|
Por que as Mães de Santa Rita são nomeadas?
As vinte Mães de Santa Rita são nomeadas ao
Prêmio das Crianças do Mundo 2005 por seu trabalho
voluntário e pela árdua luta empreendida para
ajudar crianças cujos pais morreram de aids, nas aldeias
da periferia de Kisumu, no Quênia. Sem o apoio que recebem
dessas mulheres, esses meninos e meninas viveriam nas ruas,
envolvidos com drogas, criminalidade e prostituição.
As Mães de Santa Rita lutam pelos direitos das crianças
órfãs para que tenham as mesmas possibilidades
na vida que qualquer outra criança. Apesar de a maioria
das mães viver com poucos recursos, consegue fornecer
comida, roupas, tratamento médico, escola, um lar,
uma nova família e amor a 43 órfãos.
E nem o governo nem outra organização oferece
qualquer tipo de apoio econômico a elas.

As Mães de Santa Rita
Tudo começou com Ferdinand e sua mãe, Rita,
em uma aldeia às margens do Lago Victoria, no Quênia.
Ambos morreram de aids, mas, antes de falecer, Ferdinand sugeriu
que um grupo se unisse para ajudar as crianças que
tivessem ficado órfãs por causa dessa doença.
O grupo se chamaria Mães de Santa Rita, em homenagem
à mãe dele. Apesar de serem pobres, as vinte
mulheres que fazem parte do grupo vêm trabalhando arduamente
há sete anos para ajudar essas crianças.

Ferdinand já nasceu com o vírus HIV. Quando
seus pais morreram, vítimas da aids, sua tia Bernadette
passou a cuidar dele. Ela tinha prometido a Rita que faria
isso. Ferdinand se mudou para a casa da tia e se tornou um
membro da família. “Eu queria oferecer a ele
uma vida tão normal quanto possível. Ele freqüentava
a escola, e eu o amava como se fosse meu próprio filho”.
Com o passar dos anos, Ferdinand foi ficando cada vez mais
doente. Ele era internado com freqüência, e as
doses de medicamentos, que eram caros, aumentavam. “Fui
obrigada a vender quase tudo o que possuía para mantê-lo
vivo. Meu carro, a TV, o toca-fitas e até a torradeira
elétrica”, recorda Bernadette.
Ela e Ferdinand conversavam muito sobre a doença e
sobre a mãe dele. Ele pensava em Rita com freqüência
e, às vezes, ficava muito triste. Ao mesmo tempo, sentia-se
feliz pelo fato de a tia cuidar dele e passou a chamá-la
de mãe. O menino insistia na idéia de que era
preciso ajudar outras crianças cujos pais também
tivessem morrido de aids. Dessa maneira, elas teriam as mesmas
chances de sobrevivência que ele havia tido.
Origem de Santa Rita
Bernadette gostou muito da idéia e um dia decidiu
contá-la às amigas. “Cada vez mais crianças
acabavam ficando sozinhas porque os pais morriam de aids,
e muitas delas eram obrigadas a abandonar a escola, pois não
tinham recursos para continuar. Muitas foram viver nas ruas
de Kisumu por não terem outra forma de sobreviver além
de pedir esmolas. Como eu e minhas amigas somos todas mães,
era muito doloroso ver essas crianças sofrendo. Queríamos
ajudá-las de alguma maneira”, lembra.
Ela conta que passaram a percorrer as aldeias para conversar
com outras mulheres. “Reunimos vinte mães, que
decidiram ajudar o maior número possível de
órfãos. Não tínhamos dinheiro
nenhum, mas mesmo assim iniciamos nosso trabalho”.
Quando Bernadette voltou para casa e contou a novidade, Ferdinand
ficou muito feliz. Ele perguntou à tia se poderia escolher
o nome do grupo. E ela prontamente concordou. “Ferdinand
queria que o grupo se chamasse Santa Rita, lembrando o nome
da sua mãe, pois assim recordaríamos sempre
dela. Achei uma idéia muito bonita, e desde então
usamos esse nome. Ele queria muito participar e contribuir
com as Mães de Santa Rita, mas isso não foi
possível porque ele morreu antes, quando estava na
sexta série”.
Todos ajudam
Já no primeiro dia, um grupo de órfãos
que não tinha comida, roupas, uniforme escolar nem
lugar para morar se formou do lado de fora da casa de Bernadette.
“A princípio, não sabíamos como
fazer, já que não tínhamos dinheiro.
Algumas de nós começaram a fazer pães
e bolos para vender na cidade. Outras vendiam verduras e legumes
que plantavam. Depois de um tempo, juntamos dinheiro suficiente
para comprar uma vaca. Então, passamos a vender leite
também. Em seguida, decidimos que, no primeiro sábado
de cada mês, todas as mães doariam no mínimo
200 shillings (US$ 2,68) para ajudar as crianças”,
conta.
Muitas mães são viúvas, desempregadas
e precisam cuidar dos próprios filhos. Para elas, 200
shillings é muito dinheiro. Mesmo assim, todas deram
o que podiam, e aquelas que não podiam ajudar com dinheiro
colaboravam de outras maneiras. Algumas lavavam as roupas
e faziam a comida das crianças. Outras se tornaram
mães adotivas e permitiram que algumas crianças
se mudassem para sua casa.
“O mais importante para as mães é oferecer
às crianças um lugar onde morar. Acreditamos
que esses meninos e meninas devem viver com uma família,
não em um orfanato. Queremos que o cotidiano deles
seja o mais normal possível e que se integrem à
vida comunitária das aldeias. Sempre tentamos encontrar
novas famílias para as crianças que perderam
seus pais. No entanto, a maioria das pessoas nas aldeias é
pobre e não tem recursos para cuidar de mais crianças,
mesmo recebendo nossa ajuda”, diz Bernadette.
Os direitos de toda criança
Há sete anos, as Mães de Santa Rita têm
trabalhado arduamente para dar a meninos e meninas órfãos
uma vida melhor. Atualmente, elas oferecem comida, roupas,
tratamento médico, escola, um lar, uma nova família
e amor a 43 crianças. “É muito duro, mas
não temos escolha. Nós acreditamos que todas
as crianças têm o direito de serem amadas. Se
não as ajudarmos, elas acabarão nas ruas da
cidade, envolvidas com drogas, criminalidade e prostituição;
não poderão ir à escola e, com isso,
não terão um futuro melhor. Essas crianças
são da nossa aldeia; por isso, somos responsáveis
pelo bem-estar delas. Se não fizermos nada por elas,
quem fará?”, pergunta Bernadette, que acrescenta:
“Nós fazemos o melhor que podemos, mas faríamos
muito mais se tivéssemos recursos. Gostaríamos,
por exemplo, de oferecer a todas as crianças um almoço
de verdade todos os dias. Assim elas poderiam ter pelo menos
uma refeição nutritiva por dia. Segundo as últimas
pesquisas que realizamos, existem, atualmente, 1.500 órfãos
em nossa comunidade. Se tivéssemos condições,
cuidaríamos de todos eles”.
A cura
“Nosso maior sonho é que um dia encontrem a
cura para a aids, pois, com isso, muitas crianças poderiam
continuar a viver com seus pais. Então, nosso trabalho
não seria mais necessário. Infelizmente, a cada
semana, mais crianças nos procuram pedindo ajuda. Sempre
tentamos colaborar, mesmo com poucos recursos. Nunca mandamos
ninguém embora sem nada lhe oferecer. Enquanto houver
crianças que precisem de ajuda batendo em nossa porta,
continuaremos lutando para que tenham uma vida melhor!”,
afirma Bernadette.
Infelizmente, deveria haver muitas outras mães como
as de Santa Rita. Na África, há 43 milhões
de crianças órfãs. Destas, 12 milhões
perderam os pais por causa da aids. O Quênia é
um dos países mais atingidos (lá, 1,3 milhão
de crianças estão nessa situação)
— a região mais problemática é
o oeste do país, ao redor do grande Lago Victoria,
onde a aldeia Dunga está situada.
Texto: Andreas Lönn
» Veja o vídeo das
Mães de Santa Rita.
baixa
resolução | alta
resolução
|