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Crescendo
na bolsa da mamãe
junho, 2001
Uma iniciativa da Fundação
Orsa levará o Método Mãe Canguru a todas as
maternidades públicas do país até meados do
ano que vem. Empregada com sucesso há mais de 20 anos na
Colômbia, a metodologia contribui para a sobrevivência
de bebês prematuros onde
há escassez de incubadoras.
"Ah! Meu rebento, não era o momento de você rebentar."
Ao contrário de outras espécies animais, os seres
humanos recém-nascidos exigem dedicação integral
de suas mães. Os nenês prematuros, que nascem no sexto
ou sétimo mês de gestação, então,
nem se fala. São ainda mais frágeis e têm dificuldade
para se alimentar e manter a temperatura. Por tudo isso, precisam
passar uma temporada na incubadora antes de enfrentar o ambiente.
Como uma sementinha, vão precisar de muito calor, carinho
e alimentação adequada para poder vingar.
Segundo dados do Ministério da Saúde, entre as principais
causas de mortalidade infantil estão os problemas respiratórios
e asfixias durante o parto, além das infecções
perinatais, isto é, doenças que os nenês contraem
pouco antes ou logo depois do nascimento. Os prematuros são
as maiores vítimas, especialmente em maternidades de regiões
carentes que não têm incubadoras em número suficiente
e fazem duas ou mais crianças compartilharem o mesmo aparelho.
Para resolver o problema, médicos do Instituto Materno-Infantil
de Bogotá (Colômbia) foram buscar inspiração
na natureza. Tiveram a idéia de copiar a bolsa que cangurus
e outros marsupiais têm para que os filhotes continuem crescendo,
mesmo fora do útero. A idéia é deixar o bebê
o mínimo de tempo possível na incubadora. As crianças
com mais de 1,25 kg são amarradas ao peito da mãe
com uma faixa. Pelo contato pele a pele, recebem calor e a movimentação
que mantém o sistema respiratório funcionando.
Além de diminuir as infecções hospitalares,
o método favorece o aleitamento materno, que fortalece o
sistema imunológico dos recém-nascidos. Mas para Roberto
Rivetti Suelotto, da Fundação Orsa, a "coisa
mais bonita" é que o método "faz crescer
a afetividade entre mãe e filho de forma fantástica".
Com sete anos completados em 2001, a Fundação Orsa
é uma das ONGs mais atuantes na defesa dos direitos das crianças.
E adora enveredar por searas pouco exploradas pelos poderes públicos.
Há dois anos, ela organiza o Prêmio Qualidade na Educação
Infantil, cujas inscrições terminam dia 29 de junho.
O prêmio valoriza experiências pedagógicas de
êxito em creches e pré-escolas de todo o país.
E contribui para orientar políticas públicas em um
setor que ainda não possui censo escolar.
Na entrevista a seguir, Roberto Suelotto afirma que no tratamento
de bebês prematuros acontece coisa parecida. Na falta de estatísticas
aprofundadas, ainda não se sabe a real dimensão desse
problema de saúde pública. Será a partir dos
centros de referência que disseminam o Método Canguru
em todas as maternidades públicas brasileiras que se saberá
com mais precisão quantas vidas o método pode salvar.
Por que esse tipo de tratamento de crianças prematuras
leva o nome de Método Canguru ou Mãe Canguru?
O método foi batizado de Mãe Canguru porque a criança
termina seu desenvolvimento fora do útero e enrolada no peito
da mãe, à semelhança dos filhotes de marsupiais,
que, depois que nascem, ficam na bolsa da mãe até
se completar o tempo de gestação.
Qual é a origem desse método?
Há muitos anos, médicos colombianos começaram
a perceber que, se você pegasse uma criança que tivesse
ficado apenas um ou dois dias na incubadora e, logo em seguida,
a prendesse ao peito da mãe com uma faixa, de tal forma que
houvesse um contato pele a pele, ela receberia da mãe o calor
e a movimentação para manter funcionando o seu sistema
respiratório, ainda não totalmente maduro, e poderia
sobreviver fora da incubadora. Essa foi a origem do método.
Então, ele substitui somente em parte a incubadora...
Isso. As crianças nascidas com baixo peso, independentemente
de serem prematuras ou não, precisam ir para uma incubadora,
que é aquela máquina onde a criança fica para
receber oxigênio, calor, etc. Só que, com o Mãe
Canguru, o tempo de permanência dentro da incubadora é
muito menor. Uma criança que ficaria 40 dias dentro dela
fica só quatro ou cinco dias quando se utiliza esse método.
Nos outros 35, ela fica fora. Quer dizer, é um ganho muito
grande.
Por quê? As incubadoras podem pôr em risco a saúde
da criança?
Essas máquinas são caras e difíceis de encontrar,
principalmente em hospitais carentes. O que acontecia, então?
Às vezes, era preciso colocar duas ou três crianças
dentro da mesma incubadora, o que é um problema sério,
por causa do risco de contaminação. Além disso,
as crianças, dentro da incubadora, não recebem o aleitamento
materno e estão mais sujeitas a infecções intestinais,
etc.
Além da questão da sobrevivência da criança,
o projeto também visa diminuir outros riscos, não
é?
É aí que vem a parte mais interessante e mais bonita
dessa metodologia. A mãe, principalmente a de baixa renda,
quando tem um filho que vai para a incubadora se o hospital
tiver essa máquina , precisa deixá-lo lá
por 40 dias. Nesse tempo, ela acaba voltando ao trabalho, seu período
de resguardo termina e, quando a criança sai, a mãe
quase esqueceu o filho... Então, é grande a quantidade
de crianças que acaba sendo abandonada ou, mesmo sem ser
abandonada, perde o vínculo materno-infantil, criado justamente
nos primeiros momentos de vida da criança.
Começou-se a descobrir que o Método Canguru, por colocar
rapidamente a criança ao lado da mãe, faz crescer
a afetividade entre os dois de forma fantástica. Imagine
uma mãe que espera a gestação do filho terminar
olhando para ele amarrado ao seu peito, acariciando-o, convivendo
dia e noite e podendo conversar com ele. Cria-se um vínculo
fenomenal.
Quais são as causas mais comuns que levam a criança
a nascer prematura ou com baixo peso? É possível identificá-las?
Existem doenças e más formações que
você encontra em qualquer camada populacional. Mas algumas
causas são identificáveis. No Brasil, as mais comuns
são: gravidez precoce, ou seja, gravidez na adolescência,
porque nessa fase a mulher não tem o organismo totalmente
preparado para uma gestação; gestação
malcuidada, que é comum em mães mal-nutridas ou que
são judiadas pelo marido, apanham dele; uso de drogas, desde
cigarro e álcool até maconha e cocaína, pois
todas elas provocam uma queda no desenvolvimento do feto.
Essas são as causas evitáveis. Infelizmente, são
a cada dia mais comuns.
Então, convém que todas as mães, inclusive
as que tenham tomado todos os cuidados pré-natais, tenham
conhecimento do Método Mãe Canguru?
Lógico, porque mesmo uma mãe sem qualquer problema
está sujeita a ter um filho prematuro ou com baixo peso.
Isso pode acontecer.
A quem deve recorrer um hospital ou uma mãe interessados
no Método Canguru?
O hospital deve recorrer à Fundação Orsa. No
caso de uma mãe se interessar pelo método, o que podemos
fazer é verificar qual é, na sua localidade, o hospital
mais próximo que está devidamente capacitado a atendê-la.
Em relação aos hospitais, no nosso programa a meta
é atender à comunidade carente, porque somos uma fundação.
Acreditamos que, até meados do ano que vem, todas as maternidades
que trabalham com o SUS (Sistema Único de Saúde),
sem exceção, vão estar devidamente capacitadas
a utilizar o Mãe Canguru dentro das normas determinadas pelo
Ministério da Saúde.
Além da Fundação Orsa, há mais entidades
envolvidas nesse projeto?
Nosso programa de disseminação da metodologia é
uma parceria da Fundação Orsa, do BNDES (Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social) e do Ministério
da Saúde.
O senhor poderia nos dar uma dimensão desse problema?
Quantas crianças nascem prematuras ou com baixo peso no Brasil?
Qual o percentual sobre o total de crianças nascidas no país?
Isso é algo controvertido porque não temos dados seguros
sobre o percentual de crianças prematuras no nosso país.
O que já foi possível atestar é que o percentual
muda bastante conforme a comunidade em que você trabalha e
as causas do nascimento prematuro, que eu acabei de enumerar. Quer
dizer, quanto maiores os problemas sociais da comunidade que o hospital
atende, mais elevado é o percentual de crianças nascidas
com baixo peso.
O senhor comentou brevemente a questão do aleitamento
materno...
Logo depois do parto, a mãe entra no processo de produção
de leite. É um processo que envolve hormônios dentro
do organismo da mulher. Uma mãe que tem um bebê prematuro
tem uma quebra hormonal. Quer dizer, uma gestação
que estava prevista para nove meses é interrompida no sexto
ou no sétimo mês, e o ciclo hormonal previamente preparado
não chega ao fim. Então, a mãe já vai
ter uma maior dificuldade de produção de leite. Porém,
como o nenê é pequenininho, ele tem uma menor necessidade
de leite nessa fase inicial. Agora, o grande produtor de leite,
a partir daí, é o estímulo mecânico,
o estímulo da mama pela sucção da boca da criança.
Isso faz com que a mulher produza cada vez mais leite. Se a criança
ficar 40 dias dentro de uma incubadora, não há mama
que resista: seca o leite da mulher!
Deve ser uma angústia enorme para uma mãe ter
de ficar longe do filho, que está frágil, e ver seu
leite secar...
Com certeza. Imagine o choque psicológico de ter um filho
numa incubadora, sem saber se vai sobreviver ou não... Primeiro,
existe uma barreira de vidro impedindo a mãe de tocar o filho.
Segundo, às vezes, as crianças têm 1 quilo,
1 quilo e pouco e passam aquela sensação de fragilidade:
não pode tocar senão machuca.
Mas a mãe está preparada para lidar com um bebê
ainda mais frágil que o normal?
Nessa metodologia, há toda uma orientação para
a mãe: como ela tem que cuidar do bebê, trocar a criança,
quais são os cuidados básicos de higiene. Você
tem que agregar uma série de fatores educacionais à
mãe. Isso acaba sendo um diferencial tão importante
que hoje já está se começando a aplicar essa
metodologia em hospitais que atendem famílias de alta renda
e onde não faltam incubadoras nem se enfrenta o problema
da perda de afetividade. Não é nenhuma regra, mas
normalmente as pessoas com um grau de instrução maior
entendem que a criança tem que ficar afastada por um período.
E, quando ela sai da incubadora, a mãe está de braços
abertos para recebê-la.
Como o Método Canguru estimula o aleitamento?
No período em que a criança permanece na incubadora,
que pode durar quatro dias ou até uma semana, dependendo
da gravidade do caso, existe um processo para você tirar o
leite da mão, que chamamos de ordenha. As pessoas às
vezes não gostam desse nome e o acham vulgar, pois parece
que se está falando de animais, mas esse é o nome
técnico.
Esse leite pode ser oferecido para a criança se ela tiver
condições de tomá-lo, mesmo dentro da incubadora,
ou vai para um banco de leite. Mas o mais importante é que
você comece a fazer esse estímulo de tal forma que,
na hora em que a criança sai da incubadora e vai para o peito
da mãe, dê tudo certinho.
Esse método apresenta alguma dificuldade especial? Ele
aparentemente é tão simples...
Ele é muito simples. Logicamente, exige uma certa técnica
e certos cuidados. Então, o que nós estamos fazendo
é disseminar a técnica correta, reconhecida hoje pelo
Ministério da Saúde, que até mesmo já
normatizou isso. Portanto, existe uma norma que tem que ser cumprida
para que a metodologia seja benéfica e não apenas
uma panacéia.
A faixa, por exemplo, requer algum material específico?
Ela muda conforme a região. Por exemplo, as crianças
do Nordeste usam uma faixa de algodão ou linho, quer dizer,
um tecido mais leve, só para prendê-las à mãe.
As crianças da Região Sul, além de precisarem
de uma faixa de um tecido mais grosso, como lã, precisam
colocar uma touca para não perder calor e, às vezes,
um sapatinho para proteger os pés as do Nordeste ficam
absolutamente nuas. Então existem adaptações
por questões regionais e de clima.
Mas a bolsa é muito simples e feita com um tipo de material
que qualquer casa ou hospital têm para fornecer: um lençol
ou uma colcha. É isso que basicamente se usa.
Como o senhor avalia a adesão dos hospitais brasileiros
a esse método?
Ele ainda não está maciçamente difundido, porque
começamos nossas ações no final do ano passado.
Mas já existem mais de 80 maternidades [até maio]
devidamente capacitadas, com pessoal treinado e certificado pelo
nosso programa, e até o final do ano queremos capacitar mais
100 maternidades. Nós temos um planejamento e uma equipe
técnica contratada pelo programa para dar os cursos nessas
maternidades. Além disso, nós já estabelecemos
oito centros de referência, espalhados por várias regiões
do Brasil, que estão também capacitados a disseminar
no seu entorno essa metodologia. São centros de excelência
com um volume maior de partos e que dispõem de uma equipe
técnica mais bem capacitada, que nós preparamos.
Já é possível calcular em quanto o Método
Canguru aumenta as chances de sobrevivência de uma criança
prematura?
Isso nós vamos estudar agora. No Brasil e na própria
América do Sul, onde a metodologia já é aplicada,
não existe nenhum sistema de avaliação que
nos permita obter indicadores precisos sobre os reais ganhos que
o método proporciona. Mas estamos colocando em nossos oito
centros de referência uma central informatizada e um software
que vai interligá-los com o intuito de montar um grande banco
de dados para comprovar estatisticamente o que está acontecendo
com as crianças tratadas pelo Método Canguru. A sensação
que temos é que isso vai ser muito positivo. Mas ainda não
é o suficiente. Precisamos de dados concretos.
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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
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