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A Terra vai virar uma lata de sardinha?

Publicado em: 27/09/2011 - por Gabriela Brandalise

De acordo com estimativas da Divisão de População das Nações Unidas, a ONU, em 2011 a população mundial chegará a 7 bilhões de habitantes. A previsão é de que a população global continue crescendo. Até 2050, o total de seres humanos na Terra pode chegar a 10,5 bilhões. Mas a preocupação não reside somente no número absoluto de pessoas. A má distribuição das populações pelo mundo também assusta. Para se ter uma ideia de como há sobrecarga em alguns locais e vazios em outros, só a China abriga um quinto de todos os seres humanos do planeta enquanto no centro do Brasil existem extensões consideráveis de terras sem habitantes. É o que defende Olga Firkowski, professora do Departamento de Geografia e coordenadora do Núcleo Curitiba do Observatório das Metrópoles. Acompanhe a entrevista.        

A imigração das pessoas contribui para esta concentração desequilibrada?
Sim. Porque na maioria absoluta dos países do mundo as pessoas se deslocam por sua própria iniciativa. Com exceção da China, em que o estado ainda tem um papel de autorizar as pessoas a saírem ou não do seu território, no resto do mundo os habitantes se mudam para onde quiserem. Falta um processo controlado de distribuição de pessoas. Seria necessária uma interferência nas liberdades individuais, mas para o conjunto da sociedade poderia ser positivo no sentido de haver uma orientação da ocupação – ou não – de alguns espaços.

Ainda que o problema hoje não seja, na sua visão, o número absoluto de pessoas, é fato que ele cresce em ritmo acelerado. Antes do século 20, não havia um ser humano que tivesse vivido o suficiente para testemunhar uma duplicação da população mundial. Hoje, já existem pessoas que a viram triplicar. Os caminhos que a medicina encontrou para evitar mortes, a tecnologia, o conhecimento contribuíram para esse aumento?
Não só para o aumento, mas para a longevidade. Antigamente, uma pessoa com 45 anos era considerada velha. Fisicamente, mentalmente, era velha. Hoje, as populações de uma forma geral vivem mais. A alimentação melhorou. Nós não percebemos, mas há compostos vitamínicos que são inseridos em alguns dos farináceos que ingerimos que contribuem positivamente para nossa resistência. Vamos falar um pouco da nossa saúde. Os nossos dentes, por exemplo. As crianças de hoje têm menos cáries do que as de 50 anos atrás. Há doenças que não matam mais. Antigamente, as mulheres morriam no parto e tinham muitos filhos porque sabiam que apenas um ou dois chegariam à idade adulta. Com os remédios, as vacinas e os tratamentos tudo isso mudou. Assim, vivemos mais, o que nos ajuda a entender esse grande número de pessoas no mundo.

As políticas de controle de natalidade já são realidade em países com grande concentração de pessoas?
Já foi o tempo em que as altas natalidades poderiam ser problemas para o Brasil. Aliás, nós estamos entrando em um período de maturidade e, daqui a algum tempo, começaremos a observar o processo inverso, com o envelhecimento da população. Quer dizer que, dentro de alguns anos, o problema não será mais a falta de creches, mas a falta de asilos. A gente vai invertendo a escala dos problemas porque o perfil da nossa população está mudando. A média de filhos hoje é de 3. Antigamente era 4.
No restante do mundo, vemos outras situações. Em alguns países, a política do governo é estabelecer punição para quem tem mais de um ou dois filhos. Em outros, como o Canadá, há incentivos para quem tiver filhos porque a população está envelhecendo. Nesses locais, a licença-maternidade chega a ser de três anos.

Quais consequências a má distribuição de pessoas traz?
O primeiro alerta sobre esse padrão que vivemos hoje diz respeito às concentrações descontroladas, sobretudo nos países pobres. Hoje, mais da metade das maiores cidades do mundo, do ponto de vista populacional, está na parte subdesenvolvida do globo. Essas cidades grandes recebem muita gente todos os anos e não conseguem acompanhar com infraestrutura a demanda dessa população que chega. Os casos que chamam mais a atenção são os de algumas cidades africanas e asiáticas. Qual o resultado disso? Cidades cada vez mais numerosas e com menor capacidade de responder às necessidades das pessoas.

O déficit habitacional também é um reflexo dessa má distribuição?
Sim. As pessoas que chegam aos grandes centros precisam morar. Como acomodar tanta gente? O poder público tem uma baixa capacidade de responder às demandas desse crescimento, o que leva as populações a resolverem sozinhas seu problema habitacional. Por isso, o aumento das ocupações irregulares. O mesmo raciocínio serve para outras questões como a do lixo, a sobrecarga de espaços, o transporte... Um acúmulo de problemas não resolvidos que vão transformando as nossas cidades em grandes problemas.

Sete bilhões de pessoas. É realmente gente demais? É mais do que o mundo pode sustentar?
É muita gente, é gente como nunca existiu em nenhum outro momento histórico. Mas eu acho que a capacidade de suporte do planeta é muito maior do que isso. A questão é que não há um processo de distribuição equilibrada da população pelo planeta, havendo uma concentração muito grande em poucas cidades do mundo. Então o problema não é o número absoluto de pessoas, mas a tendência a concentrações que existe pela própria natureza das cidades, do tipo de ocupações urbanas.
Se você olhar o mapa da distribuição das grandes cidades do mundo, você vai ver que existem concentrações de pessoas na costa nordeste e oeste dos Estados Unidos, na costa litorânea brasileira, com ênfase no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, mas há também locais onde há vazios urbanos. Se você pegar todo o centro do Brasil, há muitas áreas sem pessoas.




Olga Firkowski
Olga Firkowski é doutora em geografia. Atualmente é professora da Universidade Federal do Paraná e coordenadora do Núcleo Curitiba do Observatório das Metrópoles.

 
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