Entrevistas   Entrevista da Semana

Maria Tereza Maldonado

Maria Tereza Maldonado é psicóloga e conferencista. Membro da American Academy of Family Therapy e da World Association for Infant Mental Health.

 



Maria Tereza Maldonado é
autora de mais de 20 livros, entre eles, Casamento: término e reconstrução (Editora Saraiva, 2000, 299 páginas, R$ 31,00) e Redes solidárias (Editora Saraiva, 2001, 94 páginas, R$ 10,20).







 

Até que a separação nos una

Maria Tereza Maldonado falou com 400 pessoas antes de falar ao Educacional. Com base em sua pesquisa, afirma que são dois os desafios de uma separação. O casal desfeito deve manter a sociedade parental e reconstruir uma nova e harmônica forma de organização familiar. Tão importante quanto saber se separar sem traumas é saber reconstruir a família. Os filhos agradecem.

O que já foi "sim, eu aceito" se transformou em "você não presta, você não vale nada, seu (sua) ‡ð#¤Ø†Þ!". No lugar de juras de amor, impropérios impublicáveis. Em franca expansão desde os anos 80, a separação já é o destino de quase um terço dos casais no ano 2000, em números publicados pela revista Veja de 13/06/2001.

Para a psicóloga de família Maria Tereza Maldonado, mesmo que a convivência se torne insustentável e a casa caia, ao menos uma coisa tem de ficar de pé. "É necessário cuidar para manter uma sociedade parental razoável e preservar o direito da criança de ter acesso igual ao pai e à mãe", recomenda.

Por manter a sociedade parental, entenda-se: quem deixa de ser marido e mulher não pode deixar de ser pai e mãe. Enquanto isso não acontece, conforme se vê na maior parte dos acordos de separação e suas famigeradas "visitas quinzenais", ela defende que o pai tem que se fazer mais presente na educação dos filhos.

Entre outras coisas, é disso que depende o equilíbrio de mais de 250 mil crianças que, ainda segundo dados de Veja, estão envolvidos em separações e divórcios no país. São processos que duram anos, se não décadas, e que podem arrastar os filhos para dentro do redemoinho, do turbilhão emocional em que os pais se meteram.

Na entrevista a seguir, Maria Tereza Maldonado conta como tirar os filhos do fogo cruzado de onde, em geral, saem chamuscados. Ela enumera e comenta as diversas "áreas de risco" que os pais devem evitar, desde transformar o desamor em ódio, falar mal do ex-cônjuge até colocar os filhos como espiões ou "moeda forte" da relação.

Nessa briga de marido e mulher, ela afirma que a escola pode meter sua colher. Ela não só deve estar sensível aos sintomas que as crianças podem apresentar durante a crise familiar como deve atentar para o fato de que a família tradicional pode não mais corresponder à realidade dos alunos. "Por isso, é importante que a escola possa trabalhar a validade dessas outras organizações familiares", conclui.

O casal chegou à conclusão de que a separação é inevitável. O que eles podem fazer para proteger os filhos?
Muita coisa. O principal desafio da separação é manter a sociedade parental funcionando pelo menos razoavelmente bem. Isso quer dizer que os filhos têm direito de ser amados, protegidos e bem cuidados tanto pelo pai quanto pela mãe.
A separação não é necessariamente traumática para os filhos, mas existem áreas de risco. É necessário manter uma sociedade parental razoável e preservar o direito da criança de ter acesso igual ao pai e à mãe. Isso vai de encontro ao que é tradicionalmente feito nos acordos de separação.

Nesse sentido, a tradição da guarda materna não ajuda para que as crianças tenham o mesmo contato com pai e mãe...
É. Automaticamente estabelece-se, por exemplo, que os filhos vão ficar com a mãe e ver o pai a cada 15 dias. Isso é um absurdo! Atualmente, há muitos casais e advogados de família que já estão trabalhando com o conceito da guarda ou da convivência compartilhada. As crianças podem até ter um domicílio principal: elas moram com a mãe, por exemplo, mas vêem o pai com muita freqüência.

Como tornar o pai mais presente depois da separação?
O pai fica muito afastado do cotidiano dos filhos. É preciso um acordo para o pai participar ativamente do dia-a-dia das crianças. Ele pode levá-los à escola ou para a casa dele no meio da semana para que também possa supervisionar os deveres escolares. Quer dizer, tudo para não haver essa divisão que comumente se estabelece no padrão de visita quinzenal: há o pai encantado que a cada 15 dias vai passear e comprar coisas e a mãe que cobra que o filho escove os dentes, etc.
O pai fica — eu costumo falar — com a autoridade do controle remoto. Ele tem que exercer a sua autoridade a distância, e a mãe fica muito sobrecarregada, com a função de cuidar e também de ser provedora parcial, se estiver no mercado de trabalho. Esse divórcio emocional é desnecessário e desaconselhável.

A senhora comentou que a separação não necessariamente é traumática. Muitos pais pensam que, adiando a separação, estão diminuindo o sofrimento dos filhos pequenos. É correto pensar assim?
Não depende da idade dos filhos exatamente. Depende de como essa função parental de que lhe falei é exercida. Uma separação pode ser traumática para os adolescentes e não ser para uma criança pequenininha. É aí que vale a pena falar das áreas de risco que fazem uma separação ser uma carga muito pesada para as crianças.

Quais seriam elas?
Em primeiro lugar, um parceiro falar mal do outro. Há o risco de esse desamor que vai se estabelecendo entre o casal se transformar em ódio, em desejo de vingança e em retaliação. Quando isso acontece, dificilmente as crianças são poupadas. Elas entram no meio da linha de fogo. É uma área de risco porque comumente os pais ficam se depreciando, ficam se acusando reciprocamente diante dos filhos: "Seu pai não presta! Ele não pagou a pensão. Está gastando com outras coisas, com outras mulheres!" Ou então: "Sua mãe não presta porque está com dois namorados, está saindo e não está dando atenção para vocês."

O que isso provoca nas crianças?
Isso gera nas crianças uma sensação de desamparo e de desproteção muito grande, porque os pais ficam falando mal um do outro. A criança pensa: "Puxa vida, eu agora estou sem pai nem mãe."

E as demais áreas de risco?
Outra área de risco é colocar a criança como espiã ou mensageira só porque o casal não se fala, não se vê e se odeia.

Como é ser mensageiro dos pais?
A criança fica cobrando coisas: "Papai, a mamãe diz que não pode comprar um par de sapatos novos porque você não deu dinheiro." Aí o pai espuma de raiva, não com a ex-mulher, mas com a criança: "É claro que eu dei dinheiro, mas ela compra sapato pra ela e não pra vocês." Então, essa criança fica com uma sobrecarga muito grande. Ela é o receptáculo da raiva da mãe e da raiva do pai. Sobra tudo pra ela.
Outra área de risco é o conflito de lealdade. É quando os pais que se odeiam começam a usar a criança como um aliado: "Você não pode gostar da namorada do seu pai porque ela não presta, foi ela quem tirou ele daqui de dentro, de perto da gente, você não pode ficar agradando o seu pai porque ele fez uma sujeira muito grande conosco." Então, a criança que gosta do pai e até acha sua namorada simpática fica num conflito de lealdade horrível. Se ela diz que está bem, que veio alegre da casa do pai, que passeou com a namorada, a mãe fica espumando de raiva e a ataca.

Essa postura de colocar os filhos contra o pai ou a mãe, de pô-los nesse fogo cruzado, acontece sem que os pais percebam por que sua vida emocional ficou de pernas para o ar ou realmente é algo consciente, perverso até?
Eu diria que, na maior parte das situações, os pais têm consciência, mas eles não conseguem se controlar. É um transbordamento de ódio, de rancor, de mágoa e de desejo de vingança tão grande que, mesmo quando eles se dizem "eu não deveria estar fazendo esse mal aos meus filhos", eles acabam fazendo. Na questão do dinheiro, isso é muito claro. Um dos jogos mais comuns — e que é uma área de risco seriíssima — é a criança ser usada como moeda forte. Mas, às vezes, os pais estão tão tumultuados antes, durante e imediatamente depois da separação que eles ficam com muito pouca possibilidade de perceber o que está acontecendo com a criança e de saber como tudo isso está repercutindo nela. Então, nessas situações, é muito importante que haja outras pessoas que possam fazer isso. Eu acho que a escola, uma professora, uma orientadora pode dar uma ajuda, bem como alguém da família extensa ou da vizinhança que esteja disponível para acompanhar o que está acontecendo nos sentimentos dessa criança ou adolescente nos períodos de turbulência emocional.

Que efeitos essa turbulência emocional dos alunos traz para a escola?
Em linhas gerais, nas grandes mudanças demora-se um tempo para adaptar-se à nova situação. Claro que isto não é uma lei matemática, mas se considera que, em torno de um ano, um ano e meio, é o período de ajuste à passagem de uma organização familiar para outra. E nesse período é muito freqüente que apareçam mudanças de comportamento e sintomas nas crianças e nos adolescentes em face da crise familiar.
A diminuição do rendimento escolar é um fator que acontece com muita freqüência; a queixa de dor: dor de cabeça, de estômago, de joelho, de perna, dor de tudo (risos); febres sem causas clínicas, mas com razões psicossomáticas; dificuldade de atenção e concentração em sala de aula; mudança de conduta: a criança fica mais agitada, irritadiça, agressiva e mais sensível também — ou chora ou explode muito mais facilmente. Porque, se o pai diz que vai sair de casa, o pensamento da criança é: "E agora, como é que vai ser sem meu pai?". E a aula de matemática passa longe.
Tudo isso são mudanças que devem repercutir na escola, no comportamento com os colegas e com os professores e no próprio rendimento escolar.

E o que significa transformar as crianças em moeda forte de uma relação?
É a mulher que, por exemplo, está insatisfeita com o que o homem lhe dá. Ou, muitas vezes, é o homem que dá muito menos do que pode porque está com raiva da mulher. Assim, ele a priva e, conseqüentemente, priva os filhos. Tem mulher que se sente prejudicada pela separação e quer ser indenizada. Então, entra numa guerra pelo patrimônio. E, se o homem se recusa, ela sonega a visita aos filhos, diz que o filho adoeceu, que não está bem ou não quer ir.
A mulher também pode ameaçar os filhos para evitar que saiam com o pai, principalmente se ele estiver com outra mulher, que vira a vilã da história. Então, as crianças ficam no meio de um conflito muito pesado e muitas vezes são privadas de dinheiro ou da visita ao pai por questões de dinheiro.

O que maltrata mais: as brigas ou a separação em si? Em outras palavras, ver os pais se digladiando é uma dor comparável a ver a família desestruturada para sempre?
Eu sou terapeuta de família e atendo muitas famílias nessas separações que não estão se encaminhando bem. Certa vez, uma criança me falou o seguinte: "Eu não entendo porque meus pais se separaram. Eles me disseram que é porque brigavam muito. Eles estão separados e continuam brigando do mesmo jeito." Então, a dor de ver os pais separados soma-se à dor de ver os pais continuarem brigando, talvez até mais do que quando estavam juntos. Muitas pessoas não conseguem fazer essa separação emocional. Elas continuam casadas pelo ódio. Muitas vezes é uma questão que demora décadas! Esse tipo de casal continua casado, intensamente casado, pelo ódio e pelo desejo de vingança. O sofrimento é causado principalmente pela dificuldade de resolução emocional da separação, que vai colocando as crianças dentro dessas áreas de risco e tirando-lhes o direito de ter uma convivência harmônica com pai e mãe.

A senhora tem comentado características de pais que não conduzem bem uma separação e não poupam os filhos. E como é essa geração de filhos de pais separados? É possível dizer que a separação tem forjado algum traço de personalidade comum em crianças e jovens?
Não, eu não diria que algo possa ser generalizado como um traço comum de filhos de pais separados. Há várias maneiras de se separar e a separação repercute de várias maneiras. Uma outra área de risco, comum entre muitos filhos de pais separados é assumir papéis de adultos antes do tempo.
Vamos dizer: uma mãe está sozinha com seu filho de 10 ou 11 anos. Então, o risco de ela tomar esse filho como um companheiro que não vai poder deixá-la é maior do que se ela tiver refeito sua vida com um companheiro adulto. A mesma coisa acontece com um pai que está sozinho e não consegue recompor sua vida afetiva. Ele também corre o risco de se grudar nos filhos e ficar girando em torno dessa paternidade.
Agora, isso também pode acontecer em um casamento ruim. Há pessoas casadas que moram na mesma casa e estão longe uma da outra emocionalmente. Então, eu não diria que existe uma característica comum.

Não se percebe nem, por exemplo, uma certa visão negativa do casamento, como se ele representasse a perda da liberdade ou fosse uma união fadada ao fracasso? É comum ouvir: "Ah! Isso é coisa de filho de pais separados"...
Isso, pra mim, é uma visão preconceituosa. Antigamente se pensava assim: lar estruturado é o lar com pais casados. Lar desestruturado é o lar com pais separados. Eram sinônimos. Mas em estudos mais aprofundados sobre a família feitos atualmente, sobre as características e desafios específicos de cada composição familiar, a conclusão a que se chegou é que existem famílias estruturadas e desestruturadas em qualquer tipo de organização familiar.
Então, pode haver uma visão negativa do casamento em filhos com pais casados, que vêem a mãe superinfeliz no casamento e o pai se queixando amargamente. Eles consideram o casamento um fardo. Os filhos de pais casados podem ter essa visão. Os filhos de pais separados podem ter passado por toda essa dor de ver a família mudando de organização e da perda da família de pais casados para a reconstrução de uma família de pais separados.

Ou seja, a questão central deve ser a reconstrução da família.
Isto é muito importante: uma família de pais separados não deixa de ser uma família. Muitas vezes se diz assim: "Ah! A família está acabando." Não! O casamento está acabando, a família não. A separação é uma mudança de organização familiar, não é o término da família. Antigamente, tinha-se muito essa visão: acabou o casamento, acabou a família. Hoje em dia, sabemos que não é assim. A família não acaba, ela passa a ser uma família com outro tipo de organização.
Há lares monoparentais que funcionam excepcionalmente bem, muito bem mesmo, com relações harmônicas, de confiança, solidárias e em que as crianças se dão muito bem nos dois núcleos. E não necessariamente esses filhos vão ter uma visão ruim do casamento porque os pais se separaram. Pelo contrário, nem por isso deixam de ter o anseio de se casar, de que vão manter seus casamentos ou até mesmo de ter esta visão: mesmo que o casamento não dure uma eternidade, ele vai ter o seu tempo e depois vai haver uma separação e uma reconstrução de vida.

A senhora acaba de comentar que há crianças que se dão bem com os dois núcleos. Isso porque, nessa reconstrução, muitas vezes os pais separados se casam com quem já tem filhos, não é?
Na família de "recasamento", existem outras características e outras complexidades. O que acontece? Muitas crianças de "recasamento" vão ter a seguinte dimensão: os filhos dele, os filhos dela e, às vezes, os filhos em comum desse outro casamento. É uma composição familiar com irmãos biológicos e irmãos de convívio. É como se fosse um outro tipo de família extensa. Antigamente, a família extensa era o pai, a mãe, os filhos, os tios, os avós, os sobrinhos, aquela grande família que se reunia, aquele clã familiar. Hoje também se fala que a família de "recasamento" é uma família extensa porque é composta pelo homem, pela mulher, pelo ex-marido, pela ex-mulher, pelos filhos de um, de outro, pelos avós de ambos os lados. São oito avós (risos).
Isso resulta numa complexidade de relacionamentos e numa flexibilidade para se ajustar a situações diferentes. Na casa do pai, funciona de um jeito. Na casa da mãe, de outro. Depois que os pais se separam e casam novamente, a família passa a funcionar de uma terceira ou quarta maneira (risos). Essa dimensão de ajustamento, de flexibilidade, de capacidade de negociação, de entrar em acordo também precisa ser bem trabalhada.

A senhora não acha que a escola ainda trabalha muito com o modelo de família nuclear, que não corresponde à realidade de boa parte dos alunos?
Não corresponde. Por isso é importante que a escola trabalhe a validade dessas outras organizações familiares. "Vamos fazer o desenho da família?" Aí se desenha papai, mamãe... Deve-se trabalhar na escola essas outras alternativas de família nas aulas de arte, ou em qualquer outra, e mostrar que existem vários tipos de famílias e que cada uma tem as suas características. Existem as de pais casados, as de pais separados, as de pais que nunca se casaram, existem as famílias de "recasamento", as famílias adotivas, e é preciso falar de todas elas nas escolas. Existe um leque de organizações familiares que precisa ser claramente trabalhado no contexto escolar.
Hoje você tem, no Brasil, uma diminuição da taxa de fecundidade entre as mulheres adultas e um aumento de fecundidade entre as adolescentes, que não necessariamente vão se casar, mas vão ter seus filhos. É a família de três gerações, com avó, mãe e filho, ou quatro gerações, de repente.

E até que ponto essa variedade de organizações familiares que as pessoas estão buscando é conseqüência do aumento de separações e da incerteza ou descrença sobre o futuro do casamento?
A separação hoje não tem o mesmo peso e não sofre o mesmo preconceito de 30 ou 40 anos atrás. As crianças eram discriminadas: "Você não pode mais ser amigo do João porque ele é filho de pais desquitados." Escolas tradicionais ou religiosas não aceitavam filhos de pais separados como alunos. Então, além da dor, do peso, da turbulência emocional da separação, as pessoas enfrentavam o preconceito social. Isso ainda existe, de alguma forma, mas está muito atenuado. A imagem da separação mudou muito. Existe uma mudança de pensamento sobre o casamento, sobre formar uma família e até sobre ter ou não filhos. Tradicionalmente, o destino da mulher era casar e formar uma família. Hoje em dia, muitas mulheres não querem ter filhos. Avaliam a situação e dizem: "Não estou a fim, quero me dedicar ao trabalho." Então, claro que mudou a maneira de olhar o casamento. O casamento não tem que ser para sempre. Ele pode durar um tempo e terminar, e as pessoas vão reconstruir as suas vidas, casar de novo ou não.
Também mudou a maneira de olhar a família, a maneira de cuidar dos filhos. O importante hoje é explorar os recursos para formar uma família harmônica que propicie um bom desenvolvimento emocional, físico e espiritual às crianças em qualquer uma dessas formas de organização familiar. Para mim, esse é o grande desafio da família no século XXI.

A senhora comentou que os pais envolvem os filhos em brigas por dinheiro ou se um deles arrumar um novo parceiro. Nessas novas formas de organização da família, se os pais separados tentarem educar os filhos cada um à sua maneira, isso também não vai gerar muitos problemas entre pais e filhos?
Gera muitos conflitos. Até porque, quando um homem e uma mulher se casam, eles levam suas histórias individuais: como eles foram como filhos, como foram criados por seus pais. Depois, eles têm um filho e isso, por si só, já gera uma série de impasses. Um diz: "Eu acho que criança tem hora pra dormir". O outro responde: "Eu acho que criança tem que dormir quando tem sono." Essas diferenças existem inevitavelmente nos casais.
Quando os casais se separam, passa a haver dois lares monoparentais e, muitas vezes essas diferenças de filosofia educacional se acirram: "Pô, a minha mãe é careta, eu tenho 13 anos e ela não me deixa tomar cerveja. Na casa do pai é legal, eu tomo cerveja com ele, com os amigos dele e com meus amigos também." A mãe fica louca quando escuta uma história dessas. O pai acha que é assim mesmo, que é normal: "Por que não? Ele é um rapaz de 13 anos."
Ou então ela se casa de novo e o marido deixa o filho de 16 anos dirigir o carro... Ela acha um absurdo e não deixa o filho dessa mesma idade dirigir o carro. E o garoto fica enlouquecido porque o marido da mãe deixa o filho dirigir e ela não (risos). Há uma série de áreas potencialmente conflitivas, sem dúvida alguma.

Digamos que seja um casal como aqueles que a senhora mencionou: apesar de separados, brigam por décadas como se estivessem casados. Como eles vão chegar ao consenso sobre a educação dos filhos para reconstruir a família se eles não sentarem e conversarem?
Às vezes, é tão complicado o entendimento desse ex-casal que precisa existir a figura do mediador. Pode ser um psicólogo ou um advogado de família que sente com um e com outro e medie decisões a respeito não só de pensão, divisão de patrimônio e contato com os filhos, mas onde passar férias, Natal, ano-novo, aniversário, esses detalhes do cotidiano, e também sobre outras situações, como montar uma linha básica de medidas e posturas na educação dos filhos para que a criança não fique sem saber o que fazer. Senão, um diz uma coisa e o outro diz outra, um diz que pode e o outro diz que não pode.

Como é que a criança se sente nessa situação?
Outra área de risco para as crianças em caso de separação é a sensação de abandono porque, às vezes, os adultos saem de um casamento insatisfatório com sede de viver. Então, ficam cobrando um do outro a responsabilidade: "Eu sei que este fim de semana é meu, mas eu tenho que viajar, então você pode ficar com as crianças." Às vezes, o ex-casal se entende muito bem nessas circunstâncias, mas às vezes as crianças sentem que sobram nessa história.
Um menino de 13 anos certa vez me falou: "Eu me sinto como uma bolinha de pingue-pongue: meu pai me joga para a minha mãe, minha mãe me joga para o meu pai. A minha conclusão é que nenhum dos dois me quer. Se estivessem casados, não passariam o fim de semana sem mim, eles me levariam junto. Mas agora que eles se separaram, ninguém me quer nos fins de semana." Esse garoto estava vivendo um sentimento de rejeição e de abandono porque os pais estavam muito voltados para os seus interesses e desejos. Essa possibilidade de negligência e de que o filho passe a ser encarado como um fardo também constitui uma área de risco importante.

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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

junho, 2001


         
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