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Roseli de Deus Lopes é doutora em Engenharia Elétrica, professora assistente do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da USP e pesquisadora do Laboratório de Sistemas Integráveis da Epusp.

 

Entrevista com a Prof.ª Dr.ª Roseli de Deus Lopes, coordenadora-geral da Febrace

Qual é a importância da pesquisa em ciências e engenharia para um país?
Ela é fundamental. Qualquer país que hoje é considerado desenvolvido certamente conquistou essa posição porque investiu bastante em pesquisa científica e também no desenvolvimento tecnológico. Algumas nações acreditam que investem em pesquisa, contudo, na realidade, acabaram tornando-se apenas “publicadores de papers”, e esse é o caso do Brasil. Formamos muitos doutores, no entanto, nossas pesquisas dificilmente têm resultado prático, como impacto na qualidade de vida e avanço tecnológico.

Precisamos investir na geração de conhecimento e compreensão da realidade, mas, ao mesmo tempo, devemos usar esse conhecimento para gerar soluções e, aí sim, desenvolver novas tecnologias, que sejam adequadas aos nossos problemas.

De que forma a Febrace contribui nesse processo?
Na Febrace, o estudante começa a enxergar a pesquisa de outra forma. Em muitas escolas, quando o professor fala para o aluno fazer uma pesquisa, o que acaba cobrando dele é um “copy e paste”. E isso não é pesquisa! Esse esclarecimento dos alunos e professores quanto ao que é realmente fazer um trabalho de pesquisa é o ponto principal da feira. Não podemos subestimar a capacidade dos estudantes porque eles podem, sim, fazer pesquisas com grande profundidade e complexidade. Eles são capazes de desenvolver soluções simples para problemas grandes e complexos do cotidiano, por exemplo.

Qual é o principal objetivo da realização da Febrace em relação aos estudantes?
Sinto que muitos jovens que conseguem chegar à universidade não sabem o que querem fazer da vida e são obrigados a fazer uma opção sem conhecer o que vão enfrentar. Não estão bem informados nem quanto ao conteúdo dos cursos nem com relação ao que vão fazer depois que se formarem.

Uma das primeiras perguntas que faço aos meus alunos é “por que você escolheu Engenharia?”. E, infelizmente, mais da metade não sabe responder. Escolheram o curso por influência de alguém da família ou porque tinham a falsa sensação de que, sendo engenheiros, teriam mais oportunidade para conseguir um emprego. Mas eles não estão ali motivados porque realmente gostam daquela área.

Até a expressão que é usada para definir a Engenharia, “Ciência Exata”, dá uma idéia totalmente incorreta dela. Os estudantes acham que vão aprender algumas técnicas e depois simplesmente aplicá-las. E, na verdade, para exercer a Engenharia, é preciso ser muito criativo. Eles acreditam que os cursos em que se exige criatividade são os relacionados a Comunicação e Arte. Não se imaginam sendo criativos na área de Exatas. Mas, para se dar bem em praticamente qualquer atividade, o profissional precisa ter esse espírito investigativo e estimular a criatividade que tem (ou que, às vezes, nem sabe que tem).

Por isso, a USP procura sempre criar situações para que o jovem consiga descobrir e exercitar seus talentos antes da escolha da profissão.

Que resultados a feira vem obtendo nesse sentido?
Quando estimulado a observar o local onde vive, o jovem é capaz de identificar problemas e formular soluções para ele ou, pelo menos, uma prova de conceito de uma possível solução, usando pouquíssimos recursos. Isso acaba gerando até mesmo oportunidades de trabalho para aqueles que não têm condições de ingressar na universidade.

Outra coisa que a gente observou em vários projetos que vieram para a Febrace é que os alunos fazem parcerias entre si da seguinte forma: um descobre que é bom em determinada área; outro, que tem certa habilidade, e o fato de serem diferentes aumenta o potencial para criarem um trabalho melhor.

Há casos de estudantes de outras cidades que, por acaso, souberam que a feira existia, mandaram um projeto e, quando foram selecionados, acabaram provocando uma verdadeira revolução em suas regiões! É o que ocorreu, por exemplo, em Palmas: no final do ano passado, recebemos apenas uma inscrição de Tocantins, que foi selecionada. Nós telefonamos para saber se o estudante precisava de alguma ajuda para viajar a São Paulo para participar da feira (não cobrimos os custos, mas ajudamos no sentido de entrar em contato com entidades e órgãos públicos que possam colaborar), e a mãe dele disse que ele viria, nem que fosse de jegue. Essa mãe provocou uma mobilização na cidade e foi à emissora de TV local pedindo recursos para a viagem. Sem querer, ela chamou a atenção da comunidade para a importância de estimular os jovens a participar de eventos científicos. E foi incrível, porque esse garoto foi selecionado para ir à feira internacional. E, agora, pelo que fui informada, a mãe dele está organizando uma feira na cidade. Veja o que isso provoca: transformações no indivíduo, na família, na escola, na cidade, num estado inteiro.

E quanto aos professores?
Para os profissionais de qualquer etapa do ensino, a Febrace serve como uma prova de como, às vezes, eles subestimam o potencial dos jovens. Na primeira edição, tivemos um número até grande de avaliadores, mas que, em sua maioria, participaram mais por consideração a mim ou a alguém que os convidou. No entanto, quando viram a qualidade dos projetos, ficaram encantados. Os que prestigiaram a feira no primeiro dia acabaram voltando nos outros e criaram vínculos que se estenderam para as outras edições da Febrace. Hoje, muitos desses professores é que vêm perguntar sobre a feira e pedem para serem convidados.

A Febrace também estimula o desenvolvimento das universidades. Os jovens hoje têm uma carga de conhecimentos diferente, e essas instituições, ao verem os projetos apresentados na feira, percebem a necessidade de melhorar a formação dos professores, que precisam saber lidar com esses alunos.

Em sua opinião, que temas ainda vêm sendo pouco explorados pelos estudantes e poderiam render bons trabalhos?
Na parte de Engenharia, até que os participantes estão bem empolgados: conseguem identificar problemas, propor soluções e gerar projetos de ciência aplicada e de Engenharia com grande qualidade. Alguns conseguem isso com recursos mínimos. Mas acredito que estejam faltando projetos de “ciências”, no mais amplo sentido dessa palavra. Ou seja, sinto falta de o aluno desenvolver um pouquinho mais a capacidade de observação — de fenômenos físicos, biológicos ou mesmo sociais —, de estabelecer hipóteses e criar estratégias para validá-las. Temos tido poucos trabalhos cuja finalidade não é gerar um produto no final, mas, sim, conhecimento. E, infelizmente, quando a gente vê alguns dos projetos que aparecem nesse sentido (e que não são selecionados), percebe que são meras repetições do que está nos livros. Isso é, em parte, conseqüência da falta de um trabalho sobre História das Ciências nas escolas, que mostre que grandes invenções e descobertas aconteceram porque as pessoas eram observadoras, curiosas. Falta incentivar isso em casa e na escola.

Que bom exemplo você pode citar para ilustrar esse tipo de projeto?
Na primeira Febrace, havia um que era bem interessante, produzido por um garoto da 8.a série do Ensino Fundamental. Ele não tinha acesso à informática, pois o trabalho foi enviado manuscrito. Ao prestar atenção no que acontecia perto da casa dele, percebeu que o número de tartarugas vinha diminuindo na região e queria entender por que aquilo estava ocorrendo.

A hipótese que ele formulou era a de que o ser humano era o predador, que roubava os ovos e impedia as tartarugas de nascerem. Na busca por validar essa hipótese, ele criou uma maquininha que imitava as pegadas das tartarugas. Usando esse equipamento, marcou a areia com algumas “pegadas falsas” e observou o que acontecia depois disso.

Ele percebeu que as pessoas se enganavam com as marcações, iam procurar os ovos, mas, como não encontravam nada, acabavam cansando-se e indo embora. Ele relatou também que, naquele ano, depois da aplicação das “pegadas falsas”, observou um número maior de tartarugas na região. Isso, vindo de um estudante da 8.a série, demonstra o potencial gigantesco do jovem em desenvolver pesquisa científica séria e produtiva.

Qual deve ser o papel do orientador e dos pais no desenvolvimento de um projeto de pesquisa?
Principalmente, supervisionar o aluno/filho para garantir que ele não se envolva em situações de risco físico ou emocional na realização de uma atividade. Deve ser, na verdade, o papel de um aprendiz mais experiente que orienta o mais novo, sem, no entanto, fazer o projeto no lugar dele.

Como surgiu a idéia de filiar feiras de ciências à Febrace? Qual é o objetivo? E como está a participação no país?
O objetivo da Febrace não é ser uma feira gigante, mas, sim, estimular a realização de atividades com maior profundidade nas áreas de Ciências e Engenharia em todas as escolas, até porque as pessoas começam a se interessar em fazer trabalhos de qualidade somente quando têm espaço para serem valorizadas. Queremos que as instituições de ensino abram espaço para receber esses talentos e mostrá-los à comunidade.

Temos recebido notícias de feiras desenvolvidas em outros lugares que estavam em um processo de decadência e que passaram a ser valorizadas novamente, como ocorreu em algumas escolas da Rede Estadual no Paraná, por exemplo.

A idéia é também fazer com que nesses eventos sejam selecionados trabalhos para a Febrace, mesmo porque temos notado um aumento em progressão geométrica no número de projetos que nos são enviados. E não temos condições para centralizar a seleção dos trabalhos nem possuímos essa intenção. Se eu receber aqui, diretamente, um milhão de projetos para avaliar, como posso garantir uma seleção justa? Como ficará a fidelidade aos critérios quando a escala aumentar muito?

Como funciona a avaliação dos projetos na Febrace e que importância ela tem no evento?
Existem várias categorias e níveis de prêmios, mas o objetivo não é escolher “o melhor projeto”. O processo de avaliação serve para trazer profissionais de áreas diferentes para, assim, termos olhares diversos sobre um mesmo projeto. Um trabalho que foi feito usando conhecimento de Ciência da Computação, por exemplo, pode ser utilizado para resolver um problema na área de Medicina. E isso pode ser descoberto por meio dessa banca de avaliação multidisciplinar. E, no meio desse processo, oportunidades são criadas. Professores e alunos trocam idéias sobre cursos, feiras, estágios, livros e trabalho.

Durante a avaliação, acontecem diversas coisas que são muito gratificantes. Lembro-me de dois rapazes de Minas Gerais que participaram da primeira Febrace e ganharam o certificado de votação popular. Quando voltaram à cidade deles, foram recebidos com uma faixa, deram entrevista para o jornal local, foram a sensação. Não era um prêmio em dinheiro, nada grande, mas era um certificado, um reconhecimento. Durante a realização da segunda edição, eu encontrei o professor orientador (que era bem jovem) e o aluno, e eles me falaram: “Estamos aqui na USP”. Eu perguntei: “Vocês foram selecionados para a feira com outro projeto?”. Eles me responderam: “Não, passamos no vestibular e agora estudamos na USP”. Ou seja, esse tipo de iniciativa gera uma motivação individual. Quando a pessoa participa, às vezes acaba descobrindo habilidades que não sabia que tinha.

Há também a história de um aluno cuja professora comentava que ele era um dos mais retraídos da escola. Era um bom aluno no sentido de fazer tudo o que o professor mandava, mas uma pessoa quase sem integração social. Quando veio para a Febrace, teve de apresentar o projeto para muitos avaliadores, ganhou um prêmio e muita visibilidade. Voltou para a escola onde estudava como uma pessoa de liderança: todo mundo que queria fazer algum projeto de ciências procurava por ele.

Gostaria de ressaltar uma questão: tempos atrás, o pessoal de uma instituição particular veio me dizer que a feira de ciências foi abolida na escola porque acabou virando uma “feira dos pais”: era um pai querendo fazer o estande mais bonito que o outro. O evento estava ficando caro e não cumpria o propósito. A pergunta que lanço para o professor é: o que você está valorizando na feira? Se ele demonstra para o aluno que o critério é a sofisticação e o uso de materiais caros, ela tende a não dar certo. Mas, se o que se valoriza é o aluno, o processo, o conteúdo e o conhecimento produzido, ela “deslancha” e os custos diminuem. Vale lembrar que um bom projeto é aquele que tem, entre outras coisas, um bom custo-benefício.

Como funciona a Intel Isef (International Science and Engineering Fair), como foi o processo de credenciamento da Febrace a essa feira e o que ele proporciona aos participantes da Febrace?
Na verdade, a Febrace já nasceu credenciada à Intel Isef. Como eu tenho projetos na área acadêmica que envolvem a Intel, fui convidada a compor o corpo de avaliação da feira, representando a academia brasileira. A Intel é a patrocinadora das últimas dez edições da Isef, que já tem uns 56 anos de existência e é organizada por uma entidade chamada Science Service. Eu participei por três anos e fiquei enlouquecida quando vi a qualidade dos projetos apresentados lá. Pedi ajuda à Intel para nos ajudar a realizar algo semelhante na USP porque, até então, os espaços para a exposição de trabalhos científicos por aqui eram muito tímidos: o participante ganhava um pôster, pendurava na sua sala, meia dúzia de pessoas via e outra meia dúzia ficava sabendo. Era muito desmotivante.

Lá na Intel Isef, todos os anos eles trazem uns oito ou nove ganhadores de Prêmio Nobel para avaliar os projetos, fazer palestras e participar de bate-papos com os alunos. Há mais de mil voluntários com ph.D., que avaliam algo em torno de 800 projetos, de 40 países. Além disso, a cerimônia de premiação é feita com toda pompa merecida — até parece que o estudante vai ganhar um Oscar ou mais que isso. Os alunos se sentem os próximos ganhadores do Prêmio Nobel, pois são muito valorizados.

Os três melhores trabalhos recebem prêmios em dinheiro, uma viagem para assistir à entrega do Prêmio Nobel em Estocolmo e ficar 15 dias num clube de jovens cientistas, também nessa cidade. Fora isso, ainda são concedidas bolsas de estudo.

A Intel se ofereceu para ajudar caso quiséssemos desenvolver algum trabalho voltado à 8.a série do Ensino Fundamental ou aos Ensinos Médio e Técnico no Brasil. E a nossa feira poderia selecionar projetos para irem à feira internacional. Eles nos ajudariam garantindo passagens e algum recurso para começar essa iniciativa por aqui. Cheguei à conclusão de que esse era o caminho.

Então, nós já criamos a Febrace com base nos moldes da Isef. E, todo ano, o credenciamento é renovado mediante o envio de um histórico do que ocorreu na edição anterior. Dependendo do desempenho da feira, nós podemos pleitear uma participação maior na feira internacional.

Leia também:
Entrevista com Everton Salomão Portella, estudante premiado na terceira edição da Febrace com o projeto “Salomão”.

Por César Munhoz

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