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Decebal Andrei

"Ser pai, no meu entender, é assumir plenamente a sua responsabilidade de dar continuidade à vida."

 
Decebal Corneliu Andrei, 82, é pai de Elena, Alexandre, César e Rafael Bernardo. É organizador e co-autor do livro Reencontro com a Esperança — Reflexões sobre Adoção e Família.
Endereço para correspondência:
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Coração de pai

Livro comovente conta a história de um pai que, na terceira idade, teve novamente a coragem de enfrentar as dores e delícias da paternidade, desta vez adotando uma criança.

Poucas pessoas vivem de forma tão intensa o desejo de ser pai quanto os pais adotivos. A paternidade é marcada, muitas vezes, por tentativas infrutíferas de ter os próprios filhos, seguidas da longa espera na fila da adoção. Ouvir a história de vida desses pais é entrar em contato com uma vastidão de sentimentos, idealizações e carências. Tudo que naturalmente já envolve uma relação entre pais e filhos, só que a ela se soma a angústia quanto às implicações psicológicas que o ato de dar uma família a quem nunca teve pode trazer.

Decebal C. Andrei é um desses pais a quem é irresistível chamar de "especiais." Enquanto a maioria das adoções no Brasil se presta a encontrar um bebê para a família que não tem filhos, no caso de Decebal, o que o impulsionou a adotar uma criança foi a vontade de reconstruir a família, após o falecimento de sua esposa, com quem vivera por mais de 50 anos.

"Eu me sentia perfeitamente capaz de continuar a vida familiar e fazer o que já tinha provado a mim mesmo que sabia fazer de forma razoável", afirma.

Os três filhos e cinco netos que para ele eram motivo de orgulho, porém, pouco lhe serviram para diminuir a descrença de quem o via, sozinho, aos 74 anos, querendo adotar um garoto, à época com 10 anos. Afinal, para os especialistas e responsáveis por zelar pelo destino das crianças abandonadas nos orfanatos, Decebal estava se metendo em um vespeiro chamado adoção bitardia.

Nesses casos, teme-se que as decepções e frustrações que a criança, a partir dos três ou quatro anos, acumulou ao ser abandonada e na instituição que a abrigou comprometam o sucesso da adoção. Na entrevista a seguir, Decebal fala de sua experiência como pai e sobre a importância de que mais pais sejam solidários e contribuam para que toda criança tenha um lar. Ele fala também sobre o papel que as escolas e jovens têm na criação de uma cultura de adoção no país.

No Brasil, não há uma cultura de adoção ou campanhas que chamem a atenção para essa causa. O que o atraiu na idéia de voltar a ser pai, desta vez na terceira idade, por meio da adoção de uma criança?
É verdade, não há campanhas. Mas acho que a adoção não deve ser motivada apenas por campanhas, pois um filho adotivo não é um produto a ser procurado porque há uma bonita propaganda em torno dele. Um filho é adotado porque há duas carências: a do sujeito que adota e a de quem é adotado. Quem adota, normalmente, tem a carência de complementar a sua família, de fazer algo além do que já pôde fazer, como no caso de casais estéreis ou coisa parecida. Então, essa necessidade é um impulso biológico forte para se tornar pai.

No seu caso, o senhor já tinha filhos. Que outro tipo de impulso o fez adotar uma criança?
No meu caso, foi o de alguém que já tem uma família, mas acha que ela pode ter uma abrangência maior. Eu já tinha três filhos, todos profissionais bastante bem-sucedidos como professores universitários. Só que fiquei viúvo depois de um casamento de quase cinqüenta anos. E não me deixei tomar pelo desespero, porque você chega a uma determinada idade e entende que a lei da natureza é aquela e que pode cultivar a memória de quem se foi de uma maneira mais sábia, menos dramática. Depois de um tempo, pensei: "O que vou fazer sozinho?" Eu não tinha mais para quem olhar... Já tinha criado meus filhos com minha falecida esposa, eles já estavam grandes e tinham seus filhos também. Então, comecei a olhar para os meus netos e dizer aos meus filhos: "Não é assim que se faz, no meu tempo não era assim", essas bobagens todas (risos). No fundo, eu me sentia perfeitamente capaz de continuar a vida familiar e fazer o que já tinha provado a mim mesmo que sabia fazer de forma razoável.

Mas em que momento o senhor resolveu procurar uma criança em um orfanato ou abrigo?
Uma vez, há oito anos, assistindo a um programa, por coincidência no mês da campanha Criança Esperança, vi uma entrevista com uma freira que dizia como era difícil encontrar uma família para a criança crescida. Elas cresciam, cresciam e se tornavam um problema social muito sério, por mais que as instituições se esforçassem. Quando ouvi isso, tive um estalo, no sentido exato da palavra: "O que estou fazendo aqui?" Levantei da cadeira e, no dia seguinte, fui na instituição da freira que tinha dado a entrevista e disse: "Muito bem, quero ver essas crianças." E aí começou o processo que redundou em fazer aquilo que deveria fazer mesmo.

Que idade o senhor tinha nessa época e qual era a idade da criança que o senhor adotou?
A minha adoção é o que se chama de adoção bitardia. Eu tinha 74 anos, mas os anos não pesavam para me inutilizar, assim como, agora, aos 82, também não estão pesando (risos). É claro que um homem solteiro, principalmente de uma certa idade, não vai adotar um bebê ou uma menina? De certo modo, a adoção tardia se enquadrou com meu caso. Eu deveria procurar um menino, independente de cor, raça, de semelhança ou não comigo, mas um menino com mais de cinco anos. O garoto que adotei para continuar a atividade de cuidar de uma família tinha dez anos.

"Os jovens podem fazer muito, mas muito mesmo, estendendo a mão àqueles que precisam não só de ajuda material, mas de uma mão amiga e uma aceitação social."

E como foi essa convivência, num primeiro momento, de um pai que adota um filho pela primeira vez com uma criança marcada pelo abandono, que nunca teve uma família?
Existem dificuldades. Comparo a adoção tardia à escalada de uma montanha. É um esporte lindo, bonito, mas difícil, há precipícios. Você tem que apreciar a paisagem, mas também prestar atenção nos passos que está dando para um dia chegar ao cume. Na adoção tardia, há sérios problemas de parte a parte. Da minha parte, é bastante sério. Pode até parecer exagero, mas é real. Constatei, com outras pessoas, que você se sente mais cauteloso, preocupado com as coisas que acontecem com os filhos adotivos. Quando os filhos naturais fazem alguma besteira, você toma uma medida corretiva e vai em frente. Só que, neste caso, você começa a criar uma série de problemas psicológicos, quando, na verdade, deveria ser a mesma coisa, mas a gente não se comporta assim. Fica sempre com um pé atrás.

Isso me faz lembrar que, no seu livro, há uma citação que diz que todos os pais são adotivos, precisam adotar seus filhos. O senhor acha que a diferença entre pais biológicos e adotivos não é tão grande quanto se pensa?
Não deveria ser. O que acontece é que muitos pais são pais apenas biologicamente, no papel, e não conseguem exercer plenamente seu papel de pai. Isso acontece muito, em situações socioeconomicamente difíceis e também em situações mais fáceis. É o mau exercício do pátrio poder, como se diz. Do ponto de vista psicológico, o pai adotivo é mais cauteloso, mas, a rigor, é exatamente a mesma coisa. Por um lado, você tem plena autoridade, mas, por outro, tem uma criança que deve crescer de forma harmoniosa como qualquer outra. Claro que a criança vem com uma bagagem de problemas, não entende direito que negócio é esse de família e uma série de coisas.

Depois de tantos anos de paternidade e da vivência que o senhor teve com o seu e outros pais, o senhor conseguiria chegar a uma definição do que é ser pai?
Ser pai, no meu entender, é assumir plenamente a sua responsabilidade de dar continuidade à vida. Você ajudou uma vida a nascer, biologicamente ou por adoção. Ser pai significa se empenhar 24 horas por dia, se possível até mais (risos), em dar continuidade à vida e fazê-la chegar ao pleno desenvolvimento com sucesso.

Essa incompreensão do que é família a que o senhor se referiu aflige pais e filhos naturais também. O pai que pretende ter um ou dois filhos, no máximo, certamente vai querer que eles sejam perfeitos. No caso do senhor, que adotou uma criança em idade avançada, imagino que também queria que nada desse errado. Como o senhor fez para superar a tendência de idealizar o filho?
É verdade, procurei não idealizar, ser bem realista, ter os pés no chão. Entender que a criança tem problemas psicológicos, recalques, decepções anteriores no seu subconsciente, uma amargura muito grande. Talvez você tenha encontrado uma frase no meu livro em que digo: "Ninguém jamais adotou uma criança feliz." Se a criança é feliz, e tem uma família para cuidar dela, ninguém vai adotá-la. A criança adotada tem uma carga de traumas, de dramaticidade, de um jeito ou de outro, mas nada tão forte que a impeça de ser adotada. Não se pode esperar milagres. Pode-se dizer: "Vou fazer o melhor que posso permanentemente, em doses homeopáticas, mas vou chegar lá." O objetivo é dar ao mundo um futuro cidadão, no melhor dos sentidos. Se fizemos isso, a adoção teve sentido.

O senhor diria que seu filho adotivo, Rafael Bernardo, deu um novo sentido à sua vida?
De certo modo, ele está dando. A cada momento, há uma novidade, uma surpresa, um sentido novo. Agora, você não entra na adoção para aprender depois sua obrigação. Tem que saber antes de dar o passo. A experiência acumulada ajuda, mas os sucessos e as dificuldades vencidas ou ainda não vencidas aparecem todo dia, mas sempre de maneira muito estimulante.

Mas, com a adoção do seu filho, o senhor passou a fazer parte de um grupo de apoio à adoção. Como é esse trabalho?
Em Londrina, nosso grupo é ainda meio incipiente porque não tenho mais o mesmo ímpeto de ir, visitar as crianças, mas a minha atividade continua, sempre que posso adoto carências, isto é, você não adota plenamente a criança, mas vê o que está faltando a crianças de rua, como alguns casos que tenho comigo, em que procuro preencher o que lhes falta.

Hoje o Rafael é um rapaz de 18 anos. Como o senhor procurou orientar a adolescência dele para evitar as surpresas e dificuldades típicas dessa fase? O senhor teve outros filhos, mas em uma outra época...
Eu me esforcei para proceder da mesma maneira: acompanhar e ajudar nos estudos, cobrar resultados, dar o que precisava, o computador, o telefone, sem mimar excessivamente e prestar muita atenção ao problema do vício, observando qualquer sinal que ele pudesse dar em relação a isso. Mas procedi da mesma forma. A criança cresce e os perigos são os mesmos para todos e os cuidados têm que ser os mesmos.

Já que o senhor mencionou a formação do cidadão, eu lhe pergunto se o que determinou sua opção por uma adoção tardia, que muitos consideram "impossível", foi a preocupação com o futuro das crianças que passam a infância inteira em um abrigo.
É claro. Nós vivemos imersos em um grande drama social do Brasil e de outros países também. Não se deve ser indiferente. Existem várias maneiras de participar: através de doações em dinheiro a uma instituição e, quando você se sente capaz, fazendo algo mais. E dizer: "Vou assumir uma responsabilidade plena porque, comigo, alguém assumiu essa responsabilidade e também posso fazê-lo e vou fazê-lo porque é necessário." Tanto é necessário que hoje continuo nessa atividade, não adotei outros filhos, mas estou apadrinhando crianças que precisam, ou do ponto de vista pedagógico, ou do ponto de vista material mesmo, de uma mão estendida, de um despertar para a auto-estima que perderam de forma dramática. E justamente fazendo com que tenham essa aprendizagem de cidadania, que elas não têm chance de conseguir de outra maneira.

Além de tornar o seu filho adotivo um cidadão pleno, que exerce seu direito à convivência familiar, o senhor acha que seus filhos naturais também saíram engrandecidos por terem vivido esse ato de solidariedade dentro da própria casa?
A minha filha está no mesmo diapasão, na mesma cadência que eu, até me superando bastante. Meus outros dois filhos biológicos são cientistas, ambos doutores — um em Cambridge, outro pela Usp; um em astronomia e o outro no ramo da química —, muito presos à sua atividade profissional. Mas eles também têm uma atuação social bonita, e a esposa de um deles está ensinando até mesmo voluntariamente em uma escola de surdos-mudos. Eles não estão se omitindo. Creio que essa vivência que eles tiveram é importante e dá, a longo prazo, os melhores frutos possíveis.

E como as escolas podem contribuir para criar uma sociedade mais solidária?
Os jovens que estão nos bancos das escolas e que têm tantos encargos, de esportes, namoro e uma porção de coisas, devem olhar para os jovens da mesma idade e que estão vivendo situações absolutamente dramáticas e não ficar apenas dizendo que a culpa é do governo. Eles precisam entender que podem fazer muito, mas muito mesmo, estendendo a mão àqueles que precisam não só de ajuda material, mas de uma mão amiga e aceitação social. Enfim, se dois, três alunos ou uma classe se junta e diz "nós vamos adotar as necessidades de duas crianças da favela", se conseguirem ajudá-las a ter um convívio social, a ter um divertimento sadio, a praticar um esporte, a desenvolver uma aptidão artística, ajudá-las nos estudos, eles podem fazer tanto ou mais que seus pais. É um campo virgem que poderia ser desenvolvido com muito sucesso pelos nossos jovens, não só ouvindo o que os outros deveriam fazer, mas pondo eles mesmos a mão na massa.

O senhor concorda que é necessário aos pais adotivos um esforço para não confundir um problema que pode acontecer a qualquer criança com o fato de seu filho ser adotivo?
Sim, é preciso. Isso acontece, mas não se deve deixar-se levar por chantagens emocionais. Não se deve levantar a questão do caminho pelo qual o filho entrou. Hoje em dia há até clonagem, pode-se nascer de várias maneiras!

O senhor acaba de comentar essas novas técnicas de fecundação. Como o senhor recebe essas notícias? A mais recente é que há pesquisas para gerar um bebê sem a participação dos pais...
Antes da clonagem, já havia métodos concepcionais muito eficientes, técnicas cirúrgicas, barriga de aluguel, etc. Então, por um lado, isso vai gerar uma demanda menor de adotantes, porque, tendo meios materiais, as pessoas vão recorrer à medicina e meios, digamos, científicos para ter o seu próprio filho. Por outro lado, creio que também poderá haver um decréscimo de crianças abandonadas porque, por medo da Aids, os jovens vão tomar precauções para não engravidarem à toa. Mas por muito tempo vai haver mais crianças adotáveis que adotantes.

Imagino que as pessoas que querem ser pais adotando uma criança sofram por desinformação. Há uma idéia de que o processo é muito demorado, tortuoso.
É verdade, as pessoas têm um pouco de medo, tanto que a adoção é praticada, majoritariamente, de maneira informal. Conheço regiões carentes em que toda família tem um filho adotivo, que é "filho de uma sobrinha que não pôde criá-lo." Existe uma enorme quantidade de adoções informais e os juízes deviam se debruçar sobre o problema de maneira a conciliar, em vez de dizer que está errado. Está errado até certo ponto.

Mas, no seu caso, adotar uma criança exigiu muita paciência. Foi trabalhoso?
Tive que brigar bastante (risos). E usar, às vezes, argumentos meio surpreendentes. Levei todas as certidões de sanidade mental, física, situação material. Mas sempre, delicadamente, perguntavam: "Mas o senhor, com essa idade, não pensa que...." E eu dizia (risos): "Já sei o que está pensando, que provavelmente vou morrer antes. Sei que vou e, quando isso acontecer, vou deixar meu filho em uma situação muito melhor que um casal jovem que morre em um acidente de automóvel e deixa o filho desamparado. No meu caso, ele vai ter uma pensão de tanto, etc. De modo que, se a questão é pensar no futuro, quando eu faltar, pode ficar tranqüilo." Aí, se tranqüilizavam.

Era de se esperar que sua decisão de ser novamente pai aos 74 anos surpreendesse as autoridades e a burocracia...
Um pouco. Também não me adaptei muito à rotina. Conversava amistosamente com eles, mas eu deveria ter um advogado. Eu dizia: "Sou aposentado, posso acompanhar o meu processo, também posso ser advogado." (risos) E eu ia, de mesa em mesa, esclarecendo essas coisas todas. Mas não foi uma demora muito grande, não levou nem um ano. Como tudo que acontece no Brasil, procurei pessoas que me recomendassem, no bom sentido, e que aplainaram algumas arestas que apareceram.

A história do senhor é atípica também porque, na maioria das vezes, quem adota são casais impossibilitados de gerar uma criança. Com esse padrão de encontrar um bebê para quem não tem filhos em vez de procurar uma família para a criança que não tem, a justiça não acaba privilegiando o interesse da família, em detrimento da criança?
Exatamente, o senhor tem toda a razão. O meu caso é atípico e não deveria ser porque as famílias que não podem ter filhos são uma realidade minoritária. Com o tempo, quando acaba a fila de espera, o problema delas se resolve. Ao mesmo tempo, há um número infinitamente maior de crianças que não têm família e para as quais as autoridades deveriam procurar lares com mais afinco. Costumo dizer que, se tivesse poder, essas repartições e juizados que têm um setor de assistência social, de adoção, deveriam ter salas muito bonitas, cheias de fotografias, para que, quando a pessoa entrasse, ela fosse recebida como uma pessoa muito esperada, ouvindo "estamos aqui para ajudá-lo, vamos conseguir isso, etc." para que quem venha com meia vontade saia com vontade e meia de adotar uma criança.

O senhor quer dizer que os pais adotivos, em vez de serem vistos como "pessoas especiais", acabam sendo desencorajados pelos próprios responsáveis por lhes conseguir uma criança?
Encontrei uma série de formalidades e percalços e uma certa frieza, que não tem razão para existir. Foi como se me perguntassem: "O que você está querendo?." Era como se eu fosse adotar uma criança com uma idéia delinqüente. Acho que é melhor correr riscos com uma criança em dez do que não correr o risco com dez entre dez crianças. A adoção deveria ser uma grande festa e não um processo judicial. E as assistentes sociais e psicólogas deveriam receber alguém que tem alguma idéia nesse sentido para encorajá-lo a resolver todos os problemas dizendo: "Não se preocupe, você vai ter o seu filho."

*****

Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

agosto, 2001

         
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