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Cresci ouvindo minha mãe dizer que eu já
deveria ter ido embora de casa há muito tempo. Sentia
revolta e vontade de chorar. Um dia, cansei e, quando ela
repetiu isso novamente, comecei a ir para a rua. Ia para ficar
mesmo. Eu usava cola e, quando cheirava, era como se eu estivesse
em outro mundo. Pensava em mim e no meu irmão. Sonhava
que era “um bom de vida”, que ajudava a minha
família e tinha a minha própria casa.
Na rua, dormi poucas vezes, porque eu tinha muito medo. Andava
nas ruas durante o dia e voltava para casa de madrugada. Às
vezes, a mamãe não me deixava entrar. Eu tinha
de esperar o dia amanhecer para conseguir uma permissão
para dormir em casa. Ela não deixava porque eu estava
todo sujo. E também porque já tinha me avisado
várias vezes para não fazer isso. Então,
quando eu entrava em casa de manhã, ela me dava “uma
pira de pau”. Minhas costas ficavam marcadas.
Eu passava o dia inteiro na rua cheirando cola e nem ligava
para a fome. Só quando a cola acaba é que a
gente sente fome. Aí, eu pedia ou olhava um carro até
o dono voltar e dar um trocado. Algumas pessoas não
gostavam quando eu pedia e diziam: “Você quer
dinheiro para comprar cola! Vá trabalhar, seu vagabundo!”.
Outras tinham pena e ajudavam, como um cara muito legal que
trabalhava na padaria. Ele sempre dava pão para a gente.
Eu nunca roubei ninguém porque é muito arriscado...
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Sonho: Trabalhar na Marinha. Quero ser soldado e,
depois, capitão, para trabalhar no submarino da Marinha.
Até hoje, andei de barco só uma vez na minha
vida. Eu conheço a Amazônia pela televisão:
os bichos, os rios, a floresta.
Do que mais gosta: Brincar de futebol, vôlei,
peteca e pingue-pongue.
Comida preferida: Feijão.
Fruta preferida: Banana.
Música: Brega. Gosto das bandas Amazonas e
Novo Show.
Dia mais feliz da vida: Foi quando eu ganhei um walkman
da minha tia Brasilina. Eu fui visitá-la e ganhei vários
presentes, inclusive roupas. Na casa dela, eu comi muito.
Direitos da criança: Toda criança tem
direito à saúde, a ir à escola e participar
de várias atividades que sejam educativas. Toda criança
deveria receber amor. As crianças que estão
na rua precisam de ajuda e orientação, mas sem
violência. Elas necessitam de conversa para ficarem
pensando naquilo e buscarem uma vida melhor; saírem
das ruas. O Conselho Tutelar deveria estar mais próximo
das crianças, estar sempre por perto e ajudar na alimentação,
oferecendo uma cesta básica para a família.
Hoje, vejo muita exploração sexual de criança.
Um adulto vê uma criança ou um adolescente inocente,
sem o pai por perto para proteger, e já segura a criança
e faz o que quiser com ela. Isso acontece muito aqui em Belém.
Por isso, as crianças precisam de proteção.
É importante ter alguém do lado que as acompanhe
até a escola.
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