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Elói Marcelo
"A escola não é só um lugar para você ir e ficar lá quatro horas aprendendo coisas. Eu acho que tem que ser lugar para fomentar ações, idéias nos jovens e incentivar mesmo."
 

Elói Marcelo, 20, é consultor do Instituto Ayrton Senna e comentarista do canal Futura. Atualmente trabalha no projeto Largada 2000, que vai capacitar 50 mil jovens de seis estados. O objetivo é formar protagonistas — jovens que estejam na linha de frente em ações sociais, não em papéis coadjuvantes.




 
 

O herói de Lagoa Santa

A ONU decidiu: 2001 será o Ano Internacional dos Voluntários. Estão todos convidados a dedicar um pouco de seu tempo e talento para reduzir as desigualdades sociais no mundo. Elói Marcelo já contribuiu com seu grãozinho de areia. Graças a seu trabalho voluntário, nenhuma criança está fora da escola em Lagoa Santa/MG.

Elói Marcelo de Oliveira Silva tem 20 anos e 1,94 m de altura. Quando começou, aos 14 anos, o trabalho que iria pôr fim à evasão escolar na cidade em que reside, ninguém achou que ele fosse gente grande. Procurou escolas municipais, o prefeito, a secretária de Educação. Todos lhe fecharam as portas. Ninguém o levava a sério.

Elói é um dos precursores de um movimento de nome esquisito: protagonismo juvenil. Tanto que, no início, ninguém em Lagoa Santa/MG entendeu. Aos poucos ele foi mostrando que, por trás do termo, havia uma idéia simples e que dava resultado: pôr jovens entusiastas indignados com a realidade brasileira no comando de ações sociais.

Já que o poder público não ajudava em suas pesquisas, ele e um amigo percorreram a periferia da cidade, no que chamou de Arrastão Cívico. Descobriu o que afastava a maioria das crianças da sala de aula: faltava dinheiro para o material escolar. Obteve doações do comércio local e convenceu os pais de que lugar de criança é na escola.

Em seguida, outra idéia, outra bola na rede. Juntou um grupo de jovens para dar uma força às crianças que já estavam matriculadas. Obteve 100% de aprovação dos 73 alunos das aulas de reforço. Seu entusiasmo já contagiou todos os 45 mil habitantes de Lagoa Santa. Hoje são eles que não permitem mais que nenhuma criança abandone a sala de aula.

Na entrevista a seguir, Elói comenta a importância do apoio das escolas às iniciativas de jovens que desejam intervir na sociedade e exercer plenamente sua cidadania através de ações voluntárias.

Em 2001 — Ano Internacional dos Voluntários — Elói estará à frente do Largada 2000, um projeto do Instituto Ayrton Senna que pretende ajudar 50 mil jovens a tirar suas idéias do papel e aproximar o Brasil real do Brasil em que gostariam de viver.
Com o ano novo chegando, a vontade é fazer o seguinte voto: que o Brasil se torne uma enorme Lagoa Santa.

Quando você sentiu que a ação social poderia ser o projeto de sua vida?
Na verdade, meu trabalho começou com 14 anos. Desde pequeno, eu via meus pais participando de campanhas do quilo, fazendo doações de cestas básicas e eu cresci com aquilo. Sempre ouvi meu pai falando: "Se você puder ajudar alguém de alguma forma, ajude." Então, assim, eu cresci com aquilo. E, de repente, aos 14 anos, meu pai me trouxe um folheto falando sobre os índices de educação no estado de Minas Gerais, que eram assustadores na época, e eu resolvi fazer uma pesquisa para saber como estava a situação aqui em Lagoa Santa, no meu município, e a partir daí fazer alguma coisa. Como procuramos as escolas municipais, a prefeitura, a Secretaria de Educação e ninguém quis nos receber, nós entregamos um questionário em seis escolas estaduais. Dessas, só duas responderam. A secretária de Educação na época tinha dito que havia perdido o questionário e que não teria tempo de responder a outro. Procuramos o prefeito também e recebemos uma negativa. Então a gente viu que estava sozinho. O poder público não estava a fim de ajudar. Aí a gente resolveu ir atrás desses dados.

Você disse que teve acesso a um relatório com os baixos índices de educação. Na sua opinião, por que alguns jovens, ao invés de procurar fazer alguma coisa, recebem com indiferença as notícias sobre a questão social no Brasil, que são tão sérias?
Eu acho, enfim, eu partiria até para uma coisa que estou estudando na faculdade de jornalismo, a "disfunção narcotizante". A imprensa hoje vomita, pode-se dizer, tanta informação e trabalha de uma forma tão vulgarizada as coisas que acontecem que o jovem passa a deixar de lado aquilo, sabe? Você pega o caso de um aborto, de um jovem com Aids, isso está tão vulgarizado na mídia que o jovem passa a ver aquilo como uma coisa qualquer. O problema da violência, por exemplo, ou o jovem na televisão, que a gente discute muito. Hoje o sexo é tratado de tal maneira que ele pensa que é só mais uma coisa. Então é por isso que, para muitas coisas que acontecem, o jovem não dá tanta importância, porque a mídia trabalha de forma errada até essa informação.

No seu caso, você percebeu que o poder público era ausente e então resolveu sair com um amigo de porta em porta à procura das crianças que não estavam na escola. Como foi esse início?
É, foi difícil, porque a gente tinha 14 para 15 anos na época, e ninguém acreditava no nosso trabalho. Nós fomos a um bairro carente aqui de Lagoa Santa, chamado Morro do Cruzeiro, onde visitamos algumas famílias. A gente disse que estava procurando saber onde tinha crianças fora da escola e depois a gente conversava com os pais. Muitos não quiseram nos receber, outros já foram mais receptivos. Nesse bairro, a gente localizou dez crianças fora da escola. A razão geral era que os pais não tinham condições de bancar o material escolar. Nós tentamos fazer a matrícula dessas crianças, mas pela lei não podíamos fazer...

Por quê? O prazo já tinha acabado?
Não, nós tentamos, mas como éramos menores de idade, não podíamos fazer a matrícula pelos pais. A gente procurou o promotor de Justiça da Infância e Adolescência e isso casou mais ou menos com a idéia dele, que era de criar o Conselho Tutelar. Aí ele agilizou o processo todo, apoiou a gente e criou o conselho, que, desde então, vem ajudando a gente nesse trabalho de localizar as crianças fora da escola. Na época a gente deu ao nosso trabalho de pesquisa o nome de Arrastão Cívico, por causa dos arrastões que estavam acontecendo no Rio de Janeiro. Só que a gente queria fazer um arrastão positivo.

E ao fazer esse arrastão... Você já tinha freqüentado a periferia até aquele momento? Qual foi o impacto na sua vida de conhecer esse outro lado da realidade?
Eu já tinha ido com meus pais para fazer doações de cestas básicas, mas nunca tinha tido um contato direto. Mas, nesse momento, fomos eu e o meu amigo. Então, nós dois sozinhos, tendo contato com tudo aquilo, se assustando com algumas coisas... a gente esperava ver certas coisas. Mas, em relação a isso, eu tive uma experiência ainda maior. Uma coisa que me assustou foi uma vez que eu viajei a convite do Unicef e da Embaixada do Canadá para conhecer regiões do sisal, de carvoaria, de canavial. Pra mim, foi um choque muito grande. Eu já conhecia mais ou menos, mas não imaginava ser tão marcante uma experiência dessas, estar ali vendo crianças mutiladas por máquinas de sisal, trabalhando no corte de cana. Sinceramente, é um horror isso, sabe? É uma experiência que vou levar para minha vida inteira.

E nesse trabalho que vocês fizeram com a população, foi indispensável a bolsa-escola para diminuir a evasão escolar?
Em alguns casos, sim. Em outros, a gente não trabalhou diretamente com a bolsa-escola. Essas dez primeiras crianças foram localizadas entre 94 e 95. A partir de 95, a gente começou a fazer um trabalho maior, com o apoio de mais pessoas e mais jovens. Normalmente, quando surgiam os casos de crianças precisando de material escolar, a gente fazia uma campanha com o comércio local, que ajudava com doações. Ajuda única e exclusivamente voluntária, nada de bolsa-escola, até porque na época não existia essa idéia. Em alguns casos, bastava conversar para os pais começarem a mandar as crianças para a escola.

Passado esse estágio de localizar as crianças e encaminhá-las à escola, o projeto foi além. Vocês perceberam a necessidade de fazer o acompanhamento escolar e dar aulas de reforço para essas crianças...
Exatamente. A gente fazia o Arrastão Cívico um mês e meio depois do início das aulas porque a gente queria aquela criança que saiu da escola e não a que estava sem matrícula. Durante o ano, a gente acompanhava a criança que a gente tinha localizado. Mas não bastava só levar a criança para escola. Tinha que ajudar a que já estava lá. Então a gente organizou, em 95, aulas de reforço para crianças de 1a a 4a série. E fomos nós mesmos que demos essas aulas. Em 95, recebemos uma turma de 73 crianças. Demos as aulas e conseguimos uma aprovação de 100%. Pra gente foi uma grande vitória. Em princípio, a gente teve um embate com os professores, porque as crianças chegavam falando na sala de aula: "Ah! Aquela aula tem isso, tem aquilo e aqui a gente fica parado." Os professores começaram a sentir que estavam perdendo um pouco o espaço, mas não era isso que a gente queria.
A gente criou, mais ou menos, uma concepção. A gente não queria aquilo de que não gostava na sala de aula. Ou seja, criança atrás de criança, professor lá na frente falando. Então, a gente mudou tudo isso. Organizava as crianças em círculo e, quando falava de meio ambiente, a gente as levava às grutas aqui perto para passeios ecológicos, organizava piqueniques, para diferenciar o aprendizado.
Em princípio, a gente criou meio que um problema com os professores, mas depois eles foram se acostumando com a idéia. A prefeitura inclusive assumiu as aulas de reforço desde 98, e os professores viram que aquilo era realmente uma ajuda.

E depois das aulas de reforço, outro passo importante nessa causa foi a criação da ONG Pacto de Lagoa Santa pela Educação, não é isso?
Isso, isso. No final de 95, a gente começou a se organizar. A gente sentia essa necessidade de correr atrás de apoio para nosso trabalho. Em 96, a gente se instituiu como ONG e recebemos o apoio financeiro do Unicef, que foi primordial. Em 96, a gente realizou o Arrastão Cívico em toda a cidade de Lagoa Santa, que tem em torno de 45 mil habitantes e localizamos 120 crianças fora da escola. Dessas, 113 a gente conseguiu trazer de volta para a sala de aula. A gente já conseguiu envolver 250 adolescentes nesse trabalho. Pra gente foi muito bacana, muita gente ajudando, a fim de trabalhar. Tínhamos em torno de 30 adultos para nos ajudar.

E entre esses adultos, havia professores da escola em que você estudava. Qual a importância da participação de professores e da escola em projetos sociais criados por jovens protagonistas?
Na época, eu não estudava em Lagoa Santa. Meus professores não se envolviam porque não tinham como. Mas esse apoio de professores e diretores às ações protagonistas, eu acho que tem que existir. Pode ser complicado, no princípio, porque você tem que quebrar algumas barreiras, principalmente o educador, mas tem que existir porque a escola não é só um lugar para você ir e ficar lá quatro horas aprendendo coisas. Eu acho que tem que ser lugar para fomentar ações, idéias nos jovens e incentivar mesmo. Eu acho que professor, diretor, tem que ser o grande incentivador do jovem, seja num campeonato de futebol, seja numa ação em favor da educação, da saúde, da cultura, enfim, porque senão a gente perde muitas ações. Eu já vi muitas ações morrerem por falta de ações da escola. Poxa, o jovem tá ali, querendo crescer e, se ele não recebe um incentivo dentro daquela escola, onde mais ele vai conseguir apoio?

E por falar em apoio, o seu projeto foi reconhecido pelo presidente da República! Algum projeto oficial contra a evasão escolar tem o dedo da sua experiência em Lagoa Santa?
Eu não posso afirmar com certeza, mas acho que algumas idéias se assemelham muito, tipo o Toda Criança na Escola. Esse reconhecimento veio realmente quando ele me convidou para participar do lançamento da campanha Acorda, Brasil!, em 95, em que tive oportunidade de ter um contato mais direto com o Unicef. A imprensa também nos ajudou muito na divulgação, coisa que a gente não esperava. Eu brinco muito dizendo que eu sempre assisti ao Jornal Nacional, mas nunca me imaginava sendo pauta do Jornal Nacional e, de repente, eu tava lá. Isso se deve um pouco à abrangência do nosso trabalho.

É importante para o jovem saber onde encontrar informações sobre projetos bem-sucedidos, até para ele saber como lidar com uma questão social ampla, complexa. Se ele quiser combater a evasão escolar, já sabe que um bom começo é ir à periferia e identificar as crianças fora da escola...
Exatamente. No nosso caso, a gente nem sabia direito o que queria fazer. A gente falou: "Primeiro vamos pesquisar como estão as coisas aqui em Lagoa Santa, depois a gente pensa no que fazer." De repente, as necessidades vieram, tipo "tá a gente já botou as crianças na escola, agora tem que ajudar as que estão lá". Então criamos aulas de reforço e outras estratégias. A gente não tinha muita noção pra onde a gente ia... Aos pouquinhos, a gente foi vendo e suprindo as necessidades.

E quanto tempo vocês levaram para zerar a evasão escolar desde 96, quando localizaram 120 crianças?
Foi em 98. Em 97, a gente localizou 38 crianças fora da escola e conseguimos encaminhar 27. Em 98, a gente localizou 9 e encaminhamos todas e, a partir daí, eu me afastei da coordenação do projeto. Mesmo porque em 99, depois das férias, quando a gente ia se organizar para recomeçar o trabalho de Arrastão Cívico de novo, a gente viu que a comunidade já estava tomando a iniciativa. E o que a gente queria era isso mesmo, era plantar a sementinha, era que a população se conscientizasse e levasse em frente a idéia. Foi o que aconteceu, tanto que Lions, Rotary, se organizaram e fizeram os arrastões. Foi bem legal porque a nossa ação diminuiu, mas a idéia ficou.

O que você passou a fazer desde que se afastou do projeto?
Eu passei a dar palestras pelo Unicef e comecei a fazer um trabalho de divulgação dessa idéia, ajudando outras cidades, como Porto Seguro, que fez o seu pacto pela educação. Em 99, eu fui chamado para trabalhar no Instituto Ayrton Senna, como consultor e palestrante e, em meados de 99, fui convidado para trabalhar como comentarista do jornal Futura, no canal Futura. Eu estou até hoje nos dois.

Então você não está trabalhando em nenhum projeto social neste momento?
Estou trabalhando, no Instituto Ayrton Senna, num projeto chamado Largada 2000, em parceria com o Sesi e a Terleron, de Rondônia, e outros parceiros. No Sesi, a gente está capacitando cerca de 50 mil jovens para fazer ações "protagônicas" e tem surgido muita coisa legal. A gente criou um jogo onde só tem vencedores, ninguém perde. A gente pontua as ações e está divulgando isso na imprensa. A gente quer dar uma amplitude às idéias desses jovens. Nós já estamos trabalhando em Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Ceará e Bahia. São seis estados. A gente pretende ampliar o número de estados e pra mim está sendo uma grande experiência porque eu não imaginava conhecer tantas ações diferentes, desde projetos para bancos de escola até projetos de poesia. Então para mim está sendo muito legal.

E qual é a sua expectativa para o próximo ano, que é o Ano Internacional dos Voluntários?
Estou muito empolgado pelo que eu tenho visto. Eu estou sempre rodando o país. Começou-se a falar de voluntariado no país quando o Betinho fazia suas ações. Eu acho que tende a crescer e torço para que isso aconteça, que muitas pessoas criem essa idéia, tenham a vontade de ser voluntárias - a gente já conta com projetos de incentivo, como o Amigos da Escola e outros - e também que as pessoas tomem conhecimento das ações que estão acontecendo fora do país. Este ano vai acontecer o evento [Fórum Social Mundial] da ONU no Senegal. Espero que a gente possa estar levando daqui muitas experiências que o mundo não conhece e, com isso, trazer um grande apoio para essas iniciativas no país.

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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional


         
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