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"Ninguém tem e provavelmente nunca terá a menor idéia de como foi o Bacharel."
Torero e Pimenta
 
Repleto de realismo, o diário de navegação de Cosme Fernandes detona Cabral, fala de fura-buchos a bordo, insalubridade total, delírios e crenças de que uma hora as caravelas iam "entornar" — já que a maioria dos homens pensava que o mundo era plano.

   

Terra Papagalli faz o Brasil entender o caótico Brasil

Misturando fatos históricos com saborosa ficção, os autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta narram, pela ótica de um degredado que chega aqui com Cabral, a origem dos desmandos na Terra dos Papagaios

Agora mais do que nunca, com a chegada da efeméride dos 500 anos de descobrimento do Brasil pelos portugueses, pipocam lançamentos de publicações didáticas, romanceadas, juvenis, burlescas e até enfadonhas sobre o tema. Em meio a uma avalanche de livros que recontam a história do Brasil — recuperando episódios e períodos esquecidos ou personagens obscuros — está uma pérola: Terra Papagalli (editora Objetiva), escrito a quatro mãos pelos jornalistas e escritores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta.

O livro foi lançado bem antes do furor quinhentista marqueteiro — em 1997 — e narra as aventuras e desventuras de um degredado (condenado ao despacho para o Novo Mundo): Cosme Fernandes, mais conhecido nos trópicos como Bacharel de Cananéia.

Se você não faz idéia de quem seja esse homem, não se preocupe. Nem mesmo os autores sabem. Segundo os próprios, há pouquíssimos registros de sua vida no Brasil — na qual a maior proeza foi ter vendido, de uma só vez, 800 escravos índios. Como Cosme Fernandes "armazenava" e mantinha tantos homens? Para os padrões daqueles tempos, isso era se dar bem.

Mas a saga não teve mamata em quase nada. Ele chegou com uma mão na frente e outra atrás na "Terra dos Papagaios", esbaforido, inchado de tanto comer biscoitos podres, como passageiro (com bilhete só de vinda) de uma das 13 naus comandadas por Pedro Álvares Cabral. Com ele vieram outros degredados, condenados por crimes diversos. Entre os colegas estava alguém mais conhecido em aulas de história: João Ramalho.

Os autores contam que a idéia inicial do livro era narrar a vida de João Ramalho. No entanto, ao pesquisar sobre ele, encontraram o soturno Cosme Fernandes. "Trocamos de personagem porque Cosme dava mais margem à ficção, sem termos de deixar de lado o clima da época", conta Torero. E lá se foram 13 versões, escritas em revezamento com Pimenta, para que finalmente saísse o Terra Papagalli que está nas livrarias e que tem sido adotado por várias escolas. "Achamos ótimo que numa escola o professor pediu aos alunos para que achassem notícias recentes em jornais que correspondessem aos 10 mandamentos para o bem viver na Terra dos Papagaios (veja lista abaixo)", diz Torero. "Eles acharam aos montes. A graça não é explicar o passado, mas fazer com que através dele as pessoas possam entender o presente", completa.

Terra Papagalli é uma pândega — ou como se lê no subtítulo "narração para preguiçosos leitores da luxuriosa, irada, soberba, invejável, cobiçada e gulosa história do primeiro rei do Brasil". Escrito com talento, em linguagem do século 16 com tom jocoso, em que se intercalam cenas de humor pastelão com fatos históricos, o livro se estrutura em formato de carta do Bacharel ao Conde de Ourique. Espertos, os autores mesclaram formatos de três "best sellers" da época: diários de navegação, dicionários e bestiários.

Repleto de realismo, o diário de navegação de Cosme Fernandes detona Cabral, fala de fura-buchos a bordo, insalubridade total, delírios e crenças de que uma hora as caravelas iam "entornar" — já que a maioria dos homens pensava que o mundo era plano. O dicionário é, na verdade, um glossário básico da língua dos tupiniquins, em que se misturam termos absolutamente verdadeiros, como jururu ("estou triste..."), e debochados como nhenhenhém ("falar, falar, falar..."). O bestiário descreve seres como a ostra — "uma pedra que se abre por sua própria vontade" —, entre minotauras, maritacas, sucuris e outras criaturas.

Torero prepara agora um livro sobre "bastidores da política brasileira, ficcional como Terra", enquanto escreve roteiros para televisão e para um documentário sobre Pelé. Entre um parágrafo e outro, ele e Pimenta conversaram sobre a interpretação da história do Brasil, sobre a conturbada origem de um país que ainda não se entende, e sobre como seu trabalho pode contribuir para clarear as "cousas".

Como e por que nasceu a idéia de contar a experiência de um degredado?

Torero e Pimenta - Francamente não sabemos o porquê de não se ter escrito sobre os degredados antes. A história deles todos tem lances rocambolescos, fundo histórico, choque de culturas, superação de obstáculos, enfim, uma série de elementos que costumam resultar num bom texto

Como foi o processo de pesquisa sobre Cosme Fernandes?

Torero e Pimenta - A pesquisa básica foi a mais comum possível: livros sobre a história da época, embora o Cosme Fernandes seja um personagem enigmático. Dele sabemos que foi condenado ao degredo e que, trinta anos depois, sabe lá Deus como, já era um líder em Cananéia e administrava um complexo sistema de captura, armazenamento e venda de selvagens citado pelo navegador espanhol Diogo García de Monguer, que comprou dele 800 escravos. Lemos também dicionários de tupi, alguns bestiários (algo como enciclopédias medievais sobre animais, existentes ou não), diários de navegação e algumas peças de Gil Vicente para aprendermos um pouco o modo de escrever e falar daquela época.

O livro é uma paródia. Vocês acrescentaram, por conta do sabor literário, muito humor na história real ou o personagem era mesmo meio aloprado?

Torero e Pimenta - O humor foi todo acrescentado. Ninguém tem e provavelmente nunca terá a menor idéia de como foi o Bacharel.

Como se deu o processo de criação do texto? Vocês tomaram cuidado para não exagerar na ficção? Houve muita preocupação com a precisão e o rigor ao narrar fatos históricos?

Torero e Pimenta - Um dos fundamentos do romance histórico tradicional é passar uma idéia convincente de realidade, até para que o leitor possa se instruir um pouco ao mesmo tempo em que vive a sensação de estar naquela época. Por isso, lemos mais de 50 livros e procuramos nos manter, senão fiéis aos fatos, pelo menos ao espírito do tempo.

Cabral, por exemplo, é citado como um marinheiro de primeira viagem? É isso mesmo, na verdade?

Torero e Pimenta - É, é verdade. Cabral teve participação nas lutas de Ceuta, hoje no Marrocos, mas não tinha qualificações para comandar a armada. Bartolomeu Dias, o descobridor da passagem pelo Cabo da Boa Esperança, era muito mais experiente. Aliás, Bartolomeu Dias era uma azarado: depois de passar pelo Cabo, ele continuou navegando pela costa de Moçambique e, se não fosse um motim, teria chegado às Índias antes de Vasco da Gama. Na viagem de Cabral, ele morreu após uma grande tempestade.

O livro foi escrito já tendo como "gancho" os 500 anos do descobrimento?

Torero e Pimenta - Não, o Terra começou a ser escrito em fins de 1994 e foi lançado em 1997. Se esperássemos três anos, com certeza a cobertura da mídia teria sido mais compacta, direcionada e eficiente. Mas, dessa forma, achamos que escapamos de fazer um livro de ocasião, oportunista.

Como Terra Papagalli foi recebido por historiadores? O livro foi adotado em escolas?

Torero e Pimenta - Tirando Jorge Caldeira e Eduardo Bueno que gostaram, não podemos dizer se os historiadores em geral acharam o livro bom ou não. Ele foi adotado em várias escolas geralmente num trabalho conjunto entre professores de história e português. Quanto às vendas, foram mais de 10 mil exemplares, o que se não é uma marca ruim, também não é fascinante.

O que vocês acham do ensino de história do Brasil?

Torero e Pimenta - Talvez estejamos desatualizados para responder a esta pergunta. Na nossa época, ainda sob o tacão do golpe militar de 64, se ensinava história com aquele lastro heróico e fantasioso, como que para despertar nos alunos algum tipo de orgulho cívico. Claro que isso mudou, mas não sabemos exatamente para que lado. De todo modo, história é a aula que tem o potencial mais interessante entre todas as matérias, pois sempre se trata de pessoas vivendo situações extremas e tendo de tomar atitudes que influenciarão a vida das outras; cabe ao professor saber passar esse fundo dramático para que os alunos se interessem e se sintam envolvidos como se estivessem assistindo a um filme.

Vocês acreditam que uma narrativa saborosa, como a paródia, é mesmo a receita para conquistar leitores preguiçosos? Em caso afirmativo, poderíamos dizer que esse tipo de linguagem é responsável pelo sucesso de Terra Papagalli, assim como os livros de Eduardo Bueno? Qual é a principal contribuição que estes livros trazem?

Torero e Pimenta - O tom bem-humorado sempre facilita a conquista de leitores; mas isso vale também para a história de amor, para o enredo policial e até para o esoterismo barato. Quanto à boa acolhida do Terra, talvez isso se deva, como já dissemos acima, a um genuíno interesse dos leitores pela revisitação da história em termos menos heróicos e mais humanos. Talvez a maior contribuição de livros como Terra Papagalli e os de Eduardo Bueno seja narrar a história de uma forma mais saborosa, sem os vícios de uma visão oficialesca, marxista ou estruturalista.

Vocês acreditam que os 500 anos de "descobrimento" — entre aspas, porque a terra que foi chamada de Brasil já existia — possam contribuir para que os brasileiros entendam melhor o Brasil?

Torero e Pimenta - A maioria dos brasileiros acompanha essa história de 500 anos pela televisão, onde o tema é tratado de modo festivo e alienante. A minoria, que lê e faz um esforço intelectual para entender o estado e os rumos do país, era minoria antes e continuará sendo depois. O que talvez aconteça é que alguns da maioria passem para a minoria.

Como vocês interpretam o pedido oficial de desculpas da Igreja católica pelas atrocidades cometidas por ela, ou com a conivência dela, no processo de colonização do Brasil?

Torero e Pimenta - É um tanto estranho que o Papa, que segundo o dogma eclesiástico da infalibilidade papal não comete erros, peça desculpas pelos atos de outro Papa que também era tão infalível como ele.

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10 MANDAMENTOS PARA BEM-VIVER NA TERRA DOS PAPAGAIOS:

  1. É preciso saber dar presentes com generosidade e sem parcimônia, porque os gentios que lá vivem encantam-se com qualquer coisa, trocando sua amizade por um guizo e sua alma por umas contas.


  2. Quando aparecer alguma dificuldade, mesmo que seja de simples solução, é preciso fazer alarde, espetáculo e pompa, pois nesta terra mais vale o colorido do vidro que a virtude do remédio.


  3. As gentes da Terra dos Papagaios são muito crentes e de fácil convencimento. Por isso, têm em alta conta os feiticeiros, os falsos profetas e vai a coisa a tanto que não há patranheiro que lá não enriqueça e prospere. E assim é, senhor, que por serem tão crédulos aqueles gentios, pode-se-lhes mentir sem parcimônia nem medo de castigo.


  4. É aquela terra onde tudo está à venda e não há nada que não se possa comprar, seja água ou madeira, cocos ou macacos. Mas o que mais lá se vende são homens, que trocam-se por qualquer mercadoria e são comprados com as mais diversas moedas.


  5. Desde o primeiro, são os funcionários daquela terra um tanto madraços e preguiçosos, e, se na frente de seus superiores parecem retos, quando esses lhes dão as costas, revelam-se muito astutos e só nos atendem se lhes damos algo em troca. Portanto, senhor conde, se fordes para lá não se esqueça de ser generoso com eles, pois lá as portas não são abertas com chaves de ferro, mas com moedas de prata.


  6. Naquela terra de barganhas fazem muito sucesso e não há quem resista a um pequeno regalo. Por isso, é preciso dar sempre um afago aos que podem comprar, pois entre dois mercadores, naquela terra não se escolhe o mais honesto, mas o que oferece mais mimos.


  7. Naquele pedaço de mundo, senhor conde, não se deve confiar em ninguém, pois se no sábado nos juram eterna fidelidade, no domingo nos enfiam uma espada pela garganta. A verdade é que lá tudo se rege pela conveniência, e sendo preciso, troca-se de bandeira como as mulheres trocam de pano em dia de regra.


  8. Na terra que se chama dos Papagaios, cada um cuida de si e Deus que cuide de todos, pois pouco se faz por um irmão, nada por um primo e menos coisa nenhuma por um amigo, de modo que cada um só quer saber do seu nariz e, se alguém faz algo por outrem, é a troco de paga ou medo.


  9. Naquelas paragens, quando se alevantam alguns, o melhor modo de quietá-los é dar-lhes emprego ou título, porque os daquela terra muito prezam serem chamados de senhores e não há um que troque honradez por honraria.


  10. E o resumo de meu entendimento é que naquela terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido.


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Juliana Resende/BR Press
Especial para o Educacional

         
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