Dirigentes contra o doping
10/04/03
por Diogo Dreyer
 


Cada vez mais a tecnologia ajuda quem quer trapacear para melhorar seu desempenho no mundo esportivo. Até mesmo a manipulação genética já está sendo utilizada. Algumas federações e associações, no entanto, declararam guerra ao doping, criando o Código Mundial Antidoping.

Foto: Divulgação  
 
Giba: 18 jogos de gancho por uso de maconha. No novo código antidoping, a droga, mesmo considerada social, continua proibiba.  

Não só de superar recordes vive o mundo dos esportes. Casos de doping, como o do velocista Ben Johnson — que perdeu a medalha de ouro que havia ganho nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988 —, são muito comuns. Recentemente, Giba, astro brasileiro do voleibol masculino, foi pego em um teste antidoping na Itália. O exame da urina (que é coletada após os jogos ou provas) do jogador apresentou traços de THC, substância que indica o uso de maconha. Ao contrário de Johnson, Giba acabou recebendo uma pena leve, pois não tinha antecedentes e o comitê italiano que julgou o caso entende que a maconha não aprimora o desempenho do atleta. Mesmo assim, Giba foi punido com 18 dias de suspensão porque, por ser jogador e uma personalidade pública, deve dar o exemplo. Ou seja, para cada caso, uma punição.

No último dia 10 de março, porém, em uma conferência antidoping realizada em Copenhague, na Dinamarca, quase mil representantes de 73 países e 65 federações internacionais assinaram um protocolo aprovando de maneira informal o Código Mundial Antidoping, com o objetivo de padronizar as regras e procedimentos antidoping em todos os esportes e países. Antes de ser assinado, o documento foi reconhecido oficialmente (e por unanimidade) pelo Conselho de Fundação da Agência Mundial Antidoping (Wada), que é formado por órgãos dirigentes com 36 membros nomeados, 18 representantes do movimento olímpico e representantes de vários países.

Os membros da Wada definiram o novo código como “fundamento da luta contra o doping no esporte em escala mundial”. As federações internacionais — como a Fifa (Futebol), a IAAF (Atletismo), a FIVB (Vôlei) e a Fina (Natação) — terão de aplicar a nova legislação antes da abertura dos Jogos Olímpicos de 2004, que está marcada para o dia 13 de agosto do próximo ano. O prazo para que os governos adotem o Código como lei em seus países vai até as Olimpíadas de Inverno 2006, que vão acontecer em Turim, na Itália.

Penalidades

O novo código estabelece punições para atletas envolvidos em doping, que variam de advertência a suspensão definitiva — embora, na maioria dos casos, seja recomendada a suspensão por dois anos — e considera doping o uso de substância que melhore o rendimento do atleta, que possa prejudicar sua saúde ou que viole o código desportivo.

Drogas “sociais” — como maconha, haxixe e cocaína — não constam na lista de mudanças feitas na antiga relação de substâncias não-permitidas; portanto, os atletas continuam proibidos de utilizá-las.

Sob a autoridade do documento, todos os atletas — incluindo, pela primeira vez, os jogadores de basquete da NBA (liga profissional norte-americana) — terão de se submeter a exames antidoping quando não estiverem competindo e sem aviso prévio, antes das Olimpíadas.

A declaração de adoção do documento foi aprovada por 50 países, entre eles Brasil, França, Alemanha, Rússia, Inglaterra e EUA — embora nenhum representante das ligas profissionais americanas, como a NBA e a NHL (hóquei), tenha comparecido. Outros 23 países comprometeram-se a assinar o código posteriormente. Nenhum governo anunciou que não assinaria o documento.

Fraude genética

A Wada chegou a avaliar, no ano passado, a possibilidade de ocorrência de fraudes genéticas no esporte. Mais de 30 cientistas e especialistas em doping participaram do encontro “Reforço Genético do Desempenho Atlético” e concluíram que pode haver abuso da tecnologia genética, assim como de muitas outras, para aumentar o desempenho do esportista.

Algumas das possibilidades do uso dessa tecnologia que foram destacadas pela agência são, por exemplo, construir um ligamento indestrutível no joelho de um esquiador ou fibras musculares de contração rápida em um atleta que pratica corridas de velocidade. Foram deixadas de lado as perspectivas mais teóricas de criação de bebês geneticamente projetados para dominar o esporte.
Especialistas em pesquisa genética e terapia gênica informaram que algumas experiências feitas com animais indicam que estimular o crescimento de fibras musculares pode ajudar pessoas portadoras de doenças como distrofia muscular e acelerar a recuperação de ferimentos em ligamentos, tendões e articulações. Para os cientistas, no entanto, é difícil determinar a fronteira entre a reparação e o melhoramento. Eles alertaram que o tratamento continuado poderia provocar desenvolvimento muscular e aumento da energia, mas também trazer sérias conseqüências para a saúde: o resultado pode ser conquistar a medalha de ouro e padecer de câncer.

O Código Mundial Antidoping inclui a proibição do uso de tecnologia de transferência genética para melhorar o desempenho dos atletas.

 

 
 
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Por André Mendes Capraro

O doping começou a acontecer em larga escala durante a Guerra Fria, quando o esporte era uma forma de propaganda e de luta pela hegemonia mundial. O bloco socialista, sempre mais fechado, a partir da década de 1950 passou a formar atletas vencedores em várias modalidades, que acabaram sendo mitificados como superatletas, produzidos nos mais sofisticados laboratórios da URSS. No entanto, hoje se sabe que os métodos de treinamento não eram o diferencial dos atletas soviéticos, mas, sim, a ingestão de hormônios masculinos, que desenvolvem o corpo em proporções que não poderiam ser atingidas de outra forma.

Os jornalistas Andrew Jennings e Vyv Simon, em seu livro Os Senhores dos Anéis: Poder, Dinheiro e Drogas nas Olimpíadas Modernas, relatam uma situação inusitada. Depois de se infiltrarem na alta cúpula do COI (Comitê Olímpico Internacional), foram a uma reunião entre uma empresa de material esportivo, os dirigentes do COI e uma importante atleta olímpica da Alemanha Oriental. Após algum tempo, eles começaram a estranhar o não-comparecimento da atleta alemã. Foi então que notaram que ela estava presente sim, só que eles a confundiram com um homem, pois estava barbada! As altas doses de hormônio ingeridas pela atleta fizeram com que nascessem pêlos em seu rosto. Esse é só um dos exemplos entre as centenas de casos ocorridos nas Olimpíadas. Alguns pesquisadores, mais céticos, acreditam que os números estão na casa dos milhares.

Mas por que duvidar dos números se é só contar os casos de atletas pegos em exame antidoping? A resposta é simples e lamentável: os fabricantes das substâncias usadas em doping (hoje em dia existem milhares) estão tecnologicamente passos à frente da tecnologia usada para detectá-las. E esse não é o problema maior. Muitas vezes, as autoridades são coniventes com o doping.

Um exemplo disso aconteceu alguns anos atrás, quando os atletas de ciclismo que participariam do Tour de France (uma das mais famosas provas de ciclismo do mundo) ameaçaram fazer greve caso houvesse exames antidoping periodicamente e sem aviso prévio. Por sinal, o livro Os Senhores dos Anéis teve seus direitos adquiridos pelo próprio COI, que retirou as edições de circulação, pois ele comprovava a negligência da própria entidade com alguns atletas que eram patrocinados por grandes marcas esportivas ou países exponenciais no cenário mundial.

Casos notórios

Os casos sobre manipulação política e doping que repercutiram bastante foram da americana Florence Griffith Joyner e do canadense Ben Johnson, nos Jogos de Seul, em 1988. Florence era uma atleta que surpreendeu o mundo, não só por seu porte físico extremamente desenvolvido, mas por sua rápida ascensão: de atleta mediana, que quase não obteve resultados para participar das Olimpíadas, a vencedora e recordista mundial dos 100 metros, e tudo isso em pouco mais de um ano. Florence acabou morrendo alguns anos depois, dentro de um avião, devido a problemas cardíacos — fato bastante incomum em atletas, principalmente do sexo feminino. Acredita-se que se tratava de doping, negligenciado pelas autoridades encarregadas de investigar esses casos.

A história de Ben Johnson é quase o inverso. Alguns jornalistas afirmam que o caso só foi diagnosticado porque o segundo colocado seria um dos atletas mais conhecidos de toda a história do esporte: o americano Karl Lewis, que, naquela Olimpíada, estava encerrando sua carreira.

Ineficácia do antidoping

As célebres frases “o importante é competir” e “esporte é saúde” nunca estiveram tão fora de moda como hoje em dia. A preocupação com o doping chegou a níveis alarmantes. E essa é a maior preocupação do Wada, que pretende, com o estabelecimento das leis antidoping no mundo e o endurecimento das penas, diminuir o uso de substâncias estimulantes para níveis aceitáveis. Chegou-se ao absurdo de se considerar um problema secundário o uso de esteróides anabolizantes, embora eles estejam cada vez mais sofisticados. As atenções voltaram-se, então, para a dopagem “natural”, que dificilmente é detectada por exames laboratoriais.

As mais clássicas são a gravidez seguida de aborto — que faz com que as atletas produzam naturalmente altas doses de hormônios que poderão aumentar seu desempenho — e a transfusão sangüínea — que consiste na retirada e armazenamento do sangue do próprio atleta alguns meses antes da competição e na injeção dele às vésperas da competição, o que aumenta o volume sangüíneo e, conseqüentemente, a capacidade de oxigenação.

Outros casos ocorrem na natação: alguns atletas de ponta estão fazendo cirurgias para extração de algumas costelas, o que favorece a flutuação, além de cirurgias plásticas para a inserção de membranas entre os dedos das mãos para que o impulso também aumente.

A situação é tão extrema que alguns pesquisadores afirmam que atualmente é impossível que um atleta vença uma competição de alto rendimento em esportes que exigem muito do físico, principalmente em provas de explosão muscular, sem a utilização de qualquer tipo de doping. Esses pesquisadores acreditam que a ineficácia do sistema antidoping é tão grande que seria melhor liberar o doping do que ficar exposto de tal forma à situação constrangedora de saber da utilização e fingir que está tudo em ordem.

Para ir mais longe

Conheça o site (em inglês) da Wada, agência que pretende, com o Código Mundial Antidoping, regularizar a prática esportiva em todos os países e diminuir o uso do doping.
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Saiba Mais do portal que explica de que forma os esteróides anabolizantes agem no organismo humano e quais são os efeitos colaterais deles e mostra, por meio de textos e do simulador, a cromatografia — técnica usada no exame antidoping.
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Conheça a opinião do ex-diretor de uma equipe de ciclismo francês sobre a possibilidade de se ganhar uma prova nesse esporte sem o uso de doping.
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Saiba mais sobre o que é doping e quais são os perigos que o uso de anabolizantes pode causar, na seção de Educação Física do portal.
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E para o “atleta ocasional”, o doping funciona? Que riscos ele oferece para a saúde? O artigo de nossa nutricionista fala sobre o consumo de suplementos alimentares, que já tomou conta dos freqüentadores de academia.
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Notícia da BBC que mostra que cientistas americanos anunciaram a descoberta de uma pílula capaz de deixar os músculos tonificados sem a necessidade de exercícios físicos.
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Atualmente, fala-se muito sobre suplementos alimentares, que são utilizados para incrementar o ganho de massa muscular. Um dos mais conhecidos é a creatina. Mas você sabe o que é isso?
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