
Publicado em: 25/06/2012 - por César Munhoz
"Eu caí de paraquedas no mundo da criança surda", conta a educadora e pesquisadora em Artes Visuais Liane Carvalho Oleques. A cada início de semestre, professores do mundo todo veem-se nesta mesma situação: em meio a tantos alunos, um surdo. Um fato que desperta uma série de questões, que passam pelo questionamento do próprio papel do educador: como lidar com as diferenças de linguagem, como comunicar-se de forma a realmente integrar os alunos em torno de um conteúdo comum e garantir (ou, pelo menos, tentar) que todos tenham a oportunidade de absorver o máximo possível desse conteúdo? Essa é uma das questões que a pesquisa Imagem e palavra: um estudo do desenho infantil em caso de surdez profunda, desenvolvido por Liane, pretende ajudar a responder. Partindo da observação do desenho de crianças ouvintes e surdas, a pesquisadora mostra um novo olhar sobre a inclusão. Confira, a seguir, a conversa que o portal teve com ela.

O que despertou seu interesse para esta pesquisa? Confira a resposta no vídeo a seguir:
Transcrição da resposta: |
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Onde você encontrou apoio no aprofundamento sobre a surdez? Confira a resposta no vídeo a seguir:
Transcrição da resposta: Nos livros. Acho que o autor que me abriu as portas para o mundo da surdez foi Oliver Sacks, com o livro Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. A partir dessa leitura, pude procurar outras bibliografias, que me orientaram também nesse sentido. |
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Como a sua pesquisa pode ajudar o professor de ensino básico que se depara com um aluno surdo em sala de aula? Confira a resposta no vídeo a seguir:
Transcrição da resposta: Eu acredito que, independentemente da área do professor, seja de Artes, seja de Matemática, Geografia ou Língua Portuguesa, o rumo que devemos tomar quando encontramos um aluno com deficiência em sala de aula é entender como ele pensa. Não posso estar em sala de aula e pressupor que um aluno surdo pense da mesma maneira que eu. Refiro-me ao aluno surdo profundo, de nascença. Não, ele não vai pensar como eu penso. O pensamento dele é muito mais visual do que o meu. Nós, ouvintes, usamos as palavras no pensamento. O surdo talvez use Libras, mas o seu pensamento é muito mais visual do que o nosso. |
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De que maneira essa diferença no pensar pode dificultar a transmissão de conceitos entre o professor e o aluno surdo? Confira a resposta no vídeo a seguir:
Transcrição da resposta: Há dificuldade de compreensão de conceitos abstratos. A matemática, por exemplo, é formulada de modo abstrato: temos um pensamento abstrato quanto a soma, divisão, multiplicação. Quando o surdo não foi iniciado numa linguagem, terá dificuldades, certamente, quanto ao pensamento abstrato. Ele não entenderá relações de passado ou futuro. Ele está preso no aqui e agora. Eu li pesquisas que diziam que uma criança surda não entendia quando o pai mostrava um livro de fotografias com fotos dela mesma quando era criança de colo, com um ano, dois anos de idade. Ela não se reconhecia naquelas fotografias, em função dessas noções de passado e presente, que parecem inexistentes quando a criança surda não é condicionada a uma linguagem, por meio da Libras. Ela não consegue dar sentido aos signos. |
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Como minimizar o ruído na transmissão de conceitos entre o professor e o aluno surdo? Confira a resposta no vídeo a seguir:
Transcrição da resposta: Peparando essa criança, desenvolvendo a sua linguagem o mais rápido possível. No momento em que a surdez é diagnosticada, a linguagem deve ser acelerada. (Ensinar Libras, não é?) Acho que vai depender da família. Temos duas vertentes nessa questão: a vertente oralista, que consiste no ensino da língua oral para a criança surda, o que é muito mais demorado; e a vertente do bilinguismo, por meio da qual a criança aprende Libras e o português escrito. Geralmente, essa última é a recorrente nas escolas, mas os pais, usando outros recursos, como clínicas de fonoaudiologia, por exemplo, podem optar por o filho aprender pela vertente oralista. |
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Que método você utilizou durante a observação dos alunos e o que mais chamou sua atenção entre os resultados obtidos? Confira a resposta no vídeo a seguir:
Transcrição da resposta: Pesquisei uma criança surda e uma criança ouvinte, para fazer um paralelo com relação ao desenho infantil dessas duas crianças. Eu já trabalhava com a criança surda; só precisei, então, recorrer a uma criança ouvinte. Uma vez por semana, eu ia até a escola propor alguma atividade pra elas – levava objetos para desenharem; às vezes, deixava-as livres. Nesse menino surdo, o que mais me chamou a atenção foi que, em certas ocasiões, ele trazia materiais de casa para desenhar ou, então, desenhava objetos da sala de aula. Por diversas vezes, ele desenhou o ventilador da sala de aula. Desenhou coisas do cotidiano dele, como a brincadeira de pipa. O que mais me chamou a atenção foi o interesse dessa criança surda por desenhar tudo o que ela via. E em tudo o que ela desenhava havia uma referência concreta. Já a criança ouvinte, detia-se a esquemas gráficos, que são, mais ou menos, o que chamamos de estereótipo do desenho infantil. Como a casa, que é configurada com o triângulo e o quadrado embaixo. |
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De que maneira o aprendizado de Libras pode interferir no desenho da criança surda? Confira a resposta no vídeo a seguir:
Transcrição da resposta: Entre as pesquisas que eu li, uma delas referia-se ao caso da menina Nádia, que é bem conhecido entre os pesquisadores do desenho infantil. Era uma menina que, com três anos, tinha um desenho de observação muito aguçado, muito bom. À medida que a linguagem dela foi se desenvolvendo, que foi aprendendo a generalizar as coisas, ela foi perdendo essa capacidade de observação. Mas isso não é uma regra. Tanto que, em outro caso, o daquele menino autista, Stephen, que desenha muito bem – e desenha até hoje, faz exposições, tem livros publicados –, à medida que a sua linguagem foi se desenvolvendo, ele não foi perdendo essa capacidade de desenhar. Essa pesquisa, eu a fiz em 2009, de modo que não tenho mais contato com esse menino surdo com quem trabalhei. Então, não posso dizer como está o desenvolvimento da linguagem dele, tampouco como está o desenho dele. |
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