Depois da sars, é a vez da gripe do frango
20/02/04
por Diogo Dreyer

 
A Ásia sofre com seguidas epidemias de doenças mortais. Depois de conter o surto de pneumonia asiática, agora o continente tem de se preocupar com uma gripe transmitida ao ser humano pelos frangos, cuja exportação tem grande peso na balança comercial daqueles países. Por isso, todo cuidado é pouco para acabar com esse novo vírus, que está derrubando índices estatísticos de algumas economias locais.

Pelo menos 20 milhões de aves já foram exterminadas na Ásia, e o exército dos países afetados está de máscara, pistolas de vacina e esguicho na mão para derrotar um inimigo comum: o vírus da influenza aviária, popularmente conhecida como gripe do frango. Ele já se espalhou por dez países asiáticos: Japão, China, Coréia do Sul, Camboja, Indonésia, Laos, Paquistão, Tailândia, Taiwan e Vietnã. Por enquanto, foi comprovada a transmissão da gripe do frango a humanos somente no Vietnã e na Tailândia, países onde o vírus causou a morte de quase 20 pessoas.


Pelo menos 20 milhões de aves já foram exterminadas na Ásia, região onde a exportação de frango e derivados é muito importante para a economia.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) advertiu que a gripe do frango poderá matar milhões de pessoas se esse vírus, que avança pela Ásia, combinar-se com uma forma de gripe humana que também se desloca, atualmente, para o continente. No Vietnã, já existe um caso em que se suspeita que o vírus tenha sido transmitido de uma pessoa para outra, e não por meio das aves, como é o contágio tradicional.

Barreiras

Frangos, patos, papagaios e até águias: nada pode transpor as barreiras sanitárias que os países montaram para conter a doença. O Japão fechou as fronteiras e não deixa nenhuma ave exótica passar. A Austrália colocou cães farejadores nos aeroportos e controla a carga de embarcações. Cingapura redobrou os cuidados está verificando qualquer gaiola e proibindo a importação de aves.

Mesmo assim, o vírus já chegou até o continente americano, tendo sido também registrados casos da doença em frangos nos EUA. Na Tailândia, centenas de cegonhas foram encontradas mortas contaminadas pela gripe, que mostra que a enfermidade não se restringe apenas ao frango. O governo do país disse que não vai destruir as aves restantes dessas áreas para conter o problema. No Japão, o vírus da gripe também foi encontrado em aves domésticas.

Brasil

No caso brasileiro, pelo menos na economia, a gripe do frango tem ajudado. A Associação Paulista de Avicultura (APA) estima um crescimento de 10% nas exportações brasileiras de frango e derivados este ano. Em 2003, nosso país já assumiu a liderança entre os exportadores desses produtos (em volume financeiro), ultrapassando os EUA. Em quantidade exportada, ainda é o segundo.
Além de ocupar o espaço deixado pelos asiáticos, os produtores brasileiros acreditam no aumento do consumo de frango também por causa do aparecimento de casos do mal da vaca louca no rebanho bovino norte-americano.

 


[ notícia comentada ]

Por Roger Raupp e Alexandre Loureiro, especialistas em biologia do portal.

A tão comentada gripe do frango, que há três meses tem preocupado não só o continente asiático como todo o mundo, tem como causador o vírus Haemophilus influenza, que é o mesmo da gripe humana comum. A diferença entre as duas formas de manifestação está no tipo de vírus e no animal afetado. O vírus influenza apresenta os tipos A, B e C. Os dois últimos são parasitas infectantes exclusivamente de humanos, e o tipo A, além de humanos, afeta vários outras espécies animais. O vírus caracteriza-se pela transmissão aérea, em gotículas de expectoração. Após o contágio, se manifesta por meio de febre, dificuldade respiratória, mal-estar e dores musculares e ósseas.

O tipo A apresenta inúmeras linhagens. O atual surto de gripe do frango é causado pela H5N1. A gripe aviária foi primeiramente identificada na Itália no início do século XX. No entanto, a espécie causadora da atual epidemia foi identificada e isolada somente no ano de 1997 em Hong Kong. Além do tipo H5N1, também já são conhecidas outras cepas causadoras da doença em aves, como a H9N2, que provocou, no início de 2003, um surto nos Países Baixos, e a H7N7, responsável pela doença em 1999 e fevereiro de 2003 também em Hong Kong. Essas linhagens são comuns entre aves migratórias e acredita-se que elas sejam as principais disseminadoras da doença, o que dificulta também um controle efetivo sobre o vírus. O influenza aviário é facilmente transmitido de ave a ave, pois é eliminado pelas fezes de animais infectados, além de via oral. A transmissão ao homem é principalmente do tipo ocupacional, e a maioria dos casos de contaminação e mortes ocorridos até o momento na Ásia é de pessoas que mantinham contato direto com os animais doentes. O contágio entre humanos ainda não é comprovado. Profissionais de saúde que mantiveram contato com pessoas contaminadas não apresentaram nenhum sinal de infecção.

No homem, a gripe se manifesta como a gripe humana comum e evolui para uma doença respiratória aguda, podendo levar à morte. Já nas aves os sintomas são perda de peso por falta de apetite; interrupção do crescimento, o que provoca um grande prejuízo econômico; sonolência; respiração ruidosa, realizada com dificuldade e com a boca ao invés de com as narinas; e perda de penas.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) agora possui uma nova preocupação. Além de tentar erradicar a doença nos países que apresentam o problema, está prestes a se deparar com o encontro do vírus de linhagem H5N1 com o de H3N2, responsável pela gripe humana comum. O contato poderia provocar uma mutação de alta patogenicidade em alguns indivíduos virais. Isso poderia ter um resultado ainda mais devastador do que o observado no continente asiático, transformando uma epidemia numa pandemia — como ocorreu no encontro do agente da gripe espanhola com o da gripe de Hong Kong, o que causou a morte de cerca de 49 mil pessoas em 1968. Esse temido supervírus, segundo cientistas da OMS, reuniria características como a capacidade de provocar a doença do H5N1 e o grande potencial infeccioso do H3N2.

Para afastar essa iminente pandemia, a OMS publicou algumas medidas preventivas, que podem minimizar os riscos à saúde pública em todo o mundo. Entre essas medidas, estão:

- Prioridade na interrupção do desenvolvimento do vírus entre as aves domésticas, o que requer, infelizmente, o sacrifício de todas as que tiverem possibilidade de contaminação;

- Vacinação das pessoas que apresentam alto risco de exposição ao vírus com vacinas contra a influenza humana existentes;

- Fornecimento de equipamento e roupas adequados, assim como tratamento preventivo com antivirais aos trabalhadores que lidam diretamente com aves;

- Isolamento imediato das áreas afetadas, com rápida avaliação dos animais e dos vírus em circulação para que as medidas preventivas sejam adequadas a cada tipo de vírus da influenza;

- Alerta das vigilâncias sanitárias e epidemiológicas de todos os países para qualquer caso suspeito e inspeção e controle de algumas amostras de sangue das aves migratórias que visitam a região anualmente.

 
 

Para ir mais longe

Confira o “mapa da gripe do frango” na Folha Online acessando este endereço:
Clique aqui para ver o site

O site da OMS traz notícias atualizadas sobre a gripe do frango e o que está sendo feito para contê-la. (Em inglês)
Clique aqui para ver o site

No tira-dúvidas do site da BBC, você fica sabendo mais detalhes sobre a doença.
Clique aqui para ver o site

 

 
 
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