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Eu fui para a rua por causa de minha irmã. Ela
exigia que eu ficasse dentro de casa cuidando das filhas dela.
Ela tinha duas meninas, uma de cinco anos e outra de três.
Eu não tinha nada contra as garotas, mas minha irmã
me obrigava a cuidar delas enquanto ela ia para a dança,
para o baile. Eu não achava certo uma criança
ter que ficar dentro de casa cuidando de outras crianças.
Eu tinha de sair com as meninas pequenas e não podia
ir para a praia com minhas amigas. Por causa disso também,
eu queria brincar, mas não podia. Para qualquer canto
que eu ia, tinha de levar as garotas. Quando eu desobedecia,
minha irmã me batia. Uma vez, minha avó tentou
me defender e ela empurrou minha avó.
Todas as vezes que a gente brigava, eu fugia para a rua.
Uma das nossas brigas foi feia. Minha irmã pegou um
cabo de vassoura e bateu com força nas minhas costas.
Quando ela se virou para entrar no quarto, eu peguei a primeira
faca que apareceu na minha frente e furei as costas dela.
Por sorte o machucado não foi grande. Para esquecer
o sofrimento que eu tinha dentro de casa, vivia na rua cheirando
cola... »
Conheça mais sobre a Andreza
Sonho: Ter um lugar na casa do meu irmão. Eu
queria morar com o Adilson, pois me dou bem com a mulher dele.
Quando eu crescer, gostaria de ter uma casa sozinha, trabalhar
como educadora e ajudar outras crianças, pois quero
repassar tudo o que eu aprendi a elas.
De que mais gosta: Em Recife, curto ir à praia,
estar com minhas amigas e dançar no “Brega”.
Aqui no sítio, eu gosto de estudar, fazer bijuteria
e brincar com o Luan, meu melhor amigo. Juntos brincamos de
várias coisas, jogamos bola e fazemos poesia. Gosto
de escrever poesia na minha agenda.
Direitos da criança: As crianças ainda
não conhecem o Estatuto da Criança e do Adolescente
porque não têm o livro do estatuto para ler.
E ele diz, por exemplo, que elas devem ter prioridade no atendimento
médico, mas isso não está acontecendo,
pois as crianças não conhecem seus direitos.
A criança mais rica não deve tratar a outra
com ignorância. Às vezes, na rua, a gente pede
um trocado para uma criança rica e ela diz: “Sai
daqui! Vá procurar sua mãe! Vá trabalhar!”
Uma pessoa pode trabalhar somente aos 18 anos. Antes disso,
não está certo, porque ela é uma criança,
não um adulto.
O que a vida ensinou de importante: Minha avó me ensinou
a ser honesta, como ela. É importante respeitar o que
é dos outros. Para sair das ruas, as crianças
precisam de um abrigo para morar, de escola e de pais que
queiram cuidar delas.
Cotidiano: No sítio, cuido da horta pela manhã.
À tarde, participo de oficinas educativas: bijuteria,
capoeira, percussão, confecção de instrumentos
e fabricação de florais.
Eu também recebo assistência médica e
dentária. À noite, curso a 5.ª série
na Escola Municipal Severina Helena. Minhas disciplinas favoritas
são Matemática, Religião e Inglês.
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