Atualidades > Entrevista Interativa > David Carolla
 
Guia turístico
Saiba mais sobre o entrevistado

David Carolla: guia de turismo

O trabalho de um guia turístico é apenas viajar pelo mundo afora? O que ele precisa saber para exercer essa atividade? Será que há somente diversão ou tem tarefas chatas também? Quem responde é o turismólogo David Carolla, que há anos trabalha nessa área!

Como um guia turístico encontra trabalho? Ele precisa, necessariamente, trabalhar em uma empresa?

Primeiramente, é preciso corrigir a nomenclatura. O termo correto para designar a profissão de condutor de grupo é guia de turismo. Guia turístico é, tecnicamente, a produção literária sobre destinos e informações de viagem.

Um guia de turismo trabalha para diversas agências e operadoras de viagens como autônomo (free-lancer). Por isso, dificilmente presta serviços exclusivamente para uma empresa, mesmo que nela haja uma frequência maior de trabalho. Como qualquer profissional free-lancer, sua fama está relacionada a sua competência: quanto melhor for um guia de turismo, mais indicações para trabalhos ele terá. O profissional dessa área pode também elaborar um site ou enviar currículos. Mas, geralmente, as empresas dão preferência às indicações, pois este é um serviço que precisa agradar muito o cliente, e é comum que as agências não se arrisquem contratando um desconhecido.

Além disso, é necessário frequentar os eventos da área, conhecer gente, estar sempre à disposição e, assim, ir ganhando credibilidade no mercado para ser contratado para uma viagem.

Um guia de turismo pode trabalhar como autônomo? Essa forma de trabalhar é melhor?

Sim, na maioria das vezes, ele é autônomo e presta serviço para diversas empresas, viajando para muitos destinos. Ser autônomo tem suas vantagens e desvantagens. Um dos pontos fortes é poder diversificar sua área de atuação: prestar serviço para agências e operadoras de ecoturismo, turismo cultural, turismo educacional, viagens convencionais, viagens de incentivo, etc. Dessa forma, cria mais contatos e ganha uma experiência maior com diversos públicos.

O ponto fraco de ser autônomo é a falta de estabilidade. O salário não é garantido no final do mês. Um guia de turismo ganha se trabalhar. Se não viajar, não ganha. O profissional não tem os benefícios do registro em carteira, como 13.º salário e seguro-desemprego, por exemplo. Precisa, portanto, estar disponível boa parte do tempo para atender a uma empresa.

Quando o trabalho de um guia é solicitado, o que ele precisa fazer? Como deve se preparar?

Primeiramente, ele precisa entrar em contato com a empresa que solicita o trabalho e investigar o perfil do público para quem vai trabalhar: quem são essas pessoas, de onde vêm, para onde vão, por que estão viajando, qual é sua condição socioeconômica, sua escolaridade, seus interesses, sua religião, sua idade, etc. Precisa saber quem é seu cliente para oferecer-lhe um serviço personalizado, focado. Ainda junto às agências de viagem, ele precisa preparar seu material de trabalho, a pasta do guia, que contém todos os documentos e as informações das viagens, hotéis, passagens aéreas do grupo, reservas de restaurantes, parques, passeios, seguros. Precisa ainda pesquisar sobre o destino: história do local, geografia, cultura, gastronomia, rodovias de acesso e clima, para ser capaz de oferecer tais informações ao grupo.

É necessário também trabalhar a gestão da segurança de sua viagem: na cidade para a qual ele está levando o grupo, quais são e onde estão os hospitais, os postos de saúde, o bombeiro e a polícia.

Se nunca esteve no lugar antes, pode conversar com outros guias de turismo que já trabalharam com o destino e pedir-lhes algumas dicas.

Quais são as habilidades que um guia de turismo precisa ter?

O primeiro requisito é gostar de cuidar das pessoas, ou seja, atender bem seu passageiro, saber se ele está sendo bem servido, bem acolhido, bem tratado. Para isso, é preciso paciência, tolerância, persistência, conhecimento sobre as diversas culturas, muita ética para lidar com questões delicadas de seus turistas, principalmente as de cunho pessoal, com que ele deve evitar se envolver. Um guia de turismo está sempre viajando, mas sempre a trabalho.

Tem, também, de ser bem organizado para colocar um roteiro em ordem e cumprir a programação da viagem com pontualidade.

Outro item fundamental é a comunicação. Um guia de turismo deve não apenas saber se comunicar, mas também saber contar bem uma história e tornar um assunto interessante para que seu grupo queira ouvir o que ele tem a dizer. Além disso, ele precisa ter desenvoltura para falar em público, inclusive usando a linguagem corporal.

É obrigatório falar outros idiomas?

No Brasil, não há nenhuma obrigatoriedade quanto a isso. Em certos países, para se formar como guia de turismo, outro idioma é obrigatório.

Contudo, um profissional dessa área que fala mais de um idioma (além do português, corretamente) tem grande vantagem competitiva no mercado. Quanto mais incomum o idioma que ele domina, mais exclusivo será seu trabalho. Existem muitos guias de turismo que falam inglês e espanhol. Mas poucos que falam francês, russo, árabe, chinês, hebraico, italiano — com fluência suficiente para se comunicar bem com seus passageiros.

São poucos também os guias de turismo que utilizam a Libras (Linguagem Brasileira de Sinais), ainda que o aprendizado dessa linguagem não seja difícil. Deficientes auditivos e visuais também viajam, e bastante. Portanto, também precisam de um guia de turismo que saiba se comunicar com eles.

Como é a experiência de conduzir turistas estrangeiros?

O trabalho com o turista estrangeiro requer um serviço diferenciado (nem melhor nem pior, apenas diferente). Ele tem características culturais e necessidades distintas de um viajante brasileiro, que está conhecendo o próprio país. Para um brasileiro, a língua, a comida, a cultura, apesar de diferente de um local para o outro, não causa um choque tão grande quanto para um estrangeiro.

Este já vem para o Brasil com uma série de expectativas e preconceitos sobre como imagina nosso país. Cabe ao guia de turismo, que atua como os olhos do turista, direcionar seu olhar para aquilo que nosso país pode oferecer de melhor para suas férias.

O turismo fora do Brasil, principalmente na Europa, é muito desenvolvido, e é difícil agradar o estrangeiro com a qualidade dos serviços turísticos que nós temos. É preciso parar de achar que ser brasileiro, simpático e hospitaleiro basta. Nossos serviços turísticos, em geral, têm pouca segurança, pouca higiene, pouca acessibilidade, o que pode colocar em dúvida nosso profissionalismo. Não digo que devemos copiar os modelos estrangeiros, mas desenvolver nossos produtos aplicando o conceito de qualidade.

Que tipo de dificuldade um guia de turismo encontra no trabalho?

Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, um guia de turismo (com seu grupo) encontra as mesmas dificuldades que um morador da capital: trânsito para ir de um local ao outro (e o turista tem horários e um programa a ser cumprido), segurança, infraestrutura. São problemas que, quando forem solucionados para o morador local, beneficiarão também o guia de turismo e seu grupo. Quando um local é bom para seus moradores, é bom também para seus visitantes.

Temos, no Brasil, um grande problema quanto à profissionalização do turismo. Muitos trabalham com ele, mas poucos são profissionais. Isso acontece em agências de viagem, hotéis, restaurantes, museus e até mesmo na condução de grupos. Muitas pessoas que não estudaram e não se formaram para trabalhar com turismo, estão atuando na área, oferecendo serviços de péssima qualidade e com grandes riscos ao turista.

A profissão de guia de turismo é a única no setor que é reconhecida por lei e regulamentada; portanto, alguém que não se formou e não está cadastrado no Ministério do Turismo para trabalhar na área, está cometendo dois crimes: exercício ilegal da profissão e falsidade ideológica.

Com que frequência um guia de turismo viaja a trabalho?

Um guia de turismo está o tempo todo em trânsito: seu escritório é o ônibus e sua casa é a mochila. Na alta temporada (férias e feriados), seu trabalho é muito requisitado e, eventualmente, ele pode emendar uma viagem na outra: chegou hoje com um grupo e amanhã está saindo com outro. Isso exige do profissional uma grande aptidão física e psicológica para o trabalho.

Além das viagens, ele pode também realizar trabalhos em sua própria cidade, recebendo pessoas de fora e realizando city tour, visitas a centros históricos, espaços de lazer, museus, entre outros.

Na baixa temporada, a frequência de viagens diminui, mas sempre há trabalho, pois sempre há alguém viajando!

De todos os lugares onde já esteve, de qual você gostou mais?

Existem diversos lugares em que, mesmo viajando a trabalho como guia de turismo, é possível aproveitar e apreciar.

São muitos, portanto é injusto citar um só.

No Brasil, sou apaixonado por Paraty, pela simpatia e pela beleza do centro histórico, um dos mais preservados do país. Possui belas paisagens, ótima gastronomia e excelentes serviços turísticos.

Fico encantado com as belezas da Bahia, em especial a Chapada Diamantina, com suas cachoeiras, grutas e trilhas de tirar o fôlego.

Uma experiência internacional inesquecível foi Roma. A cidade tem preservado a história da humanidade há centenas de anos e está tudo ali, em pé, para quem quiser ver. Preservado, limpo, seguro e com serviços turísticos de ótima qualidade.

Mas se algum local tiver de ocupar o primeiro lugar da lista, sem dúvida, é São Paulo. Não há nada como minha cidade: poucos a conhecem e poucos se dão ao trabalho de conhecê-la. Muitas vezes o morador da cidade não se interessa por sua própria história, não frequenta as dezenas de museus que temos, os parques (que não se restringem apenas ao Ibirapuera), os locais para compras, a arquitetura dos prédios novos e antigos, as diversas culturas que aqui se instalaram, enriquecendo nossa gastronomia. A cidade oferece opções de lazer e cultura todos os dias, em todos os horários, para todos os públicos. Isso me fascina.

O que você acha mais legal em sua profissão?

Gosto muito da quebra da rotina. Cada dia estou em um local diferente e com pessoas diferentes. Um turista aprende muito com seu guia de turismo, mas nós também aprendemos muito com cada passageiro que viaja conosco. A troca com outras pessoas é uma experiência riquíssima.

É muito satisfatório saber que, no momento livre de alguém, você pode lhe proporcionar lazer, descontração e educação, além de lhe oferecer a possibilidade de conhecer novos lugares, acompanhá-los nessa descoberta e contribuir para que estes sejam momentos inesquecíveis.