo com essa visão, os alunos são educados de forma a não serem obrigados a aceitar as verdades alheias, sendo dadas a eles a opção de escolha e a oportunidade de criar sua própria identidade e de traçar seu projeto de vida.

Muitos fatos da vida cotidiana afetam direta e indiretamente o desenvolvimento emocional, intelectual, moral e até mesmo físico das crianças; portanto, não se pode negar a relação existente entre a política e a educação. Para que ambas caminhassem juntas e bem, seria necessário que a pedagogia se tornasse mais política, e a política, mais pedagógica. Freinet pensava assim. Segundo ele, todos os educadores deveriam ter uma visão emancipada sobre todos os problemas socioculturais, criando oportunidades para que seus alunos pudessem estar capacitados criticamente, tendo consciência e controle de suas próprias vidas.

Todos os educadores devem lutar coletivamente, assim como Freinet fez em sua época, agindo como sujeitos transformadores e fazendo da escola um local democrático, com o objetivo de ensinar às crianças o que é viver em uma sociedade justa, independentemente de sua raça, classe, sexo ou idade. Há apenas uma preocupação para a educação humanista de Célestin Freinet: a de viver a vida em todas as manifestações dela. Um dos primores do pensamento humanista de Freinet é que o educador deve orientar e capacitar seus alunos como indivíduos capazes de levar uma vida completa, intensa, marcada pelo envolvimento político e de boa conduta moral, com sensibilidade para apreciar o que é belo tanto na natureza quanto na arte. Além de preocupar-se com a formação de pessoas íntegras e com bom conhecimento geral, ele também achava necessário ensinar como se deve utilizar esses conhecimentos.

As crianças educadas de acordo com a pedagogia de Célestin Freinet não têm problemas de integração, seja em pequenos grupos, seja em grandes comunidades; apesar disso, elas possuem um senso de individualidade e de autonomia bastante apurado e são bastante autênticas, e os educadores humanistas são vistos por seus alunos como um exemplo de vida. Deve-se criar, na escola, um clima de confiança, diálogo, respeito, tolerância, zelo, liberdade, compromisso e responsabilidade. Se algum desses ingredientes vier a faltar, de nada adiantarão os ensinamentos deixados pelo saudoso Célestin Freinet

Andreza Alves da Silva Mattos
Pedagoga formada em Administração Escolar

 
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