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Chegou uma hora em que eu resolvi fugir! Fui para a rua
e comecei a roubar tudo o que aparecia na minha frente. Primeiro,
passei três dias dormindo na casa da minha avó,
pois ela não sabia que eu tinha saído de casa.
Depois, fiquei dormindo na rua. Para me cobrir, eu usava aquelas
lonas pretas. À noite, ficava com medo. Debaixo da
lona, escutava o barulho das bicicletas e tinha a sensação
de que uma delas ia passar por cima de mim. Eu não
conseguia dormir muito tempo.
A vida lá em casa estava muito difícil. Meu
pai espancava minha mãe e me batia muito. Ele tinha
um soco de homem forte. Quando ele ficava nervoso, sempre
me dizia: “você deveria me agradecer porque eu
te dei um nome”. Na verdade, ele era meu pai adotivo.
Eu não conheci o meu pai biológico. Por isso,
eu o chamava de pai.
Dentro de casa, as brigas eram quase diárias. Ele
não deixava minha mãe estudar, ficou preguiçoso
e parou de trabalhar. Uma noite, minha mãe perguntou:
“você quer ficar comigo ou com ele?”. Eu
respondi que queria ficar com ela. Então, ela disse:
“espera aí no portão”. Depois disso,
eu só escutei o barulho do tiro do revólver...
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Conheça mais sobre o Railander
Sonho
Ser atleta olímpico ou artista de circo. Eu gostaria
de trabalhar no melhor circo do mundo, o Cirque du Soleil,
onde o Kleber, que foi do Circo de Todo Mundo, está
hoje.
Direitos da Criança
Toda criança tem direito de receber carinho e brincar.
Hoje em dia, há muitas famílias maltratando
seus filhos e obrigando-os a trabalhar desde cedo. O trabalho
infantil é ruim, pois não deixa a criança
ter tempo para brincar e a faz ficar com muitas dores no corpo.
Os meninos e as meninas de rua precisam de carinho e de alguma
atividade física. Elas não querem ficar na rua
paradas, assistindo às pessoas passarem para lá
e para cá. Além de serem maltratadas pela família,
o que mais aflige as crianças de rua é o fato
de elas sofrerem nas mãos da polícia e dos camelôs.
Cotidiano
Manhã: Railander freqüenta a escola das
7h às 11h20.
Tarde: Almoça na Casa Moradia e, às 13h,
vai para o Centro Cultural do Circo de Todo Mundo. As atividades
circenses encerram-se às 17h. Uma vez por semana, ele
vai ao psicólogo.
Noite: Janta, estuda, assiste a um pouco de TV e vai
dormir. Railander divide o quarto com outros dois meninos,
na Casa Moradia, onde mora desde julho de 2002. Ele está
aguardando uma decisão judicial sobre o assassinato
do seu pai para poder voltar a morar com sua família.
Observação: Toda sexta-feira, no final da tarde,
Railander vai para a casa de sua mãe, onde passa o
fim de semana com a família. Aos sábados, ele
ajuda a mãe a organizar parte do material reciclável
que ela recolhe, seleciona e vende para sustentar sua família.
Além disso, sua mãe trabalha em um hospital
como faxineira.
Brincadeira preferida
Acrobacia e trapézio.
Comida de que mais gosta
Feijão-tropeiro.
Dia mais feliz da vida
Eu já viajei para Brasília e Ouro Preto com
o grupo de espetáculos do Circo de Todo Mundo. Mas
a viagem para Brasília foi a melhor de todas. Nós
fizemos um desfile lá. O hotel em que a gente ficou
era muito bacana, e as pessoas nos trataram muito bem. Nossa,
eu comi demais! Na hora do café, havia uma mesa cheia
de frutas, salgados, pão-de-queijo, sucos, leite, cereal
e iogurte. A gente podia comer de tudo e de graça!
O colchão era de mola, parecia uma cama elástica.
Todo dia a gente ficava pulando dentro do quarto do hotel
e, quando íamos dormir, era gostoso porque o colchão
não parava de se mexer.
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