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"A filosofia da escola é a busca da formação do indivíduo mais participativo, mais solidário, crítico e responsável por mudanças em si mesmo e na comunidade."
Dirce Cerri
 

Dirce Cerri fala sobre o modelo pedagógico, os objetivos e as conquistas da Escola Paulista e sobre os desafios que se descortinam a cada dia quando a meta é formar, além de ensinar e aprender.


   

Escola Paulista festeja a conquista de formar cidadãos



Maio é um mês agitado na Escola Paulista — sinônimo de excelência em ensino, situada na zona norte de São Paulo. É quando alunos, professores, pais e membros da comunidade se reúnem para trocar experiências e realizar as atividades que compõem o evento Escola Viva — já famoso no bairro. Este ano, as atividades e projetos do evento foram promovidos de 11 a 13/05. Até o escritor e cartunista Ziraldo foi prestigiar o Escola Viva 2000.

Os trabalhos, desenvolvidos durante todo o ano letivo passado, foram expostos em quatro núcleos: Comunicação, Cidadania, Meio Ambiente e Saúde. Na área de Comunicação, os alunos apresentaram pesquisas relacionadas ao fim do milênio e aos 500 anos de descobrimento do Brasil pelos portugueses; na área de Cidadania, a Escola Paulista mostrou por que é uma das poucas escolas a participar do Projeto Aprendiz, dirigido pelo jornalista Gilberto Dimenstein, e como tem envolvido seus alunos na busca das raízes do modus vivendi dos moradores da zona norte; na área de Meio Ambiente, alunos e professores incrementaram a já iniciada campanha São Paulo Verde, trocando mudas de árvores por latas de alumínio; na área de Saúde, foram enfocados a industrialização de alimentos, doenças e medicamentos, medicina alternativa e primeiros socorros.

Em meio a esse sarau de conhecimento e atividades, ainda houve espaço para as artes: o grupo de teatro da Escola Paulista encenou uma montagem da peça O auto da compadecida, de Ariano Suassuna, o grupo de dança apresentou o musical Os imigrantes de nossa comunidade e o coral cantou, acompanhado de violão e flauta, sua versão dos 500 anos do Brasil. Foi realizada também uma feira do livro, com a presença de editoras e escritores convidados.

A arquiteta dessa festa e de todo o projeto da Escola Paulista é a professora e pedagoga Dirce Cerri. Certa de que a escola deve ser um espaço em que professores e alunos interagem, buscando crescimento e desenvolvimento mútuos como seres humanos e cidadãos, ela fundou a instituição há 34 anos. Hoje, a Escola Paulista tem cerca de 120 professores e funcionários a serviço de mais de 1.300 alunos de educação infantil e ensinos fundamental e médio.

"É no Escola Viva, que promovemos por ocasião do aniversário de nossa escola, que vemos nossos alunos entusiasmados e orgulhosos de suas conquistas, de seu aprendizado", diz a professora. "O mais importante é saber que estamos formando cidadãos íntegros e participativos que vão atuar na construção de um novo país."

A seguir, Dirce Cerri fala sobre o modelo pedagógico, os objetivos e as conquistas da Escola Paulista e sobre os desafios que se descortinam a cada dia quando a meta é formar, além de ensinar e aprender.

Como nasceu a proposta de desenvolver atividades paralelas nas áreas de Comunicação, Cidadania, Meio Ambiente e Saúde com os alunos? Quais são os critérios de formação das equipes — quais séries participam, a participação é voluntária, vale nota?

Dirce Cerri - A filosofia da escola é a busca da formação do indivíduo mais participativo, mais solidário, crítico e responsável por mudanças em si mesmo e na comunidade. Ao longo do tempo, temos desenvolvido na escola o processo da transdisciplinaridade. A comunicação entre as áreas sempre foi trabalhada. Para desenvolvê-la de uma forma mais efetiva, dividimos o trabalho em núcleos, cada qual com seus objetivos, tendo como meta a ação na cidadania. A formação das equipes a partir da 4ª série se dá por afinidade e é voluntária, tanto por parte dos professores como por parte dos alunos. Com os menores, da educação infantil à 3ª série, isto se faz através da participação do professor e da orientação pedagógica de forma mais direcionada. Esses trabalhos são analisados e recebem conceitos que chamamos de nota livre, pois ainda trabalhamos com notas. A nossa comunidade de pais ainda não está preparada para tirar definitivamente as notas de 0 a 10.

A adesão dos alunos tem sido significativa? Qual é o retorno também mais significativo que a escola vem recebendo com tais atividades?

Dirce Cerri - Sim. O retorno mais significativo é a participação voluntária em eventos e projetos em que os alunos se envolvem solidariamente, sendo mais cooperativos, mais críticos, atingindo, assim, nossa filosofia.

A Escola Paulista tem algum tipo de apoio cultural ou patrocínio para o evento Escola Viva?

Dirce Cerri - No momento, temos a parceria do projeto São Paulo Verde e do projeto Defesa do Patrimônio Histórico. Não temos patrocínio, estamos buscando recursos.

Qual é o envolvimento efetivo da comunidade com a Escola Paulista? Quais são os resultados mais significativos?

Dirce Cerri - São mais cooperativos nos projetos, quando trabalhamos a solidariedade. Arrecadamos quase duas toneladas de alimentos, mais de 3 mil livros de histórias para orfanatos, fizemos campanha de agasalhos e outros. As pessoas estão despertando para a importância da conservação do meio ambiente. Já plantamos árvores na comunidade e, no momento, estamos distribuindo mudas de passarinheiras nativas da região. Estamos iniciando também um trabalho de defesa do patrimônio histórico da zona norte.

Quais são as atividades da Escola Paulista no Projeto Aprendiz do Futuro?

Dirce Cerri - Estamos iniciando o trabalho no Projeto Aprendiz. Temos alunos do ensino médio compondo o núcleo de design social, com o objetivo de montar uma homepage que trabalhará temas transversais.

Como pedagoga e diretora da Escola Paulista, a senhora presta consultoria a outras instituições de ensino que queiram implantar atividades semelhantes às do Escola Viva?

Dirce Cerri - Qualquer escola pode realizar esse trabalho. A Escola Paulista Viva é a própria escola na prática, segundo um processo de pesquisa, investigação, análise e conclusão. É a metodologia científica em ação.

Qual é sua opinião sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e sobre as atuais mudanças nas avaliações dos alunos e das escolas propostas pelo MEC?

Dirce Cerri - Muitos esquecem que os PCN são apenas referências curriculares, não leis, e como tal são uma excelente contribuição, melhor do que qualquer proposta de currículo mínimo nacional. Já as Diretrizes Curriculares são leis, dando as metas e objetivos a serem buscados em cada curso e, da mesma forma, são muito boas. Contudo, o grande problema é adequar-se às novas necessidades e anseios da sociedade que aqueles documentos propõem. Esse é o grande desafio da Escola como instituição.

Quanto às avaliações dos alunos e das escolas pelo MEC, é uma obrigação constitucional avaliar e garantir a qualidade da educação. Não nos cabe discutir se deve ou não ser feita, apenas como pode ser feita da melhor maneira. Assim, acredito que o Enem é um avanço, ainda que imperfeito, que devemos respeitar e apoiar.

Ao longo desses 34 anos de trabalho, quais têm sido as principais vitórias da Escola Paulista?

Dirce Cerri - Creio que a maior de todas é o reconhecimento dos nossos pais, alunos e de toda a comunidade pelo bom trabalho que temos desenvolvido. Prova concreta desse reconhecimento é o crescimento constante da nossa escola nesses últimos anos, apesar dos tempos difíceis que estamos vivendo. A nossa maior vitória é perceber que o nosso ideal de educação está sendo alcançado e realizado, pois as famílias, cada vez mais, nos confiam seus filhos para a sua formação.

Na sua opinião, qual é o grande desafio e papel da escola nos tempos atuais e num futuro próximo, já que vivemos a chamada Era da Informação?

Dirce Cerri - Vivemos tempos de profunda transformação, o que é maravilhoso e assustador, pois nos faz agentes maiores desse processo histórico e desse desafio. Acredito que a escola passará por grandes mudanças, para as quais, aliás, já estamos nos preparando. Ela será um centro difusor do conhecimento, com tecnologia e profissionais preparados para tal, algo como um grande centro cultural da comunidade, em que os alunos terão as orientações e os meios para a construção significativa do seu conhecimento e formação global, além da oportunidade de sociabilização, que é muito importante. A informação está cada vez mais fácil de ser obtida, mas a sua análise, seleção e transformação em conhecimento pelo aluno sempre exigirão a orientação de um profissional competente, especializado e atualizado: o professor, claro que numa nova perspectiva profissional, na qual já estamos trabalhando. Mas, de qualquer modo, a escola não acabará na Era da Informação, apenas se renovará, devendo se valer cada vez mais desse poderoso instrumento e colocá-lo a serviço de uma educação realmente com valor para o aluno.

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Juliana Rezende/BR Press
Especial para o Educacional

         
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