Início
Entrevistas   Entrevista da Semana

Ruy Cezar

"Quando você considera o ser humano em sua integralidade, percebe que, ao avaliar apenas o certo e o errado do conteúdo, despreza sua personalidade integral."

 
Ruy Cezar do Espírito Santo é educador. Em seu doutorado, na Unicamp, estudou a importância do autoconhecimento na formação do educador. Dessa pesquisa, surgiram a disciplina homônima, que ministra na PUC/SP, e o livro O Renascimento do Sagrado na Educação (Ed. Papirus, 1998). É autor também de Pedagogia da Transgressão (Ed. Papirus, 1995) e Ética, Valores Humanos e Transformação (Peirópolis, 1997).

Entre 22 e 24 de junho de 2001, ele reúne educadores em busca de autoconhecimento em um encontro na Fazenda Gaia, a 20 km de Monteiro Lobato/SP. Mais informações: dehob@uol.com.br.






 

Uma aula sobre si mesmo

junho, 2001

Conhece-te a ti mesmo. A frase — inscrita há mais de dois milênios no portal do oráculo de Apolo, em Delfos — entrou para a história. Mas será que entrou em todas as salas de aula? A essa tarefa se dedica Ruy Cezar do Espírito Santo, professor da disciplina Autoconhecimento na Formação do Educador, do curso de Pedagogia da PUC/SP.

Quando Sócrates, o primeiro filósofo a estimular o autoconhecimento em seus discípulos, ouviu de Querofonte que o oráculo o considerara o homem mais sábio da Grécia, ele resolveu examinar a afirmação. Chegou à conclusão de que não era digno da honraria e proferiu outra frase pra lá de conhecida: "Só sei que nada sei." Para ele, a verdadeira sabedoria seria o autoconhecimento, capaz de livrar a humanidade de falsos conceitos.

Diante da constatação, elaborou um método — a maiêutica — para pôr em dúvida o que era dado por líquido e certo. Em diálogos memoráveis, ele e seus alunos interrogavam a forma como o conhecimento era apresentado à época por sofistas e filósofos jônicos (ou pré-socráticos). Os argumentos para rebater as teorias vinham das idéias dos próprios pupilos, era como se brotasse um conhecimento que eles não "sabiam" que tinham. Sócrates comparava isso a um parto.

Herdeiro do filósofo, Ruy Cezar também questiona a forma como o conhecimento é apresentado aos alunos. Ele contesta a fragmentação do saber e propõe, em vez do "conteudismo", interdisciplinaridade. "O educador deve perceber que sua disciplina é um pretexto para ligar a sala de aula ao universo, ao saber maior." No lugar da avaliação quantitativa, sugere o diálogo. Em dinâmicas de grupo, os alunos podem encontrar o artista que "não sabem" ter dentro de si. Ruy compara isso ao despertar da Bela Adormecida.

Na entrevista a seguir, ele explica por que é importante que o professor inicie "uma caminhada em direção a ele mesmo".

O que significa exatamente o título do seu último livro, O Renascimento do Sagrado na Educação?
Esse livro nasceu do meu trabalho de doutorado, que comecei em 91 e terminei em 98. Foi todo um percurso para resgatar a identidade do ser humano, a identidade fragmentada pelo paradigma cartesiano, aquilo que Capra [Fritjof Capra, físico, autor dos livros O Tao da Física e Ponto de Mutação] hoje denomina de paradigma ecológico. Nessa direção, o "renascimento do sagrado" procura retomar a unidade do ser humano. Esse é o sentido mais profundo da obra.

Como a escola contribui para essa fragmentação a que o senhor se refere?
A escola que Paulo Freire denunciava como tendo uma educação bancária é fundada no paradigma cartesiano. É um paradigma dualista que separa corpo e alma. O positivismo e o cientificismo são marcados por esse dualismo. Isso acaba repercutindo na própria personalidade, e o homem passa a ser um somatório de razão, emoção, corpo físico e corpo espiritual. A maior parte da nossa educação, que é marcada pelo positivismo, conduz as pessoas a tal fragmentação. Então, o trabalho de autoconhecimento visa ao resgate da unidade da personalidade, que vem sendo fragmentada.

Tal fragmentação talvez seja mais visível na divisão do conhecimento em conteúdos. O senhor diz que a escola conteudista termina por afastar os alunos da escola. Como isso ocorre?
Aos quinze anos, na adolescência, quando esse afastamento é mais significativo, o aluno acorda para outra realidade de si mesmo. Ele não se conforma, ainda que sem grande clareza, de continuar a ser tratado como um repositório de conteúdos. Isso perde o sentido para ele e daí vem toda a rebeldia. Ele vai para as drogas, para a violência porque precisa protestar. Se isso não for trabalhado pelo educador, o protesto cai no vazio e acontece o fenômeno da Bela Adormecida.

O que acontece com o jovem que é acometido por esse fenômeno? Como despertá-lo?
A história da Bela Adormecida nos fala de uma adolescente que, picada no dedo aos quinze anos, adormece e, com ela, adormece todo o reino... É a situação do jovem que perde o contato com a realidade. Como diz a Bíblia, transforma-se num adulto que tem olhos e não vê, que tem ouvidos e não ouve...

O senhor ressalta que, durante a avaliação, os alunos novamente não são atendidos em toda a sua singularidade, dado o elevado número de alunos por sala. Como os professores podem superar esse problema?
Quando você considera o ser humano em sua integralidade, percebe que, ao avaliar apenas o certo e o errado do conteúdo, despreza sua personalidade integral. É preciso ver a raiz do erro, e isso só acontece se você o trata de forma singular. Quando a avaliação é qualitativa e você escreve ao aluno comentando seu erro, como isso aconteceu e qual pode ser o ponto de partida para ele começar a andar, inicia-se um diálogo com aquele aluno e com o tipo de erro que cometeu.

O senhor diz que, em vez de punir, é preciso "acolher o aluno em seu erro". Como deve ser entendido esse acolhimento a que o senhor se refere?
Errar significa andar, e isso não é motivo para punição. Uma criança que esteja aprendendo a andar e for punida ao levar um tombo vai ter muita dificuldade para aprender. É assim com qualquer erro cometido. A criança precisa não ter medo de errar para poder aprender. O aprendizado é conseqüência da capacidade de errar. O aluno começa a aprender se for acolhido no seu erro, se for recebido pelo professor como alguém que é candidato a aprender por não ter medo de errar.

O senhor diz que, para recuperar a unidade na educação, é preciso que o professor rompa com as práticas pedagógicas que ele adota com um certo automatismo, que viraram parte do cotidiano. O senhor teria algum exemplo para ilustrar como isso pode ser feito?
Na medida em que você considerar qualquer acontecimento como parte do todo, aquilo que hoje nós chamamos de interdisciplinaridade, que não é uma "mistura" de matemática e história, mas sim o educador perceber que sua disciplina é um pretexto para ligar a sala de aula ao universo, ao saber maior. O educador tem que ser capaz de estabelecer esse vínculo entre os fatos e a vida. E ainda estabelecer o vínculo entre os próprios alunos, com práticas e dinâmicas que os coloquem juntos. São inúmeras as atividades possíveis. Nesse livro, O Renascimento do Sagrado na Educação, descrevo algumas atividades para serem realizadas em sala de aula.

O senhor poderia citar uma dessas dinâmicas? Elas têm a ver com arte, para despertar o artista adormecido a que o senhor se referiu no início, não é?
Poderia citar o exemplo de pedir um desenho do aluno a respeito de um conteúdo ou filme assistido. Em seguida, em círculo, os alunos iniciam histórias inspiradas nos desenhos.

Como o senhor avalia sua experiência à frente dessa disciplina inovadora do currículo da PUC-SP que trata do autoconhecimento na formação do educador? Como o senhor tem procurado acolher seus alunos, futuros educadores?
A disciplina chama-se o Autoconhecimento na Formação do Educador. Nós fazemos um trabalho que é um misto de vivências e teoria. Nessas vivências, desenvolvemos um trabalho de acolhimento, para que o aluno se sinta recebido, acolhido para iniciar uma caminhada em direção a ele mesmo. É o artista interior que precisa ser acordado, porque a obra-prima desse artista é ele mesmo. E o educador pode ser o príncipe que acorda a Bela Adormecida. Tenho um texto pequeno sobre isso, uma poesia que eu vou lhe dar. Ela foi recentemente publicada no livro Dicionário em Construção: interdisciplinaridade, da Editora Cortez.

O senhor tem notícia do impacto dessa nova visão sobre os educadores que fizeram essa disciplina? Eles lhe contam como têm procurado implementar essa visão em sala de aula?
Sim, tenho inúmeros depoimentos de alunos desse curso que estão sendo selecionados para um outro livro em vias de publicação chamado Histórias que Educam, da Editora Agora.

O senhor diz que o educador que não fizer um percurso em direção a si mesmo jamais vai compreender os seus alunos. O que falta a esse educador?
Se a visão do educador é fragmentada, ele se vê como um ser limitado e isolado, como um ego solitário. É uma visão "egóica". Ele não vive sua dimensão plena. Vive aquilo que Jung chamava de "persona". Mas ele é muito mais que a "persona" de professor. Se ele não se vê como mais que isso, terá sempre uma visão míope sobre seus alunos. É aquilo que a Bíblia diz: "Tem olhos e não vê, tem ouvidos e não ouve." Ele não tem os olhos abertos para a espiritualidade, só vê a dimensão material. Precisa fazer o percurso do autoconhecimento.

O senhor cita parábolas das mais diversas culturas para ilustrar suas idéias sobre a falta de unidade na educação. O professor terá dificuldade para implementar essas teorias em sala de aula, caso se depare com alunos de origens culturais muito diferentes?
Se eu insisto que o problema é de unidade, de ligação entre as coisas, é fundamental que o educador consiga ter uma visão ecumênica, mostrando o vínculo que existe entre as várias tradições no que elas têm de essencial. Aquele texto do índio Seatle, por exemplo, é um documento importantíssimo. Uma das coisas que ele diz no texto é que, se existe um Deus, é o mesmo Deus do homem vermelho e do homem branco. Então, todo resgate de tradição deve ser feito nesse sentido ecumênico.



*****

Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

 


         
<< voltar  
         




Copyright © 1999-2012. Portal Educacional. Todos os Direitos Reservados.

Termos de uso | Quem somos