|
Física
para todos
Em seu último
livro, O fim da Terra e do céu, Marcelo Gleiser comprova
seu talento para aproximar a física de todos. A paixão
pela ciência e o dom para contar histórias são
seus trunfos para tornar compreensível qualquer teoria, pesquisa
ou descoberta. Ele consegue até provar que as visões
da ciência e da religião sobre o fim do mundo estão
mais próximas do que se pensa.
Marcelo Gleiser é o professor de Física
que todo mundo gostaria de ter. No lugar de frases pomposas como
"considere uma partícula" ou "despreze a resistência
do ar", ele conta episódios deliciosos da história
da ciência e da vida dos cientistas. Em vez de passar a aula
inteira expondo fórmulas no quadro-negro, apresenta os fundamentos
da física no laboratório, com demonstrações
e experiências. "A ciência é ensinada de
uma maneira tão chata que é um milagre as pessoas
desejarem ser cientistas", queixa-se.
A tática é infalível. A disciplina Física
para Poetas, que ministra no Dartmouth College, é a mais
popular da universidade. É disputada até por alunos
cujos cursos nada têm a ver com as leis de Newton ou da Termodinâmica.
Para explicar a proeza, usa um expediente comum às suas aulas:
as metáforas. "Do mesmo modo que você vai ao teatro
assistir a uma ópera sem saber ler uma partitura ou tocar
um instrumento, não precisa saber matemática para
apreciar a beleza das idéias científicas."
É esse o seu jeito de tornar fáceis as mais intricadas
teorias da Astrofísica ou Física Quântica. "Eu
explico como é um buraco negro usando analogias, metáforas
do dia-a-dia, histórias de que as pessoas possam fazer parte".
Durante sua vinda ao país para lançar seu último
livro, O fim da Terra e do céu, ele conversou com o Educacional
por mais de uma hora. O papo foi longo e, como suas aulas, cativante.
Para ele, a ciência "explica a natureza e cria novos
mundos que não percebemos com nossos sentidos".
A seguir, ele fala das visões científicas e religiosas
sobre o Apocalipse, dos avanços e limitações
da ciência, de divulgação e ficção
científica e mostra como melhorar as aulas de Física.
Ele conta que sua queda pela física vem desde os tempos da
escola, quando chegou a ter um grupo de estudos com os colegas,
mas precisou enfrentar a pressão da família que preferia
vê-lo engenheiro químico.
Nos seus livros, em que momento ciência
e religião se encontram?
O meu primeiro livro, Dança do Universo, que saiu
em 97 no Brasil, tratava sobre a origem de tudo. Não só
sobre o big bang, mas também como várias religiões
trataram a questão da origem do mundo. Eu achei que podia
continuar essa reflexão de como a ciência e a religião
são interdependentes , tratando também do fim do
mundo. Resolvi mostrar como a ciência usou idéias da
religião e, de certa forma, deu uma explicação
racional ao que antes era só profecia.
Em todos os relatos do fim dos tempos, do juízo final, ele
vem anunciado pelo caos celeste. Você tem essa associação,
por exemplo, no livro do Apocalipse, de João, em que se descreve
o caos cósmico: as estrelas caem do céu, o Sol fica
negro, etc. Percebi que os astrônomos que deram início
à física moderna também falaram dessas coisas.
Você lê os textos de Newton, Haley e Laplace e eles
falam que é mesmo possível que um asteróide
no caso, era mais um cometa se chocasse com a Terra e causasse
o Apocalipse.
O que eu faço é explorar essa complementaridade da
ciência e da religião, mostrando que ambas respondem
às mesmas perguntas de maneira diferente.
O ponto de encontro são as perguntas...
Se você quiser ter um ponto de encontro, vai encontrá-lo
nas perguntas, nas idéias sobre a origem do Universo. Ciência
e religião são complementares, são modos diferentes
de expressar nossas dúvidas. Os grandes anseios que antes
eram perguntas só da religião, hoje são perguntas
também da ciência.
Como o senhor vê o fato de as grandes dúvidas
sobre a origem e o fim do mundo interessarem hoje à ciência?
Para cientistas como Fritjof Capra, isso é sinal de que separar
e classificar os conhecimentos é uma tendência em crise,
que é preciso entender os fenômenos em sua totalidade,
se aproximar da religião...
Eu discordo de uma tendência infeliz que existe, em que
se misturam ciência e esoterismo e se pensa que a física
moderna está repetindo os ensinamentos dos grandes taoístas
e zen-budistas do passado. Eu acho que não é por aí.
Então, o senhor acha que, para a ciência avançar
na busca da resposta às grandes dúvidas, não
é preciso que ela incorpore outros tipos de conhecimento,
religiosos inclusive?
Isso é extremamente subjetivo, depende muito de cada um.
Eu tendo a ver as coisas de maneira mais universal, mais multidisciplinar.
Não é à toa que, quando escrevo livros, misturo
tanta coisa: religião, ciência, filosofia, artes. Grandes
pulos da ciência são dados justamente quando há
uma junção de disciplinas, uma mistura mesmo. Cada
vez mais, isso se torna verdade. Por exemplo: existem ciências
emergentes, como a exobiologia a biologia da vida extraterrestre
, em que se misturam biologia, astronomia, geologia, geofísica
e química. Você está pulando barreiras. Então,
pode pensar nas implicações éticas e religiosas
de descobrir vida fora da Terra.
Acho que as grandes questões sempre são multidisciplinares
por definição. Elas nunca vão ter uma resposta
específica. Vão ter várias respostas que se
complementam. Questões como a origem e o fim do mundo, envolvem
tantas variáveis que são multidisciplinares e têm
de ser respondidas de maneira geral.
É por isso que nem todo avanço científico
e tecnológico tem sido capaz de diminuir o número
de pessoas que se voltam para o esoterismo?
Eu acho que isso não é uma coisa tão nova.
Mas talvez só agora a gente perceba melhor essa atração
pelo sobrenatural, pelo esotérico. Eu acho que isso aí
é um grande barômetro social. A maioria não
tem acesso aos processos de tomada de decisão, só
sofre as conseqüências... Quanto pior está a situação
social, econômica, espiritual e quanto maiores forem os anseios,
mais você tende a se apegar ao esoterismo.
O sucesso dos livros de auto-ajuda também é reflexo
disso?
Por que eles são chamados de livros de auto-ajuda? Você
fala com um astrólogo e ele diz que você tem uma participação
individual na conjunção dos astros, do cosmos. É
uma coisa que faz você se sentir importante. Outro exemplo
é essa euforia em torno de fadas, duendes, gnomos e anjos
ou ainda essa explosão do evangelismo no Brasil. Em 20 anos,
mais de 20% da população virou evangélica...
O que está acontecendo é que as pessoas estão
precisando de novas respostas e, como a ciência não
é tão popular quanto deveria ser essa é uma
de minhas cruzadas , estão se apegando às coisas
mais óbvias e acessíveis, que são a auto-ajuda
e o esoterismo.
Mas isso não quer dizer que a ciência tenha essas
novas respostas a que o senhor se refere, uma explicação
científica para tudo... Ou o senhor acha que ela tem?
É claro que não, sem a menor dúvida. A ciência
é incompleta, é criação nossa e nós
somos seres incompletos. Se bem que alguns acham que não
são (risos). Eu acho que somos. Fica claro quando você
estuda a história da ciência que, cada vez que você
descobre respostas para certas perguntas, muitas outras surgem.
Não existe um fim, existe uma busca e, para mim, o fundamental
é você participar dela e não tentar se focar
somente na resposta, no objetivo final. O que nos transforma e nos
torna pessoas melhores é participar dessa busca.
Nessa busca, uma pergunta é inevitável: para onde
vamos? E essa pergunta remete ao tema do livro: a morte, o fim do
mundo. O senhor acha que a ciência mudou a maneira com que
o homem encara a morte?
Imagine você no século catorze, no meio da epidemia
de peste, quando as pessoas morriam na rua. Aliás, a morte
na rua já foi uma maneira muito clara de você aterrorizar
a população. Você pendurava os mortos na rua,
como o que aconteceu com Tiradentes. Hoje, você ver uma pessoa
ser atropelada é um choque, uma coisa horrenda. Acho que
os avanços da ciência tornaram a morte uma coisa mais
distante, mas certamente não menos assustadora ou aterrorizante.
Ninguém aceita a idéia da morte de maneira pacífica.
Todo mundo se questiona sobre a origem de tudo e sobre o fim. Por
quê? Porque nós somos uma espécie que tem a
bênção e a maldição de perceber
a passagem do tempo e ser consciente da própria morte. Eu
falo que isso é uma maldição porque causa muita
dor, muito sofrimento, mas, por outro lado, acho que dá vazão
a muito da criatividade humana. Eu acho que muito da poesia, da
pintura, das artes foi criado justamente por causa desse anseio
nosso de preservar, de alguma forma, a nossa permanência aqui
no nosso planeta.
O senhor mencionou rapidamente seu trabalho de divulgação
científica. Como professores podem tornar a ciência
mais popular?
Eu sempre digo que, infelizmente, a ciência é ensinada
de uma maneira tão chata que é um milagre as pessoas
desejarem ser cientistas. Por quê? Porque a ciência
é ensinada como um formulário. Quando você fala
de movimento retilíneo uniforme, parece até missa:
"eme, erre, u". Essas coisas são totalmente desligadas
da história da ciência, que é extremamente interessante,
cheia de aventuras e desventuras. Você não sabe quem
é Newton ou Galileu. Você não aprende quem são
essas pessoas, só as fórmulas que elas inventaram.
Falta inserir a ciência no contexto da história das
idéias, mostrar que ela é parte da cultura da humanidade,
do processo cultural em que é criada, não só
um conjunto de fórmulas. E faltam demonstrações
em sala de aula. Infelizmente, na escola, a ciência é
ensinada no quadro-negro. E ciência é "ver para
crer", sabe? Você não pode falar sobre a queda
dos objetos, o crescimento das células ou sobre reações
químicas sem mostrar as coisas acontecendo.
Por exemplo: nos Estados Unidos e na Europa, é fundamental
que se use o laboratório nas aulas de ciências. Ao
fazerem experimentos, as crianças aprendem e, mais ainda,
se maravilham com aquilo, porque participar do processo de descoberta
é muito mais interessante que ver fórmulas no quadro-negro.
É essa a idéia do curso Física para Poetas
que o senhor criou, resgatar a história da ciência
e levar demonstrações e simulações para
a sala de aula?
Esse é um curso que eu acho que toda universidade no Brasil
deveria ter. Ele consiste basicamente em dar um curso de física
e astronomia para pessoas que não vão ser cientistas.
A pessoa vai fazer Letras, Cinema, Medicina e vai fazer esse curso
também! Por quê? Porque o curso mostra como a ciência
funciona, como ela foi criada, dentro do contexto histórico.
Hoje, é o curso mais popular da universidade. Acabei de dá-lo
no semestre passado e a turma tinha 182 alunos, que é muita
coisa para qualquer universidade. Eu fazia as demonstrações
no ato. Por exemplo: aquela afirmação do Galileu de
que todos os corpos caem com a mesma aceleração, independente
da massa. Você joga um elefante e uma pena da mesma altura,
e os dois vão cair no chão ao mesmo tempo. É
uma coisa totalmente contra-intuitiva: a pena vai caindo em curvas
e o elefante cai direto. Como é possível? Você
tem que tirar o ar, a resistência do ar. Temos um tubo de
vidro com uma moeda e uma pena. Esse vidro é acoplado a uma
bomba de vácuo que suga o ar de dentro. Você faz isso,
e a pena e a moeda caem exatamente ao mesmo tempo.
Se eu falar "despreze a resistência do ar que um elefante
e uma pena caem ao mesmo tempo", ninguém vai acreditar.
Você pode aplicar a fórmula, mas só se vir aquilo
acontecendo é que vai dizer: "É verdade mesmo".
Tem um filmezinho dessa experiência que os cosmonautas fizeram
na Lua, com um martelo caindo.
Você percebe duas coisas fundamentais: primeiro, o fenômeno
em si acontecendo e, segundo, que a ciência explica a natureza
e cria novos mundos que não percebemos com nossos sentidos.
É tudo muito pequeno coisas microscópicas ou menores
ainda, partículas elementares ou muito grande, como astros
e estrelas. São mundos completamente invisíveis para
nós, mas que são revelados pela ciência.
E a questão da linguagem com que a ciência é
ensinada. Isso também precisa mudar?
Depende. Se você está ensinando ciência na escola,
tem que usar a linguagem dela, que é a matemática.
Mas você pode fazer isso de uma forma mais humana, mais multidisciplinar
do que é feito normalmente. Não se deve apenas jogar
uma fórmula no quadro-negro, mas mostrar o que ela significou
quando foi criada no século XVII ou XVIII ou outro qualquer.
Talvez os professores que passam fórmulas no quadro-negro
achem que física é apenas matemática...
Isso é uma coisa extremamente complexa. Você tem os
matemáticos puros, que não têm o menor interesse
em descrever fenômenos do mundo real. Eles se fazem perguntas
do tipo: qual é o maior número primo? Ou estudam geometrias
em dimensões maiores que três ou quatro... Mas, por
incrível que pareça, aí é que está
o paradoxo: essas matemáticas mais esdrúxulas e que,
aparentemente, não têm nada a ver com a realidade,
acabam, muitas vezes, encontrando aplicações na física.
Alguns cientistas do século XIX, Riemann, Lobatchevski e
Gauss, que estudaram essas geometrias, não tinham a menor
idéia de que elas iam ser o pão de cada dia da física
de supercordas. Essas coisas não são muito previsíveis.
Eu não sou esse tipo de matemático abstrato. Sou muito
mais intuitivo que dedutivo. Para mim, a matemática sempre
veio depois da física. Primeiro, vejo e depois escrevo as
equações.
Isso me faz lembrar um comentário seu sobre a relação
entre física e matemática. O senhor dizia que a física
descreve os fenômenos da realidade por meio de um instrumento
a matemática que é fruto da imaginação,
da criatividade do homem...
Existe um debate sobre isso: será que a matemática
é uma linguagem universal ou humana? Quer dizer, se você
tiver outros seres inteligentes no Universo, será que eles
vão descobrir os mesmos teoremas? Ou será que a matemática
é uma coisa humana, que saiu da nossa cabeça?
E como o senhor se posiciona nesse debate?
Eu acho que a matemática é uma coisa humana, e não
universal. É uma criação do nosso cérebro,
do nosso córtex, e tem a ver com a maneira como nós
evoluímos aqui na Terra. Em contrapartida, acho que as leis
da física são universais.
O senhor poderia dar um exemplo?
A física é baseada em leis de conservação,
de movimento, leis universais. Eu acho que, se houver uma inteligência
extraterrestre tecnologicamente desenvolvida, ela vai desenvolver
seus próprios conceitos, sua própria matemática,
para dizer que a energia é conservada em certos sistemas
e encontrar outras expressões para essas leis universais.
A matemática vai ser outra, a simbologia vai ser outra. Eles
não vão falar em elétron. Elétron foi
uma coisa que nós inventamos. Um sujeito lá de Alfa
Centauro não vai falar de elétron, mas de outras coisas
que vão representar exatamente o que nós chamamos
de elétron. Aliás, esse é um tema que eu discuto
no livro: a representação da realidade através
da matemática.
Queria fazer uma pergunta dupla: o senhor comentou sobre o caráter
universal da física, mas até que ponto ela é
democrática no sentido de estar acessível a todos?
Pode um estudante, uma criança, compreender a tecnologia
de ponta? E, por outro lado, até que ponto a tecnologia é
uma barreira que impede o desenvolvimento dos países pobres?
É possível que surja um novo Galileu que, pela observação
e com poucos recursos, revolucione a ciência?
Infelizmente, não existem tantos cientistas fazendo um trabalho
de divulgação da ciência, mas acho que está
melhorando. Os jornais e a própria televisão estão
criando muito mais espaço para a ciência. Eu sempre
falo que, do mesmo modo que você vai a um teatro assistir
a uma ópera ou uma sinfonia sem saber ler uma partitura ou
tocar um instrumento e consegue gostar, acho que você consegue
se divertir com a ciência sem ser um cientista. Não
precisa saber matemática para apreciar a beleza e a importância
das idéias científicas. É esse o trabalho da
divulgação científica, que até pouco
tempo usava o termo "vulgarização", que
é um horror, pois demonstra logo um preconceito. Você
não está vulgarizando a ciência! Está
divulgando, levando a ciência para as pessoas de uma forma
cada vez mais acessível. E dá para fazer isso com
todas as idades.
E a segunda parte da pergunta?
Sem dúvida, um dos grandes problemas da ciência em
países emergentes como o Brasil é que, em vez de criarem
tecnologia, eles importam. Nós exportamos produtos agropecuários
e importamos tecnologia. Seria fundamental que nós começássemos
a reverter essa situação e a criar mais autonomia
tecnológica. Porque aqui não faltam físicos,
químicos, matemáticos de excelente nível e
conhecidos em todo o mundo. Faltam recursos e os instrumentos, que
custam caro. Falta a iniciativa privada começar a financiar
mais pesquisa básica, como nos Estados Unidos, de forma que
um aluno que se forme em física ou química não
tenha de ficar na universidade, mas possa trabalhar em indústrias
fazendo pesquisa. Faltam essas coisas, mas eu espero que, com o
exemplo da Embraer, dos aviões que estão sendo exportados...
Esse é um exemplo perfeito. Os Estados Unidos mandam os últimos
F-16, mas sem os últimos radares, sem os últimos mísseis,
para manter o controle da hegemonia tecnológica e isso é
um crime. Seria ótimo fazer isso aqui também, até
trazer a tecnologia para aprendermos como se faz e vendê-la
para outros países.
No caso do projeto Genoma Humano, existe uma oposição
à hegemonia tecnológica de certos países. Há
defensores do financiamento público para que as descobertas
pertençam a toda a humanidade. O senhor acha que isso pode
acontecer em outras áreas da ciência?
Vai ser muito difícil porque as empresas financiam as pesquisas
com o lucro em mente. E divulgar esses dados seria como entregar
o ouro ao bandido. Eu acho pouco provável que empresas privadas
tenham interesse em financiar pesquisas para depois ter que revelar
os dados para a concorrência. Mas acho que pode existir um
acordo, ou uma legislação mesmo, para que haja uma
revelação porcentual dos resultados das pesquisas.
O que eu acho que deve haver é uma competição
entre o setor público e o privado, que é exatamente
o que está acontecendo com o projeto Genoma. Aliás,
esse projeto mostra a eficiência do setor privado que, com
muito menos gente e muito menos dinheiro, conseguiu os resultados
ao mesmo tempo que o setor público.
Voltando ao livro, qual a diferença entre ele e um livro
tradicional de física?
Ele é um livro de divulgação científica.
Os meus livros não são livros-texto de ciência,
não servem para formar cientistas, mas para informar as pessoas
sobre ciência. É uma diferença muito grande.
Então, ele é um livro que traz mais respostas
que perguntas?
Certamente, o livro traz várias respostas. Quem quiser saber
o que é um buraco negro, o que está acontecendo na
cosmologia moderna, se existe ou não a possibilidade de um
asteróide se chocar com a terra, vai encontrar essas respostas
no livro. Mas eu espero que ele também provoque uma reflexão
sobre esses temas que vá além daquilo que está
no livro e ajude as pessoas a fazer novas perguntas. Ele é
uma espécie de semente: você planta a semente na cabeça
das pessoas e, aos poucos, o questionamento vai regando-a para que
ela continue a crescer.
O aluno que mantém o interesse pela ciência não
vai sentir dificuldade para compreender as novas descobertas e a
tecnologia de ponta que se lê nos jornais? Como explicá-las
aos estudantes?
Sem o menor problema, da mesma maneira que eu explico como brilha
uma estrela, como é um buraco negro. Você explica isso
usando analogias, metáforas do dia-a-dia, histórias
em que as pessoas possam entrar e fazer parte delas. Então,
por exemplo, no meu último livro, O fim da Terra e do
Céu, falo um pouco sobre a física dos buracos
negros e, depois, exemplifico as coisas mais exóticas da
ciência a esse respeito.
O que eu faço? Escrevi um conto de ficção científica
em que um sujeito, no futuro, viaja por um buraco negro, atravessa-o
e sai do outro lado, em um buraco branco, coisa que hoje em dia
é hipotética, mas possível. Eu conto uma história
e ela está cheia de informação científica.
Assim, todo mundo lê e, pelo retorno que recebo das pessoas,
essa é a parte preferida do livro. Quando você está
contando uma história para explicar ciência, está
usando recursos ficcionais para trazer a ciência para as pessoas.
O senhor narra uma viagem a um buraco negro. O senhor já
leu Contato, do Carl Sagan?
Eu nunca li o livro, mas o Carl Sagan usa a idéia do buraco
para transportar a heroína até as inteligências
[intergalácticas]... No meu livro, há uma viagem através
do buraco negro a la Jorge Luis Borges, que é uma grande
influência minha.
Quais são os autores de ficção científica
de que o senhor mais gosta?
Você sabe quem foi o primeiro escritor de ficção
científica de que temos registro?
Julio Verne...
Muito antes! Foi o Kepler, que viveu em cerca de 1600. Ele escreveu
um livro chamado Somnio, sobre um indivíduo que viaja à
Lua em sonho. Essa idéia de sonhar, de ver as coisas de uma
forma ficcional, é importantíssima e realmente ajuda
no desenvolvimento da ciência. Quem inventou os satélites
artificiais foi Arthur C. Clarke, que escreveu 2001 [2001, uma odisséia
no espaço]. Já que precisamos de antenas para mandar
sinais, por que não pomos antenas no espaço, onde
a cobertura é muito maior? E Clarke não era cientista.
Ele até tinha formação técnica, mas
não era cientista. Agora, para ser sincero, nunca gostei
muito de ficção científica porque, para mim,
os autores principais Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Ray Bradbury,
um pouco menos fazem uma literatura muito mais sobre idéias
futurísticas do que sobre pessoas, sobre grandes dilemas
humanos, vamos dizer assim. E, para mim, a literatura é uma
espécie de arena onde podemos ensaiar todos esses conflitos
humanos, mais do que as idéias sobre o futuro. Na ficção
científica, há muita descrição do futuro
e personagens pouco desenvolvidos. A literatura que me influenciou
está mais relacionada à fantasia do que à ficção
científica. Eu sempre adorei o Edgar Allan Poe, por exemplo.
Então, o senhor concorda com a famosa frase do Einstein:
a imaginação é mais importante que o conhecimento?
Eu concordo, sem a menor dúvida. Todo mundo precisa ter ferramentas.
Você não pode ser pintor se não souber misturar
cores ou não conhecer as técnicas mais apuradas. Mas,
sem imaginação, o seu quadro, por mais técnico
que seja, nunca vai ser especial. Acho que, primeiro, vem a imaginação
e, depois, a técnica.
E o senhor não tem vontade de escrever um livro de ficção
científica?
Estou pensando seriamente no assunto. Mas, por enquanto, é
segredo.
Além da história da ciência e da ficção
científica, cuja importância o senhor já comentou,
no seu livro há muita pesquisa sobre história das
religiões, mitos, civilizações antigas. Esses
assuntos o interessam há muito tempo?
Eu sempre me interessei por isso. Antes de ser cientista, eu era
um garoto meio místico. Quando tinha uns doze anos, estudei
o taoísmo, o zen e uma porção de outras coisas
menos conhecidas. Quando tinha 14 anos, percebi que as grandes questões
filosóficas a origem de tudo, qual é a nossa relação
com o mundo, o que significa a mente, o consciente também
são abordadas pela ciência. Se você pergunta
sobre a origem do mundo para um muçulmano, um hindu ou um
índio maori, da Nova Zelândia, cada um vai contar uma
história diferente e acreditar piamente nisso porque são
coisas reveladas pela fé. Eu percebi que a ciência
tratava dessas questões de forma universal. Essa foi a minha
revelação: descobrir que a ciência é
uma linguagem universal e indiferente a religiões, classes
sociais, países. Não interessa de onde você
veio e qual é a sua religião... Quando você
descreve como funciona uma estrela, uma pessoa que é de outro
país, de outra religião, vai entender. É uma
coisa profundamente democrática e bela da ciência.
Como o senhor era nos seus tempos de escola?
Eu era bem CDF, mas era normal também (risos). Tocava violão,
jogava vôlei, fui até campeão brasileiro de
vôlei, quando eu estava no segundo ano do colegial. Aliás,
o Bernardinho era meu levantador na seleção carioca.
O Bebeto de Freitas era o técnico. Por outro lado, eu estudava
muito e, desde o primeiro científico, lá pelos 15
anos, já tinha um grupo de estudos de física. Falávamos
de movimento retilíneo uniforme, essas coisas todas, mas
o nosso negócio era, toda semana, ler e discutir os artigos
da Scientific American e livros de divulgação científica
um pouco mais técnicos. Lemos juntos um livro do próprio
Einstein chamado Princípios da relatividade.
E havia a orientação de alguém?
Não, fazíamos tudo sozinhos mesmo. Não tínhamos
um guru. Mas, em geral, eu imagino que os professores do Ensino
Médio possam ajudar grupos de estudo indicando leituras.
Quisera eu que, na minha época de aluno, houvesse os livros
de divulgação científica que existem hoje!
Para mim, foi uma certa batalha tomar a decisão sobre que
caminho seguir. Eu acabei fazendo Engenharia Química por
dois anos e só depois me transferi para o curso de Física.
Se eu tivesse lido esses livros quando era criança, aos 15
anos não teria a menor dúvida de que era isso mesmo
que queria fazer.
Além da falta de livros, o senhor teve de enfrentar a
pressão da família quando optou por seguir carreira
numa área de ciência pura?
Não quero causar uma revolução nas famílias,
mas acho que ciência no Brasil não é nenhum
bicho-papão. Se você for bom, tiver aptidão
e realmente for uma pessoa séria, ou seja, alguém
que quer realmente estudar, que tem paciência para fazer uma
lista de exercícios ou se reúna com os amigos como
eu fiz, não vejo por que não pode ter uma carreira
de cientista no Brasil. Existem várias pessoas nas universidades
para provar que essa é uma carreira possível, o que
não significa que seja fácil. As pessoas têm
uma certa ilusão de que nos Estados Unidos tudo é
a maior maravilha. Só para dar um exemplo, na minha época,
havia 357 candidatos para uma vaga na universidade! O mercado lá
também é difícil. O que existe lá e
que, infelizmente, ainda não existe aqui mas acho que isso
vai mudar é a absorção de cientistas pelo
mercado de trabalho, e não somente pelas universidades e
escolas. Muitas empresas, consultorias, financiadoras e empresas
do mercado financeiro estão contratando físicos e
matemáticos. Eu tenho vários amigos em Wall Street
hoje em dia. Por quê? Porque eles fazem modelagem de sistemas.
Se você tem aptidão e é dedicado porque física
não é ficar olhando estrela, há uma certa ilusão
poética com a ciência, porque é preciso trabalhar
muito para ser cientista , meu conselho é que você
vá em frente e faça o que gosta.
Com meu pai mesmo, tive um certo atrito quando saí do curso
de Engenharia para o de Física. Ele não gostou dessa
idéia nem um pouco. Eu falei que ia sair da Universidade
Federal do Rio de Janeiro para fazer o curso de Física da
PUC-RJ, que era o melhor na época. Ele respondeu que não
ia pagar, eu que me virasse. Eu fui e me virei. Pena que ele não
esteja aqui para ver o que aconteceu com o filho rebelde (risos).
*****
Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
Colaborou Bohdan Metchko Junior, do Educacional
outubro, 2001
|