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Ana Maria Marañon de Bohorquez foi nomeada para o
Prêmio das Crianças do Mundo 2005 por causa de
seu trabalho com meninos e meninas de rua em Cochabamba, na
Bolívia. Muitas crianças bolivianas são
filhas de moradores de rua e têm uma vida marcada pela
violência e uso de drogas. A maioria cheira cola para
tentar atenuar a falta de amor dos pais. Mesmo assim, Ana
Maria tem muito amor a oferecer e está determinada
a lutar para que essas crianças tenham uma oportunidade
na vida. Ela mantém um abrigo para meninos, o El Arca,
e outro para meninas, o Rosa de Sarón. Nesses locais,
existem educadores que dão carinho e segurança
a essas crianças, que podem então estudar e
recebem ajuda para se profissionalizarem.
História
Ana Maria salvou Fernando. Ele nasceu nas ruas, filho de
viciados em drogas, e começou a cheirar cola aos 2
anos de idade. Ana Maria passou a cuidar do menino quando
ele tinha 4 anos e, desde então, Fernando vive no abrigo
para crianças de rua El Arca de Resgate de los Niños
(A Arca de Resgate das Crianças).

“Pronto, Pepe? Pegue o caldeirão de sopa e vamos”,
diz Ana Maria, da cozinha.
Ana Maria teve poliomielite quando tinha 2 anos de idade e,
desde então, vive em uma cadeira de rodas. Apesar da
paralisia, ela trabalha no atendimento a crianças de
rua e viciados em drogas há 30 anos. Pepe, um ex-viciado,
é o braço direito dela e seu incansável
assistente.
A sopa da mãe Anita
“Pare o carro!”, grita Ana Maria. Dois meninos,
cada um com um frasco de cola nas mãos, caminham no
acostamento. Ela põe a cabeça para fora do carro
e diz: “Oi! Tudo bem? Estamos distribuindo comida. Venham
conosco!”
Os rostos dos meninos se iluminam, e eles começam
a correr. Em instantes, o caos está formado. De todas
as direções, chega gente com vasilhas e panelas
enferrujadas. Todos querem abraçar Ana Maria. “Mamãe
Anita, que saudades!”, diz uma moça, que se pendura
no pescoço dela. Drogada, a mulher chora e ri ao mesmo
tempo. “Mariela, querida, como vai você?”,
pergunta Ana Maria.

“Todas as crianças me chamam de mamãe
Anita. Anita significa ‘pequena Ana’ e é
uma forma mais carinhosa de me chamar”, explica.
“Venho até aqui várias vezes por semana.
Distribuir comida é uma ótima forma de estabelecer
contato com as crianças. Venho tentar convencê-las
a se mudarem para um de nossos abrigos”, revela. Em
La Coronilla, localidade situada em uma encosta com vista
para a cidade de Cochabamba, vive gente de quem a sociedade
prefere se esquecer. Muitas dessas pessoas se destruíram
totalmente por causa da cola e do álcool e sobrevivem
roubando, pedindo esmolas e prostituindo-se.
Quase queimado vivo
Há quatro anos, Raul Martinez Corani, 14 anos, mora
nas ruas. “Fugi de casa”, ele conta.
Raul aprendeu rapidamente a cheirar cola e a roubar. “A
vida nas ruas é horrível. Há muita violência,
e todo mundo nos trata mal”, diz.
Pouco tempo atrás, ocorreu algo com Raul que o deixou
traumatizado. “Fui pego roubando na feira. Amarraram
minhas mãos e meus pés e queriam botar fogo
em mim. Quando estavam prestes a derramar gasolina no meu
corpo, a polícia chegou. Nunca chorei tanto. Eu estava
apavorado. Desde então, parei de roubar as pessoas”,
lembra.
Atualmente, o menino trabalha como engraxate e ganha 20 bolivianos
(US$ 2,5) por dia. “Já tomei a decisão:
na segunda-feira, volto para a casa dos meus pais”.
Ana Maria diz que, na Bolívia, as crianças
de rua são tratadas pior do que os animais, e os policiais
estão entre os que mais maltratam: eles batem e as
forçam a lhes entregar tudo o que roubaram. Ela conta
a história de um menino que foi pego em flagrante quando
arrombava um carro. “Os moradores do povoado cortaram
as mãos do menino com um machado e o penduraram em
uma árvore”.
A terceira geração de meninos de rua
Depois que a sopa chega ao fim, Ana Maria distribui as roupas.
“Calma, gente! Um de cada vez. Primeiro, as roupas
para as crianças pequenas”, diz.
Uma jovem, Marcela, está sentada no meio-fio com os
dois filhos: Carolina, de 1 ano, e Eric, de 3. Eles usam as
mãos para tomar a sopa que está na tigela. Carolina
e Eric são a terceira geração de meninos
de rua. A mãe segura um frasco de cola e cheira enquanto
come.
“Que futuro têm essas crianças? Muitas
das que nascem nas ruas morrem vítimas de doenças,
desnutrição e maus-tratos”, conta Ana
Maria. A Bolívia é o país mais pobre
da América do Sul, e essa é a causa do aumento
do número de meninos e meninas na rua. “Não
há empregos. A miséria desespera as pessoas,
e os pais acabam por anestesiar a angústia com drogas,
negligenciando assim os próprios filhos”, acrescenta.
Não quer ajuda
O chão está coberto de lixo, e há um
forte cheiro de urina. Cães vira-latas correm por todos
os lados. Em La Coronilla, adultos e crianças moram
em barracos feitos de sacos plásticos, sem água
corrente ou eletricidade. Alguns não têm nem
cobertores. “Dormimos com nossos cachorros”, conta
José Miguel Guzman, de 12 anos.
Os animais ajudam a aquecer as crianças. José,
que exala um forte cheiro de cola, abraça seu cão.
“Fugi de casa porque meu padrasto me batia”. Ele
vive há dois anos nas ruas e é um dos meninos
a quem Ana Maria tenta convencer a ir para o abrigo El Arca.
Mas ele se recusa: “Eu não quero ir”.
Ana Maria suspira. Muitos meninos de rua não querem
receber ajuda; preferem a liberdade da rua e são dependentes
da cola. “Somente aqueles que estão motivados
e que realmente querem mudar de vida podem ir para o abrigo.
Caso contrário, tornam-se más influências
para os outros”, diz Ana Maria.
Amor e educação
A caminho do trabalho (seu primeiro emprego), um rapaz aproveita
para dar um abraço em Ana Maria. Octavio morou metade
de sua vida no abrigo El Arca e, atualmente, trabalha em uma
escola para crianças autistas. Ele ministra aulas de
reforço e agora quer estudar medicina. “Nosso
objetivo é dar às crianças uma profissão
para que se sustentem no futuro”, diz Jimena, filha
de Ana Maria e uma das diretoras do abrigo.
Ana Maria fundou o El Arca há dez anos, juntamente
com seu marido Santi. Hoje, há quarenta meninos morando
no abrigo, onde recebem amor e educação, o que
os ajuda a quebrar o ciclo da vida nas ruas.
Jovens mães
Um grupo de meninas corre na direção de Ana
Maria toda vez que ela chega ao Rosa de Sarón, que
abriga meninas de rua. O abrigo foi fundado há dois
anos, quando Ana Maria percebeu o quanto essas crianças
necessitavam de ajuda. Ali, elas recebem apoio para superar
suas experiências traumáticas. “Fugi de
um orfanato quando tinha dez anos e comecei a me prostituir”,
conta Giovanna.
Ela teve seu primeiro filho aos 11 anos, e o segundo aos
13. Mas somente a filha de 2 anos vive com ela; o menino foi
adotado. “As meninas que têm filhos nas ruas não
sabem como cuidar deles. Afinal, são apenas crianças.
Aqui, elas aprendem a ser mães”, diz Ana Maria.
Texto: Sofia Klemming
» Veja o vídeo de
Ana Maria Marañon de Bohorquez.
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