Início
 INÍCIO > Prêmio das crianças do mundo 2005
início
minha página
índice
Introdução
  Como participar
Inscrição
  O que é o prêmio?
  Dicas para o professor
  O que é a ONG Children´s World?
  Vencedores 2005
 ::JÚRI:::
Railander Pablo Freitas de Souza
 ::CANDIDATOS:::
Nelson Mandela e Graça Machel — África do Sul - 001
Ana Maria Marañon de Bohorquez — Bolívia - 002
Mães de Santa Rita — Quênia - 003

::: Ana Maria Marañon de Bohorquez — Bolívia

Número na Urna - 002

 

Ana Maria Marañon de Bohorquez foi nomeada para o Prêmio das Crianças do Mundo 2005 por causa de seu trabalho com meninos e meninas de rua em Cochabamba, na Bolívia. Muitas crianças bolivianas são filhas de moradores de rua e têm uma vida marcada pela violência e uso de drogas. A maioria cheira cola para tentar atenuar a falta de amor dos pais. Mesmo assim, Ana Maria tem muito amor a oferecer e está determinada a lutar para que essas crianças tenham uma oportunidade na vida. Ela mantém um abrigo para meninos, o El Arca, e outro para meninas, o Rosa de Sarón. Nesses locais, existem educadores que dão carinho e segurança a essas crianças, que podem então estudar e recebem ajuda para se profissionalizarem.

História

Ana Maria salvou Fernando. Ele nasceu nas ruas, filho de viciados em drogas, e começou a cheirar cola aos 2 anos de idade. Ana Maria passou a cuidar do menino quando ele tinha 4 anos e, desde então, Fernando vive no abrigo para crianças de rua El Arca de Resgate de los Niños (A Arca de Resgate das Crianças).

“Pronto, Pepe? Pegue o caldeirão de sopa e vamos”, diz Ana Maria, da cozinha.
Ana Maria teve poliomielite quando tinha 2 anos de idade e, desde então, vive em uma cadeira de rodas. Apesar da paralisia, ela trabalha no atendimento a crianças de rua e viciados em drogas há 30 anos. Pepe, um ex-viciado, é o braço direito dela e seu incansável assistente.

A sopa da mãe Anita

“Pare o carro!”, grita Ana Maria. Dois meninos, cada um com um frasco de cola nas mãos, caminham no acostamento. Ela põe a cabeça para fora do carro e diz: “Oi! Tudo bem? Estamos distribuindo comida. Venham conosco!”

Os rostos dos meninos se iluminam, e eles começam a correr. Em instantes, o caos está formado. De todas as direções, chega gente com vasilhas e panelas enferrujadas. Todos querem abraçar Ana Maria. “Mamãe Anita, que saudades!”, diz uma moça, que se pendura no pescoço dela. Drogada, a mulher chora e ri ao mesmo tempo. “Mariela, querida, como vai você?”, pergunta Ana Maria.

“Todas as crianças me chamam de mamãe Anita. Anita significa ‘pequena Ana’ e é uma forma mais carinhosa de me chamar”, explica.

“Venho até aqui várias vezes por semana. Distribuir comida é uma ótima forma de estabelecer contato com as crianças. Venho tentar convencê-las a se mudarem para um de nossos abrigos”, revela. Em La Coronilla, localidade situada em uma encosta com vista para a cidade de Cochabamba, vive gente de quem a sociedade prefere se esquecer. Muitas dessas pessoas se destruíram totalmente por causa da cola e do álcool e sobrevivem roubando, pedindo esmolas e prostituindo-se.

Quase queimado vivo

Há quatro anos, Raul Martinez Corani, 14 anos, mora nas ruas. “Fugi de casa”, ele conta.
Raul aprendeu rapidamente a cheirar cola e a roubar. “A vida nas ruas é horrível. Há muita violência, e todo mundo nos trata mal”, diz.

Pouco tempo atrás, ocorreu algo com Raul que o deixou traumatizado. “Fui pego roubando na feira. Amarraram minhas mãos e meus pés e queriam botar fogo em mim. Quando estavam prestes a derramar gasolina no meu corpo, a polícia chegou. Nunca chorei tanto. Eu estava apavorado. Desde então, parei de roubar as pessoas”, lembra.
Atualmente, o menino trabalha como engraxate e ganha 20 bolivianos (US$ 2,5) por dia. “Já tomei a decisão: na segunda-feira, volto para a casa dos meus pais”.

Ana Maria diz que, na Bolívia, as crianças de rua são tratadas pior do que os animais, e os policiais estão entre os que mais maltratam: eles batem e as forçam a lhes entregar tudo o que roubaram. Ela conta a história de um menino que foi pego em flagrante quando arrombava um carro. “Os moradores do povoado cortaram as mãos do menino com um machado e o penduraram em uma árvore”.

A terceira geração de meninos de rua

Depois que a sopa chega ao fim, Ana Maria distribui as roupas.

“Calma, gente! Um de cada vez. Primeiro, as roupas para as crianças pequenas”, diz.
Uma jovem, Marcela, está sentada no meio-fio com os dois filhos: Carolina, de 1 ano, e Eric, de 3. Eles usam as mãos para tomar a sopa que está na tigela. Carolina e Eric são a terceira geração de meninos de rua. A mãe segura um frasco de cola e cheira enquanto come.

“Que futuro têm essas crianças? Muitas das que nascem nas ruas morrem vítimas de doenças, desnutrição e maus-tratos”, conta Ana Maria. A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul, e essa é a causa do aumento do número de meninos e meninas na rua. “Não há empregos. A miséria desespera as pessoas, e os pais acabam por anestesiar a angústia com drogas, negligenciando assim os próprios filhos”, acrescenta.


Não quer ajuda

O chão está coberto de lixo, e há um forte cheiro de urina. Cães vira-latas correm por todos os lados. Em La Coronilla, adultos e crianças moram em barracos feitos de sacos plásticos, sem água corrente ou eletricidade. Alguns não têm nem cobertores. “Dormimos com nossos cachorros”, conta José Miguel Guzman, de 12 anos.

Os animais ajudam a aquecer as crianças. José, que exala um forte cheiro de cola, abraça seu cão. “Fugi de casa porque meu padrasto me batia”. Ele vive há dois anos nas ruas e é um dos meninos a quem Ana Maria tenta convencer a ir para o abrigo El Arca. Mas ele se recusa: “Eu não quero ir”.

Ana Maria suspira. Muitos meninos de rua não querem receber ajuda; preferem a liberdade da rua e são dependentes da cola. “Somente aqueles que estão motivados e que realmente querem mudar de vida podem ir para o abrigo. Caso contrário, tornam-se más influências para os outros”, diz Ana Maria.

Amor e educação

A caminho do trabalho (seu primeiro emprego), um rapaz aproveita para dar um abraço em Ana Maria. Octavio morou metade de sua vida no abrigo El Arca e, atualmente, trabalha em uma escola para crianças autistas. Ele ministra aulas de reforço e agora quer estudar medicina. “Nosso objetivo é dar às crianças uma profissão para que se sustentem no futuro”, diz Jimena, filha de Ana Maria e uma das diretoras do abrigo.

Ana Maria fundou o El Arca há dez anos, juntamente com seu marido Santi. Hoje, há quarenta meninos morando no abrigo, onde recebem amor e educação, o que os ajuda a quebrar o ciclo da vida nas ruas.

Jovens mães

Um grupo de meninas corre na direção de Ana Maria toda vez que ela chega ao Rosa de Sarón, que abriga meninas de rua. O abrigo foi fundado há dois anos, quando Ana Maria percebeu o quanto essas crianças necessitavam de ajuda. Ali, elas recebem apoio para superar suas experiências traumáticas. “Fugi de um orfanato quando tinha dez anos e comecei a me prostituir”, conta Giovanna.

Ela teve seu primeiro filho aos 11 anos, e o segundo aos 13. Mas somente a filha de 2 anos vive com ela; o menino foi adotado. “As meninas que têm filhos nas ruas não sabem como cuidar deles. Afinal, são apenas crianças. Aqui, elas aprendem a ser mães”, diz Ana Maria.

Texto: Sofia Klemming

» Veja o vídeo de Ana Maria Marañon de Bohorquez.
baixa resolução | alta resolução

   





Copyright © 1999-2012. Portal Educacional. Todos os Direitos Reservados.

Termos de uso | Quem somos