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Como você se sentia quando, aos 8 anos, tinha que pedir
esmola todos os dias com sua mãe? (Regiane Camargo e Isabela
Passos)
Eu achava muito triste. Às vezes eu queria brincar e não
podia porque tinha que pedir esmola. Às vezes eu queria ir
para a escola e não podia porque tinha que pedir esmola para
sustentar a casa. Era difícil para mim a humilhação...
As pessoas falam um monte! Fecham a porta na tua cara! Foi muito
difícil, muito doloroso, mas eu sabia que o único
meio de me sustentar naquele momento era pedindo esmola.
Por que você fugiu de casa? O principal motivo para as
crianças fugirem são os maus-tratos que recebem em
casa? (Regiane Camargo, Cayo Vieira, Flávia Jannini)
O que desestruturou a minha família foi o álcool,
que tira o amor, o afeto e gera a violência. E uma coisa leva
à outra. A minha família era muito pobre, minha mãe
nunca estudou e sofri abusos sexuais na minha própria casa.
Tudo isso fez com que eu fugisse. Mas a origem do problema está
em uma coisa só: o álcool.
Ainda existem mães que batem nos filhos? Por que você
apanhava tanto? (Alessandra Figueira e Gustavo Semmler)
Apanhar, às vezes, não é motivo para alguém
sair de casa. Todo ser humano, ou a maioria das pessoas, já
tomou uns tapas quando era pequeno. Só que eu apanhava constantemente.
E outra: sei lá, a minha mãe não tinha paciência
para cuidar de nós e, às vezes, quem está com
um problema desconta nas crianças. A minha mãe tinha
problemas e descontava em mim e nos meus irmãos.
Como foi viver na rua, ficar sem família, e o que você
sentiu nesses anos todos? (Cristiane Bevilacqua, Liz Araújo,
Gleidson Garcia, Vilmar Pacewicz Jr. e Gabriela Pinto)
Eu sempre tinha a esperança de achar alguém que
um dia cuidasse de mim. Uma mãe, né? Para mim era
muito difícil, mas era obrigada a aceitar aquilo porque tinha
a idéia fixa de que, para mim, era melhor estar na rua que
em casa, mesmo sabendo que ia ficar sem mãe, sem carinho
e sem nada. Mas eu sonhava em ter um dia uma mãe para me
dar proteção.
O que você pensava quando estava na rua e como você
via o seu futuro? Você pensou em se prostituir? (Mariana Reis,
Henry Barthman e Rebeca Hartherly)
Em me prostituir não, porque eu tinha traumas. Fui muitas
vezes estuprada violentamente e tinha medo de homens. Eu fiquei
quase dez anos sem me relacionar com ninguém. Só agora
eu comecei, porque só agora estou me recuperando desse trauma.
O processo é lento. Tudo era muito difícil, mas em
me prostituir eu nunca pensei. Sobre o meu futuro, eu sonhava em
ser juíza para prender todos os policiais que me batiam (risos).
Sobre a violência de que você foi vítima,
quem tratou você com mais violência, foram os inspetores
da Febem? (Patrick Lucas)
Foi a sociedade. Foi a discriminação, o preconceito,
a exclusão, o apartheid, o fascismo. É isso que a
escola não fala. Então, a maior violência foi
a falta de direito de estudar, trabalhar, levar uma vida digna,
ter uma família. O direito da minha mãe também
foi violado porque ela também era pobre e tinha que pedir
esmola para sobreviver.
A única alternativa que a sociedade lhe dá é
a Febem, porque você está muito revoltado. É
tudo isso que eu falei. A maior violência é viver numa
sociedade hipócrita, fascista entre aspas, entendeu? As pessoas
têm que começar a aprender sobre essa questão,
porque é a realidade! A Febem foi dura, cruel, eu fui parar
lá e apanhei, mas a sociedade como um todo também
foi. E a alternativa que ela lhe dá é: Roubou? Febem!
Lógico que não fui coitadinha. Eu roubei, usei drogas,
trafiquei. Mas uma coisa gera a outra, se você for buscar
a origem do problema... E muitas pessoas e as escolas não
falam sobre isso. Falam das conseqüências, mas não
das causas. E é uma coisa que deveria ser discutida. Você
vai à escola e não aprende quase nada sobre as questões
reais. Não adianta viver no passado e ignorar o que está
acontecendo ao seu redor. E é preciso falar de uma maneira
que os alunos entendam.
Por que você roubou e virou traficante? (Vanessa Souza
e André Cavalheiro)
É um instinto de sobrevivência. Às vezes,
ninguém fica com dó de você e lhe dá
um prato de comida. Às vezes, você tem que agir por
compulsão, roubar mesmo. E na rua isso acaba se tornando
freqüente... Você quer usar droga e já sabe que
roubar é mais fácil. Mas tudo isso é um instinto
de sobrevivência, é uma situação que
a sociedade impõe para você. Ela lhe dá a rua,
mas não uma escola e o direito de viver uma vida digna. Então
você acaba escolhendo a outra alternativa: roubar, usar drogas,
traficar, se revoltar. Para a sociedade, para quem está lá
em cima, é melhor você usar droga, porque assim ela
não vai gastar dinheiro com você. Daqui a um ano você
vai estar morto e ser um problema a menos, não é verdade?
Por que você usou drogas? Como isso acontece na rua: as
crianças aceitam de alguém, a polícia é
quem as ajuda a obter a droga ou elas acabam experimentando drogas
porque ali todo mundo usa? (Rafael Damasceno, Patrick Lucas, Mariana
Cunha, Luca Bacille, Isabela Passos, Aline Batista, Karla Nascimento
e Amanda Santos)
Meu contato com drogas sempre foi muito próximo. Em casa
tinha álcool, na rua tinha droga. Você acaba tendo
que escolher, porque a dor é imensa, assim como o medo, o
vazio, a carência. A droga, naquele momento, serviu de refúgio.
Drogada, eu não sentia medo, não sentia frio, não
sentia discriminação. Mas depois comecei a ficar dependente.
Vivia para usar, usava para viver. Então voltei a ter medo
de tudo e foi muito difícil.
Você sabia dos riscos de usar drogas? Qual a pior conseqüência
que isso lhe trouxe? Você teve medo de não se curar
do vício? (Mariana Tamura, Cristiane Bevilacqua e Carolina
Teodoro)
Eu tinha consciência do risco que estava correndo por
usar drogas. Era um jogo, né? Eu não sabia quem ia
perder, e eu perdi para elas. Só não dancei. Mas as
drogas causaram muito sofrimento para mim. Todos os momentos em
que usava crack, eu sofria muito. Não tomava banho, não
comia, vivia em depressão, no vazio. Foi horrível
a minha vida com o crack.
Você superou os traumas da violência, inclusive
sexual, das drogas e dos abusos de que você foi vítima?
Que conseqüências isso trouxe na sua vida? (Raquel, Patrick
Lucas e Isabela Passos)
Descobri que tinha que perdoar o meu passado para viver um presente
legal - eu conto isso numa parte do livro. Se viver com ressentimentos
dos estupros, nunca vou me liberar desses traumas, entendeu? Se
viver com ressentimento da minha mãe por tudo que ela fez,
nunca vou dar um passo à frente. Não posso ficar vivendo
as coisas lá atrás, senão fico naquele triângulo:
culpa - raiva - medo. Então, já me recuperei 90%,
mas ainda estou me recuperando. Tive que perdoar meu passado, em
terapias, em terapias de grupo. Partilhando bastante essas minhas
coisas com honestidade, eu vou me libertando, mas o processo é
lento porque, quando você é vítima, fica mais
difícil. Eu aprendi a perdoar e as coisas vão acontecendo.
Se vivesse com ressentimento, visualizando o meu passado, nunca
conseguiria crescer.
Quem a ajudou e quem lhe deu apoio para que você saísse
da rua? (Antonio Valle Jr., Mariana Andrade, Érica Falcão)
Uma ONG chamada Projeto Travessia e também a minha força
de vontade de lutar contra tudo isso. Eles foram à Praça
da Sé, fizeram um trabalho comigo e depois me resgataram
da rua e arrumaram uma casa para eu morar.
Como diz o título do seu livro, por que você não
dançou? E como arranjou forças para mudar de vida
e superar os preconceitos? (Lilian Turner, Regina Albuquerque, Daiane
Freitas, Millena Souza e Carla Febel)
Eu não dancei porque descobri o amor pela vida. E também
porque vi que não dava mais. A droga tinha me vencido e eu
tinha que me libertar disso. Parei com a dor e fui descobrir o amor
quando já estava me recuperando. Eu tinha tudo para dançar...
Como a fé a ajudou em sua recuperação?
Você acredita em Deus ou em reencarnação? (Isabela
Passos)
Eu acredito muito em Deus. Nos piores momentos, Deus sempre esteve
comigo. Sempre senti Deus ao meu lado até agora. Foi uma
força maior que me orientou para que pudesse pedir ajuda,
para conseguir viver. Eu acredito muito em Deus e, em tudo que eu
faço, coloco Deus em primeiro lugar. Você tem que confiar
em um poder maior, estar bem espiritualmente para aprender a tomar
decisões completas. Estando bem espiritualmente, você
consegue alcançar sucesso. Mas eu não tenho religião
nenhuma. O que eu tenho é muita fé em Deus.
E depois desse trabalho de ressocialização que
a ONG fez com você, como é sua vida hoje em dia? Você
saiu da pobreza, ainda mora na rua ou acha que se reintegrou definitivamente
à sociedade? (Regiane Camargo, José Dilson Oliveira
Jr. e Erika Maffei)
Hoje eu trabalho, estudo, tenho minha casa e amigos. É uma
vida normal, como a de qualquer outra pessoa. Foi uma conquista
superlegal, porque foi tudo fruto do meu esforço. Eu não
tive papai nem mamãe para me ajudar. Eu tive que lutar e
cada coisa que conquistei foi fruto do meu suor, o que é
ainda mais gratificante. Quando é uma coisa batalhada, você
dá mais valor.
Você sente saudades dos amigos que fez na rua? (Carolina
Teodoro)
Eu sinto muita saudade e me lembro de todo mundo. De vez em quando,
vou visitá-los. Mas não posso mais me misturar com
eles porque o problema é muito sério. Se eu ficar
indo para a Sé direto [Praça da Sé, em São
Paulo], vou ver todo mundo roubando, usando droga, e corro o risco
de voltar para essa vida rapidinho.
E seus irmãos, você os encontrou novamente? (Juliana
Silva, Mariana Andrade e Lorena Passos)
Meu irmão está preso agora, no Carandiru [Casa de
Detenção do Carandiru, maior penitenciária
do Brasil, com mais de 7.000 presos]. Eu estou tentando ajudá-lo
da melhor maneira, só que é difícil, porque,
às vezes, a pessoa não quer mudar. Aí fica
aquela briga e você acaba tendo que abrir mão mesmo.
Eu e meu irmão paramos de ter contato por motivos pessoais.
É difícil para a família tentar ajudar uma
pessoa que não quer, entendeu?
Quantos anos você tem e em que série está?
O que você sentia quando seus amigos de escola a chamavam
de favelada? (Ana Carolina Bertholdo, Roberta Souza e José
Dilson Oliveira Jr.)
Eu tenho 21 anos e estou no segundo ano colegial. Eu me sentia inferior.
Achava que todos eram melhores que eu. Eu não me aceitava
e aquilo me doía muito. Esse preconceito me afastava da escola.
O seu principal projeto é passar no vestibular? Em que
curso? Você acha que terá as mesmas oportunidades que
os outros concorrentes? (Rafael "Lord Kill" Batista, Letícia
Marcondes, Ana Carolina Ribeiro, Luciano Meira)
Eu me acho normal como qualquer outra pessoa e me acho capaz de
lutar por uma vaga. Já lutei por tudo nessa minha vida. Passar
no vestibular é fichinha, não que eu seja CDF. Mas
eu vou fazer de tudo para entrar numa faculdade. Eu quero estudar
Antropologia e a cultura afro, mas antes quero fazer Comunicação.
Isso é uma meta, não uma barreira, e depende do meu
esforço, depende de mim. O difícil eu já consegui.
O resto é fichinha.
Você acha que uma criança que tem condições
parecidas com as que você teve vai conseguir estudar e construir
a sua vida? Como você fez isso sem a ajuda de outras pessoas?
(Aluno(a) não se identificou)
Depende. É difícil explicar. Mas, se houver ajuda,
se houver intervenção para essa criança mudar,
ela vai conseguir, sim. Se você fizer um trabalho com ela
antes que cheguem os piores problemas, é bem melhor.
Como você virou autora e por que quis escrever o livro?
Foi muito difícil escrevê-lo? Você gostou de
escrever um livro para contar a sua história? (Regina Albuquerque,
Daniela Alcântara, Fernanda Carvalho)
Foi difícil, mas o Gilberto Dimenstein me ajudou, e o cara
é um puta escritor, né? Eu cheguei um dia para o Gilberto
e perguntei se ele podia me ajudar, do mesmo jeito que estou falando
com você, do nada! E ele topou! Mas falar de si mesmo dói...
Mexer em todo o seu passado, ainda mais sabendo que milhares de
pessoas vão ler. Mas para mim foi um conforto, parece que
tirei um peso das minhas costas. Demorou seis meses para eu escrever
e dois para entrar na gráfica. Mas foi uma conquista minha.
Meu sonho era ser escritora e foi legal.
O que você gosta de fazer, além de escrever? (Aluno(a)
não se identificou)
Eu gosto de ler (risos). Gosto de livros que falam da cultura afro
e sobre negros. Podem ser de qualquer tipo: livros meio antropológicos,
não muito, porque senão eu não tenho paciência
(risos), biografias, enfim, livros que falam da vida real.
Você pretende trabalhar com meninos de rua, participar
de alguma campanha, como o professor Roberto Carlos da Silva, que
ajuda menores carentes? Que idéias você tem para acabar
com as crianças de rua no Brasil? (Patrick Lucas, José
Eduardo Andrade e Rebeca Hatherly)
Eu trabalho numa ONG que lida com crianças, jovens e adolescentes
de diversos segmentos da sociedade: escolas públicas, privadas,
instituições, Febem, ONGs, meninos de periferia, meninos
que ainda estão na rua. É o Projeto Aprendiz, coordenado
pelo Gilberto Dimenstein, que ensina crianças a fazer mosaicos.
Esse projeto atende diretamente na Praça da Sé. Mas
na rua eu não quero trabalhar. Eu sei que não dá
para voltar aos velhos amigos, aos velhos hábitos, porque
isso pode me prejudicar.
Para solucionar esse problema das crianças de rua, tem que
se investir mais nas pessoas, na família, antes de as crianças
irem para a rua. Também é preciso investir mais em
projetos sociais, mas não só com menores de rua não.
Eu fui menor e hoje sou maior. Quem foi criança hoje é
adulto. Tem que melhorar o sistema no Brasil. É preciso um
acompanhamento até a pessoa poder se estabelecer. Caso contrário,
não adianta fazer trabalho só com criança.
É trabalho vão, tempo jogado fora, porque há
pessoas que têm 18 anos e não têm aonde ir. As
portas são fechadas para eles! E eles têm que se virar,
voltar para a rua, roubar e fazer um monte de coisas. Tem muito
mendigo louco - mesmo sem usar drogas - porque a vida acaba deixando
a pessoa meio biruta. Ela começa a ficar louca, a falar sozinha.
Mas um dia esse mendigo foi criança também. As pessoas
passam e nem se interessam: "Ah! É mendigo." Mas
ninguém sabe o sofrimento dele, ninguém sabe por que
ele está nessa situação.
Você, como escritora, tem uma mensagem ou conselho para
as crianças do Brasil, especialmente para as que estão
passando pela mesma situação que você já
passou? (Rebeca Hatherly, Caroline Pedrozo, Julia Souza e Isabela
Passos)
Elas nunca devem deixar o sonho morrer porque, se você desistir,
se deixar seus sonhos se apagarem, perderá a visão
de que pode ter um futuro melhor, de que pode resistir e lutar para
isso.
Qual é seu grande sonho? Você já conseguiu
realizá-lo? (Julia de Souza)
Eu tenho metas agora e já estou conseguindo realizar o meu
sonho. Quando você coloca um sonho em prática, você
estabelece metas em cima dele. Meu sonho era ter uma escola, um
lar, amigos. Hoje eu tenho escola, lar, amigos, mas preciso investir
na minha educação. Mas meu grande é sonho é
viver numa sociedade onde haja espaço para todos. O mundo
é tão maravilhoso! E Deus escolheu um pedaço
para cada um e deu de bandeja para todo mundo. É preciso
que haja espaço para todos, é o que eu penso. Que alerta que você faria para as pessoas que não
sabem o sofrimento que você passou, que só vêem
as crianças pelo vidro do carro? (Letícia Rosa)
Eu acho que vale mais um minuto de atenção do que
um real. Perguntar o que a pessoa está precisando e ajudar,
entendeu? Hoje é aquela pessoa, mas amanhã isso pode
acontecer na sua própria casa, na sua família. Você
tem que estar sempre atento para não fechar as portas e não
dar as costas para essas pessoas.
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