Publicado em: 21/09/2011 - por Gabriela Brandalise
A população mundial aumenta ao ritmo de cerca de 80 milhões de pessoas por ano. O impacto disso é visto no meio ambiente. Em toda a Terra, os lençóis freáticos cedem, os solos se tornam inutilizáveis, o calor aumenta, as geleiras derretem, o ar perde qualidade e os estoques de pescado começam a se esgotar. Analisando o cenário, é difícil não ficar alarmado. Será que a natureza vai conseguir suportar tanta gente? Para o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), João Carlos Nucci, a sociedade vai ter de encontrar outro estilo de vida, com menos consumo, se não quiser ficar sem os recursos naturais.

Já somos quase 7 bilhões de pessoas. O planeta está conseguindo sustentar tanta gente?
Em termos globais, o que tem sido divulgado é que já ultrapassamos a capacidade de sustentação, não só do número de pessoas, mas do estilo de vida que elas levam. O consumo precisa ser revisto.

As nações chamadas desenvolvidas desmatam florestas, queimam carvão e petróleo e usam, em grandes quantidades, pesticidas e fertilizantes. Com mais pessoas no mundo, e essas práticas tornando-se mais intensas movidas por esse consumo, que previsões é possível fazer?
Existem hoje povos com problema de falta de água devido a esse crescimento (eu não chamo isso de desenvolvimento porque desenvolver é melhorar; já crescer nem sempre é sinônimo de melhoria). Enquanto as pessoas estão preocupadas com a falta de petróleo, há nações que sofrem por não terem algo essencial, que é a água. Com o aumento da população, do consumo e dos hábitos de vida que não respeitam os limites da natureza, a tendência é a situação piorar. O que devemos entender é que um povo sem água sofre não apenas porque não pode bebê-la em abundância. Se não há agua, não há como plantar, logo o alimento também fica comprometido. Sem água também fica impossível tratar os dejetos humanos, com isso vêm os problemas ambientais de poluição e os de saúde. Uma coisa afeta a outra.

Segundo a ONU, quase 1 bilhão de pessoas passam fome todo dia. Daqui a algumas décadas, haverá mais de 2 bilhões de pessoas nessa situação em países pobres. Dá para dizer que já está faltando alimento?
Não faltam alimentos, o que existe é a má distribuição deles. O problema é que, se para alimentar a todos, é necessário transportar a comida de um lugar para outro, estamos tomando mais medidas não sustentáveis. O ideal seria que cada povo, cada região, produzisse o seu alimento pelo menos para a sua subsistência. Porque é bastante arriscado uma cidade depender de alimentos que percorrem 100, 200 ou 300 quilômetros de distância para chegar ao seu destino. E é o que tem acontecido cada vez mais: cidades tendo que ir buscar recursos naturais, como água, e alimentos cada vez mais longe. Se algo acontece com o sistema de transporte, por exemplo, a cidade entra em colapso. Imagine essa situação em alguns lugares da África em que os povos não possuem nenhuma estrutura e dependem do que chega para poderem comer. É uma situação grave.

Existem cientistas que fazem previsões apocalípticas em relação à falta de alimentos e da água. O senhor acredita que a utilização abusiva do solo, a pecuária poluente e a escassez cada vez maior de água podem levar ao esgotamento dos recursos naturais?
Fazer previsões globais é caminhar na incerteza. Não há como precisar o que pode ou não acontecer. Por outro lado, se estamos vendo pessoas passando fome na esquina da nossa casa, isso quer dizer que já existe fome sim. Esta é uma das evidências de que algum problema não está sendo resolvido. Quando não temos mais espaço para fazer uma horta em casa, para mim isso também já é preocupante. Porque quer dizer que, para comermos, estamos dependendo de outros que estão produzindo para nós. Então não precisamos ir para a escala global para entendermos o cenário. As crises perto de nós já são gritantes e a sociedade não está conseguindo resolvê-las.

Que outros problemas causados pelo crescimento excessivo da população podem ser percebidos no nosso cotidiano?
O problema não está somente no número de pessoas. O mais grave é a grande quantidade de gente com hábitos tão ruins. Vão causar mais problemas 50 mil pessoas com rotinas que prejudicam o meio ambiente do que 100 mil vivendo em harmonia com a natureza. Além dos hábitos, o que vem acontecendo é que muitas pessoas que, por algum motivo, não conseguem sobreviver na região onde nasceram, estão migrando para outros locais. Com isso, várias cidades estão inchadas. Enquanto há municípios no interior com 40 mil habitantes, as capitais estão sobrecarregadas, muitas vezes com 2 milhões de habitantes, o que ultrapassa até mesmo a capacidade de gestão pública. Com tanta gente, as autoridades encontram dificuldades para administrar não só os recursos naturais, mas também a infraestrutura da cidade. Essa concentração, que não leva em consideração a capacidade limitada que o ambiente tem de acolher pessoas, também preocupa.

As cidades de hoje foram construídas sem planejamento ambiental, o que favorece a degradação do meio ambiente?
Sim. No Brasil, as cidades cresceram incentivando as indústrias a se instalarem porque a preocupação nunca foi a poluição, mas sim o crescimento econômico. Ignorou-se o que aconteceu com a Inglaterra na Revolução Industrial, quando as cidades ficaram lotadas depois que as pessoas saíram das zonas rurais para trabalhar nas fábricas que se instalavam no meio da área urbana.
Então o que vemos hoje com frequência é terrenos que antes abrigavam quatro casas (portanto quatro famílias) serem desapropriados para a construção de prédios de 20 andares ou mais. De repente, há centenas de pessoas pressionando aquela área. A rua, que já estava congestionada, precisa receber pelo menos mais 200 carros saindo do edifício novo. Há poucos espaços públicos para as pessoas terem seus momentos de lazer, como parques e praças. Com isso, os poucos que existem ficam ainda mais lotados. E assim por diante.

Haveria uma solução?
Hoje já existem comunidades que vivem de forma alternativa e abriram mão de uma série de desejos que o mundo onde vivemos nos estimula a ter. Não é possível se pensar em sustentabilidade e proteção do meio ambiente mantendo o estilo de vida que levamos hoje, em que há tanto consumo.
O que teria de acontecer é as pessoas tirarem da natureza respeitando sua capacidade de fornecer. Algumas medidas discutidas atualmente são moradias construídas de forma mais ecologicamente correta (com barro ou material reciclável), banheiros de compostagem (dispensando o uso de água), utilização da energia solar e redução do consumo de carne. Apenas com esta última, conseguiríamos frear significativamente o avanço da pecuária na Floresta Amazônica, que causa tanto desmatamento.
Mas não pode ser nada imposto. O problema é que pouco se debate o assunto.