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  Ratinhos promissores
12/04/02
 


Vítor e Christian são os primeiros animais transgênicos apresentados no Brasil e, apesar de toda a polêmica que a manipulação genética tem causado pelo mundo, prometem ser um avanço no combate a doenças como o mal de Alzheimer, a aids e o câncer.

Vitor é o primeiro animal no Brasil criado com a técnica de microinjeção pronuclear.
Foto: Divulgação

Depois de todo o furor causado pela ovelha Dolly, não só na comunidade científica, mas em todo o mundo, não podíamos esperar que a dupla brasileira de camundongos transgênicos Vítor e Christian fizesse muito barulho. Mesmo assim, eles são os primeiros passos para que a ciência brasileira tenha autonomia na área de animais transgênicos, um negócio que promete movimentar milhões de dólares por ano. Vítor nasceu no dia 24 de dezembro através do trabalho de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Christian foi apresentado em novembro pela Universidade de São Paulo (USP).

Fruto do Laboratório de Animais Transgênicos do Centro de Modelos Experimentais em Medicina e Biologia (Cedeme) da Unifesp, Vítor foi obtido através da técnica de microinjeção pronuclear. Nesse método, o gene é criado em laboratório e inserido no núcleo do espermatozóide ou do óvulo, já reunidos numa única célula, que dão origem ao embrião assim que os dois núcleos se fundem. O nascimento de Vítor é resultado de três anos de pesquisa e de um investimento de US$ 200 mil, financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A experiência foi realizada graças ao intercâmbio entre a universidade brasileira e o Max Delbruck Institute, de Berlim, na Alemanha.

Segundo o Dr. João Bosco Pesquero, coordenador do Cedeme, essa tecnologia já é amplamente utilizada na Alemanha desde a década de 80, mas somente agora foi introduzida no Brasil.

Christian, apelidado de Cris, é um camundongo geneticamente modificado produzido por meio de outra técnica, chamada de agregação. Nesse processo, células-tronco embrionárias modificadas são fundidas com embriões.

Além de gerar receita (estima-se que um casal de camundongos transgênicos chegue a custar US$ 50 mil no mercado internacional), os camundongos podem ser usados em pesquisas sobre doenças cardíacas, mal de Alzheimer e câncer, entre outras. Vítor tem duplicado o gene do receptor B2 da bradicinina, uma substância associada a processos inflamatórios e hipertensivos. A idéia dos pesquisadores é usar os animais transgênicos para verificar se esse gene, como se suspeita, confere proteção ao músculo cardíaco nos casos de infarto e doença de Chagas, em que o coração aumenta de tamanho. Posteriormente, os pesquisadores vão induzir a doença cardíaca nos filhotes de Vítor para verificar se o gene realmente confere proteção maior contra essas enfermidades. Isso, futuramente, pode levar ao desenvolvimento de drogas que ajam diretamente nesse gene.

Com o domínio da técnica, o Cedeme pretende fornecer modelos de animais geneticamente modificados para diversas doenças, como câncer, diabetes, obesidade, mal de Alzheimer, aids, entre outras. As duas universidades já pensam em colaboração.

 
 
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Grande preocupação nos países ricos, doenças degenerativas como o mal de Alzheimer e doenças cardíacas e de hipertensão são alvo para as pesquisas farmacêuticas. A advento dos animais transgênicos auxilia muito essas pesquisas, e, se o Brasil conseguir desenvolver um pólo científico competitivo, como no caso do projeto Genoma Humano, por exemplo, poderá contribuir muito com as pesquisas e ter, ao mesmo tempo, um grande retorno científico e financeiro. O domínio da técnica que criou Vítor vai resultar em uma economia substancial de dinheiro e tempo para o estudo de doenças, medicamentos e vacinas.

Mas, afinal, o que são transgênicos?

Um organismo transgênico é qualquer organismo modificado geneticamente através da engenharia genética. Normalmente, é conseguido pela introdução de seqüências de DNA provenientes de outra espécie ou uma seqüência modificada da mesma espécie em seu DNA. Uma planta transgênica, por exemplo, é aquela que recebe um gene, ou seja, um pedaço de DNA que não existia na planta inicial. Pode-se até mesmo misturar genes animais com o de plantas e de bactérias. Os transgênicos também são conhecidos como organismos geneticamente modificados ou, simplesmente, OGMs.

Mas a utilização dessa técnica implica várias outras questões. Muitos cientistas, organizações não-governamentais, governos e outros especialistas alertam para o perigo da manipulação genética. No caso dos clones - que apesar de não serem organismos transgênicos, são mais notórios -, os especialistas lembram as questões éticas, teológicas e legais envolvidas, mas, no caso dos transgênicos, apontam que ainda é muito cedo para se tirar conclusões sobre seus perigos.

A verdade é que a engenharia genética é fundamentalmente diferente do melhoramento genético. O melhoramento é aceito, pois não mistura genes de organismos diferentes, sendo considerado uma espécie de "evolução forçada".

Perigos

O tipo transgênico mais combatido é o das plantas, já que estas, diferentes dos animais, assimilam qualquer tipo de manipulação e mistura genética sem problemas. O problema é que não se sabe como a absorção delas pode modificar o metabolismo humano. Por isso, a maioria dos países obriga os fabricantes de alimentos a avisar o consumidor quando utilizam transgênicos nos seus produtos.

Muitas plantas produzem naturalmente uma variedade de compostos como as neurotoxinas, inibidoras de enzimas e outras que podem ser tóxicas e alterar a qualidade dos alimentos. Geralmente, esses compostos estão presentes em níveis não tóxicos, mas, através da engenharia genética, podem ser alterados e aparecer em altos níveis.

Existe também o problema das pragas. É sabido que se um agricultor semear somente algumas sementes de plantas transgênicas, estas passam a ser predominantes na sua lavoura, tornando rapidamente toda a produção alterada. Como todas têm as mesmas características genéticas, uma praga resistente a algum agrotóxico destruiria 100% da produção, já que todas as plantas também teriam as mesmas fraquezas. Além do mais, existem inúmeras razões para se esperar a ocorrência de distúrbios ecológicos que, pela natureza da tecnologia empregada, provavelmente serão, em sua maioria, impossíveis de reparar.

Onde mais dói é no bolso

Mas é a área econômica que gera as maiores discussões. A OMC (Organização Mundial do Comércio) já alertou que a engenharia genética aumentará o domínio dos países pobres pelos detentores dessas tecnologias, ou seja, os mais ricos. A utilização de híbridos, plantas que têm reduzido seu poder fértil a cada nova geração depois de plantadas, já é uma realidade na agricultura mundial há alguns anos. Estima-se que quase toda a produção de soja e milho mundial seja transgênica.

Agora a empresa Delta & Pine, dos EUA, patenteou um gene classificado como terminador (exterminador). Muito mais radical que os híbridos, ele é incorporado às sementes que, quando plantadas e colhidas, têm sementes estéreis já na primeira geração. Isto obriga o agricultor a comprar novas sementes sempre que for plantar, fazendo com que os países em desenvolvimento ou pobres dependam sempre dos ricos para a agricultura ou cultivo de determinados alimentos.

O gene exterminador também pode ser levado pelo vento junto com os grãos de pólen e fecundar as flores de plantas silvestres ou domésticas, tornando-as também estéreis, provocando uma destruição irreparável ao meio-ambiente.

Outro agravante é que os cientistas usam genes antibiótico-resistentes para selecionar e marcar os organismos alterados que foram sucesso. Genes marcadores que produzem enzimas inativadas clinicamente usando antibióticos teoricamente podem reduzir a eficácia da terapêutica de antibióticos nos seres humanos e animais se ingeridos através dos alimentos.

Defesas

Os defensores da utilização das plantas transgênicas em larga escala acreditam que, com essas técnicas, podem produzir alimentos mais nutritivos e baratos, com um cultivo mais eficiente do que o convencional e que isso pode vir a ser a solução para abastecer a população mundial. Além disso, esses alimentos teriam uma vida útil alongada, mais qualidade e maior resistência contra pragas.

O Brasil se defende com a Lei da Biossegurança. Essa lei tem o objetivo de proteger a diversidade e integridade do patrimônio genético do país e funciona através da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBIO), que tem o poder de aprovar ou não testes de campo e a comercialização de plantas e animais transgênicos e de outros produtos da biotecnologia.

No caso dos animais transgênicos, a discussão apresenta-se menos acirrada, já que os avanços na área médica parecem se sobrepor a eventuais danos que possam vir a causar a ecossistemas, além de serem uma alternativa válida à clonagem e a pesquisa com células-tronco, que encontram dificuldades pela polêmica envolvida na utilização de suas técnicas.

 

Para ir mais longe:

Reportagem do jornal da Unifesp que traz mais detalhes sobre o processo de criação do camundongo Vítor.
Clique aqui para ver o site.

Site da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, no qual você encontra notícias e a legislação sobre a utilização da manipulação genética no Brasil.
Clique aqui para ver o site.

Texto da jornalista Luisa Massarani, especialista em biociências, sobre os organismos geneticamente modificados (OGMs), mais precisamente sobre os alimentos transgênicos. Ela ressalta a necessidade de uma discussão com diferentes pontos de vista antes da utilização desses produtos em nossas mesas.
Clique aqui para ver o site.

Se a sua praia é radicalizar e levantar bandeiras, você encontrará mil e um motivos para a não-utilização dos transgênicos e seus riscos para o meio-ambiente na página do Greenpeace dedicada ao assunto, além de saber o que a organização já faz contra a utilização desenfreada da biotecnologia e como participar.
Clique aqui para ver o site.

Parecer sobre os OGMs e seus produtos elaborado por Flavio Lewgoy, conselheiro da Agapan, Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, que considera o tema o último grande debate do século XX.
Clique aqui para ver o site.

Artigo de nossa nutricionista sobre as modificações genéticas em produtos alimentícios e os prós e contras dos alimentos transgênicos.
http://www.educacional.com.br/falecom/nutricionista_artigo054.asp

Pesquisa sobre biossegurança de alimentos derivados da biotecnologia rDNA, feita por cientistas que visam à modificação de alimentos para combater agentes alergênicos. (PDF)
Clique aqui para ver o site.

Texto de Nélio Bizzo, professor de Prática de Ensino de Biologia e de Metodologia do Ensino de Ciência na Faculdade de Educação da USP, sobre a possibilidade de os alimentos transgênicos fazerem mal à saúde.
Clique aqui para ver o site.

 
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