Brasil, penúltimo em desempenho escolar
04/07/03
por Diogo Dreyer

     
 


Uma pesquisa divulgada pela Unesco revela que os estudantes brasileiros estão em penúltimo lugar na fila do desempenho escolar, conforme avaliação feita em 41 países.

Apesar de ter havido profundas mudanças nas políticas educacionais brasileiras na última década, o país continua a dar vexame quando se trata de ensinar. A pesquisa “Literacy Skills for the World of Tomorrow” (Alfabetização para o Mundo de Amanhã), divulgada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura — Unesco — revela que os estudantes brasileiros estão em penúltimo lugar no desempenho em Matemática e Ciências e no 37.º em leitura, de acordo com um teste aplicado em adolescentes com 15 anos de idade de 41 países. Na média das três áreas de conhecimento, o país fica em penúltimo lugar, na frente apenas do Peru.

Esse estudo foi produzido pela Unesco e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — OCDE. Em 2000, o Brasil ficou em último lugar entre os 31 países participantes. Agora, a situação brasileira tornou-se ainda pior, já que foram incluídos dados de outros dez países que fizeram o mesmo teste do Programa Internacional de Avaliação do Estudante — Pisa — em 2001.

A avaliação mostrou que cerca de 50% dos alunos brasileiros de 15 anos estão abaixo do nível 1 de alfabetização, uma escala criada pela Unesco que classifica os estudantes que têm dificuldades em utilizar os instrumentos da leitura para aumentar seus conhecimentos e competências em outros assuntos. Esse resultado é muito parecido com o do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica — Saeb —, que no início do ano constatou que, no Brasil, 59% dos estudantes da 4.ª série do Ensino Fundamental ainda não desenvolveram as competências básicas de leitura.

Na prova de leitura aplicada em 2001, o Brasil ficou à frente de quatro nações: Macedônia, Indonésia, Albânia e Peru. A Finlândia, o Canadá e a Nova Zelândia obtiveram as maiores médias. Em Matemática e em Ciências, os melhores rendimentos foram de Hong Kong, Japão e Coréia do Sul.

 


[ notícia comentada ]

Por Luca Rischbieter

Volta e meia o fracasso da educação do Brasil em testes internacionais retorna às manchetes. Dessa vez, é a alfabetização que aparece com destaque negativo, mas, nos últimos tempos, a Matemática e a capacidade de leitura também nos deram a lanterninha em exames desse tipo. Mesmo admitindo-se que há o que criticar nesses testes, em suas metodologias e pretensões, os resultados, que nos colocam sistematicamente entre os piores do mundo, são preocupantes.

Preocupantes, mas não incompreensíveis. Eles mostram nossa incapacidade de oferecer uma educação fundamental de qualidade para a maioria das pessoas. E isso é fruto de um imenso atraso e da falta de preocupação histórica com a educação da população. Por exemplo: só fomos construir nossas universidades depois da chegada da Família Real ao Brasil, enquanto, na Argentina, a primeira instituição de Ensino Superior começou a funcionar em 1622!

O problema é mais sociológico que pedagógico: apesar de nosso imenso atraso e do grande aumento de nossa população, conseguimos finalmente, na segunda metade do século XX, construir uma rede escolar abrangente (embora isso seja imensamente falso em relação à Educação Infantil). Mas essa rede ainda não é capaz de criar as condições para uma educação de qualidade. Ainda não conseguimos oferecer salários dignos, não temos continuidade em nossos programas de qualificação e não somos capazes de “perenizar” e de generalizar algumas experiências bem-sucedidas de melhoria da qualidade do ensino. Bem ou mal, apesar de tudo, pelo menos o fato de nos sairmos tão mal provoca indignação hoje em dia...

O caso da alfabetização, o mais recente de nossos vexames, é exemplar e mostra que a modernidade trouxe uma nova ameaça para a educação de qualidade: a publicidade política.

No Brasil, fala-se muito sobre alfabetização, programas pontuais vivem sendo lançados com pompa, mas o básico não está sendo feito. O que é preciso para alfabetizar bem? Independentemente da disputa sobre métodos, irrelevante nesse contexto, é preciso saber que o problema seria solucionado com boas escolas de Educação Infantil e de primeiro ciclo e com professoras que sabem e gostam de ler sendo pagas decentemente. É isso que acontece nos países que estão tão à nossa frente. É preciso menos demagogia e mais ação concreta no sentido de se começar efetivamente a oferecer às crianças das camadas sociais mais humildes chances de viver uma escolaridade rica em contatos com o mundo da linguagem escrita. Enquanto isso não começar a ser feito — e temos algumas cidades que estão tentando tornar-se exceções a essas estatísticas vergonhosas —, o dinheiro continuará a sumir na mão dos políticos, em programas pontuais com slogans chamativos e em construções de algumas creches e escolas, sempre, coincidentemente, às vésperas de eleições. É preciso um pouco de vergonha na cara e um uso responsável do dinheiro público, já que sabemos que, paradoxalmente, alfabetizar bem uma criança, qualquer que seja a origem socioeconômica dela, é algo tremendamente fácil! O problema não tem suas raízes em nossos políticos, mas, sim, na própria história de um país que nasceu globalizado e levou séculos para voltar-se para sua própria população. Hoje, envergonhados, colhemos os frutos podres dessa trajetória que só pode ser corrigida com mais investimentos e mais democracia.

 

Para ir mais longe

Confira a colocação dos 41 países avaliados pela Unesco nas três áreas de conhecimento no site do UOL.
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Veja como foi a repercussão da avaliação do Brasil no Pisa em 2001.
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Mesmo nas avaliações feitas aqui no Brasil, o país já apresentava um quadro preocupante. Leia sobre o resultado do Saeb 2003, que foi divulgado em abril deste ano.
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