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Terceira Estação Litúrgica: Natal

A celebração litúrgica do Natal traz em si, pela sua própria natureza, uma síntese de todos os valores que precisam ser recuperados na tradição cúltica. A data é precedida por um período preparatório na comunidade de fé (Advento) e na sociedade. Ocorre uma mudança em toda a sociedade, quando vai se aproximando essa data. Os centros urbanos passam a ter uma iluminação especial; os meios de comunicação mudam o tom das mensagens musicais e discursivas; toda a ornamentação muda nos Templos religiosos e nos centros comerciais. Os presentes são multiplicados, ocorrendo o mesmo com as mensagens escritas, principalmente em forma de cartões, desejando boas-festas, paz, alegria e felicidade.

A celebração do natal é a celebração cristã que, ao lado da Páscoa, ultrapassa os limites eclesiais, ou seja, passa a ser um evento religioso de alcance social e ecumênico. Qualquer pessoa que visitar um ambiente cúltico nessa época, independente de seu credo religioso, se sentirá perfeitamente entrosada na celebração religiosa, em condições de participar dos cânticos, leituras, orações, ouvir os sermões, entendendo o motivo da celebração e se sentindo parte dela. Tudo isso porque houve um cuidado celebrativo coerente com a época e com a situação vivencial das pessoas. Na verdade, esse nível de celebração deveria ser praticado em todos os domingos do ano, dentro de um calendário litúrgico bem elaborado.

A medida que a Era cristã foi se distanciando do período em que Jesus viveu entre o seu povo, e as testemunhas oculares já não existiam e a mensagem da ressurreição já  havia se solidificado entre os cristãos, começou-se a pensar não só na necessidade de celebrar o “mistério” da ressurreição, mas também o mistério do nascimento de Cristo, levando-se em conta o vasto material litúrgico dos “Evangelhos da Infância”. A essa altura, pela própria tradição litúrgica do mundo bíblico, os cristãos já havia entendido que, bem mais importante que a exatidão da data, é o evento que se celebra. Isso quer dizer que, ao dedicar-se o dia 25 de dezembro para a celebração do nascimento de Cristo, os cristãos não estão afirmando que ele nasceu nesse dia, mas estão celebrando a fé no nascimento de Cristo, o Filho de Deus.

A preocupação em definir uma data para a celebração do nascimento de Cristo começou no século III. Clemente de Alexandria fala da sua tradição egípcia que a fixou em 20 de maio. Os antigos documentos das “liturgias orientais, georgianas e armênias” mencionam celebrações nas datas de 18 e 19 de maio que podem, tranquilamente, ser relacionadas com a celebração do nascimento de Cristo. Trata-se da “festa dos inocentes e a fuga para o Egito”. Fala-se também de uma reunião em Belém, na basílica da Natividade, no quadragésimo dia após a Páscoa, cujos objetivos não são bem claros. No entanto, a posição mais aceita no século III era a de que o mundo havia sido criado no equinócio de primavera”, por isso o nascimento de Cristo, como o fundamento de um novo tempo, deveria ser celebrado nessa data.  A partir do final do século III, a data 25 de dezembro firmou-se definitivamente, como dia da celebração do nascimento de Cristo, enquanto no mundo pagão celebrava-se o nascimento do sol (Natalis solis invict”) .

Além da intenção clara de esvaziamento da festa do sol, acredita-se que os cristãos tiveram também como motivação para a escolha da data o paralelo existente entre o enviado de Deus e a luz ( Is 9.1-2; Is 1.3; Jo 3.19-21; Jo 8.1-2). Além dos diversos textos proféticos e dos evangelhos que relacionam Cristo e luz, vários cânticos do “Hinário Evangélico” expressam essa ideia: “Estrela da Alva, Cristo Jesus, sol da justiça, do dia a luz! As densas trevas em dissipar, e nossas almas iluminar...Vem Jesus, ó Luz do mundo, Vem dissipa as ilusões, Tira os véus dos nossos olhos, ilumina os corações...Luz dos homens! Luz da vida! Brilha com poder nos teus!...Mostra-lhes o grande Deus!...Noite jubilosa, Noite portentosa, Doce luz do Feliz Natal!...Vinde cantai! Jesus nasceu! À terra a Luz desceu!...És de minha alma Sol, alegria, coroa, glória, luz, amor. ...O sol e a lua são quais estrelas Nos altos céus a refulgir; Mais resplendente, Jesus, refulges, Divina luz a difundir...Nasce Jesus! Fonte de Luz! Descem os anjos cantando. Nasce Jesus! È nossa luz Que as trevas vem dissipando...Raia a luz da salvação, triunfante vem!”

Quanto aos símbolos utilizados na celebração do Natal, todos eles estão ligados, de alguma forma, à capacidade humana de representar e atualizar eventos da história salvífica de Deus. O presépio, por exemplo, na forma como o conhecemos hoje, entrou para a História cristã em 1223, por intermédio de Francisco de Assis, representando a cena da gruta de Belém, nas comemorações natalinas, à luz das narrativas de Lucas: “Então Maria deu a luz ao seu primeiro filho. Enrolou o menino em panos e deitou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2.7). A presença do presépio é notada nas Igrejas Cristãs com mais destaque em algumas comunidades. Os cânticos do Hinário Evangélico o contemplam: “No humilde presépio, sem ter nada seu, Jesus, pobrezinho, sem teto nasceu. Os céus estrelados, fulgentes de luz, Visitam o meigo e divino Jesus”

É também por intermédio de Francisco de Assis e seus frades que os cânticos natalinos passaram a fazer parte da tradição popular do Natal, possivelmente com base no anúncio aos pastores: “No mesmo instante apareceu junto com o anjo uma multidão de outros anjos, como se fossem um exército celestial. Eles cantaram hinos de louvor a Deus” (Lc 2.13). Mas, o uso da música sacra na liturgia só alcança o seu auge com o despertar do “fervor religioso”, ocorrido no início do século XIX.

A árvore é outro símbolo que se instalou nas celebrações cristãs do Natal. Ela é portadora, em seu arranjo, de vários símbolos. Normalmente, recebe uma ornamentação especial, com luzes, sinos, estrelas e, em algumas comunidades cristãs, tem em seu tronco, o presépio. Antes de passar a fazer parte do culto cristão, a árvore era utilizado por diversos povos. Eram cortadas em forma piramidal “com degraus circulares” para as celebrações religiosas. Na parte superior das referidas pirâmides, colocava-se um poste para indicar, com sua sombra, as “estações do ano”. Os nórdicos, por exemplo, por enfrentarem um inverno rigoroso, acendiam grandes fogueiras após a data de 21 de dezembro, com o intuito de ajudarem ao sol na sua batalha contra as trevas noturnas.

Foi por inspiração desses povos que os missionários cristãos adotaram o pinheiro como árvore do Natal, por possuir uma copa com dimensões piramidais e por serem as únicas folhagens que conseguiam resistir o rigor do inverno. Inspirados nas antigas fogueiras nórdicas, passaram a iluminá-la com velas, fato que deu origem à atual “árvore de Natal iluminada”. Além da iluminação da árvore de natal, algumas cidades brasileiras como “Recife e Olinda”, passaram a  desenvolver a tradição de acenderem luzes coloridas nas janelas e varandas das casas, no momento em que os “sinos da Igrejas começassem a tocar”. Essa tradição foi se espalhando por outras cidades dando origem a iluminação especial que se processa hoje na maioria das cidades brasileiras, às vésperas das celebrações natalinas.

Por todos esses dados, entendemos que a árvore de Natal, tal como a temos hoje, tem pouca relação bíblico-teológica com o nascimento de Cristo. Um toco ou raiz, com um broto forte, seria bem mais significativo. A situação fica ainda mais distante, quando adotamos o pinheiro, árvore que resiste às secas e ao frio, quando celebramos o Natal em pleno calor e chuvas abundantes. A mangueira, por exemplo, que nessa época está repleta de frutos, ou de outra de igual porte, seria mais representativa. A iluminação não deve sofrer o mesmo questionamento, por estar relacionada com o inverno rigoroso, a não ser que fosse utilizada uma luz forte em algum ponto do Templo, representando a nova luz de Deus que chega à humanidade em cristo.

Os sinos têm a “tradição lendária” de representarem as vozes celestes, descidas à Terra em ‘forma de bronze”. A presença deles nas Igrejas é vista tradicionalmente como símbolo da comunicação que a Igreja faz às pessoas em nome de Deus. Na verdade, eles fazem parte do conjunto que chamamos elementos do culto e podem contribuir para a tarefa de celebração dos grandes feitos de Deus em Cristo. Mesmo que eles estejam distanciados da tradição protestante, fazem parte de nossa cultura musical: “Como são alegres, são alegres, os Sininhos do Natal, Que vão retinindo, retinindo, Neste Belo dia sem igual”. Esse cântico, entoado por crianças e adultos nas celebrações natalinas, é o reconhecimento do sino como símbolo cristão.

Não nos esqueçamos, no entanto, de que a grande tarefa dos símbolos litúrgicos é agir como elementos que nos ajudem a fazer do evento cúltico um memorial, ou seja, trazer à nossa realidade um evento significativo do passado, de forma que possamos vivê-lo de novo. Esse expediente fica dificultado quando trabalhamos com símbolos que estejam distantes da realidade do grupo celebrante. Seria interessante se, à semelhança do que ocorre na ceia pascal judaica, os próprios alimentos utilizados na ceia de Natal servissem como instrumentos de ensino. No entanto, fica um pouco difícil relacionarmos o uso do peru, das castanhas, das nozes, das amêndoas, com a celebração do nascimento de Cristo. O que dizer às crianças no momento das refeições? O mesmo nível de dificuldade se perpetua quando, nas igrejas, escolas, casas ou Templos, as ornamentações são feitas com papai noel agasalhado; trenós; pinheiros iluminados, encenando uma situação de frio e seca, em pleno período de chuvas e muito verde.

As crianças percebem com facilidade que se trata de celebrações importadas, com o fim de manter uma tradição pouco conhecida, sem quaisquer dimensões atualizadoras e nenhuma relação com a vida. Há necessidade de uma revisão das formas de celebrar, acompanhada da renovação e atualização da simbologia. É com esse espírito que devemos interpretar a ornamentação litúrgica e a celebração do natal em todos os segmentos sociais.

A grande tarefa da Liturgia latino-americana é celebrar o evento Cristo de tal forma que haja o encaminhamento das expectativas levantadas no transcorrer do Advento. O caráter universal das promessas de Deus, desde Abraão, deve ser suporte para as celebrações desse período. Dois aspectos devem ser trabalhados de forma educativa: nossa filiação à família de Deus através da fé e do reconhecimento de Jesus como fonte de luz para a vida e para o mundo; e nosso relacionamento com ele, como fator determinante de nossa postura diante dos desafios que nos cercam.

A partir desses fundamentos, a Igreja Cristã deverá posicionar-se diante das deturpações que ocorreram na História, em relação a celebração do nascimento de Cristo. Há necessidade de se buscarem símbolos que representem o seu nascimento e que simbolizem um novo compromisso pastoral da comunidade celebrante. Não se deve mais admitir que os cristãos fiquem passivos diante da massificação do Natal. É preciso reconhecer que, acima da mudança do calendário, a Era cristã deve ser retomada como um período da “plenitude do tempo de Deus”, reconhecendo evidentemente que ele não se dará completamente na dimensão terrestre, mas deve ser um prenúncio, com o nascimento do Deus-criança que traz em si a proposta de uma vida mais harmônica entre os seres humanos. Essa vinda de Deus à terra, em forma de gente, deve levar-nos a olhar com outros olhos para nós mesmos e para toda a forma de vida criada por Deus. Foi por amor à vida que o próprio Deus desceu ao mundo.

 

 

   

 

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