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  A volta do menino travesso
24/05/02
por Diogo Dreyer
 


Pode ir preparando seu guarda-chuva ou um lugar à sombra: de acordo com dados de estações climáticas americanas, australianas e brasileiras, o fenômeno El Niño está à espreita e deve ganhar força a partir do segundo semestre, trazendo novamente o temor das alterações climáticas no globo.

O fenômeno responsável por uma tremenda confusão climática está de volta. Segundo cientistas de vários países, o El Niño deve mostrar as caras novamente no segundo semestre deste ano. Nos anos em que ocorre, regiões que deveriam ter inverno rigoroso ficam mais quentes, a seca afeta áreas úmidas e as chuvas causam inundações em vários países. O El Niño não é registrado desde 1998, mas a previsão é de que, neste ano, ele não tenha uma intensidade tão avassaladora quanto em outras épocas. Os dois piores já registrados - em 1983 e 1997 - provocaram enorme devastação em várias partes do mundo, até mesmo no Brasil. Segundo especialistas, o deste ano deve variar entre fraco e moderado.


O gráfico mostra onde o clima é afetado pelo El Niño. (Infográfico: Felipe Santos)

O Centro de Previsão Climática do Serviço Americano de Meteorologia (NCEP) divulga mensalmente a análise sobre a evolução do fenômeno. Em seu informe de abril último, as temperaturas da superfície do mar tinham aumentado cerca de 2 a 3ºC nas proximidades da costa sul-americana do Pacífico em março. Para endossar as previsões sobre um novo El Niño no segundo semestre, as autoridades do Peru registraram impactos na indústria pesqueira da região, uma das mais afetadas pela anomalia. Segundo essas autoridades, pescadores perceberam que o pescado de águas frias, como as anchovas, foi substituído por peixes de espécies tropicais. Mudanças similares foram observadas em estágios iniciais de episódios anteriores do El Niño.

No Brasil, as temperaturas não devem baixar tanto no outono. Além disso, as chuvas diminuem rapidamente e a estação seca se antecipa em várias regiões do interior do país, causando novamente preocupação no Comitê Gestor da Crise Energética sobre o risco de uma nova crise no setor.

 
 
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No final do século passado, com o crescimento das informações meteorológicas nos meios de comunicação, começou-se a falar muito no fenômeno El Niño, que, ao contrário do que muitos pensam, não é recente. Ele é normalmente detectado entre março e maio, tendo seu ápice em dezembro. É por isso que o furioso acontecimento tem esse nome. O menino, em espanhol, deve-se à proximidade do Natal e do nascimento do menino Jesus. Ele foi batizado por pescadores peruanos que, em 1700, perceberam que, em certos anos, as águas ficavam mais quentes e havia falta de peixes. Relatos do conquistador espanhol Francisco Pizarro, por volta de 1525, já mostravam que um fenômeno semelhante acontecia.

O El Niño é basicamente um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico tropical. O grande problema está nas conseqüências desse aquecimento para o planeta. Sua interferência na circulação atmosférica de toda a Terra provoca mudanças nas condições climáticas de várias regiões, como o aumento de chuva em alguns lugares e seca em outros. Mas apesar de todas as pesquisas e esforços dos estudiosos em entender como e por que o fenômeno El Niño acontece e qual a sua origem, atualmente não há uma conclusão definitiva.

No Brasil, as pesquisas e o monitoramento do El Niño indicam que três regiões são afetadas pelas mudanças na circulação atmosférica: o semi-árido do Nordeste, o norte e o leste da Amazônia e o sul do Brasil. A Região Sul é afetada pelo aumento de chuva. O norte e o leste da Amazônia e o Nordeste sofrem pela diminuição da chuva. O sudeste do Brasil apresenta temperaturas mais altas, o que torna o inverno mais ameno. Já para as demais regiões do país, os efeitos são considerados mais fracos.

Em contrapartida, no mundo, os efeitos do El Niño são bastante significativos em algumas regiões. Acontecem grandes secas na Índia, na Austrália, Indonésia e África decorrentes do fenômeno, assim como algumas enchentes no Peru, Equador e no Meio-Oeste dos Estados Unidos. Em algumas áreas, observam-se temperaturas mais elevadas que o normal, enquanto, em outras, ocorrem frio e neve em excesso.

Entenda o fenômeno
Sem El Niño, os ventos alísios correm em direção à Austrália, onde se formam nuvens de chuva. A movimentação de ar faz com que a água superficial do Pacífico se acumule sobre a costa australiana, esvaziando a costa peruana. A água do fundo sobe à tona trazendo plâncton, atraindo os peixes para comer.

O El Niño inverte a circulação dos ventos alísios, fazendo com que a água da costa peruana esquente, ficando acumulada. O calor e o acúmulo de água impedem que o plâncton do fundo do oceano chegue à superfície. Os peixes passam fome, não se reproduzem e a pesca fica escassa.

O ar úmido sobe longe da costa da Austrália e a chuva cai apenas no oceano, causando secas e queimadas no continente.

Infográficos: Felipe Santos

Triste história

Em 1983, aconteceu o mais forte El Niño já registrado por cientistas. O sul do Brasil foi arrasado por chuvas e inundações e o Nordeste sofreu com uma seca acentuada. Austrália, África e Indonésia sofreram enchentes, tempestades de poeira e incêndios florestais. O Peru foi atingido pela pior tempestade de que se tem notícia. Alguns de seus rios subiram mil vezes acima do leito normal. Calcula-se que o fenômeno foi responsável pela morte de 1.300 a 2.000 pessoas mundo afora e por prejuízos de U$13 bilhões na economia global.

Por isso, em 1986, assustados com o poder destrutivo que a anomalia havia mostrado anos antes, pesquisadores americanos lançaram equipamentos meteorológicos a 600 metros de profundidade no Pacífico para dar início às pesquisas sobre o aquecimento daquelas águas e sobre o El Niño.

Nos anos de 1991 a 1994, o fenômeno se manifestou de maneira diferente. Apesar de sua baixa intensidade, permaneceu por quatro anos consecutivos.

Mas, em 1997, o El Niño trouxe novamente a tragédia: a Austrália sofreu prejuízos terríveis causados pela seca e por incêndios florestais, e a Flórida foi arrasada por furacões que deveriam ter ido para o Caribe, como o Nora. Foi o segundo El Niño mais forte de todos os tempos.

Além do clima, o El Niño pode trazer consigo doenças. Cientistas americanos afirmam que enfermidades transmitidas pela água e por mosquitos devem aumentar e se espalhar com mais rapidez nas regiões onde o ecossistema for mais afetado pelo fenômeno. A epidemia de dengue no Brasil pode disparar até o fim do ano enquanto o El Niño provocar mais chuvas e calor fora de hora nos estados do Sudeste. Além disso, em lugares onde predomina a seca, é comum registrarem-se muitos casos de encefalite.

Mas apesar de tudo...

As conseqüências do El Niño também têm alguns efeitos benéficos. Entre os mais significativos, estão as correntes do Golfo do México, que impedem a formação de furacões naquela região e no Caribe, e a abundância de chuvas para as lavouras do centro da América do Sul. Nos estados do Nordeste americano, o consumo de gás e eletricidade, utilizados para aquecimento, tende a diminuir.

Na verdade, colocar na conta do El Niño todos os problemas climáticos é injusto. As anomalias que mais afetam o Brasil, por exemplo, ocorrem no Oceano Atlântico Equatorial e também são poucos conhecidas. A melhor maneira de prevenir os estragos que a anomalia pode causar é saber quando e onde o clima será alterado e de que maneira. Por isso, ter um sistema meteorológico confiável faz a diferença.

Para ir mais longe:

Site do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) sobre a chegada do fenômeno El Niño em 2002. Oferece boletins atualizados sobre o assunto.
Clique aqui para ver o site.

Boletim da empresa de meteorologia WM7 sobre a volta do El Niño e o outono 2002 em todo o Brasil.
Clique aqui para ver o site.

Página do National Oceanic & Atmospheric Administration, órgão do governo norte-americano que cuida da meteorologia no país, dedicada inteiramente ao El Niño. Possivelmente, o site mais completo sobre o assunto. Em inglês.
Clique aqui para ver o site.

Site da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) com links para textos sobre o impacto do El Niño e da La Niña na agricultura da Região Sul do Brasil.
Clique aqui para ver o site.

Conheça os efeitos que o fenômeno La Niña, a "irmã" do El Niño, provocou no Brasil em 1998 nesse relatório do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Ministério da Ciência e Desenvolvimento.
Clique aqui para ver o site.

 
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