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Escola dos sonhos existe há 25 anos
em Portugal
continuação
Um dos pontos que a Escola da Ponte valoriza
é a autonomia de seus alunos. Que atitude os professores e a escola
tomam em caso de desinteresse dos alunos ou não-cumprimento das
tarefas ou dos prazos?
Se acontecer desinteresse por parte de um aluno, a escola estará
doente, estará doente o aluno, ou estarão ambos enfermos. Bastará
determinar a etiologia, buscar remédio e verificar os efeitos do
tratamento...
A Geninha andava de mal com as amigas e com a vida. E a professora
Rosa andava preocupada com aquela tristeza de muitos dias. Naquela
manhã, na verificação dos trabalhos, deixou no caderno da Geninha
um ponto de interrogação. Quando voltasse a passar pelo grupo, o
sinal de pontuação interromper-lhe-ia a lufa-lufa [grande
pressa] e recordar-lhe-ia a necessidade de meter conversa com a
Geninha e de tirar aquela tristeza a limpo. Decorridos breves minutos,
lá voltou. No lugar da interrogação que deixara, havia agora duas
interrogações simetricamente geminadas. Um coração de linha curva
a tinta azul à direita e outra linha feita de lápis à esquerda.
E um ponto - que agora deveria ser final - foi um ponto de partida
de palavras mansas e algumas lágrimas. A Geninha só precisava de
desabafar.
Algo que parece ser muito incentivado é a formação de uma cadeia
de solidariedade entre os alunos. Há dois espaços - "Tenho necessidade
de ajuda em" e "Posso ajudar em" - em que as crianças escrevem pequenos
anúncios à procura de ajuda para dificuldades em suas pesquisas.
Como esse espaço funciona?
Nos idos de setenta, ainda no tactear de um projecto, os miúdos
chamavam ao trabalho de pesquisa que já iam fazendo "aprender
em liberdade e com categoria". E bem sabiam o que isso significava.
Nesse tempo, os professores também já trabalhavam em liberdade e
com (alguma) categoria. Como? É fácil de explicar...
Atente-se num excerto [trecho] de entrevista a uma professora recentemente
integrada na equipa: "É o trabalho de equipa que nos faz superar
o desgaste, que nos ajuda a ultrapassar os obstáculos. Facilitador
é o facto de não estarmos sozinhos numa sala, termos uma perspectiva
de toda a escola e não só daquele grupo que nós controlamos. Num
projecto como este, a pessoa não tem aquela frieza, aquela solidão,
a pessoa faz tudo com mais gosto, é mais ela e dá muito mais de
si, claro. Sinto-me em família, completamente."
Tal como a professora, os alunos também se sentem "em família".
E, em família, é suposto o amor e a inter-ajuda.
Outro espaço muito interessante são os computadores "Acho Bom"
e "Acho Mal" em que os alunos expressam sua opiniões sobre as escolas.
Esses instrumentos foram pensados para exercer que papel na vida
quotidiana da escola?
Entre outros, o do senso crítico, mas não só... As reuniões semanais
da Assembleia e os debates do fim de cada dia de escola também se
alimentam das "queixas e sugestões".
As crianças escreveram um documento com seus direitos e deveres.
Que aspectos desses documentos o senhor destacaria?
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| Clique para ampliar a declaração de direitos e deveres
dos alunos da Escola da Ponte. |
Talvez relevasse o facto de não constarem muitas proibições e de
o documento que os próprios alunos propõem e aprovam ser a Magna
Carta que lhes permite libertarem-se da tutela dos professores e
serem dignos do exercício quotidiano da liberdade na responsabilidade.
As nossas crianças não são educadas apenas para a autonomia, mas
através dela, nas margens de uma liberdade matizada pela exigência
da responsabilidade. Buscamos uma escola de cidadãos indispensável
ao entendimento e à prática da Democracia. Procuramos, no mais ínfimo
pormenor da relação educativa, formar o cidadão democrático e participativo,
o cidadão sensível e solidário, o cidadão fraterno e tolerante.
Os alunos reúnem-se semanalmente em assembléia. O que pode ser
tratado nessas ocasiões?
Para exercer a solidariedade é necessário compreendê-la, vivê-la
em todo e qualquer momento. Na Ponte, cada criança age como participante
solidário de um projecto de preparação para a cidadania no exercício
da cidadania. Foi por isso que se constituiu, há cerca de vinte
anos, a Assembleia. É por aí que passa a participação das crianças
na organização interna da sua escola.
Os miúdos sabem que "a Assembleia é uma coisa importante",
que "os alunos e os professores reúnem-se e discutem juntos os
problemas da escola", que "aprendemos a respeitar regras
e a respeitar-nos uns aos outros e a decidir o que é melhor para
todos". Quando uma professora, em plena assembleia, perguntou
à Catarina (sete anos de idade) "Quando acontece cidadania?",
a pequena respondeu prontamente: "Acontece sempre". E, quando
a professora insistiu, pedindo que a aluna explicitasse a resposta,
esta acrescentou: "É quando eu levanto o braço para pedir a palavra
ou pedir ajuda, quando me levanto e arrumo a cadeira sem fazer barulho,
quando ajudo os meus colegas no grupo, quando apanho lixo do chão
e o deito no caixote do lixo, quando ouço o meu colega com atenção,
quando estou na Assembleia..."
Além do que pretendem estudar, o que as crianças podem decidir
sobre a organização interna da escola?
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| "A educação
na cidadania reassumiu a
sua completa expressão: os miúdos já podem dirigir propostas aos
seus representantes eleitos". |
Em meados de Outubro de 2000, ficou concluído mais um processo de
eleição e instalação da Mesa da Assembleia de Escola. A educação
na cidadania - cerne quotidiano do nosso projecto - reassumiu a
sua completa expressão: os miúdos já podem dirigir propostas aos
seus representantes eleitos, reunir-se em debate (todos os dias)
e em assembleia (à Sexta-feira).
O "livro da quinzena" (sempre coerente com os projectos que estão
a ser desenvolvidos por toda a escola em determinada quinzena) constitui-se
em referência para a produção escrita. O eventual leitor poderá
ser induzido a pensar que, pelo conteúdo e estilo, o texto a seguir
transcrito terá o "dedinho do professor"... Efectivamente, não tem.
Acrescentaremos que foi um dos vários textos que, hoje, enquanto
redigia este artigo, encontrei na caixinha dos "textos inventados"
- caixa dos textos que os alunos redigem quando e como desejam -,
escrito pela Cláudia, que tem oito anos de idade. Vejamos alguns
excertos:
"Caminhos da liberdade
Como a nossa escola tenta ser um exemplo de cidadania, temos um
livro da quinzena que nos fala, exactamente, desse tema. É um livro
chamado "A cidadania explicada aos jovens e aos outros", escrito
pelo poeta José Jorge Letria. Diz-nos que, todos os dias, fazemos
coisas que têm a ver com cidadania. Que uma pessoa só é bom cidadão
quando tem capacidade para se orientar pelos direitos e deveres
que estão nos documentos como a Constituição da República (...)
A solidariedade é uma maneira de ser bom cidadão. Nós temos solidariedade
quando ajudamos a dar melhores condições às vítimas das guerras,
quando ajudamos alguém a atravessar a rua (...) Com o que estamos
a aprender com este livro, resta-me concluir que a cidadania é uma
forma de participar na vida colectiva e de saber ter consciência
para melhorar a vida dos outros." Ou, como escreveu a Francisca
(de oito anos) num outro "texto inventado", "ser cidadão é, acima
de tudo, respeitar os outros."
É verdade que as crianças organizam tribunais para julgar os
casos de indisciplina?
Em 1998, o tribunal foi substituído por uma "Comissão de Ajuda"
(por decisão da Assembleia!) com composição e funções muito diferentes.
O velho e ineficaz "castigo" foi substituído pelo "ficar a reflectir"
e pela ajuda de "fadas orianas" (quem já leu o livrinho da Sophya
do Mello Breyner saberá ao que as crianças se referem).
Voltemos à "caixinha dos segredos". Como o objectivo dos
objectivos é fazer das crianças pessoas felizes, foi instituída
uma "caixinha dos segredos". É aí que a pesquisa das almas inquietas
(indisciplinadas?) começa. Na caixa de papelão, os alunos deixam
recados, cartas, pedidos de ajuda. A "caixinha dos segredos" ensina
os professores a reaprender. É que nem sempre o que parece ser "indisciplina"
o é. Os "recados-segredos" provam-no: "Todas as manhãs, o Arnaldo
já chega cansado de duas horas de trabalho. Antes de rumar à escola,
o Rui foi ao lavrador buscar o leite, levou os irmãos mais pequenos
ao infantário, fez os recados da Dona Alice, arrumou a casa toda.
O Carlos falta quase todas as tardes. O pai manda-o distribuir por
toda a vila as folhas que dão notícia dos falecimentos da véspera,
ou tem que carregar as alfaias dos funerais".
O tempo amareleceu as folhas dos "recados" onde as crianças deixaram
ficar pedaços de vida. Aos nove anos, o Fernando disse o que queria
ser quando fosse grande, escreveu os projectos do seu futuro para
sempre destruídos num estúpido acidente na mota que ele comprara
com os primeiros salários de tecelão. Outros não chegaram a adultos
por se deixarem envolver nas teias que a droga tece. Houve também
quem abandonasse a escola e optasse pelas lições que a escola da
vida oferece. Haverá ainda alguém que ouse falar de "indisciplina"
nas escolas?
Confesso a minha completa ignorância, de indisciplina nada sei.
Sei apenas de crianças que dão lições de autodisciplina na sua escola.
Sei de crianças que não entendem a indisciplina do gritar mais alto
que o próximo, nas assembleias de adultos, porque na sua assembleia
semanal erguem o braço quando pretendem intervir. Sei de crianças
de seis, sete anos, que sabem falar e calar, propor e acatar decisões.
São crianças capazes de expor, com serenidade, conflitos e de, serenamente,
encontrar soluções. São cidadãos de tenra idade que, no exercício
de uma liberdade responsavelmente assumida, instituíram regras que
fazem cumprir no seu quotidiano. Poderão continuar a chamar-lhes
alunos "utópicos", que nem por isso eles deixarão de existir.
A "indisciplina" é a filha dilecta do autoritarismo e da permissividade.
A disciplina a que me refiro é a liberdade que, conscientemente
exercida, conduz à ordem; não é a ordem imposta que nega a liberdade.
Como poderemos pensar em controlar as águas revoltas de um rio,
se nos esquecemos das margens que as comprimem?
Finalmente, sou levado a perguntar sobre a participação dos pais.
Como é o relacionamento e o intercâmbio entre pais e escola? Que
tipo de contribuição eles dão à escola?
A concepção e desenvolvimento de um projecto educativo de escola
é um acto colectivo e só tem sentido no quadro de um projecto local
de desenvolvimento. Um projecto consubstanciado numa lógica comunitária
pressupõe ainda uma profunda transformação cultural. O sucesso dos
alunos depende da solidariedade exercida no seio de equipas educativas,
que facilita a compreensão e a resolução de problemas comuns. Em
1976, os pais não apareciam na escola, mas acreditávamos que seria
possível estabelecer comunicação com as famílias dos alunos, se
os pais não fossem chamados apenas para escutarem queixas ou contribuírem
para reparações urgentes. Questionávamo-nos por que razão eles iam
à igreja, ao estádio, ao café... e não vinham à escola. Quando encontrámos
resposta, ajudámos os pais dos alunos a fundar uma associação num
tempo em que ainda não havia leis para as regular. A associação
de pais é hoje um interlocutor sempre disponível, um parceiro indispensável.
Mas a colaboração dos pais não se restringe às actividades promovidas
pela sua associação. No início de cada ano, todos os encarregados
de educação participam num encontro de apresentação do Plano Anual.
Mensalmente, ao sábado de tarde, os projectos são avaliados com
o seu contributo. E há sempre um professor disponível para o atendimento
diário, se algum pai o solicita.
A prática diz-nos, ainda hoje, que os pais têm dificuldade em conceber
uma escola diferente daquela que frequentaram quando alunos mas
que, quando esclarecidos e conscientes, aderem e colaboram.
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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
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