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Foto: Janete Leão Ferraz

Mario Sergio Cortella é filósofo, mestre e doutor em Educação pela PUC-SP, onde é professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da Pós-Graduação em Educação (Currículo). Foi secretário municipal de Educação de São Paulo (1991/1992). É autor, entre outros livros, de A Escola e o Conhecimento: Fundamentos Epistemológicos e Políticos (Cortez), Nos Labirintos da Moral, com Yves de La Taille (Papirus), Não Espere pelo Epitáfio, Provocações Filosóficas (Vozes) e Não Nascemos Prontos! (Vozes).

 

Nem caos, nem triunfo

Para o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella, não se deve dizer que a educação brasileira está um caos. Ele valoriza avanços como o aumento do número de matriculados ocorrido em todos os níveis de ensino nos últimos anos. No entanto, alerta para o perigo de se ter uma visão triunfalista sobre o assunto e de medidas que, segundo ele, precisariam de uma análise mais aprofundada antes de serem tomadas. É o caso da inclusão da Filosofia e da Sociologia no currículo do Ensino Médio: "Sozinhas, elas não vão fazer o aluno 'pensar' de forma crítica. O nazismo teve seus filósofos e a ditadura, seus sociólogos", explica. Na conversa que teve conosco, Cortella detalhou esses e outros pontos de vista, fez um diagnóstico da educação brasileira e falou sobre que tipos de medida podem realmente trazer melhorias ao sistema de ensino do país. Leia na íntegra a seguir.

Por que a educação brasileira está um caos hoje em dia? Que conjunto de fatores culminou nessa situação?

Ela não é de fato uma situação caótica no sentido mais extenso da palavra. A gente não pode ter uma visão catastrofista nem triunfalista sobre a educação brasileira. Tivemos uma extensão significativa do Ensino Fundamental na matrícula obrigatória dos 7 a 14 anos e hoje vemos índices de 98% de matriculados, que é uma cobertura fantástica. Chegamos também a um aumento razoável de alunos freqüentando os Ensinos Médio e Superior e a uma redução do analfabetismo entre adultos. Isso significa que temos uma história de miséria educacional que começou a melhorar nos últimos anos, embora a situação não esteja completamente adequada.

Vários fatores explicam essa miséria. O primeiro é a história colonial brasileira, na qual o Brasil era somente uma empresa de exploração de matéria-prima e de mão-de-obra. A estruturação completa de um sistema público de ensino ocorreu apenas com a revolução burguesa de 30. O país completou 506 anos, mas o sistema nacional de educação tem pouco mais que 70 anos. Em segundo lugar está o processo violento de urbanização que o Brasil sofreu nos últimos 40 anos. Antes, apenas 40% da população brasileira vivia nas cidades. Com a industrialização e a concentração dos meios de produção, houve uma transferência massiva da população rural para as áreas urbanas. Hoje, mais de metade da população brasileira vive em 10 metrópoles. Isso levou a uma explosão de demanda por serviços de educação, saúde e saneamento, que, não por acaso, são hoje as áreas mais prejudicadas dentro da nossa estrutura social. Os investimentos nessas áreas não acompanharam o crescimento da população urbana, em parte porque estivemos metade desses 40 anos sob uma ditadura que não priorizou a educação.

Essa hiperurbanização explicaria também por que São Paulo ficou em uma posição tão baixa na avaliação Prova Brasil?

Sim. Uma cidade como São Paulo comporta "a maior riqueza e a maior pobreza". A concentração capitalista gera esses dois pólos. É um sistema "gangorra": para alguém acumular, alguém tem de perder. O estado mais rico da federação é também o que apresenta o maior adensamento urbano, portanto, é aquele que tem o maior número de desvalidos, que saíram do campo para a cidade e não têm uma escolaridade adequada. O número de analfabetos funcionais na cidade de São Paulo ultrapassa a população de Curitiba (cerca de 1,7 milhão), por exemplo. Isso é muito grave e explica por que cidades menores tiveram melhor colocação.

O Senado aprovou em setembro a lei que torna obrigatório o ensino de Sociologia e Filosofia no Ensino Médio. O argumento de quem apóia a medida é de que as disciplinas estimulariam o senso crítico. Elas ajudariam a criar cidadãos mais preparados para votar, por exemplo?

É necessário dar uma marca mais humanista e interrogativa ao currículo, e essas disciplinas podem facilitar isso; no entanto, é necessário cautela. Sou favorável a essa medida, mas não acho que ela se justifica simplesmente pelo argumento de que "é necessário ensinar o aluno a pensar". Afinal de contas, essa é uma tarefa do conjunto do trabalho pedagógico. Sociologia e Filosofia em si nada representam como pensamento livre e crítico. O nazismo teve seus filósofos. A ditadura também teve seus sociólogos. Mas, se colocadas de maneira que impliquem o desenvolvimento da percepção autônoma, da indagação livre, da possibilidade de questionar e pensar além do óbvio, sem dúvida, elas oferecem uma contribuição significativa ao dia-a-dia. Se forem articuladas ao conjunto de Português, Matemática, Língua Estrangeira Moderna, História, Geografia, etc., ficará interessante.

Desde sua implantação, o sistema de cotas para negros vem gerando discussões acaloradas. Afinal, essa é ou não uma medida válida?

O sistema de cotas é uma medida emergencial, circunstancial e inevitável. Cabe aqui a metáfora que Martin Luther King usou ao se referir à duração do período de escravatura nos EUA: "Em uma corrida, não se pode comparar uma pessoa que já estava no ponto de partida com outra que chegou 300 anos atrasada". Nenhum de nós é tolo a ponto de achar que o sistema de cotas vai resolver o problema da desigualdade racial, mas não se pode deixar políticas afirmativas como essa de lado. Os EUA implantaram o sistema de cotas há 30 anos e, agora, estão reorientando-o e até mesmo abandonando-o em algumas áreas por acreditarem que ele já causou o efeito desejado. Collin Powell e Condoleezza Rice usufruíram dessas cotas e chegaram ao posto de secretários de Estado. A Suprema Corte norte-americana já tem há muito tempo três ou quatro juízes que são negros. No Brasil, agora é que temos um afrodescendente nomeado pelo governo. Trata-se de uma medida circunstancial para amenizar os efeitos de um atraso histórico e, assim que chegarmos a patamares mínimos de igualdade, ela deve ser abandonada.

Qual é sua opinião sobre a implantação do Ensino Fundamental de nove anos, prevista para 2007?

É uma medida absolutamente necessária, adequada e tardia. É muito importante que o Ensino Fundamental tenha nove anos, em primeiro lugar porque, aos seis anos de idade, as crianças já estão absolutamente prontas para aprender. Hoje em dia, elas têm contato com inúmeras fontes de conhecimento além da escola, principalmente no campo da mídia. Em segundo lugar, porque, aumentando-se a permanência das crianças no Ensino Fundamental, oferecemos uma proteção social maior. Em países como Inglaterra e França, por exemplo, esse nível de ensino engloba nove anos. Trata-se de uma medida tardia, que deveria ter sido tomada há pelo menos 15 anos.

A USP divulgou em junho deste ano o projeto Inclusp, que representa mudanças significativas em seu vestibular, o qual é referência em todo o país. Entre elas, estão a concessão de 3% de bônus na nota para alunos que cursaram o Ensino Médio na rede pública; o fim da divisão de cadernos por disciplinas; e a priorização de questões interdisciplinares e de conhecimentos gerais. Qual é sua opinião sobre essas mudanças? Que impactos elas devem causar no Ensino Médio?

Cada universidade deve organizar seu vestibular de forma a oferecer maior condição de acesso. O que a USP está fazendo hoje - e outras instituições como Unifesp, Unicamp e PUC-SP também vêm aplicando - implica uma perspectiva de maior inclusão, o que, sem dúvida, é um sinal extremamente positivo. Sobre os impactos que essas mudanças devem causar no Ensino Médio, penso que o principal erro é esse nível de ensino ter o vestibular como ponto de partida em vez de referência. Pais e mães que colocam os filhos em escolas visando ao vestibular não entendem da educação futura deles. Muitos desses jovens acabam tendo sucesso somente nos anos iniciais da faculdade e, depois, entram numa curva de declínio muito forte, porque se prepararam apenas para um tipo de corrida e não para todo o percurso.

O governo brasileiro é um dos principais apoiadores do projeto One Laptop per Child (Um Laptop por Criança), do MIT (Massachusetts Institute of Technology). A idéia é oferecer a cada aluno matriculado no ensino público um computador portátil conectado à Internet, com o objetivo de promover a alfabetização digital e a facilitação de um ambiente de criatividade e compartilhamento de experiências entre esses estudantes. É possível que esse projeto já comece a funcionar por aqui em 2007. Qual é sua opinião sobre ele e que tipo de preparação deve haver para que alcance seu objetivo?

A alfabetização digital é um direito de cidadania cada vez mais forte. Nossa população de maneira geral, adulta ou não, possui precondições para isso, tanto que no Brasil temos eleições eletrônicas, coisa inédita no resto do mundo. Os bancos também fizeram muitos investimentos na informatização. Por isso, hoje, uma senhora de idade que não lida com o computador em sua própria casa assim mesmo tem acesso a uma certa digitalização quando vai sacar a aposentadoria. Você não encontra pessoas de idade no interior da França ou Alemanha com essa iniciação digital. Portanto, projetos desse tipo dão conta de um direito que será básico nos próximos tempos. Isso implica também a idéia de que tudo que você entrega à população graças aos impostos que ela pagou não é doação, mas devolução. A preparação deve ser feita por meio de parcerias da rede pública com grandes instituições relacionadas à área. Projetos desse porte não podem ser somente estatais ou privados. É preciso juntar as forças. Há grandes grupos na área pública que têm formação especializada nessa área, bem como na área privada. Não é preciso ter medo de fazer essas parcerias. Esse assunto é sério e não pode haver rodeios.

Durante a campanha eleitoral, existe pouca discussão aprofundada sobre educação. Todos parecem ser "a favor da educação", mas poucos apresentam propostas claras. Que tipo de discurso em relação ao tema se deve esperar dos candidatos a presidente nesta eleição?

Espero que qualquer um dos candidatos consiga elevar o percentual de aplicação do PIB em educação até 2015 a 10%. Hoje, ele representa 4%, que é algo equivalente aos países do primeiro mundo, mas ainda insuficiente para o Brasil, tendo em vista que partimos de uma situação menos favorecida. Quem fizer isso depois de eleito vai realmente demonstrar um compromisso forte com a educação.

Não acho que estamos tão desvalidos na área de educação especificamente nessa eleição. Eu citaria o presidente Lula (PT), Cristovam Buarque (PDT) e Heloísa Helena (P-SOL), que é professora e tem uma visão muito sólida da educação. E o ex-governador Geraldo Alckmin administrou um estado onde a educação tem uma presença muito forte. Espero que ele tenha aprendido com Mário Covas a lidar com ela.

Reforço a necessidade de aumentar investimentos, porque é a condição de base para as outras medidas: fazer formação permanente dos educadores, reorientação curricular dos processos de ensino e, ao mesmo tempo, um reaparelhamento material das escolas. Isso tudo depende de recurso. Claro que é preciso haver um controle pelos conselhos municipais de educação para que não exista desperdício ou aplicação populista desses recursos. As mudanças necessárias já são conhecidas há décadas. Falta investimento para viabilizá-las. Todas as vezes que um governante toma essa medida, nossa educação melhora um pouco.

Por César Munhoz

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