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O artesão
inquieto da
língua portuguesa
"Há muita
semelhança entre o trabalho no computador e a olaria, muito
mais do que possa parecer à primeira vista. No fundo, o
computador é um pouco isso, temos uma idéia e podemos
pô-la ali, errada, incompleta, confusa. (...) Assim como
o trabalho do oleiro que, a partir do barro, que não tem
forma, chega a esse outro barro, que é a frase correta,
a idéia completa", afirma José Saramago.
No seu livro o senhor escreve "o Centro
escreve certo por linhas tortas", substituindo a palavra
"Deus" do ditado original. O senhor acredita que esse
mercado ocupa hoje o lugar das divindades?
Não sei se ocupa, mas, como você deve ter visto,
o chefe do departamento de compras numa certa altura diz que o
Centro também produz espiritualidade. Isso evidentemente
que é uma ironia — ou talvez não seja uma ironia
tão grande quanto parece. No passado a mentalidade, sobretudo
nessa área da cultura e da civilização, claro
que estava influenciada pelo cristianismo, na versão católica
ou nas versões protestantes. Pode-se dizer que a mentalidade
das pessoas era formada em uma grande superfície, que era
a catedral. Era dali que recebiam valores, moral, mesmo aqueles
que não eram crentes. Era ali que estavam e viviam, numa
sociedade toda ela determinada por essa influência, portanto
indiretamente terminavam por ter a mesma mentalidade. Eu sou ateu,
mas tenho uma mentalidade cristã. Não posso ter
outra, como uma mentalidade budista... Agora, acho eu, como pode
ser que esteja equivocado — admito sempre —, a nova mentalidade
é formada em outra grande superfície, chamada, conforme
vocês preferirem, centro comercial ou shopping center. E
isso está perfeitamente claro. Basta ver que o único
espaço público onde as pessoas se reúnem
efetivamente é o centro comercial. As pessoas deixaram
de se encontrar nas praças, nos jardins, nos parques, onde
reina a insegurança. Quando eu falo dA Caverna como
símbolo, não é tão símbolo
quanto isso, porque as nossas próprias casas estão
a transformar—se em cavernas. Quando se rodeia uma casa de grades,
arame farpado ou eletrificado, está um guarda—porta com
uma pistola metida no coldre, evidentemente há uma espécie
de encerramento [fechamento]. E, curiosamente, quando se entra
— eu não entro muito, mas creio que é assim — num
centro comercial tem-se uma impressão de segurança
total, onde não acontece nada. Penso eu que é inevitável,
em um modo de viver como esse, que o único lugar onde as
pessoas se reúnem e podem conviver é o mesmo que
tem que funcionar, digamos, nos termos do puro mercado, porque
se as vendas baixarem a administração do shopping
center tratará de encontrar as soluções para
que as vendas tornem a aumentar. Pode-se argumentar: "Ah!
Mas as ruas da cidade também eram isso." E aí
segue-se em frente. Talvez isso não tenha muita importância...
Por que estou a preocupar-me com isso? Enfim, vocês que
são jovens, daqui por 50 anos, quando tiverem a minha idade,
logo poderão dizer: "Olha, afinal de contas ele não
tinha razão, que a vida transformou-se em um paraíso.
Eu é que estava muito preocupado." É o que
acontece com as pessoas de idade que começam a se preocupar
quando já não deveriam porque já não
têm tempo. Agora, que o mundo não parece numa boa
direção eu creio que não está.
Há uma bela passagem em seu livro em que
o senhor compara Cipriano Algor e seu genro, bem mais novo, e
fala que...
...nem os jovens sabem o que podem, nem os velhos podem o que
sabem. É uma verdade, como a evidência mesma da luz.
Os velhos — eu tenho uma certa relutância em incluir-me
entre os velhos mas, enfim, os factos são os factos e eu
tenho que assumir isso —, acontece que sabemos muito, podemos
ser analfabetos, mas sabemos muito, mas já não podemos
aquilo que sabemos. E os novos...
Os novos nem sempre têm uma produção
tão prolífica quanto a sua...
É porque eu trabalho muito e vocês trabalham pouco.
Isso é porque hoje o senhor sente que
tem muito a dizer?
Entre o meu primeiro livro e o segundo, eu estive praticamente
vinte anos sem escrever, entre o ano de 1947 e o ano de 1966.
E creio, olhando para trás, para essa decisão de
ter começado a escrever aos 24 anos e só tornar
a escrever aos 44, que se pode perguntar por que isso aconteceu.
A resposta que creio que deva dar hoje é porque achei que
não tinha nada para dizer.
O senhor não esperava voltar a escrever
mais tarde?
Não. Às vezes pode—se dizer assim: "Ah! É
que ele decidiu ganhar experiência para depois." Isso
é um completo disparate. Quem é que poderia garantir
a mim vida suficiente para eu estar tranqüilo, à espera
durante 20 anos até a altura em que teria experiência
e começasse a escrever? Podia morrer aos 42 e lá
se ia todo aquele tempo em que eu tinha estado à espera.
O que acontece é que vamos vivendo, pelo menos foi o que
aconteceu comigo. A cada momento fiz aquilo que deveria, exerci
diversas profissões, nunca tive nenhuma ambição
de fazer uma carreira. Nunca, mas nunca, nunca. Nos tempos modernos
seria um vencido. Nos tempos de agora, em que toda a gente entrou
numa espécie de correria louca para ganhar, para triunfar,
eu seria um vencido. Eu não compito. Eu faço simplesmente
aquilo que tenho que fazer a cada momento. Depois o resultado
disso também não me preocupa. Acontece o que tem
de ser.
Qual a função do escritor nessa
sociedade de agora que o senhor descreve?
Ora, nós já estamos há tantos anos a escrever
e vocês ainda fazem esse tipo de pergunta. Mas agora, agora...
É sempre de se preocupar. Se você está preocupado
porque vivemos um tempo de crise, tenho que recordá-lo
que havia crises no passado também, crises de todo tipo:
espirituais, econômicas, de isto e de aquilo. Você
não vai perguntar a um médico qual vai ser a função
do médico neste tempo de crise. O médico responde
com toda a simplicidade: "Vou continuar a curar." E
neste tempo de crise o escritor vai dizer: "Vou continuar
a escrever." E mesmo se chegar um momento em que já
não valha a pena escrever, que não haverá
mais ninguém que leia — estou supondo o cenário
mais catastrófico que se pode imaginar —, suspeito que
mesmo nessa altura ainda haverá quem esteja a escrever,
mesmo sem a esperança de ser lido. Portanto, não
há função. Se você quiser dizer "o
que o escritor faz como cidadão num tempo como este?",
temos que perguntar se o cidadão que o escritor é
se esconde por trás do escritor para não intervir
na sociedade ou se, pelo contrário, o que prevalece é
o cidadão sobre o escritor e ele intervém como qualquer
outro. A função, ou a intervenção,
que se espera do escritor é aquela que se deve esperar
de qualquer cidadão, seja ele o que for, exerça
ele a profissão que exercer. A diferença mais importante
é que o escritor tenha uma voz, que ela chegue, alcance
o que escreve, portanto é livre. Evidentemente que um empregado
de comércio, que também é um cidadão,
está a fazer o seu trabalho, mas isso não tem efeitos
desse tipo na sociedade. O escritor decide sobre o que quer fazer
ou ele é uma pessoa que, por princípios seus, por
ideologia ou por espírito cívico, intervém
ou então considera que está no direito de dizer:
"Eu estou com meu trabalho literário e não
quero saber de mais nada."
O senhor comentou que também havia crises
no passado, no entanto afirma que nós nunca estivemos tão
próximos dA Caverna de Platão. O que o faz
pensar assim?
Nunca houve uma semelhança tão completa, tão
chegada, com a situação em que se encontravam as
pessoas que Platão imaginou metidas em um A Caverna
olhando uma parede, vendo sombras e acreditando que aquelas sombras
eram a realidade. Nunca houve ao longo desses dois mil e trezentos
anos uma situação que se parecesse tanto. Nós
rodeados de imagens, cercados de imagens, bombardeados de imagens,
enfim estamos em uma situação em que as mesmas imagens
que estão aí para mostrar o que é, de uma
certa maneira já servem para esconder a realidade.
O senhor muitas vezes é acusado de pessimista,
mas tenho a impressão de que, ao tratar as grandes questões
humanas, o senhor não perdeu a confiança na generosidade.
Essa confiança diminuiu ao longo do tempo?
Em primeiro lugar, vamos tentar arrumar essa questão do
otimismo ou do pessimismo. Creio que não vale a pena encarar
a questão se a visão de um determinado facto é
ou não pessimista. Claro que, se uma pessoa está
contente com a vida, tem uma tendência de achar que até
o próprio mal não é tão mau quanto
dizem ou a mim já não será. Se a pessoa está
mal, tem uma tendência contrária, de achar que a
vida está contra ele. Mas independentemente dessas duas
visões extremas, creio que há algo que está
aí, que é o facto. O facto não é nem
pessimista nem otimista. A interpretação que nós
temos dele pode pender de um lado a outro, mas não altera
o facto. O que nós devemos é ser suficientemente
objetivos e ter um sentido crítico, com critérios
claros, para não ficarmos a debater a eterna questão
do otimista e do pessimista, e ver esse facto como é, de
onde vem, que conseqüências vai ter e, se é
um problema grave, resolvê-lo. Mas sem essa tentação
de dizer: "Você é otimista, você é
pessimista." Porque senão ficamos naquela questão
do copo d'água, que o pessimista diz que está meio
vazio e o otimista diz "não, não, está
meio cheio", e não acabamos. O facto é que
tem uma determinada quantidade e o que nós temos que perceber
é se essa quantidade nos mata a sede ou não nos
mata a sede.
Quanto à generosidade, se há uma coisa em que eu
não acredito é na generosidade da espécie
humana. Acredito na generosidade de pessoas, esta, aquela, aquela
outra. Mas tenho todas as razões para duvidar e simplesmente
dizer que a espécie humana não é generosa.
O senhor afirmou certa vez que, a partir de Ensaio
sobre a Cegueira, passou a se concentrar em aspectos essenciais
de sua obra. O que o senhor deixou de lado, por ser acessório,
em sua maneira de escrever?
Eu não chamaria de acessório. Eu creio que os próprios
temas, de alguma maneira, nos impõem, determinam, o modo
de tratá-los. Eu posso citar, creio eu, livros meus, como
Memorial do Convento ou mesmo até O Evangelho Segundo Jesus
Cristo. Creio que compreenderá facilmente que eu não
poderia transportar esse modo de narrar para o Ensaio sobre a
Cegueira. O tema tem a sua própria exigência. Não
anula evidentemente a personalidade do autor. O Evangelho Segundo
Jesus Cristo, por exemplo. O livro que vem a seguir é o
Ensaio sobre a Cegueira e, apesar das diferenças — é
um estilo mais seco, mais conciso, mais austero — reconhece-se
que o autor disto é o autor daquilo. O que eu digo é
uma metáfora e, embora eu tenha dito, em um romance que
se chama Todos os Nomes, que a metáfora ainda é
a melhor maneira de explicar as coisas, também há
que ter muito cuidado com metáforas, porque supostamente
dizem aquilo que se quer e ficamos agarrados a elas, e às
vezes elas não dizem tanto quanto pensávamos.
O que eu costumo dizer é que até O Evangelho Segundo
Jesus Cristo é como se eu tivesse andado a descrever uma
estátua. Aquilo que nós chamamos uma estátua
é a superfície da pedra. Quando olhamos para uma
estátua de mármore, por exemplo, o que nós
recebemos daquela pedra é sua superfície esculpida.
Estamos a pensar na escultura, na imagem da pedra, e agora, até
A Caverna, é como se eu deixasse de descrever a
superfície para passar para o interior dela, quando ela
ainda não sabe se vai ser estátua ou qualquer outra
coisa. Portanto, é como se eu procurasse o que há
de mais fundo — com toda a retórica que isso também
pode dar — no ser humano.
Há outra passagem de A Caverna
em que o senhor diz que as palavras são como pedras de
um rio e o que importa é atravessar o rio, dar um significado
mais profundo ao que está dito ou escrito. Há alguma
relação com o que o senhor acaba de dizer? A sua
literatura quer achar uma grande metáfora, uma parábola,
um significado para as grandes questões humanas?
Não sei. Não inspira tanto, não tenho tantas
pretensões assim. Mas há um conto, muito leve, que
eu suponho que conheçam. É o Conto da Ilha Desconhecida.
No fundo, talvez seja uma espécie de síntese de
tudo aquilo que eu tenho tentado expressar ao longo de milhares
de páginas, no conjunto não só de romances
como de peças de teatro, contos e crônicas. A ilha
desconhecida somos nós próprios e, nesse conto,
quando se pinta dos lados que o nome da caravela é Ilha
Desconhecida, as últimas palavras são: "Com
a maré do meio-dia, a caravela partiu à procura
de si mesma." E, no fundo, é isso. Nós andamos
à procura de nós próprios e essa busca pode
tomar vários caminhos, alguns passam pela religião,
outros passam... os caminhos são múltiplos, e eu
procuro passar, enfim, por uma coisa muito simples, mas parece
que não funciona sempre, que é a razão.
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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
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