Entrevistas   Entrevista da Semana


O Pensador (1880), escultura em bronze de Auguste Rodin


"A filosofia começa quando começamos a investigar rigorosamente nossos valores, nossos conhecimentos, e a buscar significados para o mundo em que vivemos."
 

Dalva Garcia é assistente pedagógica do CBFC - Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças.


 

Filosofia para iniciantes

Entre 17 e 22 de janeiro, pedagogos e filósofos debatem o desenvolvimento cognitivo que a filosofia propicia a crianças e jovens.
No IV Encontro Nacional de Educação para o Pensar, em Recife, as crianças terão espaço garantido. Elas vão representar as 700 escolas brasileiras que adotam a filosofia no currículo e apresentar o fruto de um ano de reflexões e questionamentos.

"A filosofia na escola inaugura uma nova postura em que o professor não responde, mas auxilia nos caminhos da investigação."

Seu berço foi a Grécia e ela tornou-se um dos pilares da civilização ocidental. Em mais de dois mil anos de História, uma coisa prevalece inalterada: a filosofia se nega a engolir verdades prontas e teorias preconcebidas. Pensadores de ontem e de hoje debruçam-se sobre a mesmíssima tarefa: questionar com rigor valores e conceitos, partir da dúvida e buscar a razão. Já que de duvidar vive o filósofo, que tal se interrogar: filosofia é exclusividade dos sábios?

Para quem crê só ser possível filosofar em alemão, o Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC) contesta, em bom português: filosofia também é coisa de criança. No esforço de aproximar a filosofia do ensino fundamental, o CBFC é dos primeiros. Seu programa Filosofia para Crianças, criado em 1985, faz parte do cotidiano de cerca de 700 escolas e ajuda 205 mil alunos a conjugar o verbo filosofar e a descobrir as belezas do mundo das idéias.

"Quando crianças ainda muito pequenas percebem que podem, junto com outras, pensar de forma organizada sobre as grandes questões que cercam a existência, começam a construir sua autonomia moral e intelectual", observa Dalva Garcia, do CBFC.

Muito antes do livro O Mundo de Sofia, do norueguês Jostein Gaardner, o CBFC já descobrira que o caminho (à primeira vista distante) entre o universo infantil e a filosofia pode ser percorrido ao se contar uma bela história. O CBFC faz das narrativas e personagens de Mathew Lipman a porta de entrada das crianças na investigação lógica e crítica de valores e atitudes.

Na entrevista a seguir, Dalva Garcia esmiuça os princípios do Programa de Filosofia para Crianças. As palavras de ordem são: diálogo, construção coletiva do conhecimento e comunidade de investigação. Fala também do que o ensino fundamental tem a ganhar ao incorporar a filosofia. "Para Lipman, o grande desafio da educação é desenvolver a capacidade de raciocínio", afirma. "A filosofia permite pensar sobre o pensar, portanto favorece o aprimoramento do pensamento", conclui.

"não é suficiente que os alunos simplesmente aprendam o conteúdo das disciplinas. É preciso que aprendam a pensar historicamente para aprender história ou a pensar matematicamente para aprender matemática."

Qual é a origem do Programa de Filosofia para Crianças?
No final da década de 60, o professor norte-americano Matthew Lipman, preocupado com o desempenho de seus alunos no que se refere ao desenvolvimento cognitivo, concebeu o Programa de Filosofia para Crianças. Para Lipman, o grande desafio da educação é desenvolver a capacidade de raciocínio. Desde suas origens, a filosofia se preocupa com o
desenvolvimento das habilidades de raciocínio, com o esclarecimento dos conceitos, com a análise dos significados e com o cultivo de atitudes que conduzam ao questionamento, à investigação, à busca dos significados e da verdade. A filosofia permite pensar sobre o pensar, portanto favorece o aprimoramento do pensamento. Mesmo quando despida de sua terminologia técnica e da história de seus sistemas, a filosofia retém sua ênfase na discussão de idéias de forma organizada, o que é importante para os alunos e para os professores.

Atualmente existe, no mundo inteiro, uma autêntica comunidade disposta a levar a filosofia às salas de aula. Qual a dimensão desse movimento no Brasil? Quantas escolas abrange?
Já na década de 70, o Programa de Filosofia para Crianças demonstrou ser uma abordagem promissora para o desenvolvimento das habilidades cognitivas e, a partir de 1976, espalhou-se pelo mundo, sendo traduzido e trabalhado em vários países. No Brasil, o programa foi trazido pelas mãos da professora Catherine Young e Silva, que fundou, em janeiro de 1985, o Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças. O CBFC é uma sociedade sem fins lucrativos que tem por objetivo divulgar a proposta e habilitar os professores a trabalhar com ela. Hoje temos mais de 700 escolas espalhadas pelo Brasil que implantaram o programa, cerca de 12.000 professores preparados através de cursos e aproximadamente 205.000 crianças e jovens que entram em contato com o universo da investigação filosófica.

A filosofia é freqüentemente vista como assunto apenas para iniciados. Daí a pergunta: de que forma pode-se iniciar crianças do ensino fundamental na filosofia?
Lipman escreveu uma série de novelas filosóficas e desenvolveu uma metodologia capaz de iniciar crianças e jovens na aventura do filosofar. A filosofia começa quando começamos a investigar rigorosamente nossos valores, nossos conhecimentos, e a buscar significados para o mundo em que vivemos. É uma reflexão radical, é o pensar que ultrapassa os limites do senso comum. Em nossa sociedade nos acostumamos a aceitar conceitos e valores sem questioná-los ou investigá-los. As crianças trazem em si a vontade de descobrir, de entender o mundo. Ainda não se acostumaram com as "evidências do cotidiano". A fim de manter a chama da investigação e do questionamento, utilizamos as novelas filosóficas escritas por Lipman, cujos personagens se tornam modelos de investigação para as crianças. São histórias envolvendo situações cotidianas e que trazem em si temáticas filosóficas que devem ser problematizadas e investigadas através do diálogo em sala de aula, coordenado e organizado pelo professor.

Então, nessas novelas específicas para as diversas faixas etárias, as questões filosóficas são introduzidas através de personagens e narrativas. Que outros aspectos desse material didático a senhora destacaria?
Existe um currículo filosófico inserido nas novelas de Lipman. As questões relativas à teoria do conhecimento, filosofia da linguagem, ética, estética e lógica são o pano de fundo para a aventura dos personagens e a das crianças com as idéias. Lipman, ao inserir as questões filosóficas por meio de uma narrativa, preocupou-se em colocar nas falas de seus personagens as diferentes abordagens de um problema presente na história da filosofia de forma acessível às crianças. Há um extremo cuidado em evitar o risco de dogmatismo existente em algumas correntes filosóficas e, por outro lado, rigor necessário para tornar a investigação mais abrangente, considerando a faixa etária das crianças. As grandes questões sobre as quais se debruçaram os grandes pensadores tornam-se presentes e significativas no contexto de formação das crianças. O método dialógico permite a autocorreção, o reencontro com os caminhos do pensamento e, sem dúvida, colabora para o desenvolvimento cognitivo e de atitudes éticas. Quando crianças ainda muito pequenas percebem que podem, junto com outras, pensar de forma organizada sobre as grandes questões que cercam a existência, começam a construir sua autonomia moral e intelectual.

O Programa de Filosofia para Crianças propõe converter uma turma de alunos em uma "pequena comunidade de investigação". Como se dá, na prática, essa transformação?
Quando as crianças se tornam capazes de ouvir atentamente os outros, aceitam com boa vontade a correção feita pelos colegas, tornam-se capazes de construir sobre as idéias dos colegas, desenvolvem suas próprias idéias sem medo de rejeição, demonstram preocupação com a consistência ao apresentarem seu ponto de vista, discutem questões com objetividade, exigem critérios, passam a fazer perguntas relevantes. O alicerce da Comunidade de Investigação é a construção coletiva do conhecimento através do diálogo. Isso implica em romper a tradição do individualismo, da competição, do imediatismo, que se encontra em todos os campos do conhecimento em nossa sociedade.

Um dos fundamentos dessa comunidade é o diálogo. Em que isso se assemelha aos diálogos entre Sócrates e seus pupilos?
Sócrates buscava um diálogo racional em busca da verdade, conduzia seus interlocutores a retomarem suas idéias em busca de conceitos mais consistentes. Não dava respostas, perguntava. Através de perguntas bem elaboradas, questionava as certezas estabelecidas em busca do verdadeiro, do bom e do belo. Sem dúvida, os diálogos socráticos são a inspiração de Lipman. O que marca um autêntico diálogo filosófico não é a disputa de argumentos, mas a busca da verdade, a clarificação dos conceitos, a busca dos sentidos e dos referenciais de nosso cotidiano.

Os alunos de uma escola tradicional são impelidos a resolver problemas, questões e provas. A filosofia, ao contrário, volta sua atenção às questões, ao questionamento. As escolas têm dificuldade para assimilar esse novo padrão?
Não podemos desprezar a força de nossa tradição educacional, que nos ensinou que o professor sabe e o aluno aprende. A filosofia na escola inaugura uma nova postura, em que o professor não responde, mas auxilia nos caminhos da investigação. Nesse caso, deve haver predisposição para o questionamento de nosso papel enquanto educadores, o que não quer dizer jogar fora o conhecimento adquirido. O professor e os demais membros da comunidade escolar devem também estar dispostos a buscar novos caminhos, a questionar sua prática e seus valores e a lançar-se com os alunos nessa fascinante aventura tendo ciência dos objetivos que se quer alcançar. O saber não pode ser entendido como sinônimo de poder ou de competição, mas como sinônimo de busca. A filosofia na escola ensina aos educadores que nunca é tarde para rever, para buscar, para aprender. Essa lição pode, muitas vezes, não ser fácil, mas vale a pena se não quisermos fazer da democracia e da cidadania apenas uma promessa.

De que forma a escola insere a filosofia em seu programa, em suas atividades? A filosofia é vista como uma disciplina, com horários e espaços definidos?
Sim, a filosofia não pode ser entendida como um simples bate-papo nas horas vagas. Ela exige um trabalho sistemático, rigoroso, e merece espaço e horários definidos. É verdade que todos podem e devem pensar filosoficamente, mas esse pensar não pode ser exercitado de qualquer forma. Introduzir em uma aula de história uma discussão sobre o que é ou não justo pode ser um bom início para uma investigação, mas ela só se tornará filosófica se buscarmos as raízes, os fundamentos de nossos conceitos de justiça, ou seja, se houver aprofundamento. Caso contrário, corremos o risco de tornar as discussões filosóficas em uma sedimentação do senso comum.

Os PCN determinam que a Ética seja o principal tema transversal. Como você analisa esse esforço da educação nacional em discutir valores, atitudes e preparar para o exercício da cidadania?
Creio que vivemos em uma época em que é necessário parar para reavaliar os valores que sedimentam nossas atitudes. As transformações crescentes a que estamos submetidos exigem, sem dúvida, um esforço de reflexão. Todavia, creio que a questão da transversalidade merece ser discutida. Se entendermos que ética é a investigação filosófica sobre os princípios e valores de nossas ações, temos que dar a essa investigação o espaço e tratamento adequado, bem como formar os educadores para que possa ser viável, não confundindo investigação ética com doutrinação moral.

Os trabalhos dos alunos, fruto das suas reflexões, são apresentados em um evento nacional que acontece a cada dois anos. Qual a importância desse intercâmbio?
Nosso trabalho tem como alicerce o diálogo, a troca, a reflexão. O crescimento do Programa de Filosofia para Crianças no Brasil é bastante significativo e essa troca em âmbito nacional é merecida. Buscamos com o Encontro Nacional de Educação para o Pensar favorecer uma reflexão tanto no que diz respeito ao universo da pesquisa teórica quanto no que diz respeito ao universo da prática educativa, a fim de alimentar o trabalho nas escolas e, principalmente, favorecer o diálogo entre os educadores comprometidos com uma educação mais reflexiva.

O tema do evento deste ano é o desenvolvimento cognitivo. Qual a contribuição da filosofia para aprimorar o raciocínio e a aprendizagem dos alunos?
Lipman afirma em um de seus artigos que muitas pessoas já perceberam que não é suficiente que os alunos simplesmente aprendam o conteúdo das disciplinas. É preciso que aprendam a pensar historicamente para aprender história ou a pensar matematicamente para aprender matemática. Os professores geralmente alegam que não têm tempo ou preparo para ensinar as habilidades básicas necessárias para raciocinar em tais disciplinas. A prática do diálogo filosófico traz como conseqüência o desenvolvimento do "pensar bem". Trata-se de fazer a ponte entre o pensamento comum e o pensamento crítico, de fazer com que as crianças aprendam a estimar em vez de adivinhar, avaliar em vez de preferir, classificar em vez de agrupar, inferir logicamente em vez de simplesmente fazer inferências e a associar conceitos compreendendo seus princípios. Eu diria que, se a filosofia é o lugar do pensar de forma organizada, o exercício do pensar poderá colaborar e muito para o desenvolvimento cognitivo.



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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional


         
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