Haiti: um país sem governo
02/03/04
Por Diogo Dreyer, com agências internacionais

 
Depois de anos de instabilidade, o país mais pobre das Américas sofre com rebeliões e com a renúncia de seu presidente. A ONU aprovou o envio de uma força militar internacional para lá, e rebeldes já estão na capital do país. Qual será o futuro do Haiti?

A América Latina parece longe da estabilidade política e social. Depois de violentas manifestações sociais que tumultuaram a vida política da Colômbia, Venezuela e Bolívia, agora o Haiti se encontra sob uma grave crise que culminou com a renúncia do presidente Jean Bertrand Aristide e deixou o país à beira do caos.

No último dia 27 de fevereiro, após uma reunião da qual participaram membros do governo haitiano e diplomatas estrangeiros, Aristide renunciou. Na madrugada do dia 29, ele abandonou o país com destino à República Dominicana. Com sua renúncia, o cargo foi assumido pelo presidente do Supremo Tribunal, Boniface Alexandre, que aguarda a designação de um novo primeiro-ministro, o qual deve governar o Haiti até que novas eleições sejam realizadas.

Até a semana passada, tanto Aristide como a oposição ao seu governo previam um cenário caótico para o país, com um provável banho de sangue na capital Porto Príncipe, já que Aristide declarara que estava disposto a resistir no palácio presidencial, e a oposição se empenhava em não aceitar uma solução diferente da renúncia. Aristide, primeiro presidente eleito democraticamente no Haiti em 200 anos, jurava que completaria seu segundo mandato, que terminaria só em 2006.

Na última segunda-feira, 1.º de março, Aristide chegou à República Centro-Africana. Ele estaria tentando obter asilo político na África do Sul, cujo governo o apoiava e afirmava que a sua derrubada seria uma ameaça à democracia.

Entendendo a crise

A atual crise haitiana teve início em dezembro de 2002, com as primeiras greves gerais e enfrentamentos entre opositores e partidários do presidente. A situação se agravou em setembro de 2003 com o assassinato de Amiot Metayer, chefe do grupo Exército Canibal, o que desencadeou violentos protestos.

A oposição política temia que Aristide pudesse fraudar as eleições marcadas para 2004 e continuar no poder por um terceiro mandato. Resolveu, então, boicotar o Congresso e se recusou a cooperar com qualquer iniciativa do governo, protestando contra a piora da situação econômica do país e a falta de diálogo político. Também se recusou a participar das eleições caso Aristide não renunciasse.
Os protestos foram ficando mais violentos nos últimos meses, até que, na cidade de Gonaives, iniciou-se uma rebelião patrocinada por ex-soldados do exército e de parte da população contra o governo Aristide. A rebelião eclodiu no último dia 5 de fevereiro, espalhando-se rapidamente pelo norte do país, causando mais de 80 mortes.

No último dia 21 de fevereiro, Aristide aceitou um plano apresentado pela comunidade internacional, que previa uma ampla limitação de seus poderes até o fim de seu mandato, em fevereiro de 2006, e a realização de eleições. O plano também previa a criação de um grupo de três pessoas indicadas por Aristide, a oposição e a comunidade internacional, encarregadas de designar um conselho representativo da diversidade da sociedade haitiana. Esse organismo participaria da nomeação de um novo primeiro-ministro — neutro e independente — e de um novo governo.

A oposição rejeitou o plano e continuou pedindo a saída imediata de Aristide. Mas, apesar de sua renúncia, algumas cidades ainda estão dominadas por simpatizantes armados do ex-governo, que não dão sinais de que pretendem abandonar as armas. Do outro lado, líderes rebeldes dizem que os grupos não vão se desarmar até que um novo governo seja estabelecido.

Com uma população de 7,5 milhões de pessoas, o Haiti é o país mais pobre das Américas. Lá, a expectativa de vida é de apenas 51 anos, enquanto a taxa de desemprego está em cerca de 70%.

Ajuda internacional

O Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade uma autorização para o envio de uma força militar internacional. A resolução discutida no conselho prevê a permanência das forças no Haiti por três meses.

Com isso, parte de um contingente de pelo menos cem fuzileiros navais americanos já desembarcou no Haiti. Outros 50 soldados franceses também chegaram à capital, Porto Príncipe. A França deve enviar outros 150 militares nos próximos dias. O Canadá também se dispôs a mandar soldados para compor a força internacional. O Brasil apoiou a resolução da ONU e, agora, estuda uma forma de ajudar.


[ notícia comentada ]

Por Ederson Prestes e Julio Cezar Winkler.


Em 1492, com a chegada de Cristóvão Colombo à ilha onde hoje se encontra a República Dominicana e a República do Haiti, teve início uma história de dominação estrangeira e luta que ainda hoje é possível observar.

O Haiti, parte ocidental da ilha, é um marco na história latino-americana, pois foi o primeiro país a obter, por meio de uma revolução de escravos negros e mulatos, a independência da metrópole européia, no caso a França.

Ao longo do século XVIII, transformou-se na mais rentável colônia francesa na América com uma gigantesca produção açucareira. Mas, com as modificações políticas que ocorriam na França revolucionária (1789-1799) e a desorganização da metrópole, os ideais de liberdade se propagaram na colônia, desencadeando um levante escravo que culminou, após 12 anos de lutas, na independência haitiana no dia 28 de novembro de 1803.

Após a independência e ao longo de todo o século XIX, o Haiti aumentou a exploração de suas riquezas, mas esse processo lhe custou um grande endividamento externo, especialmente com capitais norte-americanos. Essa dependência cresceu até o momento em que os EUA, sob a justificativa do não-cumprimento dos contratos, invadiram o Haiti em 1915 e o transformaram em uma colônia até o ano de 1934. Era o Big Stick funcionando a todo vapor na América Latina.

Depois de 1934, a influência norte-americana continuava forte, apesar da saída militar do país. Até que, após sucessivos golpes militares, em 1957 François Duvalier, o Papa-Doc, assumiu a presidência sob o apadrinhamento dos EUA e implantou um regime de terror que durou até sua morte, em 1971. O terrorismo político continuou sob o comando de Jean Claude Duvalier, o Baby-Doc, filho de François Duvalier.

Já na década de 1980, com a crise econômica e o empobrecimento da população, o regime de terror perdeu força, até que, em 1985, Baby-Doc fugiu num avião da Força Aérea Norte-Americana para um exílio na França. Entre 1985 e 1990, o Haiti procurou estabilizar sua situação política, mas uma sucessão de golpes militares impediu qualquer organização.

Em 1990, Jean Bertrand Aristide foi eleito para governar o país, assumindo o posto em fevereiro de 1991. Sacerdote defensor da Teologia da Libertação, Aristide estabeleceu como eixos de seu governo o combate à corrupção e ao narcotráfico e a luta contra a pobreza. Mas, em poucos meses, seu governo sofreu um golpe, liderado pelo general Cedras. Aristide só conseguiu retornar ao poder em 1993, após longas negociações com o ditador, a Organização dos Estados Americanos — OEA — e a Organização das Nações Unidas — ONU. Os EUA lideraram um embargo comercial ao Haiti que acabou por desestruturar a economia do país, favorecendo o clima para golpes militares e a permanência de regimes de terror como aquele conhecido no período da família Duvalier (Papa-Doc e Baby-Doc).

Jean Bertrand Aristide foi novamente eleito pela população haitiana em 2001 para um mandato de cinco anos, até 2006; mas, agora, sem o apoio da comunidade internacional, sofreu enorme pressão para renunciar. O Haiti dos golpes militares se vê novamente sob a iminência de um governo de rebeldes armados, sem projeto para o país e respeito às leis vigentes e que ainda acredita que a força das armas é o melhor caminho. Definitivamente, os valores democráticos ainda estão longe da sociedade haitiana.

 
 

Para ir mais longe

Perguntas e respostas sobre a crise no Haiti no site da BBC:
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Mais informações sobre o país na Enciclopédia do portal:
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