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Potencialidades x Limitações

Publicado em: 05/04/2012 - por Roberta Obladen

Ficar tetraplégica no auge da juventude e, mesmo assim, vencer seus limites, vivendo em função de proporcionar uma vida melhor àqueles que tem alguma deficiência. Sem dúvida, isso faz da consultora para inclusão Mirella Prosdócimo um exemplo de superação. Nesta entrevista, Mirella fala sobre o seu acidente, mas, sobretudo, sobre suas experiências e conquistas posteriores. Afinal de contas, como ela mesma diz: “Vamos olhar as potencialidades e não somente as limitações das pessoas”.

Como e quando você ficou tetraplégica?


Eu sofri um acidente de carro  aos 17 anos,  no dia 02 de fevereiro de 1992, voltando das férias. Vindo da praia, estava no banco do passageiro. Um tio meu dirigia e, graças a Deus, todos nós estávamos com cinto, isso salvou as nossas vidas. Já chegando aqui em Curitiba, no Viaduto da Sanepar, todos os carros começaram a reduzir a velocidade, pois havia um acidente na pista. O carro que estava atrás do nosso não reduziu e bateu na nossa traseira. Caímos do viaduto de uma altura de quase 20 metros e capotamos várias vezes. Eu fraturei a coluna na altura do pescoço e desde então perdi os movimentos. Passei 2 meses na UTI respirando com a ajuda de aparelhos. Depois desse tempo, consegui voltar a respirar e já consigo sustentar o pescoço, mas não recuperei os movimentos. Eu preciso de ajuda 24 horas por dia, então tenho minhas “anjinhas” que me assessoram em absolutamente tudo.

Quais eram os seus sonhos na época e o que mudou após o acidente?


Meus sonhos eram os mesmos de toda adolescente: casar, ter filhos, amar e ser amada. Enfim, ter uma vida normal. Hoje, aos 37 anos, alguns destes sonhos já não fazem mais parte da minha vida. Ter filhos por exemplo, já não penso mais, pois não consigo cuidar sozinha de mim mesma, imagine de uma criança.

Você cursou a faculdade de Letras. Quem lhe apoiou nesta decisão?


Logo após o acidente, fiquei superprotegida pela minha família. Passei 10 anos em função da minha recuperação. Fiquei todo este tempo esperando meus movimentos voltarem para só aí retomar minha vida, voltar aos estudos, namorar. Só que o tempo passou e minhas irmãs seguiram em frente, viajaram, foram morar fora. Nessa época, elas me inscreveram no vestibular. Eu tinha terminado os estudos em casa e sempre adorei Letras (inglês). Passei e fui para a universidade sem compromisso, sempre pensando em como seria assistir aulas e não poder anotar, como seriam as provas, enfim, cheia de dúvidas. Acabei sendo muito bem recebida pelos colegas e professores. Adorei! Sem dúvida foi um divisor de águas na minha vida. Dei um grande passo rumo à minha independência.

Durante a faculdade você foi uma das selecionadas para participar de um intercâmbio...


Pois é. A faculdade abriu 4 vagas para estudos nos EUA, sobre educação inclusiva e tecnologias assistidas para trazer maior independência para as pessoas com deficiência. Passei e fui uma das 4 alunas selecionadas. Fiquei mais tranquila, pois minha melhor amiga também foi. Esta seria a minha primeira experiência focada na questão da acessibilidade.

Foi nessa viagem que surgiu a ideia de criar a sua empresa?


Isso mesmo. Lá conheci a minha atual sócia, ficamos amigas e, quando voltamos, fiz meu trabalho de conclusão da faculdade na área de inclusão. Em 2007, abrimos a Adaptare.

No que consiste a sua empresa?


No começo prestávamos uma consultoria e, como se fôssemos uma empresa de RH, treinávamos e selecionávamos pessoas com deficiência para atender às necessidades das empresas (lei de cotas). Isto foi no primeiro ano. Hoje o nosso foco é preparar a empresa (arquitetônica) e seus gestores (atitudinal) para receber as pessoas com deficiência. Afinal de contas, não adianta contratar uma pessoa e colocá-la para cumprir uma determinada função sem saber das suas potencialidades e limitações.

As pessoas com deficiência estão preparadas para as exigências do mercado de trabalho?


Assim como as pessoas que não têm deficiência nenhuma, as pessoas com deficiência também encontram dificuldades e precisam de uma qualificação melhor para atender à demanda do mercado de trabalho. Hoje há algumas instituições e ONGs que fazem essa capacitação, mas para a sociedade isto ainda não é prioridade.

Outra questão é que muita gente que possui alguma deficiência se acomoda com os benefícios recebidos e não abre mão deles para entrar no mercado de trabalho. Se hoje já está difícil encontrar mão de obra qualificada, quem possui alguma deficiência acaba tendo ainda mais dificuldades, pois sofre várias restrições, seja no transporte, na escola, etc.

Qual país hoje você aponta como referência em acessibilidade?


Hoje esta questão está tendo um enfoque maior, mas os EUA estão muito à frente. Estão preocupados não somente com as pessoas com deficiência, mas com os idosos também.

As novelas estão cada vez mais abordando a vida de pessoas com deficiência. Isso gera alguma melhoria na vida real?


Sim. O apoio da mídia é imprescindível. É muito importante mostrar a realidade de um cadeirante, de um cego, de uma criança com Síndrome de Down. Mostrar que isso não é um bicho de sete cabeças, mas sim uma característica a mais daquela pessoa, que ela tem as suas potencialidades e não somente limitações.

O comportamento das pessoas perante um deficiente mudou? Ainda existe preconceito?


Mesmo com a ajuda das novelas, ainda há muito preconceito. As pessoas não encaram como algo normal. Priorizam a deficiência da pessoa e não as suas qualidades e competências, só o lado negativo.

Você está encabeçando a campanha “Essa vaga não é sua nem por um minuto”. Como surgiu a ideia?


Eu nunca fui de exigir os meus direitos. Sempre achei que era uma questão de consciência e que cada um tinha a sua. Até que um dia, em 2011, vi uma mulher sem problema nenhum parando na vaga de deficiente para ir ao mercado. Quando ela voltou, falei que aquela vaga era especial e ela quase me agrediu fisicamente. Depois deste dia, juntamente com uma agência de Curitiba, formulamos a campanha que já pegou em todo o país.

Como aderir à campanha?


Qualquer pessoa pode baixar o material da campanha e imprimi-lo. Estamos muito felizes, pois começou como um desabafo no Facebook e já ganhou o Brasil.

Quais são seus novos projetos?


Atualmente, sou a coordenadora do Fórum Paranaense dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Estamos estudando as políticas públicas para proporcionar mais acessibilidade às pessoas com deficiência. Gostaria que todos se mobilizassem mais, que viessem para o debate, apresentassem as suas sugestões. Aqui em Curitiba, cada um age por si. Teremos muito mais força se caminharmos juntos. Gostaria de convocar todos que têm qualquer deficiência a participar deste debate.




Mirella Prosdócimo
Coordenadora do Fórum Paranaense dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Mirella prepara as empresas e seus gestores para receber as pessoas com deficiência.
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