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Primavera Árabe: a queda do muro de mármore

Publicado em: 02/03/2012 - por Gabriela Brandalise

No Oriente Médio, a asfixia provocada pela ditadura fez países inteiros levantarem a voz e irem às ruas. As manifestações começaram em dezembro de 2010, quando um jovem da Tunísia, desempregado, colocou fogo em seu próprio corpo para protestar contra as condições de vida no país. Sua morte foi a mola propulsora para a Primavera Árabe, uma onda de protestos que se espalhou por nações do Oriente Médio e Norte da África (que, em comum, sustentavam governos corruptos e autoritários), derrubou quatro ditadores em um ano e matou milhares. Marco Antonio Villa, historiador, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, mestre em Sociologia e Doutor em História, fala desse movimento.

As manifestações vêm acontecendo principalmente no último ano. Esse movimento é tão recente assim? É coincidência ocorrer em países do Oriente Médio e Norte da África ou há motivo para isso? Em caso afirmativo, qual?


Há uma forte relação política, cultural e econômica entre essas regiões e os países da Europa Ocidental, especialmente a França. É muito grande o número de imigrantes do Norte da África nesse país. Eles mantêm laços com seus países de origem e enviam para seus familiares não só dinheiro, mas também as ideias de democracia e liberdade. E aí temos uma contradição: se na França parcela dos imigrantes que professam o islamismo mantém uma relação de atrito com o Estado (vide o caso dos véus), nos seus países de origem a sua relação passa – mesmo que de forma inconsciente – pela defesa de uma organização política democrática, mesmo que não plenamente no sentido ocidental. Porém, isso não significa que a insatisfação só tenha aparecido agora. As ditaduras conseguiam conter a revolta, mas acabaram, desde 2011, perdendo o controle.

Os países onde há essas manifestações eram colônias. Como foram o colonialismo e os processos de independência dessas regiões?

Repetiu-se o processo clássico de exploração econômica. Mas também foi formada uma elite colonial local que estudou nos países metropolitanos e lideraria o processo independentista.

Como ficaram essas regiões após a independência?

Manteve-se o modelo colonial, só que com independência política. Inicialmente, foram organizados estados laicos, alguns com forte influência do pensamento marxista. A elite nativa colonial acabou se perpetuando no poder. Nos Estados mais ricos em matérias-primas, a prosperidade chegou apenas para os detentores do poder. A corrupção e a violência marcaram esses regimes.

De que forma esses acontecimentos podem ter colaborado para os conflitos atuais?


Toda ditadura tem um prazo de validade. As existentes na região acabaram expirando. Como todo acontecimento histórico, foi imprevisto e ninguém conseguiu imaginar a extensão e a profundidade do movimento. Deve-se lembrar que a maioria desses países são independentes há mais de meio século. Por isso, a meu ver, imputar suas mazelas ao domínio colonial europeu é uma falácia.

As religiões oficiais desses países influenciam os conflitos que vêm acontecendo? Como?


Em alguns deles não havia religião oficial. Claro que a mudança na região – do ponto de vista político-religioso –teve início no Irã, com a revolução liderada pelo aiatolá Khomeini. A queda do xá Reza Pahlevi foi, inicialmente, um amplo movimento democrático com a participação de setores de esquerda, de liberais, de insatisfeitos com a ditadura e de líderes religiosos. Foi proclamada a República e eleito um presidente laico e com laivos socialistas, Bani-Sadr. Meses após iniciar o governo, ele teve de fugir do país, pois o clero xiita queria mais, desejava uma república islâmica. Desde então, foi imposto um governo religioso e foram suprimidas as liberdades democráticas.

Em todos os países, os partidos religiosos saíram vencedores das eleições ou, onde ainda não foram realizados os processos eleitorais, são eles que determinam os rumos dos acontecimentos. Lembremos que essas ditaduras eram laicas e, em alguns países, confrontaram-se com o aparato religioso. As revoltas sob o comando dos religiosos são uma clara resposta contra o secularismo, mesmo defendendo momentaneamente bandeiras democráticas que, na minha opinião, serão logo esquecidas.

Quais são as características culturais dessas regiões?      


São países islâmicos e exportadores de matérias-primas. Alguns nunca viveram sob regime democrático.

Que movimentos sociais estão participando desses protestos?

O determinante é o papel dos líderes religiosos, com a provável exceção da Tunísia e da Líbia. Encontra-se de tudo um pouco. Resquícios dos velhos partidos comunistas, nacionalistas, liberais, movimentos influenciados pela modernidade (como os ambientalistas). Mas quem detém o controle político, mesmo que ainda precário, são os partidos religiosos.

O que estamos assistindo — o povo nas ruas e praças — não deverá se manter quando for estabelecido o novo poder. A tradição democrática é quase inexistente na região. A instauração de ditaduras islâmicas, tal qual a do Irã, é muito mais provável do que o estabelecimento de regimes democráticos, laicos, com alternância no poder, pluralidade partidária, etc. Usando uma metáfora gasta: em vez de primavera, poderemos ter um novo inverno, suave no início, mas muito severo daqui a alguns anos.

Qual é a posição de outros países em relação aos últimos acontecimentos no Oriente Médio? Há quem apoie essas ditaduras? Quem e por quê?


A hipocrisia é uma característica das relações internacionais. E o Oriente Médio não é exceção. O que a China, por exemplo, pode ensinar a esses países no campo da democracia? Digo isso porque a China tem tentado exercer um papel de mediadora, como uma potência com interesses em todo o mundo. É uma espécie de apresentação desse país como potência à altura dos EUA. Ela deseja se opor aos países ocidentais que pretendem uma intervenção militar semelhante à que ocorreu na Líbia. Mas o impasse tende a durar e a guerra civil deve se prolongar.

Há interesses econômicos envolvidos?


Sempre há. Tanto internos como externos. Em alguns desses países, não foi tanto a questão econômica o determinante, mas a asfixia da sociedade civil durante décadas. Em cada país existem grupos/classes que têm interesses econômicos distintos e esse conflito está presente no primeiro plano da cena política. Porém, é preciso lembrar que, em muitos países, a sociedade não aguenta mais tanta ditadura. São aqueles momentos da História em que o poder da força não é mais suficiente para manter o povo sob domínio. Evidentemente, não é possível saber como todo esse processo deva terminar.

De que maneira a comunidade internacional (como a ONU, por exemplo) vem interferindo nos conflitos?

O mundo pós-Guerra Fria é muito complexo e os organismos internacionais, até hoje, fracassaram na intermediação de conflitos. Não é uma questão de interferência, como algo indevido. Não. O que está sendo debatido é a necessidade de uma intervenção internacional para evitar o massacre da população civil, como na Síria.

De que forma a Internet influenciou esses protestos? Você acredita que ela teve um papel significativo para o desenrolar dos acontecimentos?


Acho que a Internet pode ter tido um pequeno papel em todo o processo. A meu ver, ela não foi, de forma alguma, o elemento fundamental, principalmente porque nesses países poucos têm acesso à web.

Com o fim das ditaduras, a tendência é que sejam instaurados governos democráticos nesses países?


Tudo indica que não. A região não tem uma tradição democrática, muito pelo contrário. Inicialmente, a instabilidade política deve prevalecer na maioria dos países.




Imagem:Caio do Couto Villa

Marco Antonio Villa
Historiador, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, mestre em Sociologia e Doutor em História.



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