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Entusiasmo
contra a bagunça
O psicoterapeuta Flávio
Gikovate afirma que a paixão dos professores por suas matérias
e a capacidade de fazê-las atraentes são os melhores
remédios para conter alunos indisciplinados e criar um
ambiente propício à busca do saber.
Roberta e Marília se juntaram para participar
de um debate do Educacional. Em uma frase, resumiram o que pensam:
"Achamos que a educação está muito desatualizada
e que os professores têm que variar um pouco as aulas."
Nada demais se a crítica das alunas tivesse ido parar onde
se discutem reformas nas metodologias de ensino, na formação
do professor ou as novas tecnologias na educação.
Boa parte dos educadores daria o braço a torcer.
Só que onde elas puseram a boca no trombone, o que estava
na ordem do dia era a indisciplina em sala de aula. Dissonante à
primeira vista, a idéia foi ganhando adeptos, que engrossaram
o coro à medida que o debate esquentava. "O grande problema
da indisciplina nas escolas se deve à falta de interesse
por parte dos alunos pelas aulas que são ministradas."
Até que uma participante, Carolina Miles, levou esse juízo
ao limite e decretou sem meias-palavras: "A mesmice acaba com
o ânimo de ambos [alunos e professores], gerando frustrações
e aborrecimentos que muitas vezes explodem em violência na
sala de aula."
Em uma coisa o psicoterapeuta Flávio Gikovate está
com elas e não abre: existe uma relação entre
indisciplina e aulas monótonas e desinteressantes.
Tema polêmico entre pais e professores, muita água
já rolou debaixo dessa ponte. Na hora de ver quem paga a
conta, é comum que pais culpem as escolas e que as escolas
se defendam dizendo que limites se impõem em casa. "Acredito
que os pais - e também muitos professores - têm andado
muito perdidos. Temos vivido um longo período de revolução
cultural e de costumes desde 1968", argumenta.
Na entrevista a seguir, Flávio Gikovate explica por que
"é privilégio dos jovens a condição
de irresponsabilidade, condição necessária
para o exercício da criatividade". Ele diz que a melhor
forma de os professores lidarem com isso é caprichar nas
aulas e criar um ambiente de estímulo à participação
de todos. Para os mais acanhados, vê com bons olhos a criação
de grupos de ajuda mútua para elevar a auto-estima dos alunos.
O senhor acredita que as relações em sala de aula
ainda devem ter por base a autoridade do professor sobre o aluno?
O professor tem que representar, sim, a autoridade. Isso não
significa que tenha que ser um tirano. Pelo contrário, terá
que se impor pelo fato de despertar a admiração e
o respeito dos moços. Para o bem do desenvolvimento emocional
e da formação dos jovens, os adultos não devem
se furtar a assumir o papel de liderança que lhes cabe.
A imposição de um modelo - do professor ou da
direção da escola - não é garantia de
adesão por parte dos alunos. Com o maior acesso à
informação, os alunos não estariam mais maduros
e capazes de participar dessa tomada de decisões a respeito
de tarefas e regras em sala de aula?
A adesão dos alunos ao modelo proposto pela instituição
e pelos professores dependerá da capacidade destes de se
fazerem atraentes e de fazerem atraentes os temas que ensinam. É
privilégio dos jovens a condição de irresponsabilidade,
condição necessária para o exercício
da criatividade. Eles devem ser preservados nesse papel "mesmo
que lutem para assumir as responsabilidades próprias dos
adultos". (Winnicott).
O senhor argumenta que a questão central não é
encontrar maneiras de combater a indisciplina, mas criar um ambiente
propício e favorável ao aprendizado, capaz de contagiar
a todos. Que características/elementos teria esse ambiente?
Tudo começa pelo aspecto físico da instituição:
asseio, clima voltado para o saber e a seriedade e não o
de um empreendimento comercial, modo de se portar, ser e vestir
dos professores e auxiliares, etc. Depois, pela força do
entusiasmo que os professores consigam transmitir a respeito do
amor que têm por suas matérias, a paixão que
sintam pelo saber e por uma vida voltada para a participação
construtiva no seio de uma dada comunidade. As pessoas jovens captam
o ambiente e sabem responder a ele, do mesmo modo que captam o clima
de bagunça e oportunismo e também respondem a ele.
O carisma do professor seria um desses elementos? Qual sua opinião
sobre o professor que abdica do papel de autoridade máxima
da classe para se tornar um líder carismático, um
amigo dos alunos, cujo objetivo é cativar a turma?
O carisma corresponde a algo que não sabemos definir muito
bem. Definitivamente não tem nada a ver com a postura de
amizade e companheirismo que alguns professores gostam de ter com
seus alunos. Não vejo esse comportamento como indispensável
e nem penso que seja nocivo, desde que o professor continue a ser
o professor e os alunos, os alunos. Não acho que se deva
estabelecer uma relação de igual para igual, principalmente
porque esta não é a verdade. O professor cativará
a turma se for competente para ensinar e se for uma pessoa digna
e admirável.
Muitos alunos temem expor suas dúvidas e outros não
participam da aula para não receber a pecha de "CDF".
O senhor acredita que essa é uma barreira para a criação
do ambiente favorável a que o senhor se refere? O senhor
acha que a escola deveria criar grupos de auto-ajuda, com psicólogos,
para combater a timidez e elevar a auto-estima dos alunos?
Sou muito a favor dos grupos de auto-ajuda no sentido literal da
palavra: grupos homogêneos do qual participam criaturas com
problemática similar e em que, sob orientação
de um profissional qualificado, são debatidos os temas de
interesse específico daquela pequena comunidade. É
ótimo para jovens, especialmente para aqueles que, por timidez,
não participam tanto quanto poderiam das atividades pedagógicas
- tanto por vergonha de se mostrarem portadores de limitações
que não deveriam mais ter como por medo de serem qualificados
de CDF ou outros rótulos aparentemente depreciativos, mas
que muitas vezes escondem a inveja. Sempre que os jovens forem capazes
de ter comportamentos mais desinibidos vivenciarão um importante
acréscimo de auto-estima, o que só acontece quando
conseguimos ultrapassar alguma limitação ou obstáculo.
O senhor afirma que o conceito de felicidade está mudando.
A felicidade não é mais a busca pelo prazer a todo
custo. A felicidade significa alcançar os objetivos a que
nos propomos. E para alcançá-los é preciso
disciplina... O senhor acredita que os alunos chegam naturalmente
a essa conclusão? Qual seria o papel do professor nessa questão?
Se as pessoas se conscientizarem que o mais importante na vida é
ser feliz e se forem claramente informadas de que a felicidade depende
de uma atitude ética, de uma vida que persegue objetivos
dignos e produtivos, e de que essa tarefa exige disciplina íntima
- vale dizer que quem cobra nosso desempenho somos nós mesmos
-, é claro que crescerá o número de moços
e moças que tratarão de caminhar por essa estrada.
O problema é que as informações que a sociedade
transmite aos seus novos membros são contraditórias
e muito influenciadas pelo jogo de interesse da indústria
e do consumismo em geral. A felicidade parece relacionada com a
aquisição de determinados bens e não com o
crescimento interior, que é sua fórmula verdadeira.
Pais e professores deveriam atualizar seu discurso e ajudar as novas
gerações a enveredar por rotas mais consistentes.
O senhor acredita que a transmissão de valores se tornou
uma questão importante nas escolas porque os pais delegaram
indevidamente esse papel aos professores?
Acredito que os pais - e também muitos professores - têm
andado muito perdidos. Temos vivido um longo período de revolução
cultural e de costumes (desde 1968). Acho que só agora podemos
ver com mais clareza para onde estamos caminhando. Acho que só
agora podemos pensar com otimismo sobre o futuro próximo
e afirmar aos nossos filhos e alunos que uma conduta ética
e disciplinada está na raiz da realização dos
seus sonhos. Só agora podemos dizer aos nossos jovens que
homens e mulheres viverão de uma forma "unissex",
em maior concórdia e com menores hostilidades de natureza
invejosa. Hoje podemos dizer a eles que o dinheiro é importante,
mas que não cabe vendermos a alma ao diabo para termos acesso
às riquezas materiais. Hoje podemos aprender com nossos jovens
que o sexo é coisa simples e natural e que não implica
em dominação de um gênero sobre o outro.
Com a reprovação em baixa e contestada por inúmeros
pedagogos, os professores se viram sem um dos principais recursos
que, historicamente, serviam para exigir o cumprimento das tarefas
e manter a disciplina. De que meios alternativos os professores
dispõem para atingir esses objetivos?
Penso que nenhum aluno deveria ser aprovado se não for capaz
de desenvolver as tarefas escolares a contento. Assim, não
penso que se deva abrir mão desse recurso repressivo. A verdade
é que muitas pessoas só se comportam de acordo com
os valores éticos por medo de represálias. O ideal
seria que todos viessem a introjetar valores. Este é um dos
objetivos da educação. Porém, enquanto não
se atinge esse estágio, é necessário que se
usem recursos repressivos, tais como a reprovação,
medidas suspensivas contra a indisciplina, etc.
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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
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