Prof.ª Dr.ª Gláucia da Silva Brito - A linguagem utilizada na Internet
 

A comunidade escolar, neste início de século, depara com três caminhos quando começa a refletir sobre a “inserção” das novas tecnologias na educação:

1. Repelir as tecnologias e tentar ficar fora do processo.
2. Apropriar-se da técnica e transformar a vida em uma corrida atrás do novo.
3. Fazer uso dos processos, desenvolvendo habilidades que permitam o acesso e o controle das tecnologias e seus efeitos.

Considero que o terceiro caminho é o que melhor apresenta informações para uma formação intelectual, emocional e corporal do cidadão que cria, planeja e interfere na sociedade. Para tanto, é necessário um trabalho pedagógico em que o professor reflita sobre sua ação escolar e elabore e operacionalize projetos educacionais com a inserção das novas tecnologias da informação e da comunicação.

Esse educador deverá entender que o simples uso das tecnologias não assegura a eficiência do processo de ensino—aprendizagem e não garante uma “inovação” ou “renovação” das metodologias de ensino no ambiente educacional.

Os questionamentos recebidos de colegas de todo o território brasileiro me fizeram derrubar a hipótese de que há falta de reflexão, no ambiente escolar, sobre o uso das novas tecnologias. É óbvio que a incorporação delas, principalmente da Rede de Computadores, no fazer diário do professor é bem mais complexa do que se imagina e depende de muitas outras variáveis. Mas nenhuma intervenção pedagógica harmonizada com a sociedade contemporânea e com inovações é eficaz sem a colaboração consciente do educador.

Derrubada essa hipótese, opto por responder aos questionamentos feitos por meio do Portal Educacional para que cada colega professor possa avançar em suas reflexões. Vamos a elas então.

1. O que você pensa dos professores de Língua Portuguesa que, mesmo sabendo da existência dessa nova linguagem, têm uma antipatia gratuita com relação a ela e difundem isso entre os colegas? Essa linguagem criada pelos jovens pode ser considerada um neologismo? (Vicente Cândido, São Paulo – SP / Rafael Macedo Carignato, São Paulo – SP / Rita Daniela de Souza Arend, Canoas – RS)
Parece-me que esses professores não têm antipatia somente pela Internet ou o uso do computador. Sua resistência é muito mais pela inovação da metodologia de suas aulas de Língua Portuguesa. Inovar as metodologias de sala de aula dá trabalho, principalmente quando pensamos que, para ensinar Língua Portuguesa hoje, o professor deve considerar como objeto de estudo os textos produzidos por pessoas que dominam a leitura e a escrita. Os textos são a síntese de toda a produção cultural da época em que vivemos, e a escrita na Internet faz parte dessa nossa produção neste momento.

Eu não classifico a escrita utilizada na Internet como um neologismo, pois, para que fosse considerada assim, teríamos de ter um dos seguintes processos de formação: a possibilidade de combinar de maneira inovadora os morfemas (radicais, prefixos e sufixos) preexistentes ou a atribuição de novos sentidos a palavras já existentes na nossa língua. Na escrita em ambientes como MSN, blogs, flogs, ICQ e e-mail, percebemos muito mais o uso de abreviações que neologismos. E a maior quantidade delas pode estar ocorrendo por causa da “transmutação1” do diálogo cotidiano para a esfera eletrônica. Não podemos esquecer que a essa escrita o produtor alia muitos caracteres alfanuméricos e recursos semióticos não-verbais (imagens, emoticons, etc.).


2. Embora seja válido considerar e valorizar a linguagem usada na Internet, você acha que o professor deve aceitá-la em trabalhos e provas? Não seria melhor explicar aos alunos que cada linguagem tem seu espaço e momento de uso? (Lilian Cristiane Moreira, Barroso – MG / Beatrix Belfort de Aguiar, Vitória – ES)
Com certeza a produção e a circulação de textos na Internet trazem desafios para a educação formal das novas gerações. O que precisamos entender é que essa forma de escrita acontece num suporte específico (o computador) e tem configurações diferentes conforme a ferramenta (processador de texto, MSN, e-mail, etc.) que é utilizada. Cabe ao professor mostrar isso ao seu aluno com atividades práticas, de preferência utilizando o ambiente informatizado da escola. Ele tem de mostrar ao estudante que produzir textos é se comunicar e que cada gênero textual exige uma configuração particular, ou seja, deve estar adequado ao lugar, contexto e interlocutor. Aquele professor que insiste em não refletir sobre as práticas culturais específicas surgidas de necessidades diferenciadas nas sociedades do mundo contemporâneo com certeza não conseguirá trabalhar isso com seu aluno.

3. A linguagem na Internet deve ser informal, uma vez que se trata de um bate-papo. No entanto, observando adolescentes conversando pelo computador, percebe-se que, além de palavras quase que inventadas e abreviações inusitadas, eles cometem muitos erros de ortografia por causa da rapidez com que têm de escrever para conseguir conversar com três ou mais colegas, o que aumenta as dificuldades com a norma culta. Será que isso não é prejudicial para a formação lingüística dos jovens ou limita o vocabulário deles? Como lidar com essa crescente dificuldade e desinteresse pela modalidade culta da língua? (Maria Paula M. Di Pietro, São Paulo – SP / Ladiane Barbosa de Oliveira, São Luís – MA / Helyenara Maia, Curitiba – PR / Licinio Pereira Nunes Filho, Curitiba – PR / Maria do Socorro Luz Catunda, Fortaleza – CE / Clovis Justino da Silva, Curitiba – PR / Pensylvania Noemia de Paiva dos Santos, São Paulo – SP / Patrícia Delázari Meira Lima de Bari Corrêa, São Paulo – SP)
A escrita que utilizamos para nos comunicar na Internet é informal e traz todas as características da diversidade e variabilidade do português falado no Brasil. Ou seja, os traços de idade, origem geográfica, situação econômica e escolarização aparecem explicitamente nas conversas nas salas de bate-papo, no MSN, etc.

Precisamos lembrar sempre que a ortografia é artificial, uma decisão política, e que a língua é natural. Portanto, na Internet, estamos sempre utilizando a língua. A ortografia oficial é necessária para que todos possam ler e compreender o que está escrito. Dessa forma, é normal acharmos que nos bate-papos na Internet teríamos de usá-la também. Mas, quando empregamos esses recursos, estamos simulando situações de fala e, por isso, é normal que, em vez de beijo, eu escreva bêjo ou bju. Não acredito que a variabilidade e a diversidade prejudiquem o vocabulário de alguém. É em nossas aulas de Língua Portuguesa que devemos utilizar metodologias que mostrem aos alunos que linguagem deve ser usada nas diversas situações comunicativas. Ou seja, tudo depende dos seguintes fatores: quem diz, o quê, a quem, como, quando, onde, por que e visando a que efeito.

4. Atualmente, observa-se que as questões discursivas têm apresentado mais erros de ortografia, possivelmente em função dessa nova modalidade de escrita e da falta de leitura em geral por parte dos alunos. Como você vê essa situação, tendo em vista que avaliações e concursos ainda utilizam a linguagem formal em seus exames? (Abel Santana Junior, Vila Velha – ES / Patrícia Adriana Nascimento, Araçatuba – SP / Thais Martins Bezerra, Fortaleza – CE / Cristiane Martins dos Santos, Arapongas – PR / Yvone Dugin Sola Sola, Santo André – SP / Lúcia Regina Oliveira de Souza, Curitiba – PR / Mara Solange Guedes Campos, Curitiba – PR)
Novamente, temos de lembrar que a ortografia é artificial, uma decisão política, e que a língua é natural. É claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial e mostrar que há momentos em que é necessário consultar um dicionário ou gramática normativa para que a escrita fique correta.

Questões discursivas bem elaboradas exigem do estudante a capacidade de estabelecer relações, resumir, analisar e julgar. Dessa forma, ele tem liberdade para expor seus pensamentos, mostrando habilidades como organização, interpretação e expressão. Por isso, existe a hipótese de que essa liberdade para expor suas idéias leve o aluno a cometer mais “erros” ortográficos.
Muito do que às vezes se considera erro (com base na gramática normativa) pode ser, na verdade, um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável2.

O importante é que o professor (de qualquer disciplina) que utiliza esse tipo de avaliação retome as provas fazendo uma reescrita (individual ou coletiva) com seus alunos para que percebam que no momento de uma avaliação temos de utilizar a escrita formal.

5. Como os dicionários devem ser utilizados nesse contexto, principalmente com relação a essas novas expressões criadas e ao uso em sala de aula? Como utilizar o dicionário para fazer os alunos diferenciarem essas formas de escrita, uma vez que muitos deles estão usando a escrita informal da Internet em prova e trabalhos? (Parahuari Branco, Curitiba – PR)
O dicionário tem de estar presente na sala de aula e no laboratório de informática, pois os alunos devem consultá-lo sempre para esclarecer dúvidas tanto com relação à grafia quanto ao significado das palavras. Se os estudantes estão utilizando em seus trabalhos a mesma escrita usada na Internet, não basta o professor apontar os problemas; é importante que trabalhe, por exemplo, com exercícios de reescrita utilizando o dicionário, a gramática normativa, etc.

6. O modo de escrever dos internautas já pode ser considerado uma linguagem ou simplesmente é uma maneira errônea de se expressar? Será que essa comunicação pode afetar a dicção dos alunos? (Antonio Diogo Hidee Ideguchi, São Paulo – SP / Ruy Miranda Reis, Curitiba – PR)
É tudo muito novo, recente. O que se percebe são novos gêneros textuais, mas ainda não se pode ainda afirmar que existe uma nova linguagem. É claro que estamos diante de um fenômeno que está obrigando a Lingüística a rever alguns de seus postulados teóricos. Quanto à dicção, seria preciso determinar os fatores para analisar: pronúncia, expressão vocal?

7. Essa nova linguagem, se introduzida na alfabetização, pode causar vícios na escrita que serão levados para a sala de aula, atrapalhando o desenvolvimento escolar? Até que ponto o uso do computador é eficaz na alfabetização na Pré-Escola? (Rosemeire Da Dalt Candido, Pouso Alegre – MG / Marco Aurelio Sorpilli, Birigui – SP / Julia de Souza Moreira, Vitoria – ES / Ana Elisa Rocha de Campos, Tatuí – SP)
Quando pensamos no que é alfabetização, há dois sentidos. O restrito diz respeito ao ensino do código da língua escrita para que a criança adquira as habilidades de ler e escrever e se limita ao período inicial da escolarização (podemos lembrar daquele professor que utiliza apenas metodologias baseadas em métodos tradicionais de alfabetização, prejudicando muito mais o desenvolvimento da escrita). Já o amplo é entendido como um fator de mudança de comportamento diante do universo que possibilita ao homem integrar-se à sociedade de forma crítica e dinâmica. Esse sentido está relacionado ao que hoje se denomina letramento, ou seja, deve haver uma dinâmica entre sala de aula e mundo real (podemos pensar no professor de séries iniciais que leva para seu trabalho todos os tipos de texto, usando até mesmo o ambiente informatizado).

Se não for bem utilizado pelo educador, nenhum material será eficaz. Mas os professores têm de receber formação, principalmente em relação ao uso de softwares (programas), para poderem analisar, avaliar e decidir sobre quando e como utilizá-los nas séries iniciais.

8. Que conselho você daria a alunos de 6.ª série com problemas de ortografia e dificuldade de se expressar por escrito? (Claudia Regina P. Pádua Soares, São Paulo – SP)
Acho que meu conselho seria para o professor. Primeiramente, seria necessário fazer uma reflexão a respeito de como estão sendo as aulas de Língua Portuguesa: qual é o enfoque que está sendo dado? Apenas ao ensino da gramática? O que seriam esses problemas de ortografia? Como tem sido feita a correção dos textos produzidos pelos estudantes? Que estratégias de produção têm sido utilizadas para oportunizar a expressão por escrito aos alunos?

9. De que forma é possível utilizar essa nova linguagem nas aulas de Língua Portuguesa do Ensino Médio? (Aparecido Lázaro Justiniano, Ponta Porá – MS)
Não existe um momento especial para se trabalhar essa linguagem. Mas, com certeza, nas estratégias de produção de texto, as oportunidades de criação na Internet devem aparecer, como, por exemplo, produzir home pages, criar um blog para a turma, trocar e-mails entre alunos e professores, etc.

10. Essa nova linguagem escrita aprendida pelos adolescentes pode prejudicar o relacionamento deles com pessoas que não têm acesso a ela, como seus pais? (Ronaldo Antonio Hofmeister, Curitiba – PR)
Não acredito que isso seja possível. O que temos de trabalhar em nossas aulas é o fato de que, no momento da fala ou da escrita, devemos sempre considerar quem é o receptor da mensagem, pois, do contrário, ela poderá não ser compreendida.

11. A revista Istoé publicou um artigo sobre essa nova forma de comunicação e um aspecto me deixou intrigada. O canal de TV por assinatura Telecine está exibindo filmes, principalmente de ação e aventura que têm como público-alvo os jovens, com legendas nessa nova linguagem. Será que isso não é exagero? Será que não estão misturando as coisas? (Andréa Antonialli, São Bernardo do Campo – SP)
Assisti recentemente a um desses filmes. Realmente, é um exagero. Mas não acho que esse projeto terá continuidade, pois, dessa forma, esse canal está classificando o público desses filmes como sendo só os jovens, excluindo pessoas mais velhas que poderiam querer assistir a essas produções com legenda sem abreviações ou emoticons.

12. Onde leciono, tivemos, em 2003 e 2004, experiências de produção de blogs na disciplina de Filosofia. A maioria dos alunos não gostou de produzir uma página com características voltadas à aprendizagem e teve dificuldade para entender e sistematizar a linguagem utilizada nessa ferramenta. Por que isso aconteceu? (Sandro Luis Fernandes, Curitiba – PR)
Para responder de uma forma satisfatória, eu teria de conhecer todo o projeto. Primeiramente, seria necessário observar questões como: como foi sua interação com blogs antes de criar esse projeto? Você já produziu um blog pessoal e conheceu os dos seus alunos? Quais temas foram considerados para a produção dessas páginas? Elas traziam assuntos vinculados à realidade dos estudantes?

Blogs são uma espécie de diário, algo muito pessoal que as pessoas desejam compartilhar; se perdem essa característica, não são mais blogs. Se os alunos sentem a obrigação de escrever, sabendo que vão ser avaliados, as dificuldades podem ser muitas. Se você tivesse pedido uma produção de site ou a criação de uma comunidade no Orkut, talvez o resultado fosse outro.

Para aliar sala de aula e Internet, é necessário que o professor realmente conheça os ambientes dessa rede.

13. Que problema haveria se o adolescente escrevesse da maneira correta no MSN, chat, blog, etc.? Ele poderia ser rejeitado pelos colegas? (Vânia Tavares de Menezes, Santos – SP)
Talvez isso pudesse acontecer, mas não há como afirmar. Por exemplo: quando eu converso com meus alunos numa sala de bate-papo, por ser a professora de Redação, no início eles não escrevem nenhuma abreviatura. Se conversamos em três (eu e dois alunos), acontece a mesma coisa. Mas, quando começo a usar abreviaturas e emoticons, imediatamente eles passam a utilizá-las também. É interessante perceber como eles adaptam a escrita ao seu interlocutor com facilidade.

Para esclarecer outras dúvidas, entre em contato com nossa entrevistada: glaucia@ufpr.br

Participaram da entrevista:
Abel Santana Junior, Vila Velha – ES
Ana Elisa Rocha de Campos, Tatuí – SP
Andréa Antonialli, São Bernardo do Campo – SP
Aparecido Lázaro Justiniano, Ponta Porá – MS
Beatrix Belfort de Aguiar, Vitória – ES
Claudia Regina P. Pádua Soares, São Paulo – SP
Clovis Justino da Silva, Curitiba – PR
Cristiane Martins dos Santos, Arapongas – PR
Helyenara Maia, Curitiba – PR
Julia de Souza Moreira, Vitoria – ES
Yvone Dugin Sola Sola, Santo André – SP
Ladiane Barbosa de Oliveira, São Luís – MA
Licinio Pereira Nunes Filho, Curitiba – PR
Lúcia Regina Oliveira de Souza, Curitiba – PR
Mara Solange Guedes Campos, Curitiba – PR
Marco Aurelio Sorpilli, Birigui – SP
Maria do Socorro Luz Catunda, Fortaleza - Ceará
Maria Paula M. Di Pietro, São Paulo – SP
Nilda Alves das Neves, Salvador – BA
Parahuari Branco, Curitiba – PR
Patrícia Adriana Nascimento, Araçatuba – SP
Patrícia Delázari Meira Lima de Bari Corrêa, São Paulo – SP
Pensylvania Noemia de Paiva dos Santos, São Paulo – SP
Rafael Macedo Carignato, São Paulo – SP
Rita Daniela de Souza Arend, Canoas – RS
Ronaldo Antonio Hofmeister, Curitiba – PR
Rosemeire Da Dalt Candido, Pouso Alegre – MG
Ruy Miranda Reis, Curitiba – PR
Sandro Luis Fernandes, Curitiba – PR
Thais Martins Bezerra, Fortaleza – CE
Vânia Tavares de Menezes, Santos – SP
Vicente Cândido, São Paulo – SP

 

1 - Transmutação é uma abordagem teórica feita por Bakhtin. Ver BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

2 - Ver BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é e como se faz. São Paulo: Loyola, 2002.

 

 
 
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