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Entrevistado
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A abordagem de Educação Infantil de Reggio Emilia pode ser aplicada
em qualquer escola, seja ela pública ou privada, construtivista ou sociointerativa?
Como segue o processo de formação de alunos que foram educados dentro
dessa metodologia na Educação Infantil quando eles seguem para o
Ensino Fundamental e, posteriormente, no Ensino Médio? (Áureo Gomes
Monteiro Junior, Curitiba/PR)
Creio que seria extremamente inapropriado e incorreríamos em erro se,
simplesmente, tentássemos importar a experiência de Reggio Emilia.
Na educação, a boa teoria tem, freqüentemente, vindo de uma
prática bem-sucedida. Por sua vez, a teoria que se origina da prática
passada pode renovar a prática e trazer novas orientações
num processo contínuo e singular de exploração, pesquisa,
experimentação e inovação. É uma relação
interativa. Temos nossa própria história e temos de partir da nossa
realidade. Nossa configuração social é outra, temos diferenças
culturais e institucionais, o que não desqualifica essa abordagem, mas
requer tantos estudos e discussões quanto nossa curiosidade intelectual
permitir. E, a partir daí, ir adiante, observando, aprofundando, debatendo
e construindo conhecimentos adequados ao nosso cenário sociocultural.
Nunca é demais aplaudir o sucesso e a ousadia da comunidade Reggio Emilia,
que, em meio aos escombros da Segunda Guerra, apenas seis anos após seu
término, aproveitou os tijolos e os ferros das casas bombardeadas para
construir uma escola para crianças, dando-nos o testemunho de que é
possível transformar a realidade quando há ideal, determinação
e compromisso.
Essa abordagem incentiva o desenvolvimento intelectual da criança por
meio de um foco sistemático sobre a representação simbólica.
Ela é encorajada a explorar seu ambiente, que é rico em possibilidades,
e a expressar-se através de todas as suas “linguagens” —
desenho, pintura, palavras, movimento, montagens, dramatizações,
colagens, escultura, música —, o que a conduz a surpreendentes
níveis de habilidades simbólicas e de criatividade.
A abordagem Reggio Emilia só é utilizada na Educação
Infantil. No momento, discute-se, na Itália, a possibilidade de estendê-la
para outros segmentos. Entretanto, acredito que isso não seja problema.
Não há choques com o ensino posterior. A criança constrói
uma base sólida e torna-se capaz de movimentar-se bem em outros sistemas
pedagógicos.
Meu filho tem 2 anos e meio e já freqüenta a escola. Ele corre
o risco de um dia enjoar de estudar por começar tão cedo? Existe
alguma literatura indicada para essa questão?
Jamais uma criança vai enjoar de estudar por ter começado a freqüentar
a escola infantil muito cedo. A escola infantil oferece inúmeras oportunidades
para a criança expressar-se por meio de atividades prazerosas: pintura,
desenho, música, movimento, leitura, escrita, escultura, dança,
teatro. Além disso, toda e qualquer atividade na escola infantil é
permeada pelo lúdico. Tudo se transforma numa grande festa. Os jogos,
os brinquedos, as brincadeiras estão sempre presentes e, o mais importante,
a criança vai construindo hábitos e atitudes, competências
e habilidades, valores e conhecimentos de uma forma leve, natural e agradável.
Além disso, a criança inicia a aprendizagem pela convivência.
Diz um provérbio popular: “O melhor brinquedo para uma criança
é outra criança”. Na escola infantil, a criança convive
com outras crianças, e isso é superdivertido. Ela passa a ter
um grupo da sua idade para brincar, viver interessantes experiências e
significativas trocas. No grupo, ela aprende as regras da convivência:
dividir, partilhar, fazer valer seus direitos, respeitar o espaço e o
direito do outro. É um grande ganho. Depoimentos de jovens adultos que
começaram muito cedo em escolas infantis revelam uma lembrança
muito positiva e cheia de afetividade daquela época.
Fique tranqüila. Seu filho está bem. Ninguém enjoa do que
é bom. Quanto à bibliografia, recomendo: Brincar na Pré-Escola.
Gisela Wajskop. Ed. Artmed; Creche: Crianças, Faz-de-conta e Cia.
Zilma de Moraes Oliveira. Ed. Cortez; e Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a
Educação. Tizuko Kishimoto. Ed. Cortez.
Indico, ainda, as obras de Maria Tereza Maldonado como leitura interessante
sobre a relação entre pais e filhos: Comunicação
entre Pais e Filhos (Editora Saraiva) e Como Cuidar de Bebês e
Crianças Pequenas. Para mais informações, acesse o
site www.mtmaldonado.com.br
Você poderia citar quais são os critérios aplicativos do
referencial pedagógico do Reggio Emilia para que possamos ampliar nosso
conhecimento sobre sua teoria e prática, bem como bibliografias existentes?
(Adelina Barbosa Ramos, Santos, SP)
Loris Malaguzzi, o idealizador da abordagem Reggio Emilia, pensou na escola
como uma construção em contínuo ajuste que deve, de tempos
em tempos, rever seu sistema sem interromper seu curso natural. Considerava
fundamental que o sistema de escolarização se expandisse para
o mundo da família, integrando-a e respeitando seu direito de conhecer
e participar do trabalho desenvolvido pela escola. Ponderava ser essencial que
o foco de seu sistema fosse a criança, mas não só ela.
Era preciso que os professores e as famílias fossem vistas como centrais
para a educação das crianças.
Em Reggio Emilia, a educação é estruturada tendo por base
o relacionamento e a participação. A relação é
a dimensão fundamental de conexão do sistema, entendido como uma
conjunção dinâmica de forças e elementos interagindo
para uma finalidade comum. É importante que a escola seja confortável,
de modo que todos se sintam em casa e os três protagonistas principais
possam incorporar maneiras de intensificar suas relações, garantindo
total atenção aos problemas da educação e ativando
a participação e a pesquisa. A intensa atividade na exploração
e criação em grupo refina habilidades de comunicação
e ajuda o grupo a manter-se aberto e receptivo a mudanças.
O objetivo do projeto educacional Reggio Emilia é, segundo seus educadores,
criar uma criança protagonista, investigadora, capaz de descobrir os
significados das novas relações e de perceber os poderes de seus
pensamentos por meio da síntese de todas as linguagens: expressivas,
comunicativas e cognitivas.
Bibliografia:
Edwards, Carolyn. As cem linguagens da criança: a abordagem de
Reggio Emilia na educação da primeira infância. Editora
Artmed, 1999.
Malaguzzi, L. A historical outline, data, and information. Reggio Emilia,
Italy: Center for Education Research.
Rabbit, G. A procura da dimensão perdida: uma escola de infância
de Reggio Emilia. Editora Artmed.
Rinaldi, C. The Reggio Emilia approach. A paper presented at the Conference
on the Hundred Languages of Children, Detroit, MI. 1991.
Alguma escola no Brasil já utiliza essa abordagem? (Maria Cecília
Garcia Serafim Fulgêncio, Valença/RJ e Fernando Miguel Marinho
dos Anjos, Rio de Janeiro/RJ)
Não tenho conhecimento de escola que utilize essa abordagem no Brasil.
Sei que, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, há estudiosos
aprofundando suas pesquisas. Em São Paulo, há uma educadora de
uma escola de orientação italiana e, simultaneamente, professora
da Universidade de Bolonha, grande entusiasta da abordagem Reggio Emilia, que
participou ativamente para tornar possível que a mostra “As Cem
Linguagens da Criança” acontecesse em São Paulo no início
de agosto. Essa belíssima exibição, que tem corrido o mundo,
é uma amostra, por meio de fotos, pinturas, desenhos, colagens e estruturas
construtivas do processo educacional Reggio Emilia.
No final de janeiro desse ano, depois de insistentes pedidos nossos, foi aberto
um curso em Reggio Emilia destinado aos latino-americanos. Estiveram lá
25 brasileiros, estudando, debatendo, maravilhando-se, inserindo-se naquela
realidade. Acredito que seja necessário aprofundarmos nossas investigações
e daí partirmos para novos caminhos e propostas.
Em síntese, como foi a experiência de visitar o Reggio Emilia?
Considerando nossa realidade: a) essa abordagem de ensino é exeqüível?
b) quais seriam os aspectos favoráveis — e também os desfavoráveis
— que devem ser observados pelas escolas que pretendem seguir essa abordagem?
(Giselaine Mary Barbosa Troglio, Foz do Iguaçu/PR e Fernando Miguel Marinho
dos Anjos, Rio de Janeiro/RJ)
Já tinha visitado escolas de orientação Reggio Emilia
nos Estados Unidos e na Dinamarca, mas, na Itália, foi fantástico.
Ler e ouvir falar a respeito é diferente de vivenciar in loco.
As escolas em Reggio Emilia surpreendem pela beleza e estética. Em cada
cantinho, há um detalhe. Limpeza e ordem estão sempre presentes.
Existe uma ordem estética no ambiente. Lá, fica evidenciado que,
por meio da documentação e do trabalho em grupo, é possível
preparar ambientes estéticos e atividades que conduzem a criança
a perceber e a representar o mundo natural e cultural em que vive. O mais interessante
é que o trabalho com a criança, apesar de se nutrir da arte e
da estética, vai além. A arte é uma ferramenta para o pensamento.
O currículo é aberto. Trabalha-se com projetos, que eles chamam
de “projetos de estudos em profundidade”, que começam com
base em uma idéia e germinam por longo período, envolvendo desde
a observação de idéias interessantes da criança
até o desenvolvimento dessas idéias em experiências concretas.
As reflexões resultantes dessas experiências geram aprendizagens
e levam a novas idéias que, por sua vez, vão constituir desafios
para outras atividades. Assim, um projeto pode durar meses. Um bom projeto é
aquele que permite a contribuição de cada criança, de modo
que ela possa interagir com as demais, discutindo, decidindo, dialogando, resolvendo
conflitos, estabelecendo regras e metas, utilizando múltiplas formas
de representação. A abordagem no projeto educacional de Reggio
Emilia é sempre multissimbólica.
Toda escola tem um atelier e um atelierista, que é um profissional envolvido
com arte e estética. Malaguzzi falava que, se pudesse, teria criado uma
escola composta inteiramente por laboratórios similares a ateliês.
Uma escola feita de espaços, nos quais as mãos das crianças
pudessem sempre estar ativas. Mãos e mentes ativas engajadas em uma alegria
liberadora e uma aprendizagem efetiva.
O atelier é um espaço rico em materiais, ferramentas e pessoas.
É um espaço subversivo no sentido de permitir novas combinações
e possibilidades criativas entre as diferentes linguagens da criança,
gerando, assim, novas ferramentas para o pensamento.
Também é um poderoso meio para ajudar os pais a compreender como
seus filhos possuem recursos e habilidades bem maiores do que percebem. Por
meio dos trabalhos desenvolvidos pela criança, é possível
verificar como ela pensa e se expressa, o que produz com suas mãos e
inteligência, como brinca, como discute hipóteses, como sua lógica
funciona. Assim, os pais podem entender o trabalho e, efetivamente, fazer parte
do processo educacional. Também funciona como um laboratório de
estudo e pesquisa para os professores. Novas modalidades, técnicas, materiais
e instrumentos podem ser experimentados.
Há um cuidado em registrar e documentar todo o trabalho e eventos que
acontecem por meio da escrita, de fotos e de filmagens. Essa documentação
é, posteriormente, compartilhada com as crianças, com os pais,
com os outros membros da escola, com o público. Assume-se, assim, a perspectiva
de um pesquisador. O trabalho realizado é tratado como produto de uma
lógica a ser compreendida.
A abordagem Reggio Emilia oferece muito material para reflexão. Evidentemente,
não é possível importá-la tal qual se apresenta.
Vivemos outra realidade. A falta de pressa, o número de alunos e de professores
envolvidos, a tradição de cooperação comunitária,
o currículo aberto e a preparação dos professores para
lidar com essa abordagem são questões complexas e muito distantes
de nossa cultura. Entretanto, Reggio Emilia oferece uma ampla gama de possibilidades
de estudos e de investigação. Precisamos discutir, observar, aprofundar.
Como é feita a alfabetização utilizando-se a abordagem
Reggio Emilia? (Tereza Raquel dos Santos Alves, Presidente Prudente/SP)
A alfabetização não é o foco em Reggio Emilia.
A criança pode aprender a ler ou a escrever como resultado dos desdobramentos
dos projetos desenvolvidos. Se isso não ocorrer, acontecerá depois
no outro nível de escolaridade — não há pressa. O
importante é que ela adquira as ferramentas fundamentais para pensar
e, sendo capaz de refletir, ela fica aberta a qualquer exigência ou forma
de aprendizagem.
Nos projetos, são utilizadas estratégias didáticas que
facilitam o contato da criança com situações intelectual
e emocionalmente desafiadoras. Como todo o percurso é registrado, documentado
e exibido, a criança tem permanente contato com a escrita. Cada grupo
de, no máximo cinco crianças, tem duas professoras. Enquanto uma
atua diretamente, a outra registra tudo: as discussões surgidas, as hipóteses
formuladas, as tentativas de resolução dos problemas. Como ela
escreve o tempo todo, aguça a curiosidade da criança quanto à
escrita. A literatura também é presença constante, o que
facilita o gosto pela leitura e sua aprendizagem.
Os projetos são estimulados pelo educador ou são do interesse
das crianças? Como também trabalho com projetos, percebo que alguns
saem do interesse delas. (Carla Waldeck Santos, Curitiba/PR)
Visto como parte integral da aprendizagem cognitiva/simbólica da
criança em desenvolvimento, o projeto não é criado ao acaso,
mas resultado de uma exploração conduzida de temas e situações
relevantes para a criança.
Em Reggio Emilia, o projeto inicia-se com uma série de reuniões
entre os próprios professores visando, entre outras coisas, à
revisão de princípios sobre as condições necessárias
para que um projeto seja considerado bom. É evidente que o bom projeto
é aquele que aguça o interesse da criança. Um projeto deve
ser interessante, próximo da experiência da criança e rico
em possibilidades para seguir um curso de variadas atividades.
Os projetos em Reggio Emilia evoluem em ritmo próprio, não há
limitação de tempo, e seguem o seguinte caminho: organização;
discussão e exploração do tema — para que todos possam
pensar bastante sobre ele —; representação e experiência
conclusiva.
O projeto é introduzido como uma provocação e envolve
experiências de exploração e discussão em grupo,
seguidas de representação e expressão, através do
uso de meios simbólicos: desenho, movimento, jogos, construção
com blocos, jogos.
Arte e estética são a parte central do modo como a criança
percebe e representa o mundo.

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