A
evolução das substâncias sintéticas tem sido bem
mais rápida do que as informações sobre os riscos que elas
trazem. O portal conferiu de perto como são as noites de alguns usuários
de substâncias como o ecstasy e descobriu que, apesar de serem de nível
social alto, existe muita desinformação entre eles, o que pode
trazer muitas conseqüências sérias e, até mesmo, mortais.
Um pequeno néon com o nome do clube e seguranças à porta
indicam o lugar. É noite de quarta-feira na capital paranaense, e o estudante
James* chega para a “balada” juntamente com dois amigos. Por ser
quarta-feira, é normal esperar que a noite dure pouco e o jovem universitário
de 21 anos volte cedo para casa. Mas, quando ele e os amigos chegam à
fila para entrar (sim, fila), já passa de 1h30 da manhã. E é
uma fila considerável. “É nessa hora que a festa começa
a ficar boa, pois os melhores DJs começam a tocar e a casa fica cheia”,
revela James.
Dentro do clube — é assim que atualmente são chamadas as
boates e discotecas —, a música eletrônica, sempre altíssima,
toma conta de todos os ambientes. Luzes que piscam sem parar e canhões
de laser indicam o caminho da pista de dança. Assim como James havia
dito, ela começa a se encher. Quem não está familiarizado
com esse tipo de festa pode até estranhar a quantidade de pessoas usando
óculos escuros. “Alguns podem até usá-los por causa
da luz forte, mas a maioria usa por causa de um dos efeitos da ‘bala’”,
conta o universitário. A “bala” a que James se refere é
um dos nomes populares do ecstasy. Também conhecida como “E”,
a droga sintética aterrissou na noite brasileira e já substituiu
a cocaína como a droga de laboratório preferida pelos jovens.
De acordo com a polícia federal, de janeiro a abril deste ano, foram
aprendidos mais de 54 mil comprimidos de ecstasy (três vezes mais que
em todo o ano passado).
“É muito fácil
conseguir uma pastilha de ‘E’. Não precisamos subir em morro
ou entrar em favela para comprar. Conseguimos com um cara na universidade que
freqüenta as mesmas festas que a gente”, conta David*, 27 anos, um
dos companheiros de James. Para o médico Arthur Guerra de Andrade, diretor
do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas da USP, as drogas sintéticas
“caíram na graça” dos novos usuários por não
apresentarem efeitos colaterais imediatos e por serem de fácil consumo.
“É só pensar no trabalho que dá injetar heroína
ou até mesmo cheirar a cocaína — que, no mínimo precisa
de um espaço reservado”, explica o médico.
Exatamente às 2 horas da manhã, James e seus amigos tiram dos
bolsos comprimidos da droga, e cada um consome uma pastilha. Aproximadamente
40 minutos após a ingestão, eles começam a ficar eufóricos
e dançam até de manhã. Os usuários relatam que se
sentem muito desinibidos e alegres com o “E”. “Fico com muita
vontade de beijar. A gente fica supersociável e consegue dançar
a noite toda”, conta James. Durante a noite, eles tomam boas quantidades
de água. “A boca fica seca e dá muita sede”, diz David.
Então é a vez dos óculos escuros, pois o “E”
causa efeito parecido ao das anfetaminas: grande dilatação das
pupilas.
Altas temperaturas
O princípio ativo do ecstasy
é o MDMA (metilenodioxidometaanfetamina), que estimula a produção
de serotonina no cérebro, substância responsável pela sensação
de prazer. Outros efeitos colaterais da droga começam a surgir: a sensibilidade
do usuário aumenta, as luzes parecem estar mais fortes e o corpo amolece.
Ocorrem distorções sensoriais de tempo e espaço. Como o
MDMA também faz parte da composição do ácido lisérgico
(LSD), o ecstasy também pode provocar alucinações. Após
algum tempo, ocorrem reações musculares, como espasmos do maxilar,
náuseas e cólicas. E os efeitos da droga são potencializados
quando ela é consumida juntamente com álcool.
O maior perigo dessa droga é
o aumento da temperatura corporal, que causa febre alta e desidratação.
Esse quadro, juntamente com as condições físicas dos clubes
(ambientes fechados, altas temperaturas, músicas altas) e a ingestão
exagerada de água, pode resultar em ataques do coração,
convulsões e falência do fígado e dos rins.
“Nós sabemos dos
males que a ‘bala’ pode causar, mas nos cuidamos”, diz James.
Mesmo assim, o jovem não sabia que a “droga do amor” pode
causar convulsões. “Eu mesmo já passei muito mal uma vez
apenas por tomar uma única ‘bala’”, conta David. O
rapaz diz que, em uma festa, ingeriu um comprimido e perdeu toda a coordenação
motora, não conseguindo se levantar e que, após alguns minutos,
vomitou muito. “Era como se eu tivesse tomado o maior porre da minha vida”,
lembra.
Além do risco de morte,
esse “porre” causa muita polêmica. James conta que já
utiliza a droga há quase um ano. “Não sou viciado, só
uso de vez em quando. Por isso, sei que não vou ter problemas com o ‘E’”,
acredita. Mas ele pode estar complemente errado. Os efeitos dessa droga em longo
prazo ainda não são bem conhecidos por médico e cientistas.
Sabe-se que as drogas sintéticas, em especial o ecstasy, trazem diversas
conseqüências aos sistemas nervoso, respiratório e psicológico,
como paranóia e depressão, podendo até mesmo levar a uma
condição de “parkinsonismo”, com sintomas semelhantes
aos do mal de Parkinson.
Para o psiquiatra Paulo Knapp,
mestre em tratamento de drogas psicoestimulantes, a idéia de que o ecstasy
não vicia é falsa e muito perigosa. “É muito comum
os usuários fazerem essa afirmação. Mas o MDMA pode viciar
tanto quimicamente quanto psicologicamente — o que é mais perigoso
e difícil de tratar”, afirma.
Preconceito eletrônico
Clubes
como o freqüentado pelos estudantes James e David e festas rave, segundo
a polícia federal, estão no topo da lista dos locais mais propícios
para o consumo de ecstasy. Para uma das promotoras desse clube, que pediu para
não ser identificada, as pessoas têm a falsa idéia de que
a música eletrônica está ligada diretamente ao uso de droga.
“É claro que existe muita gente que vem aqui e usa drogas. Mas
não vejo o mesmo preconceito com outros tipos de música e festa”,
afirma.
Segundo a promotora, “ninguém é desencorajado a freqüentar
shows de reggae ou festas de ‘peão boiadeiro’, em que se
encontra muita gente fumando maconha e ‘enchendo a cara’. E o custo
social do consumo de bebidas alcoólicas, por exemplo, é muito
mais alto do que o da utilização de drogas sintéticas:
além de doenças, a ingestão de álcool causa muitas
brigas e acidentes de trânsito. Mas a maioria das pessoas que freqüentam
as festas de música eletrônica vem para se divertir e não
usa nenhum tipo de droga. O que as move é o amor pela música”.
“Saindo do corpo”
Outras drogas que produzem efeitos
mais “pesados” que os do ecstasy também estão no cardápio
das noitadas brasileiras. Uma delas é a ketamina, conhecida como “special
k”. A ketamina é um anestésico utilizado principalmente
em cirurgias de animais e, se for utilizada em grandes quantidades, pode provocar
alucinações fortíssimas. “Se você usar essa
droga na quantidade errada, tem a impressão de que morreu e saiu de seu
corpo, pois fica sem poder mexer um músculo sequer”, conta o estudante
Thiago*, 22 anos, que admite ter consumido ketamina algumas vezes.
Até mesmo o lança-perfume, famoso de outros carnavais, voltou
com força total. É muito comum jovens utilizarem essa droga para
potencializar o efeito de outras.
Há ainda outras drogas
com efeitos mais nefastos: o GHB, conhecido como ecstasy líquido, e o
Rohypnol, que raramente é encontrado no Brasil, provocam sintomas parecidos
com os do ecstasy, mas bem mais fortes. O agravante dessas substâncias
é que elas não têm gosto nem cheiro, podendo ser consumidas
por alguém que esteja desatento. Ingeridas em grandes doses, elas “apagam”
o usuário. Por esses motivos, elas são conhecidas nos EUA e na
Grã-Bretanha como “date rape drug” ou “droga do estupro”.
Preocupação oficial
Para o secretário nacional
antidrogas, o general Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, o combate ao
ecstasy ainda não é a prioridade na luta contra as drogas no país.
“Pontualmente no Sul e Sudeste, existem problemas ligados a essa droga,
mas o tráfico dela, apesar de estar aumentando, ainda é pequeno”,
aponta.
O que mais assusta quando se
fala em drogas sintéticas, segundo o secretário, são as
características delas. “As drogas sintéticas têm efeito
mais prolongado e são muito mais baratas e fáceis de produzir.
Elas podem ser sintetizadas em uma área de serviço de um apartamento,
e os cachorros da polícia, que são treinados para farejar maconha
e cocaína, não conseguem sentir seu cheiro. Isso quer dizer que
é mais seguro produzi-las e muito difícil localizá-las”,
explica. De acordo com Uchôa, até mesmo a utilização
de agentes infiltrados nesse tipo de festa é complicada porque os usuários
e traficantes dessas drogas são jovens e de classe alta.
“Como existem todos esses
obstáculos, que acabam fazendo com que as drogas sintéticas se
tornem muito populares, acredito que a solução para combatermos
esse problema é apostar na informação e na prevenção
primária. O jovem deve estar maduro e muito bem informado para decidir
se quer ou não usar drogas e saber quais serão os efeitos causados
por elas”, afirma o secretário.
*nomes fictícios, pois os entrevistados não querem ser
identificados.
O ecstasy é uma droga relativamente nova.
Foi sintetizado pela primeira vez em 1912, por um laboratório alemão.
A primeira finalidade da produção dessa droga foi o uso
medicinal — ela era utilizada em sessões de psicoterapia
e como inibidor de apetite. Nos anos 60, médicos tentaram utilizar
o MDMA no tratamento da depressão, mas, hoje, os especialistas
acreditam que ele causa depressão.
Na década de 80, essa substância foi novamente sintetizada
em laboratórios clandestinos e ganhou força com o movimento
clubber, no início dos anos 90 nos EUA, conquistando muitos usuários,
principalmente em Detroit e Chicago. De lá, o ecstasy partiu para
a Europa e, há aproximadamente três anos, começou
a preocupar as autoridades brasileiras.
Na Inglaterra, 202 pessoas morreram nos últimos seis anos por
terem consumido “E”. Lá, existe uma lei que obriga
os clubes a distribuir água de graça, treinar seus funcionários
para o atendimento de possíveis overdoses e manter médicos
em prontidão. No Brasil, há o registro oficial de apenas
um óbito, em 2002, quando uma estudante de Psicologia de 23 anos
morreu de edema pulmonar agudo horas depois de tomar essa droga em uma
festa. O edema foi provocado por excesso de ingestão de água
combinado com uma baixa eliminação de líquidos.
Em Santa Catarina, a Secretaria de Segurança Pública decretou
uma série de medidas, que incluem a proibição da
emissão de alvarás de funcionamento para festas em locais
abertos, alegando que nesses ambientes há grande circulação
de drogas sintéticas.
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