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Paulo Zannin
O barulho a sua volta aumentou. Você percebeu? Buzinas, motores velhos, carros
sem cano de escape. Muitas pessoas conversando ao mesmo tempo ao seu redor.
A batedeira, o aspirador de pó, a música alta, a televisão com home theater em
volume máximo. A sirene da ambulância, a indústria, o trem que passa no meio do
seu bairro. Você pode achar que está acostumado com tanto ruído, mas há estudos
que comprovam que a poluição sonora não só pode alterar o seu humor, como em
alguns casos pode levar à morte.
Entenda melhor os riscos que ela pode causar e como fugir desse mal que já é
considerado problema de saúde pública, nesta entrevista que os alunos do portal
ajudaram a fazer com o coordenador do Laboratório de Acústica Ambiental,
Industrial e Conforto Acústico da Universidade Federal do Paraná, Paulo Henrique
Trombetta Zannin, que também é professor doutor do curso de Engenharia
Mecânica da instituição.
O que é poluição sonora? Que sons fazem parte dessa classificação?
Dizemos que existe poluição sempre que se ultrapassam os valores estabelecidos
pelos órgãos internacionais no que diz respeito ao meio ambiente. Esses limites
de aceitação são determinados levando-se em consideração a saúde humana e
da própria natureza. Quando eles são desrespeitados, quer dizer que a vida das
pessoas e de outros seres vivos está em risco. Por exemplo, se houver um nível
muito alto de coliformes fecais na água, um número acima do estabelecido pelos
padrões internacionais, ela está poluída.
No caso do ar, ao pensarmos em poluição, logo nos vem à cabeça a emissão de
gases, mas a poluição sonora também é poluição do ar. Porque é através dele que
o som nos chega aos ouvidos.
Classificar um som como um ruído, algo que incomoda, é subjetivo. Um vizinho
ouvindo música, por exemplo, dirá que aquela altura está adequada para ele, mas
a pessoa que mora na casa ao lado vai dizer que não, que está muito alto. Para
saber se há poluição sonora, é preciso medir a quantidade de decibéis. Existem
normas legais que estabelecem os níveis corretos.
A poluição sonora existe apenas nas áreas urbanas?
A poluição sonora é hoje, depois da poluição da água e do ar (com a emissão de gases), a que alcança o maior número de pessoas no planeta. Os 7 bilhões de habitantes são atingidos por todo tipo de sons, muitos danosos à saúde, todos os dias.
E isso não ocorre somente nas áreas urbanas. Porque muitas fontes sonoras se deslocam, como os veículos. As televisões, as batedeiras, os rádios, os aspiradores de pó, estão em todos os lugares e geram ruídos que percorrem uma boa distância pelo ar.
Esse é um fenômeno recente na sociedade?
Nos anos 1960 e 1970, a poluição sonora era um problema presente somente na indústria. A partir dos anos 1980, isso mudou. Com o crescimento das cidades, o aumento da população nos grandes centros e o salto na frota de veículos, o ruído passou a ser um problema não só da indústria. Hoje as cidades estão poluídas. Basta ver a quantidade de carros em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre... Só em Curitiba, no Paraná, são 1,3 milhão de carros para 1,7 milhão de habitantes.
Quais os principais problemas causados pela poluição sonora? Ela pode provocar estresse, por exemplo?
Há 30 anos, a visão que se tinha era de que a poluição sonora causava dano auditivo. Isso continua sendo verdade, há locais de trabalho em que os funcionários precisam usar protetores de ouvido, porém hoje está provado que o ruído pode causar outros problemas mais sérios. Dados de 2008 da Organização Mundial da Saúde mostram que, no meio urbano, 3% das mortes na Europa foram induzidas pela exposição a ruídos.
Como é que o ruído mata? Como um estressor. Por exemplo, ele leva ao aumento da pressão arterial, então as pessoas que já tinham disfunções cardiovasculares e moravam em locais barulhentos, poluídos especialmente pelo tráfego urbano, entraram em um processo de estresse e acabaram morrendo. Ou aquele funcionário que trabalha em uma fábrica, exposto ao barulho todos os dias. Já ouvi depoimentos de trabalhadores que precisam tomar, diariamente, um calmante antes de entrar no local onde trabalham.
Isso demonstra que o ruído dispara o estresse e reações fisiológicas muito fortes no indivíduo. Vários estudos já mostram que pessoas em um ambiente urbano expostas a níveis sonoros acima de 65 decibéis, podem sofrer vários danos psicológicos e de comportamento a médio e a longo prazo.
Que tipo de poluição sonora mais atinge a população?
Em um dormitório, por exemplo, a legislação brasileira estabelece que para o conforto acústico é preciso que haja no ambiente no máximo 35 decibéis. Hoje em dia, nas grandes cidades, dificilmente você terá somente esse nível de som. As casas e os apartamentos são invadidos por níveis cada vez mais altos de som. O trânsito, vários televisores ligados em um mesmo prédio, buzina, alarmes, obras, secadores de cabelo, sirenes, são sons comuns com os quais as pessoas precisam conviver.
A poluição sonora e a falta de isolamento acústico em salas de aula podem prejudicar a aprendizagem dos alunos?
Há diversos estudos que mostram isso. Por meio do nosso laboratório na Universidade Federal do Paraná, fizemos avaliações da qualidade de várias salas de aula. Ambientes com uma acústica ruim, em que o tempo de reverberação é elevado e não há materiais de absorção no teto, nas paredes e no piso, a compreensão do que é dito é dificultada tanto para crianças quanto para universitários.
Crianças, que normalmente não têm todas as suas conexões cerebrais formadas e não desenvolveram um vocabulário amplo, terão problemas para captar o conteúdo se não houver tratamento acústico na sala. Se o professor transmite oralmente a aula e o aluno não consegue entender, ele vai perder parte do texto. Um adulto já consegue compreender melhor o todo, mas a criança vai ter problemas de compreensão por não conseguir ouvir ou pela distração que o som inadequado está causando. A informação vai chegar de maneira truncada. Se ela tem alguma deficiência auditiva, então, é ainda pior.
Na Alemanha existe uma norma específica para a acústica de salas de aula. Em locais em que existem alunos com deficiência auditiva ou outros transtornos de concentração, a acústica tem que ser ainda melhor do que o convencional.
É possível acabar com essa poluição? Que medidas podemos adotar para diminuir a poluição sonora?
Os refúgios que temos são os parques públicos, as nossas residências... Em Curitiba, por exemplo, muitos parques estão poluídos, mas em entrevistas que fizemos com frequentadores, descobrimos que as distrações que existem nesses lugares fazem com que a poluição sonora seja menos percebida. As árvores, os animais, o lago, a paisagem, os pássaros, o passeio de barco, fazem com que as pessoas se sintam mais descansadas. Elas conseguem “sair do som”, por assim dizer.
Em casa, é possível instalar janelas duplas ou reforçar a proteção das paredes.
Com o avanço da tecnologia, é possível criar aparelhos que poluam menos?
Já existem avanços, sim. Os aparelhos de ar-condicionado hoje são mais silenciosos. O problema é que há itens, como aspirador de pó e secador de cabelo, que são tão baratos que não há interesse das empresas em investir em tecnologia para diminuir o barulho que eles causam. Porque isso faria com que o custo de produção aumentasse, logo o lucro cairia.
Em 2010, instituiu-se no Brasil uma norma que trata da qualidade das edificações. Um dos artigos fala da acústica dos prédios. Estabelece regras para que haja o isolamento sonoro das residências quanto ao ruído externo e quanto à qualidade das vedações (das janelas, das portas, do piso). É um avanço.
O poder público também pode tentar diminuir a poluição sonora urbana controlando os ruídos dos veículos públicos, exigindo ônibus mais modernos para o transporte coletivo nas licitações, colocando na rua caminhões de lixo mais silenciosos. O governo federal, por meio das inspeções veiculares, pode proibir a circulação de carros barulhentos, com motores velhos e sem escapamento. E as pessoas devem cuidar de seus veículos para que eles não cheguem a esse nível de deterioração.
Falta consciência da população em relação a esse assunto?
Sim. É necessário mais discussão sobre o tema. Os órgãos públicos precisam debater mais a questão com a população e nas escolas. A Organização Mundial da Saúde considera hoje a poluição sonora um problema de saúde pública, junto com diversas doenças infecciosas. Isso quer dizer que o ruído é um problema muito sério.
As pessoas devem seguir um raciocínio simples. Se o ruído as incomoda, então é porque também incomoda a todos. Devemos respeitar a tranquilidade do outro. Eu não vou martelar depois das dez horas da noite, mas não só porque a lei determina esse horário, mas porque eu respeito o sossego do outro. Se você mora em prédio, por exemplo, é importante que você cuide com a bagunça das crianças, com objetos que caem no chão, com a música alta, porque provavelmente você não gostaria que o seu vizinho não tivesse esses cuidados. O hábito de se colocar no lugar do outro falta ao brasileiro.
Em outros países, se uma festa desrespeita o limite de horário, a polícia é chamada. Se há desrespeito da legislação quanto à perturbação do sossego, os organizadores da festa provavelmente vão parar na delegacia.
Ajudaram a fazer essa entrevista:
- Aline Cardoso Coelho Henrique
- Amanda Vannini Ramos
- Ana Julia Boniatti
- Anna Beatriz Frederickson
- Anna Claudia Peres
- Annya de Andrade Thaddeu
- Arthur Hansen
- Barbara Matias Angelo dos Santos
- Beatriz Lobo Magalhães
- Beatriz Nogueira
- Beatriz Prando Brandão
- Beatriz Zuchetto
- Bianca Barboza Leite
- Bianca Lins Ferreira Domingos
- Bruna Arruda de Sousa
- Bruna Scartezini
- Camila Nicolao
- Caroline Afonso Manolio
- Cauê Salvi Lopes
- Claudio Monteiro dos Santos Junior
- Diogo Montes Celinski
- Dominique Pereira Lima Soares
- Douglas Henrique Guimarães de Melo
- Eliane Luiza de Aguiar
- Emilyn Meneghetti
- Felipe Santos
- Fernanda Montagnani de Andrade
- Gabriel Cerqueira de Araujo
- Gabriel José de Lima Gonçalves
- Gabriel Marabesi Cabrini
- Gabriel Scentinela Góes
- Gabriela Garcia de Araujo
- Guilherme Mota Borges de Oliveira
- Gustavo Berti
- Helena Caroline Silva
- Henrique Barros de Salles
- Henrique Gelli da Silva Barão
- Henrique Lima Velardo
- Ian Albino
- Ingrid Elero Lopes
- Isabella Pereira de Souza
- Isabella Pinheiro Simões
- João Vitor Canaver Bini
- João Vitor Ianovalli Cassia
- Júlio Mecate Prada
- Katherine Barbosa de Carvalho
- Katleen Olinske
- Lara Carolina Neves Minhava
- Larissa Katarine de Souza Oliveira
- Larissa Morais dos Santos
- Leonardo Mauricio Muller Francisco
- Leonardo Zuchetto
- Leticia Bergamaço Alves
- Leticia Kitazawa de Souza Santos
- Letícia Marabesi Ferreira
- Lucas Aragão Pereira
- Lucas Vinicius Aragão da Silva
- Luis Felipe Macedo Lohmann
- Luis Henrique Zimmermann
- Luisa Pereira de Oliveira Zanetti Gomes
- Marcela Chagas Lima Mussi
- Marcella Krivickas Miranda Kochany
- Marcos Barbosa Pinto
- Maria Fernanda Silva de Oliveira
- Milena Alves Lucas
- Murilo Pedroso Maciel de Oliveira
- Naiara Silva Santos
- Natalia Iansen Garczareck
- Nathália Firme Da Silva
- Patrick Cabral de Lima Augusto
- Rafaela Vilanova Garcia Takakusa
- Raphael Martinez Fleck De Almeida
- Rebeca Robert Caldeira Ferreira
- Renan Carvalho de Brito
- Renan Chagas Lima Mussi
- Sabrina Bezerra de Sousa
- Sabrina dos Santos Loro
- Sarah Evelyn Brito Silva
- Stephany Afonso Manolio
- Thainá Lima de Melo
- Victor Henrique Arraes Faria Reis
- Victor Silva dos Santos
- Vinicius Augusto Secco dos Santos
- Vinicius Lopes dos Santos
- Vinicius Oliveira Souza
- Vitor Cavalcante Leal
- Vítor Vargas De Abreu Cruz
- Vitória França Gonçalves
- Wesley Matos de Lima
- Wesley Vitor Chiarelli
- Yago Amaral Castro
- Yvina Greyce Gomes De Sousa
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