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Musical infantil brasileiro subirá ao palco do principal teatro francês
""Não há prazer maior para mim, enquanto compositor, que ver
uma criança se emocionar a partir de um estímulo que eu dei. Sei que essas impressões ficarão na memória
da criança", afirma Tim Rescala.
A Comédie Française é o palco mais tradicional da França e a sede da trupe mais
antiga em atividade no Ocidente. Inaugurada em 1680 pelo Rei-Sol, Luís XIV, a
Comédia Francesa é uma senhora sisuda. Desde o final do século XVII, sua maior
preocupação tem sido manter acesa a chama do período clássico da dramaturgia francesa.
No alto de seus 320 anos, a paixão por preservar as tragédias de Racine e Corneille
e as comédias de Molière é tanta que os novos autores sempre têm de penar para furar
o cerco da tradição. A estréia de Hernani (1830), de Victor Hugo, entrou para a história
como "batalha", tamanha a resistência ao Romantismo, primeiro gênero a ousar romper com os clássicos.
Até hoje o progresso vem a passos de tartaruga. Para uma montagem fazer sua estréia
por lá é preciso que o texto seja recomendado pelo administrador-geral e passe pelo
crivo do Comitê de Leitura. Os guardiões da memória torcem o nariz para as novidades.
Se o autor ou o diretor for estrangeiro e - pior ainda - contemporâneo, as chances
são remotas.
Se a peça passa pela peneira, resta ainda um obstáculo. Em geral, a encenação ocorre
em um auditório menos pomposo que a sala Richelieu, templo do teatro francês. Isso tudo
dá uma boa idéia do feito de Tim Rescala.
Estrangeiro e contemporâneo, o musical Pianíssimo, de sua autoria, será a primeira
peça infantil montada nos mais de três séculos da sala Richelieu. O espetáculo terá
a direção de Tânia Costa e fará parte da programação de Natal.
Pianíssimo conta a história de Clara, uma garotinha de 9 anos que tem uma professora
de piano tão exigente quanto a instituição francesa. A mãe de Clara não fica atrás:
ela obriga a filha ensaiar em pleno domingo de manhã para que, à tarde, seja a estrela
de um recital em sua casa. Clara só desenvolve seu talento musical na ausência da professora,
quando seu piano encantado conversa com ela e lhe mostra ludicamente a riqueza da música.
Na entrevista a seguir, Tim Rescala debate as questões que envolvem a iniciação musical
das crianças. Um tema tratado com tanto primor em sua peça que até os críticos de teatro
mais severos se renderam a ela.
Quando você começou a estudar música? Você teve aulas com professores particulares ou havia professores de música na sua escola?
Sou filho de músicos, o que facilitou muito meu aprendizado musical. Estudei a vida inteira em escola pública, onde havia ensino musical. Tive aulas particulares de piano até começar a estudar regularmente em escolas de música (teoria, piano, harmonia), ao mesmo tempo que estudava na escola pública.
Você é autor do livro Pequena História Não-autorizada da Música. A música parece ser posta um pouco à margem na escola. Afinal, estudamos muito mais a história da literatura, da pintura e até da arquitetura. Você acha que a história da música poderia ser mais explorada no currículo escolar?
Com certeza. Não só a história da música como também outras matérias correlatas. A música nunca deveria ter saído do currículo normal das escolas. Além de educar, ela sensibiliza a criança.
Tanto algumas escolas excluem a música de suas atividades que a maioria das crianças estuda com professores particulares. Sua peça Pianíssimo fala justamente da relação entre uma dessas professoras, muito rígida, e sua aluna de 9 anos. A peça foi baseada em algo que você viu ou viveu?
Sim. Aliás, não só eu, mas muitas pessoas que conheço, músicos ou não, tiveram professores castradores. Muita gente inclusive abandonou a música por isso, o que é uma lástima. Nesses casos, o ensino acaba por fazer um desserviço.
Quantas montagens a peça já teve?
Duas no Rio, uma em Belo Horizonte e esta agora em Paris.
A mais recente delas será apresentada na Comédie Française. Esse teatro não costuma encenar montagens de autores estrangeiros, muito menos de espetáculos infantis. O que você acha que tocou os franceses?
Como a música clássica já faz parte da educação musical das crianças francesas, penso que foi o caráter lúdico do texto e das músicas, característico do teatro infantil feito no Brasil, que os cativou.
A peça fala de uma série de questões que envolvem a iniciação musical de uma criança. Para começar, a garotinha Clara é obrigada pela mãe a estudar piano. Muitas vezes a criança não escolhe que instrumento e que tipo de música tocar. O que você pensa disso?
Tenho uma filha de cinco anos que, embora seja musical, ainda não começou a estudar música. Deixei que ela própria escolha se quer ou não estudar música e qual instrumento. Ela está optando por violino e guitarra. Curioso, não?
Há outra coisa que pode fazer do aprendizado musical um trauma. A mãe de Clara, em vez de incentivar um contato lúdico com o instrumento, quer fazer de sua filha estrela por um dia. Ela organiza um recital da filha em sua própria casa e marca um ensaio para domingo de manhã. Alguns pais, na verdade, fazem os filhos odiar a música, não é?
Com certeza. Essa história de colocar a criança para se exibir para as visitas é uma maldade. Os pais precisam parar com essa mania de transferir para os filhos a responsabilidade de suas frustrações. Eles nada têm a ver com isso.
A sorte de Clara é que seu piano, Steinway, é encantado. Quando a professora se ausenta, o piano conversa com Clara. E por causa dessa intimidade com o instrumento, ela nota que pode expressar toda sua fantasia e criatividade através da música. Na sua opinião, como os pais e professores podem incentivar os filhos a descobrir todo esse potencial da música?
Costumo dizer que o primeiro passo para se aprender música é ouvir. Deve-se ouvir muito e de tudo, sem preconceitos. Tenho certeza de que a criança, se bem orientada, sem pré-julgamentos, saberá escolher o que é melhor para si mesma.
Você costuma se envolver em projetos musicais com finalidades didáticas, como o projeto Brincando de Orquestra e Concertos para Juventude. Eu gostaria que você comentasse esses dois projetos separadamente e falasse da importância dessas iniciativas de formação de platéia jovem para a música erudita?
Tenho especial apreço por esse tipo de projeto, pois não há prazer maior para mim, enquanto compositor, que ver uma criança se emocionar a partir de um estímulo que eu dei. Sei que essas impressões ficarão na memória da criança e a farão criar um repertório auditivo de melhor qualidade, ajudando-a diretamente em sua educação e indiretamente em sua formação como indivíduo.
Você é autor da Orquestra dos Sonhos, a primeira ópera infantil feita no Brasil. Por que não se tinha feito até então música erudita para crianças? Há teatro, cinema, enfim, uma série de manifestações artísticas infantis... Os compositores pensam que a música erudita é séria demais para as crianças?
Há uma péssima mania no Brasil de menosprezar a capacidade intelectual das crianças. Com Orquestra dos Sonhos pude comprovar que a verdade está no reverso da moeda. As crianças estão mais disponíveis, aptas e interessadas nas novas linguagens que os adultos. Afinal, o ouvido delas está menos bombardeado do que o nosso.
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