Início
Entrevistas   Entrevista da Semana
Samir Thomaz
"Basta ver que o único espaço público onde as pessoas se reúnem efetivamente é o centro comercial. As pessoas deixaram de se encontrar nas praças, nos jardins, nos parques, onde reina a insegurança. Quando eu falo da caverna como símbolo, não é tão símbolo quanto isso, porque as nossas próprias casas estão a transformar-se em cavernas."
 

José Saramago, 78, é escritor. Em 1998, torna-se o primeiro autor de língua portuguesa a ser laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Escreveu, entre outros romances, Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes. Seu último livro, A Caverna, está há menos de um mês nas livrarias.


"O que me parece que é motivo para preocupação é a indiferença com que em certos lugares - e acredito que o Brasil é um deles, acho que é óbvio - abrimos a porta e jogamos fora palavras nossas que servem tão bem. Abrimos a porta, atiramos a palavra fora e ficamos, enfim, com a que não nos pertence."

"O livro preocupa-se com isso, quer dizer, com o que se passa com essa gente que, de repente, subitamente, se vê sem trabalho (...) O caso dessa gente da olaria não é único, e pode passar-se do caso familiar a uma situação geral, como é a de profissões que não interessam, que já não servem, que já não são úteis à sociedade e que a sociedade despreza."

"Quer dizer que cada inovação tecnológica vai trazer vítimas... Que tem de fazer vítimas, tem. Agora, o que me parece é que a sociedade, os cidadãos, as organizações, o Estado têm que pensar quais são os custos sociais dessas inovações."

"Se, ao contrário disso, a invenção tecnológica se destina no fundo a uma maior produtividade que vai beneficiar apenas um lado, então temos que chegar à conclusão de que devemos protestar. E não é por acaso que 224 ou 225 empresas multinacionais tenham 47% da riqueza mundial."

"Por enquanto, o meu trabalho, a sociedade ainda o quer, não sei até quando... Mas o trabalho de Cipriano Algor é que defronta-se com a fabricação de coisas de plástico com as quais ele não pode competir e a atividade artística pode."

"Nos tempos de agora, em que toda a gente entrou numa espécie de correria louca para ganhar, para triunfar, eu seria um vencido. Eu não compito. Eu faço simplesmente aquilo que tenho que fazer a cada momento."



 
 

O artesão inquieto da
língua portuguesa

"Há muita semelhança entre o trabalho no computador e a olaria, muito mais do que possa parecer à primeira vista. No fundo, o computador é um pouco isso, temos uma idéia e podemos pô-la ali, errada, incompleta, confusa. (...) Assim como o trabalho do oleiro que, a partir do barro, que não tem forma, chega a esse outro barro, que é a frase correta, a idéia completa", afirma José Saramago.

José de Sousa Saramago é alto e esguio, físico invejável para um quase oitentão. Às vastas sobrancelhas opõe-se a calvície. Os óculos lhe caem enormes para o rosto alongado. Os cabelos que restam, grisalhos, parecem livres, ao vento e avessos a pentes. Combinam com a imagem que se tem dos humanistas, sábios e magos das letras.

Desde 16 de novembro, ao completar 78 anos, deixou para trás o sossego de Lanzarote, nas Canárias. É lá que mora desde 1993, quando trocou Lisboa e as caudalosas margens do Tejo pela aridez da ilha vulcânica, sem uma gota de água doce, já que banhada não é por um riacho que seja.

Seu aniversário coincide com o lançamento mundial de seu último romance, A Caverna. Desde que o livro foi parar nas prateleiras, Saramago já peregrinou por 14 cidades de Portugal, Moçambique e Angola até chegar ao Brasil, que deixará apenas às vésperas do Natal.

Saramago é um inquieto. Assim como em sua obra, Saramago deixa por onde anda - como pegadas - preocupações sobre o mundo e suas injustiças. Se o tempo deu-lhe a serenidade, esqueceu-se caprichosamente de lhe tirar a disposição ao debate. Responde exaustiva e meticulosamente ao que lhe perguntam, sempre com a fronte crispada e a gravidade que os temas exigem.

Se lhe pedem para comentar o título do livro, responde solene: "Nunca houve uma semelhança tão completa, tão chegada, com a situação em que se encontravam as pessoas que Platão imaginou metidas em uma caverna olhando uma parede, vendo sombras e acreditando que aquelas sombras eram a realidade."

Se o assunto é a literatura em língua portuguesa, mais sério ainda retruca: "O facto é que a presença do inglês é de tal forma invasora de vosso cotidiano que é caso de vocês se preocuparem não com o destino da literatura em língua portuguesa, mas com o destino da própria língua."

Em seu primeiro livro desde que recebeu o Nobel, resolveu atacar a substituição do trabalho artesanal pela indústria. Cipriano Algor é dono de uma olaria cujos artigos de barro não mais interessam ao "Centro", que passa a preferir os de plástico. Ao contrário de Cipriano, Saramago diz: "Meu trabalho, a sociedade ainda o quer, não sei até quando." E reforça que se deve levar em conta os custos sociais que as inovações tecnológicas implicam na vida e no trabalho das pessoas. Quem fala a Saramago tem como interlocutor mais que o prosador de talento indiscutível. Tem um observador atento dos rumos que o mundo está tomando.

Depois de grandes autores, como Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, hoje o senhor é o escritor mais conhecido da literatura em língua portuguesa no mundo. Qual a contribuição que a língua portuguesa pode dar à literatura universal?
É uma resposta que está implícita na pergunta. Nós tivemos Camilo Castelo Branco. Há cem anos vocês tinham Machado de Assis. E desde já há 800 anos que nós andamos a escrever nossa literatura. Enfim, até a data da independência, herdam como coisa vossa também a literatura que era portuguesa e, a partir dessa altura, há uma literatura brasileira. Nesse momento, estão a nascer literaturas novas, em Angola, Moçambique, Cabo Verde. É uma língua que não tem que estar preocupada com a sua contribuição à cultura universal, em primeiro lugar, porque já deu e, em segundo lugar, porque há todos os motivos para continuar a dar, tanto a literatura portuguesa como as literaturas em língua portuguesa.
Agora isso também depende do futuro da própria língua. Enfim, aqui não se pode dizer que vocês estejam a ter muito cuidado com ela. Você passa nas estradas e tudo o quanto se anuncia é em inglês. Então amanhã vossos escritores vão começar a duvidar se vale a pena escrever em português ou se vão passar a escrever em inglês. Não quero dizer que vá suceder isso, mas o facto é que a presença do inglês é de tal forma invasora de vosso cotidiano que é caso de vocês se preocuparem não com o destino da literatura em língua portuguesa, mas com o destino da própria língua.

O senhor acha que ela está ameaçada?
Ameaçada... Quer dizer, todos estamos ameaçados: nascemos, vivemos e morremos. Estamos sempre ameaçados de uma doença, de um acidente. Aquilo que podemos fazer, desde que tenhamos condições para isso, é cuidar de nós, da nossa saúde. No caso dessa conversa, enquanto houver língua portuguesa, haverá literaturas. O que estava só a comentar, a manifestar lateralmente, é uma certa inquietação pessoal — é possível que não seja a vossa. Simplesmente começo-me a perguntar... Aquilo que vocês chamam shopping center, nós chamamos centro comercial. Nós continuamos a falar português e vocês já... Eu só me preocupo com o destino de uma língua que já está viva há oito séculos, que tem capacidade para continuar vivendo por muito tempo, desde que a cuidemos, tal como a saúde.

O senhor é a favor de medidas restritivas do uso de línguas estrangeiras, como as que a França adotou?
Eu não creio que seja necessário recorrer a medidas radicais. Por exemplo, a palavra automóvel, que é nossa, que é vossa, nós recebemos do francês "automobile". Adaptamo-la à nossa escrita própria e transformamo-la em automóvel. As línguas têm que se comunicar umas com as outras. Se não há uma palavra que sirva em uma determinada língua, aproveita-se de outra, adapta-se, isso sempre surgiu assim. Se não fosse o latim, não falávamos português.
Agora, o que me parece que é motivo para preocupação é a indiferença com que em certos lugares — e acredito que o Brasil é um deles, acho que é óbvio — abrimos a porta e jogamos fora palavras nossas que servem tão bem como aquelas que querem entrar. Abrimos a porta, atiramos a palavra fora e ficamos, enfim, com a que não nos pertence. Que nós conheçamos a outra língua é ótimo, mas conhecer a outra língua não significa que tenhamos de adotá-la. Isso conta com a inércia ou com a cumplicidade daqueles que estão no lugar onde ela quer entrar.
Então, mais facilmente há uma espécie de corrupção da própria língua por parte de uma língua mais forte. E a mais forte, evidentemente, é o inglês. Agora, medidas drásticas, proibições, eu não sei se vale a pena. O que eu acho é que é uma questão de educação, que começa na escola. E começando na escola, acaba por ter influência na própria sociedade.
No fundo, a língua é uma ferramenta de comunicação. Imagine que eu escreva em português e, em vez de escrever como eu escrevo — bem ou mal, não é isso que se discute —, eu começasse a empregar todos esses termos em inglês... O que vocês chamam "mouse" do computador nós chamamos rato. Por que não é certo chamar rato, se "mouse" é rato?
Mas não vamos ficar aqui a falar dessas coisas. A língua portuguesa aqui sobreviverá, provavelmente não é um drama por cem anos. Isso será resolvido. Ou nossa língua terá ou não sobrevivido ou o inglês será substituído pelo espanhol. Nos Estados Unidos já se encontra tanta gente que fala espanhol... Então pode ser que, no futuro, não se fale de uma coisa nem de outra e se fale de uma mistura de todas as línguas.

A respeito do seu último livro, A Caverna, o senhor teve a intenção de fazer dele uma crítica à globalização, ou à "concordância de objetivos das multinacionais", que é como o senhor se refere a ela? Pode-se tomar o personagem Cipriano Algor como um fornecedor de um grande centro comercial ou como um país de terceiro mundo...
Não exageremos. São duas situações distintas... Não distintas, mas de todo modo podem ser isoladas. Em primeiro lugar, a situação da gente dessa olaria. O livro preocupa-se com isso, quer dizer, com o que se passa com essa gente que, de repente, subitamente, se vê sem trabalho.
Evidentemente que o caso dessa gente da olaria não é único, e pode passar-se do caso familiar a uma situação geral, como é a de profissões que não interessam, que já não servem, que já não são úteis à sociedade e que a sociedade despreza.
Eu cito, em geral, o caso da adoção industrial do tear mecânico. Os tecelões manuais, que eram milhares e milhares na Inglaterra, viram-se, de um dia para o outro, sem trabalho, na ruína. Muitos deles suicidaram-se. Portanto, isso tanto pode ser tomado como o caso de uma família que se veja nessa situação como se pode entender, o que é perfeitamente lógico, que há uma classe social ou uma gama de trabalhos que a sociedade já não quer, e esse caso exemplifica todos.

Essa questão da substituição do trabalho artesanal por um trabalho mecânico e industrializado já acompanha a humanidade há dois séculos. Por que o senhor resolveu tratar esse tema nesse momento? O que o tocou?
As inovações tecnológicas, sobretudo nesse sentido que tem que ver com a produtividade, evidentemente que sempre tiveram custos sociais e agora mesmo acabei de citar um. A invenção do tear mecânico conduz à ruína. O capitalismo nascente não estava nada preso, preocupado com o destino dessas pessoas. Agora, o que eu considero não é que isso tenha que ser uma fatalidade para sempre. Quer dizer que cada inovação tecnológica vai trazer vítimas. Que tem de fazer vítimas, tem. Agora, o que me parece é que a sociedade, os cidadãos, as organizações, o Estado têm que pensar quais são os custos sociais dessas inovações. E não é para não a pôr em prática! Não é para dizer: "Bom, isso tem custos sociais, não vamos aplicá-lo." Não, vamos aplicá-lo. Não se pode agora dizer: "O progresso tecnológico, a investigação científica parou aqui, daqui por diante não se anda mais." Não se pode. A meu ver, parece-me que é apenas uma questão, quase diria, de senso comum, porque se pode se saber hoje sem nenhuma dúvida que a aplicação de uma determinada teoria no campo tecnológico em qualquer atividade produz custos sociais, há que se atender a esses custos. Se, ao contrário disso, a invenção tecnológica se destina no fundo a uma maior produtividade que vai beneficiar apenas um lado, então temos que chegar à conclusão de que devemos protestar. E não é por acaso que 224 ou 225 empresas multinacionais tenham 47% da riqueza mundial. Essa é que é a questão.

Como o senhor se relaciona com as novas tecnologias?
Eu estou muito atualizado nisso, não tanto quanto poderia. A minha casa é governada por minha mulher. Trabalho com um computador de última geração, um computador estupendo que faz tudo quanto eu quero, mas que uso simplesmente como uma máquina de escrever e algumas coisas mais, claro. Uso o meu rato, não uso o vosso mouse, e acho que é um magnífico instrumento de trabalho. Há muita semelhança entre o trabalho no computador e a olaria, muito mais do que possa parecer à primeira vista. No fundo, o computador é um pouco isso, temos uma idéia e podemos pô-la ali, errada, incompleta, confusa, e vamos trabalhar sobre a idéia. Assim como o trabalho do oleiro que, a partir do barro, que não tem forma, chega a esse outro barro, que é a frase correta, a idéia completa.

O senhor se identifica com Cipriano Algor? Afinal, exerce uma profissão, a literatura, que preserva muito do seu caráter artesanal e, assim como ele, vem de longe, atravessa o "cinturão verde", o cinturão industrial, para vender sua arte...
Sim, mas compreendo que há aí uma grande diferença. Por enquanto, o meu trabalho, a sociedade ainda o quer, não sei até quando... Mas o trabalho de Cipriano Algor é que defronta-se com a fabricação de coisas de plástico com as quais ele não pode competir e a atividade artística pode.

continua >>  


         
<< voltar  
         




Copyright © 1999-2012. Portal Educacional. Todos os Direitos Reservados.

Termos de uso | Quem somos