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Domenico de
Masi adverte:
"Escola é inimiga do ócio criativo"
O sociólogo italiano Domenico de Masi,
autor de diversos e revolucionários livros entre eles,
os best sellers Desenvolvimento sem trabalho (Editora Esfera, R$
15,00) e A emoção e a regra (Ed. José Olympio,
R$ 39,20) , é um dos mais polêmicos e inovadores
pensadores da era pós-industrial. de Masi esteve no Brasil
durante a última semana de abril, para lançar o livro
O ócio criativo (Ed. Sextante, 328 págs. R$ 27,00).
Entre várias atividades, fez três palestras em São
Paulo: uma promovida pela livraria e editora Saraiva, no hotel Intercontinental,
outra nas Faculdades Domus e a terceira no último domingo
(30/04), na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
Todas estiveram lotadas, com um público
variado composto por empresários, professores, estudantes,
profissionais de marketing, letras e, claro, trabalhadores. Nas
Faculdades Domus, de Masi recebeu o título de professor emérito,
"por suas relevantes contribuições nas Ciências
Sociais". Ele agradeceu, sem muitas delongas, abreviando formalidades,
com seu jeito encantadoramente "carcamano" de ser. O italiano
está na crista da onda nos círculos de intelectuais
brasileiros quase como a novela Terra Nostra, no auge do
drama, esteve para a massa.
De Masi, como definiu a jornalista italiana
Maria Serena Palieri, cuja entrevista com o sociólogo se
transformou no livro O ócio criativo, é um militante
pela "redistribuição do tempo, do trabalho, da
riqueza, do saber e do poder". Proferindo frases de efeito
do tipo "o homem que trabalha perde tempo precioso", de
Masi faz todo tipo de gente parar e questionar por que correr tanto
para ganhar dinheiro e acumular bens.
Em seu discurso simples e lógico, não
há razão nem vida longa aos workaholics mesmo
porque o desemprego ronda a globalização como urubu
em torno de carniça e a mão-de-obra humana está
sendo substituída por máquinas. E o tempo livre que
foi delegado à humanidade ou conquistado por ela pode e deve
ser bem aproveitado e nunca "amargado" em depressão.
"Dos 6 bilhões de habitantes do
mundo, somente 1,5 trabalham o resto não conhece ou
não tem acesso ao ritmo pós-industrial de trabalho",
contabiliza de Masi, na introdução de seu raciocínio.
"Se a vida média útil de um ser humano tem hoje
cerca de 530 mil horas, o tempo médio gasto com o trabalho
é de apenas 80 mil horas (considerando a jornada universal
de 40 horas por semana). Restam 220 mil horas, passadas dormindo,
e mais 220 mil horas livres, reservadas para a pessoa fazer o que
lhe der na telha. Esse tempo pode ser aproveitado de maneira criativa,
saudável e produtiva, no sentido mental e físico."
Ditadura da correria
Como não concordar com ele? O trabalho,
de acordo com as leis e com o advento da tecnologia, foi reduzido
à metade neste século. No entanto, o modelo de civilização
desenvolvida, adotado pelos EUA e Japão, pragmatiza o trabalho
como a principal razão de viver. "Todos correm como
loucos, nunca têm tempo para nada nem mesmo para usufruir
da riqueza que acumularam. Os norte-americanos vão a supermercados
nos feriados comprar coisas inúteis, acumulando dívidas
que passarão a vida pagando e trabalhando para isso.
Vocês, brasileiros, têm um ritmo cultural de vida que
ainda pode escapar dessa ditadura!", conclama de Masi, animado.
Nessa altura, a platéia está boquiaberta.
Simpático e bonachão, o professor
italiano continua sua aula em defesa do ócio criativo, ou
seja, do aproveitamento do tempo livre de cada dia ou noite.
Ele defende que, no caso de trabalhadores intelectuais (especialmente
os professores) aqueles que usam mais o cérebro do
que o corpo, e que são maioria na sociedade pós-industrial
, as melhores sacadas podem brotar na hora em que não
têm absolutamente nada a fazer a não ser deixar
a mente viajar. Não é preciso forçar esse estado
de letargia. Ele vem naturalmente, quando a pessoa consegue relaxar
coisa difícil na era do consumismo e da informação.
"Podemos gastar nosso tempo livre com
atividades que não nos cansam ou alienam, mas que nos excitam.
Os despertadores e burocratas são os maiores inimigos do
ócio criativo", diz. "Só que as pessoas,
consumidas pelo trabalho, não percebem como aproveitam mal
seu tempo livre. Não lembram sequer que têm direito
a ele", continua. Em tempo: De Masi lembra de outros inimigos
do ócio criativo a religião e a escola. "A
Igreja prega o trabalho como um 'castigo divino' e a escola prepara
indivíduos para seguirem o modelo atrofiante da sociedade
consumista."
Autonomia e sabedoria
É claro que, para usufruir da liberdade
com autonomia e sabedoria, é preciso praticar "a educação
para o ócio". de Masi alerta que a sociedade pós-industrial
já se encarrega também de programar nosso tempo livre.
"Enquanto estamos aqui, os produtores de Hollywood estão
trabalhando em filmes para assistirmos; os McDonald's estão
fabricando novos sanduíches para comermos e a televisão
está anunciando programas que não podemos perder."
De Masi adverte: para sermos, de fato, donos
do nosso destino, é preciso refletir sobre ele e isso só
é possível com o ócio criativo. Certo de que
o stress causado pelo excesso de trabalho e pela supervalorização
dele só leva certeiramente a um destino mais rápido
a morte , de Masi salienta que a beleza e o prazer
da vida está, principalmente, em coisas que fazemos "sem
gastar um tostão": fazer amor, encontrar amigos, folhear
uma enciclopédia, meditar e deixar o tempo correr, sem nenhuma
ansiedade.
Certo também de que o comunismo, embora
quisesse distribuir a riqueza mas não soubesse produzi-la,
perdeu terreno para o capitalismo, que sabe produzir riqueza mas
não distribuí-la, de Masi alimenta a possibilidade
de criar um novo sistema político, que possa se adequar às
necessidades humanas e não fazer dos indivíduos
reféns dele. Otimista? "Sim, acho que evoluímos
muito, apesar de tudo. Temos um futuro brilhante nas mãos
e temos tempo de sobra para aprendermos a conduzi-lo em nosso
favor". Domenico de Masi é professor titular do curso
de Sociologia da Universidade La Sapienza, de Roma, membro do comitê
científico de várias revistas italianas e diretor-responsável
da revista Next - Strumenti per l'Innovazione (que pode ser editada
no Brasil, encartada no jornal Valor Econômico), além
de atuar como consultor organizacional, por meio de seu instituto-escola
S3 Studium, para empresas como Fiat, IBM e Pirelli.
Como se vê, trabalho é o que não
falta a de Masi. Mas, entre uma palestra e outra no Brasil, ele
achou tempo para conceder a entrevista a seguir.
Como o senhor chegou às suas conclusões
sobre o ócio criativo?
Domenico de Masi - Estudei primeiro
o trabalho dos operários; depois o trabalho dos empregadores.
Com o aumento do trabalho intelectual no sistema produtivo, notei
que havia uma distinção cada vez mais tênue
entre o trabalho propriamente dito e a criatividade. E sendo a criatividade
a principal ferramenta do trabalho, fica difícil distinguir
os momentos em que estamos de fato trabalhando duro ou os momentos
em que, mesmo usufruindo de tempo livre, estamos criando coisas.
Isso acontece comigo: não sei quando estou trabalhando ou
me divertindo estou sempre tendo idéias, criando.
Então, estudando esses grupos de trabalho sustentados pela
criatividade, percebi que todos trabalhavam com o auxílio
de jogos, brincadeiras, atividades lúdicas. Demonstrei que
todos os grupos de criatividade trabalham como se fosse lazer. Sobre
esse estudo, escrevi o livro A emoção e a regra.
É possível todos os trabalhadores
desenvolverem essa relação entre trabalho e lazer,
ou seja, tornar seu trabalho mais prazeroso?
Domenico de Masi - Depende do tipo de
trabalho que você faz. Temos aquele trabalho que casa com
o estudo. É como um jornalista ou o trabalho de um cientista.
Ou estudar medicina com alguém divertido. Ou o trabalho de
um ator. O problema é unir as duas coisas e ter uma atividade
na qual coexistam estudo, trabalho e tempo livre. O segredo é
buscar uma interseção entre tudo isso. Assim qualquer
pessoa poderá vivenciar melhor seu ócio criativo.
Transportando essa relação
para a escola, então...
(De Masi mostra um gráfico em que desenhou três esferas:
uma com nome trabalho, outra com o nome lazer e outra referente
ao tempo livre. Ele simplesmente faz um sinal com a caneta, mostrando
o que acontece na prática.)
Domenico de Masi - A escola tradicional
só faz interseção com o trabalho. Nunca com
o lazer e o tempo livre.
Qual seria a maior falha dos atuais sistemas
de ensino, já que a escola e os professores são considerados
pelo senhor como os principais inimigos do ócio criativo?
O que pode ser feito, em termos de transmissão de conhecimento,
para que essa realidade comece a mudar?
Domenico de Masi - Para começar,
as escolas devem abolir, a todo custo, a imagem ou idéia
de que o estudo deve ser algo penoso e chato exatamente como
o trabalho. No entanto, o sistema pede que as escolas preparem as
crianças para serem trabalhadores eficazes. É preciso
que as escolas incorporem mais atividades lúdicas, que provoquem
espaço para a reflexão e o questionamento.
Por outro lado, é necessário
que professores se aperfeiçoem para tornar a transmissão
de conhecimento algo mais interessante e menos massacrante, mecânico.
O professor que não tenha ido à Europa, ou sequer
navegado pela internet não pode ensinar nada a ninguém.
O professor que não usa a internet é um delinqüente!
(risos) É preciso resgatar a dignidade entre escolas, professores
e alunos. Acho que essa mudança vai acontecer naturalmente,
à medida em que morrem os professores antigos e chegam os
jovens. Para os jovens, a criatividade simplesmente flui.
No Brasil, há 40% de analfabetos
e a maioria dos professores é mal remunerada, têm deficiências
de formação e, efetivamente, não tem condições
de ir à Europa ou de navegar na internet. O que fazer então?
Domenico de Masi - Não estou
falando para o universo dos analfabetos nem do ensino público
brasileiro, e sim para o universo dos alfabetizados, em especial
os professores. E, se os professores brasileiros são carentes,
o país é carente. Esse é o problema primordial
do Brasil. Os ricos, a elite, parecem não entender isso.
Está principalmente na mão da elite brasileira resolver
ou não essa questão. Só ela tem as ferramentas
para isso. É sua contribuição social. O Brasil
tem dois países num só o dos ricos e o dos
pobres.
Falando de questões da sociedade
pós-industrial, como a globalização e o desemprego,
como o desempregado pode desenvolver seu ócio criativo?
Domenico de Masi - Se o desempregado
é rico, então tudo bem! Há dois tipos de desempregados:
o pobre financeiramente e intelectualmente e o rico financeiramente
e com boa formação intelectual. Esse pode se ocupar
de música, literatura, cinema e tem mais chances de desenvolver
seu ócio de maneira criativa. O pobre precisa comer, precisa
de dinheiro. O pobre tem de se ocupar com a sobrevivência.
O ócio criativo é um problema de ricos, para quem
já tem um mínimo de estrutura garantida.
Qual é o projeto que o S3 Studium
pretende desenvolver no Brasil? O que é preciso para os interessados
participarem dele?
Domenico de Masi - Fechamos um acordo
com a faculdade Getúlio Vargas para criar em São Paulo
uma sede da escola. Formamos jovens para que se tornem planejadores
de uma empresa, escola, jornal ou bairro. Estamos formando
agora os professores. Depois, em 2001, começaremos a formar
alunos brasileiros. Ainda não estamos selecionando alunos,
mas eles só precisam ter um diploma universitário
e vontade de mudar o sistema para se juntarem a nós.
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Juliana Resende/BR Press
Especial para o Educacional
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