Afinal, quantos analfabetos existem no Brasil
 

Números divulgados pelo IBGE sobre o analfabetismo no país geram polêmica entre ex-ministro e atual governo. Depois de trocas de acusações, a questão continua sem resposta: qual é o verdadeiro número de pessoas que não sabem ler no Brasil?

No último dia 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - lançou os dados do Volume Educação do Censo Demográfico 2000, que revelaram que quase 84% da população com idade de 5 anos ou mais é alfabetizada. Os 16% restantes equivalem, no Censo, a cerca de 24 milhões de pessoas não-alfabetizadas.

Logo no dia seguinte à publicação desses dados, instaurou-se uma polêmica em torno deles: o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza fez a acusação de que o IBGE estaria sendo usado de maneira ideológica: “Como o IBGE pode alardear que crianças de 5 anos são analfabetas?”.

Se for levada em conta apenas a população de maiores de 10 anos, o cálculo do número de analfabetos diminui em 5,3 milhões de pessoas. Em pesquisas internacionais, o universo mais comumente considerado é o de adultos (15 anos ou mais) - o que reduziria os números do Censo para 15,5 milhões de analfabetos ou 12,9% da população.

No início do ano, o ex-ministro já havia criticado o MEC por utilizar, em seu programa oficial de combate ao analfabetismo, o número de 20 milhões de analfabetos com mais de 15 anos, o que não consta nas pesquisas do IBGE.

Após as declarações de Paulo Renato, o IBGE apresentou uma nota técnica explicando que “o instituto divulga, nas publicações do Censo, dados sobre alfabetização relativos a pessoas com 5 anos de idade ou mais”, mas que a taxa de analfabetismo “se refere a indivíduos de 10 anos ou mais”.

Curso superior

Polêmica à parte, o Censo 2000 mostra que o país apresentou uma melhora na educação, mas ainda tem muito a resolver. Entre as pessoas de 25 anos ou mais (85,4 milhões), 5,8 milhões concluíram um curso superior, ou seja, apenas 6,8% dessa população. Em relação a 1991, o crescimento foi de 17,8%, uma vez que, da população de indivíduos com 25 anos ou mais (67,2 milhões), 3,8 milhões (5,8%) eram graduados ou pós-graduados.

No cruzamento entre a escolaridade e a etnia da população, os dados mostram que os amarelos (26,9%) representam o maior percentual de pessoas que possuem nível superior completo; e os pardos (2,4%), indígenas (2,2%) e negros (2,1%) apresentam taxas cinco vezes menores que a dos brancos (9,9%).

Ainda com relação a pessoas com 25 anos de idade ou mais e levando-se em conta o sexo, verifica-se que há mais mulheres (3,1 milhões) do que homens (2,6 milhões) com Ensino Superior completo, diferença que representa mais de 500 mil pessoas. A respeito do grau de escolaridade, observa-se que existem mais mulheres graduadas (55%) do que homens (45%). Estes, por sua vez, são em maior número na conclusão de uma pós-graduação (57% contra 43%).

 


[ notícia comentada ]
Por Rossana Cardoso

Em 02/12/2003, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - divulgou os dados do Censo 2000 sobre a educação no Brasil. A polêmica estava lançada. O IBGE recebeu várias críticas pelos critérios que usou para computar os dados; o Instituto Nacional de Pesquisas em Educação - Inep -, por ter fornecido ao IBGE esses critérios; os governos atual e passado, pela forma como conduziram suas ações na área educacional. E assim por diante...

Para dar mais “pano para manga”, com base nesses dados, o Ministério da Educação lançou o ranking de exclusão escolar, no qual o estado de São Paulo foi considerado o líder em número de crianças de até 14 anos que não estão na escola. E essa discussão tomou diversos rumos.

Um dos pontos que gerou mais controvérsias foi o percentual de analfabetos no país. Numa análise ligeira dos dados, poderíamos dizer que, apesar dos esforços do governo federal, nesta gestão e na gestão passada, o número de analfabetos no Brasil cresceu, pois estimava-se que essa população estivesse em torno de 18 milhões, e o Censo apresentou o valor absoluto de 24 milhões de pessoas. Podemos simplesmente contestar o programa “Brasil Alfabetizado”, do governo Lula, que aparentemente não cumpriu as metas para o ano de 2003, ou perceber que, na pesquisa divulgada, foram considerados analfabetos os indivíduos maiores de 5 anos que não sabem ler - isso fez com que um de meus colegas de trabalho até comentasse: “Hoje, meu filho de 6 anos é um analfabeto”.

Podemos nos perguntar: Quem tem razão? Quem está errado?

Não existe resposta definitiva para essas questões, já que os dados numéricos não são representativos em si mesmos, pois dependem de um contexto mais amplo. E, por essa razão, por algum tempo continuaremos a ouvir opiniões diversas sobre o assunto, até que a mídia encontre outro foco de especulação. O que importa é percebermos que quem está no fogo cruzado são os alunos e os professores - atores principais desse ato.

Erradicar o analfabetismo deve ser uma meta a se conquistar, e todos os esforços possíveis têm de ser orientados nessa direção. Mas precisamos ter consciência de que esse não é um problema fácil de resolver, pois existem várias barreiras a serem transpostas. Muitas vezes, as pessoas que não tiveram oportunidade de estudar durante a infância e adolescência não se sentem seguras em participar de um programa de alfabetização. Os alfabetizadores costumam ser voluntários, dependendo do envolvimento da sociedade. A dificuldade de acesso aos programas existentes é mais um empecilho. E também temos de admitir que pouco se conhece sobre os processos de aprendizagem dos adultos.

O IBGE, o Inep, o MEC e os governos estaduais e municipais podem fazer suas contas e usar os números como desejarem, mas não devem se esquecer de que, por trás deles, estão pessoas: adultos que querem crescer e crianças que serão nosso futuro.

Luca Rishbieter

O Censo parece confirmar uma tendência de ampliação quantitativa da rede educacional em todos os níveis. Mas, assim como os juros “caem” devagar demais, a expansão de nossa educação ainda é lenta diante das necessidades do país. O número de analfabetos continua alto, bem como é baixa a percentagem de estudantes do Ensino Superior. Não estamos parados, mas precisaríamos avançar muito mais rápido...

Por definição, um censo apresenta dados quantitativos e não pode mostrar nada sobre o sem-fim de problemas que surgem quando começamos a discutir questões como a qualidade de ensino em todos os níveis e que deixam clara a necessidade não apenas de ampliar a rede, mas de melhorar muito a forma de atuação de boa parte das instituições e iniciativas educativas já implantadas.

 

 

Para ir mais longe

Conheça mais números sobre a educação brasileira que constam no Censo 2000.
http://www.educacional.com.br/noticias/noticias_texto.asp?id=16357

Leia as declarações do ex-ministro Paulo Renato Souza sobre os números do Censo 2000 da educação divulgado pelo IBGE.
http://www.educacional.com.br/noticias/noticias_texto.asp?id=16366

 

 

 
 
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