Repressão
só estimula o uso de drogas. Essa é a opinião do psiquiatra
Paulo Knapp. Para ele, a saída para desmotivar a utilização
de drogas é apostar em atividades produtivas e positivas que tragam tanto
prazer quanto o uso de substâncias entorpecentes.
Ações
positivas que ajudem a elevar a auto-estima. Para o psiquiatra Paulo Knapp,
essa é a solução para a dependência química
e psicológica e uma forma de prevenir o uso de drogas. Formado pela Universidade
Católica de Pelotas, com mestrado e doutorado em Clínica Médica
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Knapp fez mestrado em tratamento
de substâncias psicoestimulantes, principalmente a cocaína.
Ele considera que o cérebro humano é ávido por prazer
e, por isso, deve ser estimulado a buscá-lo de forma útil e positiva.
“As pessoas acham que castigo resolve o problema. Mas é exatamente
o inverso: é o elogio e estímulos a aspectos positivos dos indivíduos,
por meio de recompensas, que fazem a diferença”, afirma.
Especialista em Terapia Cognitiva e autor dos livros Terapia Cognitivo-Comportamental
para o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
e Terapia Cognitiva na Prática, Knapp falou com a equipe do portal
sobre dependência química e psicológica, novas drogas, tratamentos
e, principalmente, sobre como a escola e a sociedade devem agir para não
estimular o uso de drogas por crianças e adolescentes.
Leia a seguir trechos da entrevista, que teve a participação
da psicóloga do portal, Andréia Schmidt.
Qual foi o tema de seu mestrado e a que conclusão sobre métodos
eficientes para o tratamento da dependência de drogas você chegou?
Foi sobre os psicoestimulantes, especialmente a cocaína. Fiz uma revisão
de artigos de revistas de medicina para descobrir que tratamentos psicossociais
realmente funcionam. Descobri que todos agem relativamente da mesma maneira,
apresentando resultados relativamente semelhantes. O diferencial que importa
é a relação terapêutica que se estabelece, o vínculo
entre paciente e terapeuta. É a mesma coisa que funciona entre pais e
filhos e entre professores e alunos: o entendimento.
Muitos pais e professores acreditam que, aumentando-se o castigo, o adolescente
leva um susto e remedia qualquer problema, até mesmo com as drogas. Mas,
na verdade, isso só reforça ainda mais o uso de substâncias
químicas ou qualquer tipo de comportamento não aceitável
socialmente.
As pessoas acham que castigo resolve o problema. Mas é exatamente o
inverso: é o elogio e estímulos a aspectos positivos dos indivíduos,
por meio de recompensas, que fazem a diferença. É tudo uma questão
de elevar a auto-estima. Por exemplo: o tratamento que funcionou melhor, desses
que estudei, foi o que trocava a sobriedade por bônus. Toda vez que os
dependentes não usavam cocaína, eles recebiam um bônus que
podiam trocar por prêmios, de comida a passeios em parques de diversões.
Isso elevava a auto-estima deles, contribuindo para que eles realmente quisessem
abandonar o vício.
A escola trata o assunto drogas adequadamente?
As políticas antidrogas nas escolas — como a de trazer ex-dependentes
para relatar suas experiências aos alunos, amostras de baseados e cocaína
e delegados para falar de repressão — são atos que só
acabam estimulando crianças e adolescentes a usá-las.
Os estudantes acabam pensando que o sujeito que está na frente deles,
que chegou aos 30 anos, andou pelo mundo das drogas fazendo e acontecendo, mas
está dando palestras. Isso, para os alunos, significa que as drogas devem
ser muito boas e não devem ser tão perigosas como dizem, valendo
a pena o risco de se aventurar. É claro que eles precisam receber informações,
mas não de um ex-viciado ou de um delegado, que vão dizer coisas
que não farão sentido para os alunos ou não vão
passar a informação da maneira que eles possam compreendê-la.
O professor deve ser o multiplicador. Ninguém melhor que ele, uma pessoa
que os alunos conhecem e em quem confiam, para dar informações
sobre drogas. Isso deveria ser um projeto que chamaríamos de estímulo
à vida, no qual se valorizam aspectos de saúde. Todos os professores,
de qualquer matéria, devem estar aptos a falar sobre drogas quando o
assunto surge e não apenas ter a postura de “Atenção,
todo mundo, porque agora vamos falar sobre drogas”. Até podem existir
aulas sobre isso, mas o assunto drogas, assim como sexo e tantos outros, deve
permear todas as relações do aluno na escola, desde com o diretor
até com o porteiro. Os estudantes precisam saber qual é o melhor
jeito de lidar com as coisas da vida no momento em que deparam com elas, e a
escola não deve se furtar a esse papel.
Também não se deve promover a repressão dentro da sala
de aula. É preciso estimular e otimizar o que cada aluno tem de melhor.
O professor não deve ser um informador, mas um formador. E é dentro
desse aspecto de formação que ele tem de abordar o assunto “drogas”.
As campanhas antidrogas do governo estão tentando convencer
o usuário a abandonar a droga por meio do constrangimento, relacionando-o
com o tráfico. Você acredita que isso faz efeito?
O problema das campanhas antidrogas é que elas não modificam o
modo de pensar do indivíduo. O que se precisa fazer é dar alternativas
para os jovens, a começar pela relação afetiva e de vínculos
entre professores e alunos e entre pais e filhos. Deve-se reprimir o traficante
e a produção de drogas, diminuindo a demanda, mas apenas isso
não resolve o problema.
As drogas sempre estiveram por aí. Antes, era o ópio, depois,
foi a morfina, em seguida, a cocaína e, agora, é o ecstasy. O
ser humano tem um cérebro que busca o prazer imediato o tempo todo, seja
por meio de drogas, sexo, consumismo, chocolate, etc. Por isso, temos de pensar
hoje em comportamentos adictivos (sic), e não mais em dependência.
Esse tipo de comportamento faz com que o indivíduo vá atrás
do prazer imediato e postergue ou negligencie as conseqüências negativas
posteriores. Até mesmo a Internet ou jogos de videogame podem ser comportamentos
adictivos (sic).
Mas, por outro lado, isso pode ser uma coisa boa. Quando eu dou uma aula, um
músico toca para uma platéia ou um jogador faz um gol, a dopamina
liberada no cérebro é a mesma liberada pelo uso de cocaína.
Só que, nesses casos, é liberada para coisas úteis e produtivas.
E é isso que se deve incentivar. Deve-se mostrar às crianças
e adolescentes que se pode ter muito prazer realizando atividades produtivas
e positivas, como exercícios intelectuais ou físicos. Todavia,
deve-se deixar claro também que, assim como as drogas, se forem feitos
em demasia, eles podem causar dependência exatamente por causa do fator
prazer.
Você acha que a descriminalização ou até
mesmo a legalização das drogas pode ser útil para combater
o problema?
Eu uso como exemplo para isso o cigarro. Se há muitos anos não
tivesse acontecido a liberação para que o tabaco pudesse ser vendido
em qualquer esquina, não teríamos a quantidade de dependentes
que temos hoje. Sigo o mesmo raciocínio para a maconha ou para a cocaína.
Chega de drogas! Já temos demais no mundo. Eu acho que devemos reprimir
o tráfico. Já o uso deveria ser descriminalizado. O usuário,
que é uma vítima desse processo, deve ser tratado e não
visto como criminoso.
Acredito que, na hora em que acontecer com as drogas um levante parecido com
o que houve com o cigarro, em que todos olham com cara feia pra quem fuma, e
todos ficarem cientes de que elas não trazem benefício, ficará
viável alguma ação de repressão por parte do governo.
Enquanto isso, principalmente entre os adolescentes, haverá essa busca
pelo “paraíso artificial” que as drogas criam.
Atualmente, ocorre no país a popularização das
drogas sintéticas, principalmente o ecstasy, em substituição
a drogas como a cocaína, por exemplo. Que problemas elas acarretam, principalmente
para os jovens?
Até os 18 anos de idade, embora o cérebro já esteja formado,
ele não está maduro, e várias vias funcionais ainda estão
incompletas. Usando drogas, que nem precisam ser sintéticas, até
mesmo a maconha, ocorre uma grande modificação da bioquímica
cerebral.
O ecstasy é uma combinação de um perturbador nervoso central
e anfetamina e pode ocasionar fatalidades, como se viu em Porto Alegre no ano
passado, quando uma estudante morreu por mudanças fisiológicas
decorrentes do uso da droga. Além disso, essas drogas podem modificar
a personalidade do indivíduo. Em usuários jovens, elas estão
relacionadas a baixa auto-estima, desmotivação e depressão.
Há pessoas que acreditam que o ecstasy não vicia. Isso
é verdade?
É claro que, como qualquer droga, usando-se de vez em quando, ele não
vicia. O problema é saber o que é esse “de vez em quando”,
especialmente em pessoas imaturas, principalmente em termos de personalidade.
Mas o ecstasy gera dependência sim, principalmente se é utilizado
regularmente.
E a maconha?
Ela é considerada uma droga leve se comparada à cocaína
ou ao crack. Mas é preciso alertar as pessoas de que a maconha pode criar
um grau elevadíssimo de dependência psicológica, muito difícil
de curar, que é tão ou mais severa que a de drogas como a cocaína
e muda o caráter do usuário. Até mesmo o conceito de que
a maconha não cria dependência física já é
muito questionado atualmente, pois muitos usuários que a abandonaram
apresentam sinais de síndromes de abstinência. Em usuários
jovens, a baixa auto-estima e a desmotivação muitas vezes estão
diretamente relacionadas com o uso da maconha, que hoje em dia é muito
comum e considerado “normal” até para adolescentes de 14
anos.