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"Os livros não ficam a dever em nada no quesito qualidade para as grandes editoras. "
Lira Neto
 

Além de proporcionar aos estudantes uma identificação com sua realidade e um conseqüente interesse imediato pelo que aprendem, o projeto – pioneiro e inusitado – mostra que, apesar de persistirem fatos vergonhosos de desvios de verba da educação em diversos municípios do Brasil (especialmente no Nordeste), há prefeituras que se preocupam em melhorar as condições e o enfoque do ensino.


   

Livros didáticos resgatam formação e cultura local de alunos

Material produzido pela Fundação Demócrito Rocha é voltado
para o ensino fundamental em municípios do CE.

No Ceará, uma iniciativa da Fundação Demócrito Rocha (FDR) entidade sem fins lucrativos, mantida pelo jornal O Povo, comprova que a educação brasileira está definitivamente mudando para melhor. O projeto A Criança e a Cidade, criado e gerido pela entidade, tem produzido e lançado livros didáticos de História e Geografia para as séries iniciais do ensino fundamental, que resgatam a formação histórico-cultural e geográfica de cada município do estado.

Além de proporcionar aos estudantes uma identificação com sua realidade e um conseqüente interesse imediato pelo que aprendem, o projeto – pioneiro e inusitado – mostra que, apesar de persistirem fatos vergonhosos de desvios de verba da educação em diversos municípios do Brasil (especialmente no Nordeste), há prefeituras que se preocupam em melhorar as condições e o enfoque do ensino. E mais: aderindo à parceria com a FDR, estão empenhadas na luta pela valorização do cidadão, por meio do conhecimento de sua origem e de seu meio.

Certa de que o cidadão é quem constrói e reconstrói seu espaço, seu tempo, sua cultura e, nesse processo contínuo e dialético, se faz sujeito do mundo, a Fundação Demócrito Rocha está produzindo livros didáticos sobre cada município que aderiu ao projeto (Fortaleza, Caucaia, Sobral, Iguatu, Quixadá, Aquiraz, Itapipoca, Monsenhor Tabosa, Acaraú, Parambu e Tauá). Os livros são elaborados por professores locais, de acordo com orientações pedagógicas de uma equipe da FDR que os imprime e os entrega às secretarias municipais de Educação, para serem distribuídos na rede pública.

Quem fala sobre esse e outros projetos educacionais da Fundação Demócrito Rocha é seu coordenador editorial, o jornalista e escritor Lira Neto. Recentemente Neto lançou, pela FDR, o livro O Poder e a Peste, que reconta a saga do cabra-da-peste Rodolfo Teófilo, médico, escritor e agitador cultural praticamente desconhecido do povo cearense e brasileiro – até o lançamento do livro, que já está na segunda edição.

Contrariando lobistas, colegas da saúde, profetas e oligarquias, Teófilo conseguiu erradicar a epidemia da varíola do Ceará, praticamente sozinho, fazendo ele mesmo as vacinas e a vacinação da população – isso no começo do século 20. São iniciativas como as de Teófilo e da FDR que nos convencem de que é preciso ter vontade para realizar algo. O resto é conseqüência – e o preço, às vezes, nem é tão alto.

Como nasceu o projeto A Criança e a Cidade?

Lira Neto - Tudo começou com dois livros — Construindo o Ceará e Fortaleza e A Cidade e a Criança — elaborados por professores da Universidade Federal do Ceará, por iniciativa da FDR, e lançados no começo dos anos 90. Fizeram muito sucesso no primeiro e segundo ciclo do ensino fundamental e foram considerados pelo MEC os melhores livros didáticos do Nordeste em 1992. Diante do sucesso desses livros, resolvemos ampliar o projeto para outros municípios. Há tempos a Secretaria de Estado da Educação do Ceará tinha um projeto similar. Fechamos então uma parceria com o estado e produzimos mais quatro títulos para os municípios de Monsenhor Tabosa, Acaraú, Parambu e Tauá no segundo semestre de 1999. Depois disso, fomos procurados por uma série de municípios e começamos a ampliar esse leque, passando a assinar convênios diretamente com as secretarias municipais de Educação. Entre 2000 e 2001, produziremos 10 títulos com outros municípios.

Como são produzidos os livros? Há dificuldade para encontrar autores nos municípios?

Lira Neto - Damos preferência para professores locais com experiência pedagógica nas áreas de História, Geografia e também Português, para preparar o texto final. Às vezes é fácil encontrá-los, às vezes não. Mas a gente dá um jeito de ter alguém ligado ao município na equipe de produção. São sempre mais de dois autores, que passam por um processo de capacitação com os professores da UFC que fizeram os primeiros livros. Desde o início da redação até a impressão, o processo é acompanhado pela comissão. Outra coisa interessante é que enviamos um fotógrafo para cada município, para fazer imagens atuais e uma pesquisa iconográfica de imagens de época. Os livros são ilustrados e em cores.

Qual é o custo do projeto para os envolvidos?

Lira Neto - A fundação faz o livro a preço de custo (cerca de R$ 7,00 a unidade) e remunera os autores com direitos autorais. As prefeituras compram os livros para todos os alunos da rede municipal da série a que se destina a obra. Nossa intenção é facilitar a adesão dos municípios e fazer livros para todos eles. Parcelamos em quatro vezes o preço da impressão. As tiragens são de 1 a 10 mil exemplares. Os livros são distribuídos gratuitamente na rede pública. Se colégios particulares querem adotá-los, fazemos uma tiragem extra e a colocamos nas lojas. Mas a prioridade é o estudante da escola pública.

Qual tem sido o maior retorno do projeto?

Lira Neto - Participamos dos lançamentos e é impressionante a alegria das crianças ao verem fotos de sua rua, de seus amigos e de sua escola nos livros. Existe uma tremenda receptividade, também dos professores, porque não são livros frios, distantes. Hoje, as crianças sabem o nome dos rios Tigre e Eufrates, mas se esqueceram do Jaguaribe e do Ceará, por exemplo. Queremos romper essas fronteiras, aproximar o universo da escola dos estudantes. Os livros não ficam a dever em nada para as grandes editoras no quesito qualidade. Quanto ao retorno em salas de aula, ainda não podemos dizer muita coisa, porque a maioria dos livros será adotada em 2000. Podemos dizer, sim, que a visibilidade pública do projeto está superando nossas expectativas.

A FDR esperava o sucesso do projeto e tantas adesões a ele?

Lira Neto - Eu diria que sim e não. Sabíamos que existia uma lacuna enorme no mercado de livros didáticos e no ensino de História e Geografia (com um enfoque diferente). Que eu saiba, não há outra iniciativa como a da FDR, de produzir material com "sotaque" regional, que investigue e valorize culturas locais. A história dos municípios começa com os índios. Mas ficamos supresos mesmo foi com a sensibilidade por parte de alguns gestores municipais do Ceará. Percebemos que existem administradores que estão cientes da importância da educação na busca da identidade e cultura. A gente só ama verdadeiramente aquilo que a gente conhece. Essas referências começam na escola.

Qual é o envolvimento do MEC com essa iniciativa?

Lira Neto - Todos os livros dessa coleção obedecem aos novos parâmetros curriculares do MEC. Os dois primeiros lançamentos estão incluídos no Programa Nacional do Livro Didático (o MEC compra o livro e distribui). Nossa intenção também é conseguir inscrever os outros livros nesse tipo de distribuição.

Quais são os outros projetos educacionais da FDR e seu grau de prioridade?

Lira Neto - A fundação existe há 15 anos e ao longo deles tem-se destacado com projetos educacionais. Realizou 30 cursos por ensino a distância — o projeto Universidade Aberta do Nordeste. Fazemos fascículos semanais que são distribuídos por mala direta e já eram encartados no jornal O Povo, bem antes da febre dos "anabolizantes editoriais". São cursos de Filosofia, Turismo, Administração de Empresas e até História do Ceará (que virou livro). Hoje, o projeto A Criança e a Cidade é prioritário na FDR. Outro braço forte são outros didáticos, que também englobam coleções sobre Ciências, Língua Portuguesa, História, Geografia e educação infantil (pré-escolar) – todas com sotaque regional —, livros paradidáticos e três novas coleções a serem lançadas em 2000: Clássicos Cearenses (obras raras e de referência da historiografia e literatura, que foram editadas nas últimas três décadas), que terão um volume por mês, em edições standard e luxo; Terra Bárbara (nome de um poema de Jader de Carvalho), que tem 30 títulos de livros de bolso com perfis biográficos de personagens cearenses; e a coleção de literatura infantil, ainda sem nome, trazendo personagens, histórias e situações típicas cearenses ou nordestinas. Estamos caçando mais talentos para essa coleção. Os que apareceram até agora nos deixaram surpresos com a qualidade dos textos e das ilustrações. Estamos descobrindo artistas.

E títulos avulsos, como seu livro O Poder e a Peste? Você já está trabalhando em outro tema?

Lira Neto - Uma das finalidades da fundação é editar o que as editoras comerciais não editariam sem garantias de vendas. É claro que queremos boas histórias e bons textos, mas que, trabalhem principalmente com resgate histórico e cultural de temas brasileiros. Qualquer pessoa pode remeter seus originais para nós. O Poder e a Peste saiu com 3 mil exemplares e já está sendo publicada a segunda edição – o que para uma editora pequena e um autor nordestino pode ser considerado um best-seller (risos). Estou trabalhando na biografia de José de Alencar. A gente conhece sua obra e não sua vida – que foi turbulenta e cheia de episódios interessantes.

Contatos:

Fone: (85) 255-6270

E-mail: fundacao@opovo.com.br

Juliana Resende/BR Press
Especial para o Educacional

         
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