Fauna ameaçada
05/06/03
por Diogo Dreyer

     
 


O Ministério do Meio Ambiente e o Ibama divulgaram a nova “lista vermelha” dos animais ameaçados de extinção no país. A idéia é que o documento sirva como base para a luta contra o tráfico de animais e a caça clandestina, que geram bilhões de reais para criminosos e o desaparecimento de espécies na natureza.

Foto: Carlos Ravazzani  
Papagaio-da-cara-roxa.  

Cientistas do Plano das Nações Unidas para o Meio Ambiente calculam que existam entre 10 e 100 milhões de espécies de seres vivos no planeta. Hoje, somente 1,4 milhão é conhecido, e 25% estão ameaçados de extinção. Todo dia, no mundo inteiro, desaparecem quase trezentas espécies animais e vegetais devido à destruição de seus habitats. Pensando em preservar a riqueza da maior biodiversidade do planeta, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Ibama divulgaram, no fim do mês de maio, a nova lista de espécies da fauna brasileira que estão ameaçadas de extinção.

A relação traz 395 nomes de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, insetos e invertebrados terrestres. Ficaram de fora os peixes e invertebrados aquáticos (caranguejos, camarões e lagostas, por exemplo), que deverão aparecer em uma lista específica a ser lançada ainda neste ano. Pela nova “lista vermelha”, 8,5% da fauna de vertebrados do país — estimada em 3.100 espécies, excluindo-se os peixes — é considerada ameaçada. A última relação, publicada em 1989, apontava 219 espécies em extinção.

Ao contrário das edições anteriores, dessa vez, a lista tem como característica o fomento à preservação dos habitats e das espécies que neles vivem. Seus objetivos são orientar programas de recuperação dos animais ameaçados, trazer propostas para a implementação de unidades de conservação, diminuir impactos ambientais, estimular programas de pesquisa e ainda servir como referência na aplicação da Lei de Crimes Ambientais. Além da divulgação da lista, foi criado um grupo de técnicos para definir a periodicidade da publicação e a criação de uma classificação de graus de ameaça para as espécies.

Os incluídos e excluídos

Foto: Carlos Ravazzani  
Jacaré-de-papo-amarelo: conservação da espécie fez com que o animal fosse retirado da "lista vermelha".  

Na nova relação, algumas espécies, como o jacaré-de-papo-amarelo e o gavião-real deixaram de ser incluídas, pois eles já estão recuperando-se na natureza. Para outras bastante ameaçadas, o Ibama anunciou a criação de comitês especiais, encarregados de ações específicas — entre as espécies contempladas, estão o cervo-do-pantanal, o muriqui, o mutum-de-alagoas e duas subespécies do macaco Cebus (xanthosternos e robustus) —, além da reestruturação dos comitês já existentes da arara-azul-de-lear (que chega a ser vendida por US$ 40 mil no mercado negro) e de mamíferos aquáticos.

A cobra surucucu, que estava na lista antiga, já não corre risco de extinção e cedeu lugar a outros três tipos de jararacas. A nova relação traz inúmeros insetos, como besouros existentes apenas em cavernas.

Outras ações anunciadas em relação às espécies ameaçadas foram a publicação de um edital do Programa de Diversidade Biológica e do Fundo Nacional do Meio Ambiente, em que estão previstos R$ 6 milhões para ações de recuperação e proteção das espécies da lista, e a realização de uma campanha institucional do MMA informando a população e pedindo colaboração para a conservação dessas espécies.

 


[ notícia comentada ]

 

Por Patrícia Martinelli

Onça-pintada.  

A divulgação da nova lista de animais ameaçados de extinção, que cresceu de 219 espécies para 395, provocou vários questionamentos, como: quais são as causas do aumento do número de espécies ameaçadas? Por que algumas espécies desapareceram e, hoje, podem ser encontradas apenas em cativeiro? Até quando espécies animais podem desaparecer dos ambientes em que vivem?

Inúmeras são as causas do aumento do número de espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção. A redução dos habitats é uma das principais. O Brasil abriga grande diversidade biológica de espécies, principalmente em dois ecossistemas, a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, que têm sido devastadas em grande escala. Da Mata Atlântica, que vai do Rio Grande do Sul ao Ceará, restam cerca de 8% da coberta original intacta, pois o restante foi modificado pelo homem por meio de agricultura, queimadas, extrativismo incorreto, poluição, desmatamento, entre outros fatores.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) mostram que a Mata Atlântica concentra muitas espécies endêmicas, ou seja, que só existem lá, e que ela tem uma biodiversidade maior que a da Amazônia. No entanto, é na Floresta Amazônica que estão concentradas cerca de 50% das espécies animais e vegetais de todo o planeta.
Quando uma espécie é extinta, um sistema inteiro fica comprometido, porque há um ciclo de vida de que muitas espécies se beneficiam. Se, por exemplo, um pássaro é extinto, podem desaparecer espécies de plantas que necessitavam dele para o transporte de pólen ou de sementes.

Além da redução de habitats, outros fatores comprometem a sobrevivência de espécies, como o tráfico de animais silvestres e a caça e a pesca predatórias.

O tráfico internacional de animais é planejado e mantido por milionários, que pagam altas quantias como suborno para conseguirem espécies raras. Quanto mais rara é a espécie, maior é o valor dela. Isso faz com que os poucos exemplares que restam sejam capturados e comercializados a preço de ouro, reduzindo ainda mais as chances de sua sobrevivência em cativeiro.

Já o tráfico interno é desenvolvido por pequenos produtores e pessoas de baixa renda que capturam animais silvestres e os vendem para caminhoneiros e motoristas de ônibus, que os levam até possíveis compradores.

Quando a fiscalização encontra esses animais, muitos já estão mortos, dopados, maltratados e com fome, sede e frio. De dez animais capturados, somente um sobrevive aos maus-tratos.

A crescente ocupação humana, a exploração inadequada do meio ambiente e a falta de conhecimento, dentre outros fatores, fazem com que o número de espécies ameaçadas de extinção aumente a cada ano.

A ararinha-azul não pode mais ser vista livre, somente em cativeiro. Até quando veremos esse desrespeito com as espécies silvestres? Até quando a lista de animais ameaçados de extinção vai crescer?

Entre os 395 animais ameaçados de extinção, estão o pato-mergulhão, a jacutinga, o sabiá-castanho, o cervo-do-pantanal, o lobo-guará, a jaguatirica e a ariranha.

Felizmente, já saíram da lista espécies como o jacaré-de-papo-amarelo e o gavião-real. Isso pode ser um sinal de que podemos salvar muitas espécies da extinção. O uso sustentável dos ecossistemas — incluindo a prevenção e o controle de queimadas — e uma intensa fiscalização para evitar o contrabando de animais, aliados à educação ambiental, podem ser o primeiro passo para a recuperação das espécies.

Para ir mais longe

Veja no site do MMA a lista completa dos animais ameaçados de extinção.
Clique aqui para ver o site

Em maio deste ano, ocorreu em Los Cabos, México, a reunião “Desafiando o Fim dos Oceanos”. De lá, saiu a lista das espécies marinhas mais ameaçadas de extinção em todo o mundo. Confira.
Clique aqui para ver o site

A seção Animais Ameaçados de Extinção explica por que devemos nos preocupar com a extinção dos animais, o que acontece quando uma espécie se extingue e de que modo podemos colaborar para que isso não ocorra. Conheça também algumas das espécies ameaçadas de extinção em nosso planeta.
Clique aqui para ver o site

Reportagem sobre a luta pela conservação da baleia, um dos principais símbolos da preservação da fauna. Traz também entrevista com a bióloga Marcia Engel sobre a baleia-jubarte em Abrolhos.
Clique aqui para ver o site

A Europa já apagou de seu continente a presença de leões. Na África, esses felinos são encontrados em grupos cada vez menores. A perda do habitat e a consangüinidade põem em risco a sobrevivência do rei das selvas.
Clique aqui para ver o site

 

 
 
[ Leia outras notícias comentadas ]