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Chegou uma hora em que eu resolvi fugir! Fui para a rua
e comecei a roubar tudo o que aparecia na minha frente. Primeiro,
passei três dias dormindo na casa da minha avó,
pois ela não sabia que eu tinha saído de casa.
Depois, fiquei dormindo na rua. Para me cobrir, eu usava aquelas
lonas pretas. À noite, ficava com medo. Debaixo da
lona, escutava o barulho das bicicletas e tinha a sensação
de que uma delas ia passar por cima de mim. Eu não
conseguia dormir muito tempo.
A
vida lá em casa estava muito difícil. Meu pai
espancava minha mãe e me batia muito. Ele tinha um
soco de homem forte. Quando ele ficava nervoso, sempre me
dizia: “você deveria me agradecer porque eu te
dei um nome”. Na verdade, ele era meu pai adotivo. Eu
não conheci o meu pai biológico. Por isso, eu
o chamava de pai.
Dentro de casa, as brigas eram quase diárias. Ele
não deixava minha mãe estudar, ficou preguiçoso
e parou de trabalhar. Uma noite, minha mãe perguntou:
“você quer ficar comigo ou com ele?”. Eu
respondi que queria ficar com ela. Então, ela disse:
“espera aí no portão”. Depois disso,
eu só escutei o barulho do tiro do revólver.
Eu tinha oito anos e fiquei revoltado porque minha mãe
matou meu pai. Ficava lembrando dele, tinha crises, ficava
nervoso. Eu gostava dele, apesar de ficar com raiva quando
lembrava que ele me batia.
Foi quando um amigo meu, o Washington, me levou à
Favelinha. Nós nos conhecemos jogando bola. Estávamos
sempre juntos, pois ele era um dos meus melhores colegas.
Eu passei a freqüentar a Favelinha todos os dias. Ficava
lá vendo eles fumarem, até que o Washington
me ensinou a fumar maconha.
Eu comecei a fumar muito, até mais do que o Washington.
Passei a ir ao centro de Belo Horizonte roubar e mexer com
revólver. Quando eu roubava perfumes caros, pegava
minha bicicleta e ia para o Nova Pampulha. Em troca dos perfumes,
as pessoas me davam maconha. Aí eu fumava.
O revólver eu conseguia com os traficantes. Eu dizia
a eles: “me empresta o revólver porque uns meninos
estão querendo me bater”. Assim, eles me emprestavam
o “oitão”. Eu ficava com o revólver
andando para lá e para cá. Se alguém
mexesse comigo, eu atirava para o alto. Mas tiro mesmo eu
só dei em um rato. Havia um desses bem grandes, assim,
na minha frente, aí eu falei para os meus colegas:
“olha como o cara é bom de mira!”. E atirei
no bicho.
Toda vez que eu pegava a arma ou ia fazer alguma coisa ruim,
pensava na minha família, na minha avó e nos
meus irmãos, lembrava que minha mãe gostava
muito de mim. Aí eu não fazia besteira.
Foi assim durante uns três meses, até que resolvi
fugir. Nessa época, eu ainda morava com a minha mãe.
Mas ela não sabia de nada. Saía para trabalhar
e eu aproveitava para ir à rua.
No centro de Belo Horizonte, tudo o que eu roubava eu passava
adiante na hora. Só ficava com as coisas que eram bonitas:
boné, carteira, rádio e, às vezes, um
relógio. Eu vendia tudo para um camelô. Com o
dinheiro, comprava comida e as coisas de que eu precisava.
Eu costumava almoçar no Restaurante Popular, próximo
à rodoviária.
Um dia roubei tantos óculos que não tinha mais
onde guardar. Eu estava com dois escondidos no bolso, um pendurado
na camisa, outro na cabeça e um no olho. Um camelô
gordão e forte me viu passando com esse tanto de óculos
e me pegou pela gola da camisa. Ele me levou para um canto
e, em seguida, jogou-me no chão. Eu caí em falso
e com força. Ele pegou todos os meus óculos
e disse: “da próxima vez que você aparecer
por aqui, vou te levar na polícia. Seu ladrão!”.
Eu senti medo e saí correndo, mesmo estando com o pé
dolorido.
Fiquei mais ou menos uns dez dias morando na rua. Eu passava
os dias sozinho, roubando e usando drogas. Mas não
é fácil roubar. É simples conseguir a
maconha na rua, pois é onde as crianças são
incentivadas a usar drogas. Eu sempre tinha de pagar pela
droga. Sem dinheiro, eu não comprava, pois não
tinha coragem. Eles podiam me matar porque eu estava devendo,
né?
Eu tenho medo mesmo é da polícia, porque eu
já a vi maltratando muita criança na rua. No
bairro onde minha mãe mora, todos os dias os policiais
agridem algum menor de idade. E só batem nas pessoas
inocentes. Dos malandros mesmo, que matam pessoas quase todos
os dias, a polícia passa perto deles e não faz
nada. Eu acho que ela tem medo.
Minha mãe mora em um lugar muito perigoso. Lá,
há troca de tiro quase todos os dias. Nessa área,
existe uma guerra: três grupos são rivais, e
dois deles agora se uniram para eliminar o outro. Quase todas
as mortes acontecem no bar da minha tia, que é conhecido
como o Bar do Cerol, porque ali muita gente é morta
mesmo. Quando um membro de um dos grupos invade a área
do outro, é morto sem piedade.
Em meio a essa guerra, meu tio acabou levando um tiro na
panturrilha. A bala está dentro dele até hoje.
O médico disse que não precisa retirar. Quando
eu morava lá, escutava barulho de tiroteio com freqüência.
Isso porque antes a gente morava ao lado do bar da minha tia.
Agora minha mãe se mudou.
Cada gangue quer matar o chefão da outra. No final,
todos querem um chefe só para mandar em tudo, na malandragem
e no tráfico. E, apesar de o tráfico de drogas
ser muito grande nessa área, a polícia não
faz nem fala nada. Só das crianças a polícia
não tem medo: bate nelas todos os dias.
De volta para casa
Minha mãe me encontrou na casa da minha avó.
Eu voltei para lá depois de um período morando
na rua, porque tinha certeza de que minha avó ainda
não sabia da minha fuga. Minha mãe não
conversa com ela há muito tempo. Quando minha mãe
me encontrou, ela me bateu muito, muito mesmo, e falou: “se
eu ficar com você em casa, eu vou acabar batendo mais
e te machucando muito; por isso, vou te levar para um abrigo”.
Foi quando eu conheci a Casa Moradia, da ONG Circo de Todo
Mundo.
No
início, foi muito difícil. Eu não conseguia
ficar sem fumar maconha. Por isso, fugi três vezes.
Na primeira vez, voltei para a casa da minha mãe, mas
ela me trouxe de volta. Da vez seguinte, fugi para a rua.
Eu tinha 9 anos e convidei o Ricardo, de 14 anos, que também
morava no abrigo, para ir comigo.
Nós fomos dormir no mesmo lugar em que eu costumava
ficar antes: debaixo da marquise do Banco Itaú. Mais
uma vez, eu não conseguia dormir. Debaixo da lona,
toda hora eu acordava o Ricardo falando: “oh, Ricardo,
o cara vai passar por cima de nós! Acorda, acorda!”.
Alguns dias depois, a gente estava atravessando a rua, próximo
da praça da rodoviária, quando um taxista reconheceu
o Ricardo e o levou de volta para a Casa Moradia. Eu consegui
fugir e fiquei mais uns dois dias sozinho no centro de Belo
Horizonte. Um menino que mora perto da casa da minha mãe
me viu na rua e me levou de volta para casa. Novamente minha
mãe me trouxe para a Casa Moradia.
Uma criança que está na rua precisa, acima
de tudo, de carinho. Comigo foi assim. Quando eu comecei a
receber carinho na Casa Moradia e no Centro Cultural do Circo
de Todo Mundo, consegui parar de fumar e de roubar. Na rua,
a gente só vê as pessoas xingando as crianças.
Isso as incentiva ainda mais a matar, roubar e usar drogas.
Hoje, o que mais me motiva é ver os melhores meninos
do circo fazendo acrobacias, porque o meu sonho é ser
um atleta olímpico. Eu quero fazer ginástica
olímpica. Por isso, todas as vezes em que as Olimpíadas
de Atenas passaram na televisão, eu assisti.
Posso afirmar que minha vida mudou muito. Eu parei de fumar
maconha, de roubar e não sou tão malcriado como
eu era. Agora, eu incentivo outras crianças aqui do
circo a respeitar os professores e cuidar do material.
Na escola, eu me sinto o mais privilegiado porque sou o único
que está no circo. Toda vez que tem festa na escola,
a diretora me chama para fazer uma apresentação.
Tenho um pouco de vergonha, mas já me apresentei várias
vezes. Eu faço sozinho o número de malabares.
Na escola, minha disciplina preferida é Matemática.
Outro dia, “fechei” a prova, que valia 25! Certos
dias eu tenho um pouco de preguiça de fazer o dever
de casa, mas estou me esforçando para melhorar.
Hoje, no bairro onde minha mãe mora, eu sou muito
respeitado. Vários meninos já me cumprimentaram
pelo caminho que eu estou seguindo. Outros dizem: “eu
quero parar de fumar. Quero ir para onde você está.
Gostaria de entrar para o circo e fazer ginástica olímpica”.
Mas não conseguem, por causa do vício.
Graças a Deus eu não viciei totalmente. Mesmo
assim, as drogas que eu usei me trouxeram muitos prejuízos.
Estou crescendo muito pouco e, de vez em quando, tenho dificuldade
para respirar, principalmente na época do frio, pois
meu nariz fica todo entupido e eu só consigo respirar
pela boca.
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